Entretanto, em Leiria.


vidabreve,

milagre_das_rosas

 

– Senhora Dona Manuela, onde ides a desoras?

– Hã…hum… Ora, Senhor Dom José, ia apenas passear no horto dos simples. Aqui asfixia-se, nos aposentos reais.

 – Ah, lá estais vós com a asfixia monárquica. Não me agrada que passeis tanto tempo entre os simples. O que levais no regaço?

– Reg… qual reg…

– Aí, nessa dobra dos vossos paramentos. (Desconfiado) Ides outra vez distribuir benefícios aos piquenos e médios mesteres?

– Benef… Cóf, cóf… Ora… Ah Ah Ah! Claro que não, meu bom dom José. Que ideia!

– Não transportais por acaso tenças, liberalidades, perdões?

– (Lívida) Não, não, de modo algum. Sou poupadinha.

– Mostrai-me o que me escondeis…

– Mas, Dom…

– Não resistais. Ainda sou o vosso senhor.

– O meu senhor é o da Galileia…

– Mas esse está lá longe, acoitado em Belém. Vamos, revelai-vos ou ides passear para o pinhal.

– (Implorando aos céus) Ajuda-me, Presidente do Conselho! (Lentamente, deixa cair a aba do saio)

– Ãã… O que é isso?

– Ãã… Não sei.

– Como não sabeis?

– Ãã… Ah, afinal já sei! Isto, meu senhor Dom José, são ex-votos!

– Ex-votos?

– Sim: ex-votos de Lisboa!

– Oh, Santinha. Como pude duvidar da vossa lendária virtude? Vinde a meus braços.

 

Ela revira os olhos para o altíssimo e profere, num sussurro exangue:

– Obrigado, Salazar…

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