Ajudar as empresas.


vidabreve,

Em resumo:

– Nomear como Ministro da Saúde alguém ligado a diversas empresas com interesses nesse sector.

– Anunciar cortes no sector que levarão a uma degradação significativa do Serviço Nacional de Saúde.

– Nomear alguém próximo para estudar os cortes e pensar numa solução que passe pela criação de mecanismos que “sejam incentivadores de geração de receita própria”, de preferência tendo passado por empresas acima de qualquer suspeita, como é o caso do BPN, alguém que se possa invejar de ter um currículo inigualável na área da gestão de serviços de saúde e que possa constituir com sucesso uma comissão liquidatária do sector.

– Entregar o que restar à gestão de privados, transformando um direito humano universal num direito a que só pode aceder quem tem (muito) dinheiro.

Mais palavra ou menos palavra é isto mesmo.

Coisas simples.


vidabreve,

No Delito de Opinião todos escrevem o que querem. Somos infinitamente tolerantes uns com os outros, embora tenhamos já, por duas vezes, discutido o que podiam ser os limites da crítica num blog colectivo. A primeira conversa ocorreu no tempo do Governo de Sócrates, a segunda no de Passos Coelho. A resposta, tal como a entendo, é esta: não há limites.

 

Julgo que o único património deste blog — aquilo que o distingue dos outros blogs — é a liberdade concedida a cada um dos seus membros, venham de onde vierem, para defenderem ou criticarem tudo o que lhes der na gana sem cerimónias. Por isso respondo a esta insinuação do João Magalhães em vernáculo, com a consciência tranquila de uma pessoa de bem: nós não somos como tu, seu filho da puta.

 

Percebeste, ou queres dar a cara para te explicar melhor?

Ah, sim, temos de fazer sacrifícios.


vidabreve,

O Hugo Mendes tem colocado informação preciosa no Jugular. (O que fazia ele no tempo de Sócrates? Assobiava para o lado). Certo é que este post sobre o imposto para ricos que tanto inflamou as almas sensíveis do PSD (e o que faziam elas nos tempos do corte ao subsídio de Natal e do aumento dos transportes públicos? Adivinhem.) coloca a questão onde é preciso — nos antípodas de José Manuel Fernandes. Se alguém próximo do Governo se dignar a responder-lhe talvez vejamos o início de um debate público sério; o que, enfim, já cá vai fazendo alguma falta.

Universidade de Verão.


vidabreve,

O que é preciso é amar Portugal
os velhinhos o novo passe social.
Ouvir os doutores travar amizades
viver um pouco acima das possibilidades.

 

A Marisa já está na banca o Lopes na Distrital
a Kátia exige o fim do Estado Social.
O que é preciso é amar Portugal
ouvir os doutores ser mais liberal.

 

Se eu também for esperto obediente atilado
não muito impaciente nem muito apressado
Hei-de encontrar padrinho hei-de ter um aliado
e mais tarde ou mais cedo, mamã, chegarei a algum lado.

Ricos.


vidabreve,

Há algo de perturbador nestas manifestações de ricos que entre Nova Iorque e Paris se mobilizam para que lhes aumentem os impostos. É preciso que uma democracia ultrapasse todos os limites da submissão abjecta aos interesses de uma elite para que esta acorde repentinamente de um torpor de três décadas e nos comunique que nos esquecemos de a taxar.

 

Não competia a Warren Buffet ou à herdeira da L’Oreal propalar a generosidade de quem sofre com as dores do mundo e deseja, sacrificando-se, mitigá-las. Pelo contrário: nós, a opinião pública e o poder político deviamos tornar esta espécie de grandes gestos ridículos e desnecessários. Num país decente, com uma justiça fiscal rudimentar, os multimilionários deviam queixar-se dos seus impostos como se queixa um cidadão normal. Mas para isso era conveniente que os pagassem.

 

A Europa e a América encheram-se de vassalos desta casta que agora quer ajudar-nos. Que a criadagem das nossas plutocracias preencha os parlamentos e as administrações das empresas públicas distribuindo entre si as sobras das grandes fortunas com mesuras e salamaleques é o mais trágico testemunho do grande equívoco liberal: a ideia de que podemos deixar os grandes em paz enquanto recomendamos frugalidade aos pequenos e distribuimos roupa e comida pelos pobrezinhos.

 

Só uma sociedade de escravos consegue ser feliz entre esta miséria moral.

A novela.


vidabreve,

Em dois meses de Governo muita coisa mudou em Portugal. Os impostos aumentaram, mas só para quem trabalha. O projecto do TGV foi recuperado, mas só para mercadorias. Um ministro tentou intervir na televisão pública, mas só informalmente. A RTP vai ser privatizada, mas só no Canal 2. A Caixa Geral de Depósitos tem mais administradores, mas só por causa do mérito. Um comunista foi trabalhar para a direita, mas só para ganhar dinheiro. Os órfãos de José Sócrates chamaram filhos da puta e nojentos aos adversários políticos, mas só estavam a brincar.

