Luís de Camões tem o nome numa das principais praças de Lisboa, correspondente ao seu prestígio nas letras portuguesas. Outros escritores estão igualmente bem representados na toponíma alfacinha: Garrett, no coração do Chiado; Alexandre Herculano, numa das principais ruas que atravessam a Avenida da Liberdade; Camilo Castelo Branco, nas placas de uma transversal da Duque de Loulé; Ramalho Ortigão, na principal via de circulação do Bairro Azul, nas imediações da Praça de Espanha; Guerra Junqueiro, que até tem direito a avenida entre a Alameda D. Afonso Henriques e a Praça de Londres.
Vários outros escritores dão nome a ruas no pacato bairro de Alvalade: Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, António Nobre, António Patrício, Afonso Lopes Vieira. Oliveira Martins surge nas placas toponímicas de uma rua paralela à Avenida de Roma, perto do Campo Pequeno. E Cesário Verde dá nome a um jardim, o que é um claro indicador de bom gosto.
Quase todos têm obra ao nível da homenagem que as sucessivas autoridades municipais de Lisboa decidiram atribuir-lhes, embora Pessoa e Oliveira Martins merecessem maior visibilidade. Sobretudo o primeiro, que tanto e tão bem cantou a capital na sua incomparável obra poética.
Mas quem recebe o tratamento mais injusto, e totalmente incompreensível, é Eça de Queirós. Apenas imortalizado numa rua secundária quase escondida, de escassas centenas de metros, algures entre o Marquês de Pombal e as Picoas. Tenho a certeza de que a esmagadora maioria dos lisboetas não faz a menor ideia onde esta rua se situa.
Eça foi o grande romancista da Lisboa oitocentista, que é afinal — em grande parte — ainda a Lisboa dos nossos dias. Merece um tratamento mais condigno por parte dos responsáveis pela toponímia da maior cidade do País. Se o transmontano Guerra Junqueiro — um poeta menor — tem nome numa avenida em zona nobre, Eça merece no mínimo tratamento idêntico.
Para quando uma avenida Eça de Queirós na capital?

Foi Eça que me levou a “passear” pela Baixa e pelo Chiado em tempos mesmo antes de ter nascido e quando pela primeira vez visitei estes locais fisicamente poderia bem ter dito que era a primeira vez que estava ali pela segunda vez.
Já percorri toda a Lisboa queirosiana, guiado precisamente pelos livros de Eça. Que também nesta matéria são serviço público. É pena que Lisboa, ingrata, não saiba retribuir-lhe como ele merece.
Bravo Pedro!
Já há muito tempo que havia pensado nisso. Provavelmente pretenderam dar o mesmo tratamento a Eça que deram ao Camilo que dá o nome a uma rua quase paralela e que tu muito bem referenciaste.
Porém na Praça Barão de Quintela, ao Chiado, há uma estátua do Eça da autoria do Mestre António Teixeira Lopes. Já que não querem dar um nome de rua ou avenida importante podiam substituir o nome desta praça pelo de Eça de Queiroz, mais que não fosse em nome da obra “Tragédia da rua das flores”, rua que “por acaso” passa encostada àquela praça.
Camilo também está mal representado na toponímia lisboeta. Ele que, por sinal, era natural de Lisboa.
Mas Eça está pior. Ele, que nasceu na Póvoa de Varzim, foi um dos maiores embaixadores de sempre da capital. É uma vergonha para Lisboa que não figura como nome de praça ou avenida.
A tua sugestão parece-me excelente. A propósito: quem terá sido o tal Barão de Quintela, imortalizado naquele espaço nobre da cidade?
O Barão de Quintela foi assim uma espécie de Alexandre Soares dos Santos, no ínicio do século XIX.
A câmara podia fazer uma troca. Baptizava a actual rua Eça de Queirós com o nome do Barão e ficava o Largo de Barão de Quintela a chamar-se Eça de Queirós. Com direito a estátua alusiva: como bem lembras, ela já lá está.
Concordo inteiramente.Também não entendo a ideia de apenas colocar o nome de Gago Coutinho na avenida que liga o Areeiro à Rotunda do “Relógio”, dado que acho ser o seu ilustre nome indissociável do de Sacadura Cabral, remetido este para uma aprazível mas quase obscura avenida/rua, entre o Campo Pequeno e a Av. de Roma.
