Empunhai as vossas Bíblias.


vidabreve,

A escola económica judaico-cristã dirige o seu olhar castigador para um novo alvo. Desta vez não exige a mortificação dos povos do Sul da Europa, ou a expiação dos graves pecados cometidos pela nossa função pública. Não; a prioridade da semana é extinguir feriados. Um raciocínio simples, adequado à tocante singeleza das nossas cabecinhas: com menos feriados, vamos trabalhar mais. Se trabalharmos mais, vamos produzir mais, logo não há que hesitar — certo?

 

Errado.

 

O Rui Passos Rocha, alma a que não se conheciam até agora tendências anti-liberais, descobriu em dois minutos um artigo a demonstrar que a existência de feriados afecta positivamente o crescimento económico, embora de modo marginal. E a seguir revela-nos uma lista com o número de feriados das economias mais produtivas da União Europeia (dica: a Suécia tem tantos como nós, e o Luxemburgo só um a menos). 

 

Mas claro, agitar preconceitos disfarçados de evidências e espumar contra a preguiça é sempre mais fácil do que tentar perceber esse conjunto de fenómenos, nem sempre intuitivos, a que há quem chame realidade. 

O Delito contra o preconceito.


vidabreve,

Angustiado com o alerta do jaa para o preocupante anti-germanismo alimentado de ressentimentos que prolifera entre nós, resolvi ficar atento às suas manifestações durante o fim de semana. Fiquei logo a saber que o nosso blog ainda é um reduto virginal de tolerância ecuménica. Hoje, certamente com intenções profilácticas, o Rui Rocha denunciou a Grécia por fazer um censo dos beneficiários de pensões (de facto, é um comportamento inaceitável), enquanto o Pedro nos revelava a eloquente história da ilha turística (ou seja, de calaceiros) em o Ministério da Saúde grego descobriu e investiga a atribuição de 700 pensões aparentemente fraudulentas: estranho país este, em que o Estado faz alguma coisa para detectar abusos e corrigir os abusos que detecta.

 

Também eu estou chocado — chocado!— com o anti-germanismo que prolifera.

Da diferença entre interesse e obrigação, agradecendo (mas sem pagar) o empréstimo ao jaa.


vidabreve,

A Grécia está a fazer tudo mal. Os gregos estão a fazer chantagem com os alemães e far-nos-ão o mesmo. Estamos numa fase de atribuição de culpas e não de encontrar soluções em comum. Etc., etc., etc. Ora bem:

 

1. De modo a proteger a sua economia de uma austeridade violenta (por terem recebido dinheiro de bancos que não sabiam emprestá-lo), um contribuinte grego pode ter interesse em receber dinheiro da Alemanha – mas não tem obrigação de o fazer. Não foi ele que atribuiu créditos irresponsáveis.

 

2. O governo grego responde aos gregos. Se estes não quiserem receber financiamentos, ele não pode obrigá-los. Também a isto se chama democracia. De resto, não nos fartamos de resmungar sempre que Papandreu nos obriga a interferir nos seus assuntos internos? A solução é simples: deixar de o fazer. Querem?

 

3. A questão da responsabilidade é importante. Não para apontar o dedo ou para humilhar. Quando alguém comete um erro e precisa de ressarcir os seus créditos, o primeiro passo é reconhecer que errou. O segundo, mostrar que aprendeu a lição. Só assim terá hipótese de receber o que lhe é devido. Fuga à implementação de mudanças, torpedeamento de acordos estabelecidos, acusações raivosas a quem se solicita o pagamendo devido, não geram impulsos de bom cumprimento. O cumprimento não se impõe pela força, conquista-se através de actos geradores de confiança.

 

Etc, etc, etc. É isto que acontece quando se faz política à moda judaico-cristã. Podemos passar para a fase seguinte, ou ainda é cedo?

Irresponsável?


vidabreve,

O referendo grego tem uma vantagem clara: a alteração imediata das percepções da opinião pública europeia. Ou seja, se até agora os cidadãos da UE encaravam a crise da dívida como um problema que a Grécia tinha de resolver para benefício da Europa, mesmo que fosse à custa da humilhação do povo, hoje sabem que é a Europa que tem de resolver o problema da Grécia para seu próprio benefício, se quiser sobreviver. Repito: se quiser.

 

E aqui, as análises sobre quem tem a  culpa  ou quem merece um castigo interessam muito pouco. Pois é mesmo assim (sem culpabilizações) que gente adulta enfrenta tempos desesperados.

A coisa.


vidabreve,

Há dois anos — dois — que a crise da dívida grega ameaça a Europa. E as instituições europeias tinham dois caminhos para a enfrentar: ou pagavam ou saíam. Em vez disso resolveram pagar um bocadinho, em condições que tornam o ressarcimento impossível, enquanto os burocratas alemães dissertavam sobre a ausência de virtude dos atenienses.

 

Não há coisa pior do que a incompetência aliada ao moralismo.

