Lá vou interromper as férias para outro post rápido. Estou farto do primitivismo justicialista da direita portuguesa (são todos uns bandidos, filhos da puta, etc) o que não quer dizer que concorde com os revolucionários da treta do 5 Dias. Mesmo que um fenómeno desta escala fosse protagonizado por delinquentes comuns teríamos de fazer um esforço de compreensão, mais produtivo que qualquer espécie de fervor trémulo e acusador.
O Twitter é precioso nestas alturas. Vejam isto.
Uma análise que me parece refrescante é a do Sr Bauman:
“These are not hunger or bread riots. These are riots of defective and disqualified consumers.”
Vale por dois dias de leitura da blogosfera portuguesa.
E depois, há este mapazinho que sobrepõe as áreas carenciadas aos locais em que os motins se desenvolveram. Não dá jeito falar em desigualdades? Pois não, isso agora não interessa para nada. Mas tomem lá mais:
There are communities all over the country that nobody paid attention to unless there had recently been a riot or a murdered child. Well, they’re paying attention now.(…)
The people running Britain had absolutely no clue how desperate things had become. They thought that after thirty years of soaring inequality, in the middle of a recession, they could take away the last little things that gave people hope, the benefits, the jobs, the possibility of higher education, the support structures, and nothing would happen. They were wrong.
Para os trolls do costume, que gostam de nos fazer perder tempo com insultos anónimos nas caixas de comentários aqui vão algumas perguntas e respostas: isto quer dizer que eu simpatizo com os motins londrinos? Não. Quero dizer que os compreendo? Não tenho essa imodéstia.
O que eu temo é que esta anestesia colectiva, esta resistência à análise tão virtuosa e liberal, este enfoque tão cómodo e tão dócil na criminalização de uma ocorrência que, pela dimensão, está muito para além do furto oportunista de telemóveis, nos impeça de olharmos de frente para um fenómeno a que mais tarde ou mais cedo chamaremos nosso.
O país não é a Avenida de Roma, meninos. Dava-nos imenso jeito, mas não é.

Pois o nosso País não é apenas a Avenida de Roma, não me dava jeito nenhum, continuo a preferir a Horta… Relativamente ao primitivismo da direita, aqueles arruaceiros de Londres também não vivem propriamente nas mesmas condições de carência da Somália e não atacaram os bairros dos ricos, mas sim aqueles que vivem no seio deles e se esforçam no dia a dia. Os mapas são os mesmos que propõe para ver o povo que atacaram
Pela minha experiência de vida e do que conheço das gentes em questão devo dizer que acho muito pouco provável que alguma das pessoas que participou activamente na destruição tenha nos seus projectos futuros passar pelo ensino superior. Não tem. E não é isso que os motiva a pegar num bastão para partir um carro ou uma montra de loja. Agora se me disser que o fazem porque começam a ver a vida fácil que viveram até então a fugir-lhes debaixo dos pés, aí sim acredito que seja motivação suficiente para fazerem o que fizeram. Isto é menino habituado a viver “on the doll” como se diz por lá, às custas do dinheiro dos contribuintes. Não trabalham e gostam e vivem do chamado “dinheiro fácil”. É malta que age por maldade e por mais justa que fosse a sua “causa”, que a meu ver não é, mas mesmo que fosse, não justifica estas acções criminosas. Agora se acho que a acção das autoridades competentes e do governo deve ir para além da limpeza das ruas? Claro que sim. Quando vemos crianças de 11 anos envolvidas nestes riots percebemos logo que algo de muito mau se passa com esta sociedade. Têm que ser tomadas medidas e algo tem que ser feito por este grupo da sociedade inglesa mas uma coisa lhe garanto, isto é malta que não quer trabalhar, nem ir para a universidade. Querem calças Diesel e Blackberries e Wii e o diabo a quatro. Por nada. E essa vidinha tinha que acabar.
E está convencida que a solução é mandar policias contra esta gente e metê-los a todos na cadeia?
Não. É deixá-los partir tudo e arrebentar com tudo. “É preciso que a destruição seja total!!”, como brama o prof. Vidal.
Quer dizer sim que os compreende e desculpa.
Não é outra coisa que está a dizer
“um fenómeno a que mais tarde ou mais cedo chamaremos nosso.”
Já é nosso hoje, até parece que não sai de casa.
Já nos anos 80 era nosso, o que é que julga que se estava a formar em escolas de Lisboa e nem estou a falar de arredores, estou a falar de escolas perto de Campo de Ourique.
Para a próxima pergunte porque é que quem trabalha das 9 ás 19 não se revolta para pagar a escola publica, as “associações” do lixo que se “revolta” eufemismo para fere, rouba, destrói.
Porque é que as mulheres não se revoltam?
Porque é que os velhos não se revoltam?
