“Num relance, compreendi que se tramava a Companhia das Esmeraldas da Birmânia, medonha empresa em que cintilavam milhões, e para que os dois confederados da bolsa e da alcova, desde o começo do ano, pediam o nome, a influência, o dinheiro de Jacinto. Ele resistira, no enfado dos negócios, desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da Ásia. E agora o conde de Trèves assegurava ao meu pobre Príncipe que no Prospecto já preparado, demonstrando a grandeza do negócio, perpassava um fulgor das Mil e Uma Noites. Mas sobretudo aquela escavação de esmeraldas convidava o espírito culto pela sua acção civilizadora. Era uma corrente de ideias ocidentais, invadindo, educando a Birmânia. Ele aceitara a direcção por patriotismo…
— De resto é um negócio de jóias, de arte, de progresso, que deve ser feito, num mundo superior, entre amigos…
E do outro lado o terrível Efraim, passando a mão curta e gorda sobre a bela barba, mais frisada e negra que a de um Rei Assírio, afiançava o triunfo da empresa pelas grossas forças que nela entravam, os Nagayers, os Bolsans, os Saccart…
Jacinto franzia o nariz, enervado:
— Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que há esmeraldas?
Tanta ingenuidade exasperou Efraim:
— Esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!… Há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!
E eu admirava a grandeza daquela máxima…”
Eça de Queiroz, A cidade e as serras.

“O Estado não é accionista do Novo Banco.”
… disse Milú, numa cena patética, talvez reprise do Costa do Castelo.
O Novo Banco não tem accionistas, não tem dono, é tudo água Benta, e talvez passe a merecer a designação de Banco Espírita, saído por obra e acções de graça do Espírito Santo.
Costa, simplício envaidecido pelos elogios do BCE (que carregou sobre Portugal, para evitar contágios à zona Euro), contava o seu pesadelo do fio da navalha que o acordou do sonho das almofadas financeiras do BES.
A visão precog que descansara o regulador passou a precag de medo das navalhas.
Será que Costa regula bem?
Depois do sonho das almofadas, que inspira imensa confiança futura nas suas palavras, passámos ao filme B do banco bom e do banco mau. Mau não é ele, assim o garante o BCE, São Bento, e as acções de graça do espírito santo.
A tragicomédia está em cena com Milú e Costa, com muitos figurantes a aplaudir, e com uma factura sem graça.
«Transformou rios em deserto,/e fontes de água em terra árida./Converteu o solo fértil em salinas,/por causa da malícia de seus habitantes./Mudou o deserto em lençois de água,/e a terra árida em abundantes fontes./Aí fez habitar os esfaimados,/que fundaram uma CIDADE para morar./E semearam os campos e plantaram vinhas,/colhendo deles abundantes frutos.»
Sl 106 (Heb. 107) 33-37