 

É uma nova pátria, um novo desígnio, enfim, uma coisa nunca vista.

Londres, 2.


vidabreve,

Lá vou interromper as férias para outro post rápido. Estou farto do primitivismo justicialista da direita portuguesa (são todos uns bandidos, filhos da puta, etc) o que não quer dizer que concorde com os revolucionários da treta do 5 Dias. Mesmo que um fenómeno desta escala fosse protagonizado por delinquentes comuns teríamos de fazer um esforço de compreensão, mais produtivo que qualquer espécie de fervor trémulo e acusador. 

 

O Twitter é precioso nestas alturas. Vejam isto. 

 

Uma análise que me parece refrescante é a do Sr Bauman:

 

“These are not hunger or bread riots. These are riots of defective and disqualified consumers.”

 

Vale por dois dias de leitura da blogosfera portuguesa.

 

E depois, há este mapazinho que sobrepõe as áreas carenciadas aos locais em que os motins se desenvolveram. Não dá jeito falar em desigualdades? Pois não, isso agora não interessa para nada. Mas tomem lá mais:

 

There are communities all over the country that nobody paid attention to unless there had recently been a riot or a murdered child. Well, they’re paying attention now.(…)

 

The people running Britain had absolutely no clue how desperate things had become. They thought that after thirty years of soaring inequality, in the middle of a recession, they could take away the last little things that gave people hope, the benefits, the jobs, the possibility of higher education, the support structures, and nothing would happen. They were wrong.

 

Para  os trolls do costume, que gostam de nos fazer perder tempo com insultos anónimos nas caixas de comentários aqui vão algumas perguntas e respostas: isto quer dizer que eu simpatizo com os motins londrinos? Não. Quero dizer que os compreendo? Não tenho essa imodéstia. 

 

O que eu temo é que esta anestesia colectiva, esta resistência à análise tão virtuosa e liberal, este enfoque tão cómodo e tão dócil na criminalização de uma ocorrência que, pela dimensão, está muito para além do furto oportunista de telemóveis, nos impeça de olharmos de frente para um fenómeno a que mais tarde ou mais cedo chamaremos nosso. 

 

O país não é a Avenida de Roma, meninos. Dava-nos imenso jeito, mas não é.

Londres.


vidabreve,

Li hoje várias pessoas que protestavam contra as análises, a sociologia e as tentativas de interpretação dos motins londrinos. Faz sentido. Os nossos valentões não gostam de conversa fiada: os únicos levantamentos que um tuga compreende são os que decorrem das derrotas do Benfica ou da extinção de um feriado nacional. Para tudo o resto é preciso agir, e não filosofar.

Fernando Nobre, a treta e a tradução.


vidabreve,

Fernando Nobre:

É com alguma tristeza que me afasto das funções de recém-eleito deputado, mas estou certo e ciente de que serei, como já referi, mais útil aos portugueses, a Portugal e ao mundo na ação cívica e humanitária que constitui a minha marca identitária.

Tradução:

 

Toma que já almoçaste. Querias-me aqui no meio da piolheira? Vou mas é para África beber cucas e ser idolatrado pelos pagãos. Em Agosto há eclipse no lago Tanganhica.

 

F.N.:

Travar esta batalha ao lado do senhor doutor Pedro Passos Coelho e da grande maioria do PSD constituiu um enorme desafio que muito me orgulha e uma imensa honra.

Trad.:

 

Deus me livre e guarde do chulé. Se bejo mais um patego de Gaia em berloques faço como o Schweitzer e fundo um hospital no Gabão.

 

F.N.:

O senhor doutor Pedro Passos Coelho e a maioria do Grupo Parlamentar do PSD tiveram sempre para comigo uma atitude de grande estímulo e apreço. Tentei retribuir dando toda a minha energia, disponibilidade e genuíno empenhamento.

Trad.:

 

Foi estimulante como a merda, aquele antro de patifes. De manhã passavam-me a mão pelo pêlo e à tarde conspiravam com a Assunçãozinha, que não é mau pedaço, embora virgem. A gaija diz que teve uma alegria cristã. Alegria tinhas tu se eu te apresentasse o mogambo, filha.

 

F.N.:

“O Parlamento é a Casa da Democracia e os partidos políticos os seus pilares insubstituíveis e incontornáveis. Estou certo que chegará um dia em que o reconhecimento da pluralidade e de modelos de representação política aclamará o Parlamento também como a Casa da Cidadania

Trad.:

 

Isto é subtil: a Casa da Cidadania e tal. Será inteligente demais? Os palermas são todos doutores domingueiros da Lusófona e da Lusíada. Não passaram cinco anos na Faculdade de Medicina como eu. Mas fica mesmo assim, para impressionar os camaradas da Grande Loja.

 

F.N.:

“Acredito também que a Assembleia da República, por si tão dignamente presidida, dará um significativo contributo para o futuro positivo de Portugal”.