Nem mais… O Equilibrio está em risco como já não estava há muitas décadas. Assustador é constatarmos as reacções mais imediatas da generalidade das pessoas e, então, finalmente termos um rasgo de percepção, apesar dos muitos livros de história consumidos e imcompreendidos, de como foi possivel o que se passou na Europa nos anos 30 e 40, e antes disso… E antes… E ainda antes…
A origem do problema está dentro das quatro paredes que albergam (“escondem”) as famílias. Se pudéssemos ser mosca por um dia e vaguear no interior das casas, entenderíamos o problema.
Bem eu estou no telemóvel e não consigo responder a toda a gente. Mas julgo que isto vai muito para além da criminalidade vulgar, embora inclua criminosos vulgares. Se devem ser presos? Depende de quantos forem, não? A realidade não se comove com os nossos argumentos. Lucky lucky, você continua com esse problema. Xanax, homem.
A Av de Roma é segura …?
A Cristina Torrão tocou no ponto. A origem está mesmo dentro das quatro paredes e na inexistente estrutura familiar e na falta de “modelos” em casa e fora dela. Por isso é que disse ali em cima que a acção das autoridades tem que ir para lá da limpeza das ruas após os desacatos. Volto a dizer, porque convivi de perto com a realidade, esta gente não se comove e não se bate pelo direito a uma vida melhor no que concerne a um emprego ou acesso a uma melhor educação -esses são uma minoria e não andam a pilhar lojas. Mas a origem do problema, ainda que se a compreenda, não justifica as atitutes criminosas porque como em tudo na vida também isto é uma questão de escolha. Há os que escolhem fazer a diferença para o bem, os que apesar de terem nascido em condições adversas ESCOLHEM trabalhar, ESCOLHEM estudar, e depois há os outros, nascidos e criados nas mesmas circunstâncias e que escolhem o caminho que dá menos trabalho que é unirem-se a gangs para poderem ter acesso às mesmas coisas dos que trabalham mas pelo meio menos licito. Mais, é gente que gosta de ser como é e tem orgulho em ser como é e gente como esta muito dificilmente se reabilita. O João V pergunta se acho que a solução é mandar policias contra esta gente. A solução para a origem do problema não é obviamente essa. Agora a solução para travar esta gente já? Ai não que não é! Repare bem, se quiser, nas imagens dos primeiros dias, onde esta gente enfrenta a policia nitidamente a gozar com eles sem sentir nem demonstrar qualquer ponta de respeito pela autoridade. Este grupo de pessoas em particular precisa temer e respeitar a autoridade e esta tem que se impor, claro que sim! Para anarquia já basta. Acrescento só mais isto: TODOS têm acesso ao ensino, TODOS têm educação nas escolas, caso a queiram frequentar, mesmo que a não tenham dentro de portas, no seio familiar, TODOS têm a oportunidade, TODOS, de se tornarem alguém na vida, se trabalharem para isso. Não estamos propriamente a falar de uma população no seio de África onde escasseiam os mais variados recursos. Quem quer ser alguém, em Inglaterra consegue sê-lo. Basta querê-lo. Mas requer esforço. E esta gente quer dinheiro fácil. Só.
Muito bem, Sílvia (e muito bem, Cristina).
Caro Luís,
Não se começa uma análise às origens de um incêndio enquanto este ainda está activo.
Lourenço, então é melhor avisar a Helena Matos, que hoje mesmo nos brindou com uma das suas páginas mais miseráveis de sempre no Público. Está ao nível do que se escreve no Cinco Dias.
E já agora diga também isso à Palmira, com quem (alguma vez tinha de acontecer) concordo na generalidade:
http://jugular.blogs.sapo.pt/2802245.ht ml#cutid1
A direita portuguesa, lamento dizê-lo, está a tratar deste assunto de um modo epidérmico. Abundam as discursatas e as declarações de princípio, mas há um excesso de reticência quanto o assunto é outro — a desigualdade e os seus descontentes.
Quanto à ideia, aqui desenvolvida pela Sílvia, de que o mal está nas famílias — por amor de Deus. Já só nos falta falarmos das drogas, do ateísmo e do Hard Rock.
Eu acendo uma velinha por si, Sílvia.
“We could afford to buy stuff, but it’s not about that. It’s about the Government – them taking stuff away… in my case I don’t go to college no more cos I don’t get paid, do I?”
Daqui: adlines/2011/08/11/london-riots-young-ri oters-say-they-re-proud-to-steal-115875-2 3335860/
http://www.mirror.co.uk/most-popular/he
jaa, quando eu proponho que talvez exista um problema social não estou a sugerir que os pobres imbecis que por lá andam a incendiar casas tenham a consciência de que há um problema social, ok?
E já agora, desde quando é que um tablóide britânico nos serve como referência de um jornalismo isento e equilibrado? Já nem sequer tentamos que a coisa não pareça tendenciosa?
Claro, Luís. Já por aqui percebemos que a unica opinião isenta e equilibrada é a sua. Deixe lá estar isso da vela, algo me diz que precisa dela mais do que eu.
