Daniel Oliveira, sempre preocupado com a eficácia dos modelos de negócio capitalistas, denuncia uma função do novo browser da Apple que detecta e apaga os anúncios nas páginas de internet. Afirma ele que essa funcionalidade é uma tragédia. E explica-nos porquê: em resumo, porque a sobrevivência do jornalismo de qualidade, assolado pela crise dos media tradicionais, exige dinheiro. E esse dinheiro, enquanto o vulto amável do Dr. Louçã não ornamentar as tertúlias semanais do Conselho de Ministros, depende — vejam só — do mercado publicitário. Ou seja, sem mercado não há batatinhas. Acabam-se os jornais de referência e restarão apenas o 24 horas, o Metro e o Destak.
Só lhe faltava agradecer ao eng. Belmiro a generosidade extremosa com que suportou, durante duas décadas, os prejuízos de um jornal de referência nessa associação de almas beneméritas que é o grupo Sonae, mas o Daniel não vai por aí. Em vez disso, ele intima-nos a escolher:
Está na altura dos leitores dizerem que preferem a publicidade nos seus computadores ao fim do jornalismo. (…) Sem imprensa profissional e livre – e para ser livre tem de ser sustentável – não há democracia.
Ó gente ignara, ouvi o Daniel e comprai os jornais do grupo Lena, do Joaquim Oliveira e do Balsemão. Ou, pelo menos, não desdenheis os banners do SAPO, os anúncios da PT. Mortificai-vos, porque sem publicidade não há democracia.
Ou haverá?
Nos Estados Unidos, país em que, desgraçadamente, nenhuma organização trotskista protege as grandes empresas de media tradicionais, foi criado nos idos de 1999 um produto chamado TIVO, que devolveu anos de vida a milhões de lares. O TIVO permite às famílias verem televisão sem se maçarem com anúncios.
Apesar dos protestos das corporações e dos media tradicionais, esses estandartes da democracia, um velho canal de TV por cabo conseguiu prosperar: a HBO. Com séries de grande qualidade (Os Sopranos, O Sexo e a Cidade, Six Feet Under) e orçamento a condizer, a HBO demonstrou urbi et orbi que, embora o dinheiro nos faça falta, a publicidade é dispensável.
Em síntese — os media não precisam de anúncios, precisam de criatividade.
E quanto à esquerda portuguesa, que podemos concluir? Que quer a revolução, mas é incapaz de aceitar uma mudança.


Pões o dedo na ferida. Mas tenta ver a coisa pelo prisma do Daniel: sem anúncios, quando chegar a hora da ‘revolução’, quem e como irá anunciá-la?…
Já tenho o sindicato de jornalistas à perna, João. Ainda tenho que explicar-lhes o que aconteceu, nos últimos anos, à publicidade.
Que ridículo. Os media nas mãos de privados na Venezuela, por exemplo, contribuíram fortemente para um golpe de estado fantoche.
Separar “Daniel Oliveira” e “Esquerda” é uma questão de higiene. Ele quer é mama, que por acaso um grupelho da burguesia lhe dá.
Muito bem.
Acho que consigo a proeza de discordar de ambos 🙂 Começando pelo dramatismo do Daniel Oliveira: “Sem imprensa profissional e livre – e para ser livre tem de ser sustentável – não há democracia”. É que a imprensa de referência em Portugal não é sustentável por si só. Daí que também não seja totalmente livre, mas isso levar-nos-ia a uma discussão demasiado alongada. Que teria forçosamente de incluir a questão: depender de publicidade é ser-se livre? Se a BP patrocinar o meu jornal e eu tiver um ‘furo’ sobre uma prática negativa da empresa, será que a consigo noticiar?
Adiante. A publicidade ajuda, e muito. E é aqui que discordamos. Porque comparar o nosso mercado com o mercado americano é absurdamente ingrato, dadas as dimensões de um e de outro. E já agora a diferença de cultura: aqui quer-se tudo grátis e ainda por cima com qualidade…Para exigir estamos sempre cá nós, do alto da nossa culpa.
Sou algo céptica em relação aos anúncios do Apocalipse sempre que surge uma novidade. Os jornais já foram sentenciados de morte demasiadas vezes, mas lá conseguiram sobreviver à rádio, depois à televisão e por enquanto cá vão sobrevivendo ao online.
Pelo que percebi, a ferramenta da Apple não apaga anúncios impressos num jornal, nem os arranca da rádio ou da TV (a grande absorvedora da publicidade, e onde também existe espaço para jornalismo), por isso parece-me que posso ir dormir descansada, que ainda não é desta que me assassinam o jornalismo de referência 🙂
Sara, concordo com quase tudo o que escreve (mais uma proeza), menos com a ideia de que querer coisas de graça é uma peculiaridade lusitana.
Leia isto, por exemplo:
http://www.amazon.co.uk/Free-Econom ics-Abundance-Changing-Business/dp/19052 11473/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1276857681&sr=1-1
Eu prefiro o fim do jornalismo a anúncios.