Trad.:

 

Ahahahah! Um futuro positivo é do caralho. Esta bosta vai ser pior que o Iraque. Quando quero, sou mesmo sonso.

 

F.N.:

“Independentemente da grande honra que é ser deputado (trad: “LOL“), decidi em consciência que, perante os grandes desafios sociais que teremos de enfrentar e viver no futuro próximo (Trad: “Ui, ui…”), serei mais útil na ação, no terreno (Trad: “Quénia? Seicheles?”), ajudando os portugueses mais afetados (Trad: “afectados ou afetados? Rai’s parta o acordo, pá. Quero a minha língua de volta”)  pela crise e desprotegidos a combater a miséria, a exclusão social e a injustiça, promovendo a dignidade e a esperança entre os mais pobres (Trad: “valerá a pena meter aqui umas crianças, ou umas galinhas? Era um bonito toque.”), voltando à minha atividade de mais de 30 anos de intervenção cívica, humanitária e de ajuda ao desenvolvimento em Portugal e no mundo (Trad.: “blá, blá, blá, blá.”), no quadro dos Médico Sem Fronteiras e da Fundação AMI, instituição que tive a honra de fundar em 1984 e a que presido” (Trad.: “sim, porque eu é que sou o Presidente!”).

 

“É nessa área, e diante dos tempos duros que nos esperam de real emergência social, que a minha experiência, o meu empenho e o meu trabalho (Trad.: “Não querem? Mais fica.”) melhor poderão servir o país na resolução dos problemas concretos de pessoas concretas”.

Trad.:

 

Para o que é bacalhau basta. Ti-chau, cambada.

Explicação.


vidabreve,

Aos que julgam que enlouqueci talvez seja útil revelar que a imagem do meu post anterior é um código QR. Os QR codes são decifrados pelas câmaras fotográficas dos telefones móveis inteligentes, após o download de uma aplicação gratuita, e permitem ao utilizador aceder a sites, textos e outros tipos de conteúdos. Aqui está um bom exemplo do uso desta ferramenta.

 

Por motivos vários interessava-me saber qual era a penetração dos QR codes entre o público não especializado, e ontem criei um código em que pedia a quem o decifrasse para me comunicar a idade em caixa de comentários.

 

No Vida Breve, 7 pessoas responderam ao pedido, para cerca de 850 leitores entre a tarde de Sábado e o fim da manhã de Domingo (na verdade menos, porque uma parte foi dirigida por um link externo para um post específico e não foi impactada pelo código). No Delito de Opinião, 2 pessoas participaram.

 

Tratou-se de um teste pouco rigoroso, mas suficiente para percebermos que a penetração dos códigos QR ainda é muito baixa em Portugal. Assim se abalam as certezas de quem diz por aí que os nossos compatriotas são extraordinariamente sensíveis às novas tecnologias. O que é pena, porque me dava jeito que fossem.

O Sr. Requeijão.


vidabreve,

Durante muitos anos tentei gostar de requeijão. Provava-o quando podia, misturava-o com coisas, comprava embalagens que apodreciam no frigorífico intocadas ou debicadas, logo abandonadas. Não tenho má vontade contra o requeijão. Nem aquela matéria branca, esponjosa, insonsa, popular tem culpa de que eu não a aprecie. Há alturas em que o mundo deve seguir o seu caminho, e nós o nosso, sem ressentimentos.

 

A confissão.


vidabreve,

O líder do PSD quis um independente a comandar a Assembleia da República. Mário Soares e os candidatos do PS desejam a refundação do partido que há bem poucos meses cabia no bolso do senhor noventa e oito por cento. Miguel Portas propõe a saída dos quatro fundadores. Depois da longa anestesia, chega a mensagem: venham outros. O regime nunca tinha confessado com esta clareza a sua impotência.

O fardo.


vidabreve,

 

Na última parte de Lawrence da Arábia, Faisal confessa que o homem que acabou de lhe entregar Damasco é uma faca de dois gumes.

 

– Estamos ambos contentes por nos vermos livres dele, não?

 

O militar inglês surpreende-se:

 

– E eu que me considerava um homem duro, Sir.
– Você é apenas um general. Eu tenho de ser um rei.

 

Fernando Nobre não é, por certo, Thomas Edward Lawrence. Não devemos aos seus méritos a vitória recente do PSD. Mas nem por isso a Assembleia da República deixou de revelar um pouco da lucidez e da impiedade do monarca iraquiano ao cumprir, ontem à tarde, a sua função soberana.

Senhor, porque O abandonaste?


vidabreve,

 

Uma espécie de National Geographic para as igrejas evangélicas. Como nascem os meninos, como explodem os planetas, como faz o dinossauro. No meio há um pai tirano: Júnior, tens de ser forte e tal.

Malick demorou cinco anos a realizar a pepineira. É pouco. Vê-la demora uma eternidade.