Não estamos a falar de coitadinhos e pobrezinhos e de vitimas desfavorecidas da sociedade. Estamos a falar de gente oportunista, quem em tudo vêm uma oportunidade para fazer um “easy buck”, até mesmo no desgraçado do puto que está a sangrar com os queixos partidos. O que não falta por esta europa fora é desigualdade social, em muitos casos muito mais acentuada, e a malta não anda a pilhar e a matar a torto e a direito. E não me venha falar em opinião de direita ou de esquerda que eu cá não compro peixe a uma nem a outra. Falo do que vejo, não do que leio, nem do que ouço dizer. Isto não é tanto uma questão de desigualdade social quanto é de deficit de valores da sociedade, ricos ou pobres. É malta, toda ela, que dá mais valor ao material do que a outra coisa qualquer e os ricos só não fazem pilhagens porque as podem adquirir. Os que não podem ou deixam de poder fazem birras e pilhagens. Ricos e pobres chegam a casa e a primeira coisa que ouvem dos filhos é “o que trouxeste hoje para mim?”. Não esquecer também que a Inglaterra é um dos países, senão O país, com maior indice de gravidez na adolescência. Crianças a criar crianças dá nisto.
Ao tablóide cheguei pelo Google (ou talvez pelo Bing, que tenho andado a diversificar) à procura de uma coisa ligeiramente diferente (as fotos das câmaras de vigilância). Mas presumo que declarações entre parêntesis representem razoavelmente o que as pessoas disseram, mesmo num tablóide.
E eu não nego que existam problemas sociais, que se agravarão com as dificuldades financeiras que obrigam a cortar no Estado Social. Mas o que me parece é que estes rapazes e raparigas não fizeram isto em nome de qualquer ideologia ou com qualquer objectivo definido que não destruir – é giro, excitante, dá tesão – e roubar. São muito mais parecidos com os elementos das claques dos clubes de futebol do que com revolucionários querendo mudar o mundo. Todas as narrativas construídas para os tornar mais ‘românticos’, essas sim, são ideológicas.
Mas, já agora, a questão social necessita da resposta a uma pergunta muito simples: em países falidos, em parte por causa do aumento constante das despesas sociais (por cá, o Medina Carreira anda há anos a mostrar a ‘tarte’ com o peso das despesas sociais nos encargos do Estado), com os cidadãos já sobrecarregados de impostos (talvez se possa ir buscar um pouco mais aos ricos mas onde fica o limite, como evitar que os capitais fujam e como convencer alguém a investir se o Estado fica com os proveitos?), deve o Estado garantir que todos tenham um mínimo ou aquilo que certos grupos – nomeadamente os formados por pessoas que se habituaram a viver de subsídios e, eventualmente, de proveitos paralelos – exigem para se manterem sossegados e que, segundo parece, inclui telemóveis de última geração e roupa de marca?
jaa, vamos por partes:
1. Que aquela maltosa não tem ideologia, isso já sabemos. Mas como tentei dizer no comentário anterior, não interessa se a malta tem ideologia ou não. Alguma coisa a levou para as ruas, e alguma coisa a fez ficar por lá. Dizer apenas que aquilo aconteceu porque eles “são uns bandidos” (aparentemente de geração espontânea) e “queriam roubar coisas giras” (aparentemente só agora repararam nas montras) é capaz de ser um bocadinho redutor, não? Fiz uma remissão para os posts da Priscila Rêgo, que te aconselho.
2. A questão das despesas sociais: é aí que os preconceitos de muita gente começam a vir à superfície. Porque das duas uma: ou diminuição dessas tranferências tem alguma coisa a ver com o assunto, e então deviam ter falado nelas antes (mas não falaram, pois não? Era muito aborrecido em comparação com os vídeos de gente a arder) ou então não tem nada a ver com o assunto e não sei a que propósito vem a referência ao Medina Carreira.
3. Recordo ainda que os meus posts sobre Londres não são sobre Londres: são sobre o modo como nós vemos Londres. Tu pareces ver Londres como a extensão secreta de um debate que no fundo é interno, e que é português. Devemos gastar dinheiro com as pessoas para que elas não comecem a queimar lojas ou não?
É pena que só agora assumas o lado interno desse debate porque esse é o problema real, e essa é a questão que vamos ter de enfrentar brevemente.
A referência ao Medina vem a propósito de, cá como em muitos outros sítios, a diminuição das transferências sociais não ser opcional. Elas pesam demasiado nos orçamentos públicos para que seja.
A respeito de eu admitir ou não que podem existir problemas sociais, aconselho-te a reler os meus posts e as respostas que dei aos comentários feitos. Por exemplo, no primeiro que escrevi: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/33 22796.html
E qual é a tua resposta à pergunta 3? A minha é que devemos procurar que toda a gente tenha um mínimo que lhe permita viver com dignidade (o que talvez não inclua iPhones) mas não podemos pagar chantagens, até porque isso também cria um ambiente explosivo, em que aquelas pessoas que trabalham, ganham mal e pagam impostos se sentem exploradas por quem vive de subsídios. E depois lá tens a subida dos partidos de extrema direita.