Sem filtros.


vidabreve,

A blogosfera em peso rasgou as vestes quando leu estas declarações do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto. Num país em que a palavra juventude serve de eufemismo a uma casta de adultos indolentes e primadonas agastadas da classe média urbana, e em que por desporto se toma o futebol — prática criminosa só debelável com a interdição — qualquer laracha que o burocrata responsável pelos dois buracos negros proferisse ao microfone teria potencial incendiário. Ainda por cima se fosse verdade.

 

E o que disse o homem? Que os nossos inúteis, se não encontrarem trabalho cá dentro, devem procurá-lo lá fora. Isto, na economia do euro, é uma lapalissada rudimentar, mas causou as apoplexias do costume.

 

E o que acrescentou o homem? Que depois de conhecerem as boas práticas dos países de destino poderão voltar à origem e realizar os seus projectos com outra segurança. Isto tem algum mal? Não tem. É o bê-á-bá da autonomia que uma sociedade civilizada deve exigir a maiores de dezoito anos.

 

Infelizmente, os nossos jovens ainda querem esta merda:

 

 

Tretas, corrupção e muita mama. E a mama, por agora, acabou.

Pois é.


vidabreve,

 

Há agora dois jornais diários abaixo dos 15 mil exemplares. E os de referência pouco ultrapassam os 50 mil. Não quero ser injusto para os projectos mais recentes: o triunfo do i seria sempre muito árduo, mesmo em tempo de fartura. Quanto à decadência do Público e do Diário de Notícias, a conversa é outra. Durante mais de uma década comportaram-se como jornais de nicho, ficaram reféns de uma ideologia ou dos Governos, ignoraram novos talentos e o poder multiplicador da internet. O resultado está à vista.

Austeridade (1).


vidabreve,

Foi o pior dos tempos, foram tempos do pior. Numa rua calma, o engenheiro Armando erguia uma beata da borda de um canteiro quando se deixou sobressaltar pela voz do Albertino, velho camarada do Técnico.

 

– Ainda fumas, pá?
– Não, Albertinho — é esta canalha que enche as ruas de lixo…

 

Com certo pesar deitou fora o cigarro e anuiu ao convite do amigo para tomar uma bica. Na esplanada da Mexicana maldisseram o Governo, o estado social, as elites muito reles e o populacho acabrunhado.

 

– E o que podíamos ser com este sol e este mar, Armando: Londres, Berlim, Nova Iorque!

 

Ficaram em silêncio, a pensar em Nova Iorque.

 

– Nunca vi gajas tão boas, Albertinho…

 

Quando chegou a conta — dois euros e quarenta—  puseram as mãos nos bolsos com gestos imperiosos.

 

– Deixa estar.
– Não, eu é que convidei.

 

Mas um conjunto de circunstâncias explicava que, tendo um deles saído à pressa, sem carteira, e o outro posto roupa de Outono por causa da manhã enevoada, não reunissem entre ambos mais de setenta e cinco cêntimos.

 

Armando foi ao multibanco. Pouco depois, Albertino desertou.

Não esquecer.


vidabreve,

Quando ouvires Cavaco Silva ou Mira Amaral dizer que não há dinheiro ou falar sobre pensões lembra-te que estás a ouvir pensionistas dourados que recebem 10.042,00€  e 18.000,00€ por mês, lembra-te que discursam pelas suas pensões e pelos seus interesses, lembra-te que na Suíça ninguém pode receber mais de 1700,00€ de pensão de reforma ou que em Espanha esse valor é de 2.290,59€, lembra-te que em Portugal só não há um tecto para o valor das pensões de reforma porque eles estão no poder há mais de 20 anos e a viver à sombra da dívida que agora nos querem obrigar a pagar.

daqui.

Armas de Destruição Maciça.


vidabreve,

Já toda a gente, da esquerda à direita, percebeu: o Governo vai aproveitar a crise da dívida para aplicar um choque liberal à economia, tal como Bush aproveitou o ataque ao World Trade Center para invadir o Iraque. É mais um jogo de altíssimo risco, que se sucede ao outro — o expansionista — do Governo de Sócrates.

 

O problema é que a invasão do Iraque não correu assim tão bem. Os apoiantes de Pedro Passos Coelho deviam ter cautela antes de sugerirem por aí a responsabilização criminal por más práticas dos titulares políticos. A vida dá muitas voltas.

A manif.


vidabreve,

Altermundialismo? Novos modelos de desenvolvimento? Um protesto contra as medidas de austeridade? Deixem-se de merdas: preocupei-me com a austeridade na altura própria, quando metade dos nossos pategos punha bandeirinhas à janela pela selecção nacional. O motivo que me levou ao Marquês de Pombal no dia 15 foi este.

 

Um Governo que recebe a família Espírito Santo enquanto discute o Orçamento de Estado é um governo que reconhece, tão bem como o anterior, a voz do dono. E se eu puder chatear, chateio.