(A tragédia que ides ler foi inspirada por esta graciosa homenagem).
Fausto:
O estudo das leis não me consola,
e a física não cura a peste,
a necromancia é a minha escola —
vou chamar Belzebu, invocarei o mestre:
Sint mihi dii Acherontis propitii.
Inferni ardentis monarcha propitiamus
vos, ut appareat et surgat
Mephistophilis!*
Mefisto:
Chamaste-me, lindeza?
Fausto:
És mesmo o diabo? Tens a certeza?
Mefisto:
Não vês o fatinho Gucci, o ar determinado?
Faço jogging de manhã e tenho casa no Chiado.
Fausto:
Estou farto de alfarrábios,
a ciência é uma chachada —
quero casar com o meu amigo,
e boda na Mealhada.
Mefisto:
Entrega-me a tua alma,
vem comigo pró Inferno —
onde a vizinhança é calma
e o socialismo é moderno.
Fausto:
Se me deres o contrato
farei um pacto contigo:
nenhum capricho te nego,
com ânimo estarei cativo.
Mefisto:
O meu comando é amável,
vou ser um pai para ti —
apenas te obrigarei a ler
o intragável Valupi.
Fausto:
Faz com que o Ricardão me ame —
toma lá dois pêlos púbicos.
Mefisto:
E reconhecerás a urgência
dos grandes investimentos públicos?
Fausto:
Quero ser levada ao altar com vestido de organdi!
Mefisto:
E não me dás cabo da cabeça quando comprar a TVI?
Fausto:
Já convidei a Io Apoloni e a duquesa de Guermantes.
Mefisto:
Divulgarei o teu copo d’água no estaminé dos Abrantes.
Fausto:
Então vá, que estou com pressa — hoje há sarau no Trumps.
Mefisto:
Com os leitores serei clemente
porque esta tragédia vai longa:
assina sem mais delonga —
passemos ao finalmente.
Fausto:
Isso, isso, vamos ao Finalmente!
Saem @s du@s.