E a propósito de Rotunda do “Relógio”, teria sido melhor deixar lá o antigo, rodeado de relva, do que aquele relógio de pulso gigante…
Por último, sugestões para um nome de vulto nacional a atribuir ao aeroporto de Lisboa ? ( Barajas passou a ser Adolfo Suárez )
Grande abraço.
Aeroporto Mário Lino, por supuesto…
Tenho pensado nisso muitas vezes, Fernando. É uma enorme injustiça esta disparidade de critério em relação aos dois heróis da primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Gago Coutinho, como merece, dando nome a uma das principais avenidas da cidade – a principal entre as que conduzem à Rotunda do Relógio, isto é, ao aeroporto, o que é muito adequado. Sacadura Cabral, por seu lado, também é nome de avenida. Mas esta “avenida” deve escrever-se com aspas: é uma rua vulgar, curta e sombria, que liga o Campo Pequeno à Avenida de Roma.
O nome dele devia figurar noutra das avenidas que conduzem ao aeroporto, em paralelo à Gago Coutinho. A actual Marechal Gomes da Costa, por exemplo. Ou a própria Rotunda do Relógio, que faz pouco sentido continuar a chamar-se assim desde que fizeram desaparecer o grande relógio antes existente no espaço relvado.
Meu caro, eu alterava o nome para Avenida de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Quanto a aeroporto Mário Lino, como alguém referiu, jámé !!
Sacadura Cabral teria vindo a calhar na Av. de Berlim, que quando foi feita ligava dois aeroportos: o da Portela ao de Cabo Ruivo (hidroaviões). Quiseram baptizá-la «de Berlim» em honra dalguma bola com creme, paciência! Pior, porém, é andarem a alterar-se topónimos como se nada fosse. É desonesto, típico de medíocres sem pejo de galgar sobre os outros para apagar a memória e reescrever a História; que tinham Ressano Garcia, a Rainha D.ª Amélia, Sinel de Cordes, o Marechal Carmona ou Salazar, por exemplo, para os encobrirem com a República, o falhado almirante Reis (e que tem uma rua em cada terra deste país), o Redol, o Norton de Matos ou o 25 de Abril?!
Um péssimo hábito bem jacobino. E os liberalóides que somam marcas comerciais a tudo quanto é nome consagrado ainda pior. Imagino por quanto vendem a mãe.
Se Eça tem uma rua e é pouco dêem-lhe um jardim, uma praça, façam-lhe outra estátua, mas não no derramem sobre ninguém, que só ofenderia a sua memória.
Cumpts.
Quanto a estátua, Eça está sem dúvida bem representado. O monumento que lhe é dedicado, no Largo do Barão de Quintela, é uma das mais belas estátuas de Lisboa (esculpida por Teixeira Lopes, salvo erro). Mas é inaceitável não ter mais do que o nome naquela modestíssima rua. O mesmo se aplica a Fernando Pessoa (que também está bem representado enquanto estátua, salvo erro de Lagoa Henriques).
Fica a sugestão à comissão municipal de toponímia, tão apostada em baptizar praças e avenidas com nomes de gente “modernaça” que nada fez de relevante pela capital, enquanto esquece aqueles dois escritores que projectaram o nome da cidade à escala universal – pois Lisboa é indissociável da obra que nos legaram.
Essa é que é essa, Pedro !
Toda a minha antiguidade se revolta com tal desconhecimento!!
Conhecia-lhe a estátua ( escultura?) no Jardim do Largo do Quintela á rua do Alecrim, e apesar de o achar primorosamente situado, sempre lhe achei em falta a parte de baixo…
Nem fazia ideia que tinha uma rua com o seu nome na capital… Merecia um parque temático, daqueles que não têm o nome em inglês e onde banhos de água gelada significam endurance e não apostas loucas da silly season. Boa semana a todos :):):)
Lisboa trata mal alguns dos seus maiores, Dulce. Pessoa tem direito a uma ruazinha modesta, interior. Eça também. Enquanto políticos irrelevantes e medíocres do século XIX têm direito a avenidas.
Eça é mesmo boa, meu caro.
Eça agora, meu caro.