Estas, estas e estas perguntinhas são para responder, não são?
Agora que no i se escrevem crónicas de borla e no Público se reduzem colaboradores, seria pedir muito aos paladinos da austeridade que nos maravilhassem pelo exemplo? Eis o tipo de textos que gostaria de ler na blogosfera liberal:
Outra vez a encher chouriços — como abandonei o mundo dos jornais e ergui a minha própria fábrica de salames. Cadeiras na Vestefália — ele deixou a econometria na Católica e agora exporta verga para a Alemanha. A Cidade e as Serras — o triunfo de um ex-comentador da SIC em Trás-os-Montes, sem internet nem televisão. Assessorar o Sucesso — ele tinha um cargo político, mas trocou tudo pelo empreendedorismo.
Estão a perceber, não estão? É que já chega de paleio.
Se estivermos suficientemente perto de uns e suficientemente distantes de outros nenhuma agressão é condenável.
Helmut Schmidt, 92 anos:
Não podemos esquecer que a reconstrução da Alemanha após a guerra não teria sido possível sem o apoio dos parceiros ocidentais e, por isso, temos o dever histórico de mostrar solidariedade com outros países, o que se aplica especialmente à Grécia. (…) É fundamental para os interesses estratégicos que a Alemanha não fique isolada de novo.
No mesmo dia, em entrevista ao Público, Passos Coelho fala na coincidência das suas posições com as de Angela Merckel. Uma miséria.
A notícia de que Paulo Portas perdoou 189 milhões de euros em investimentos a uma empresa fornecedora de veículos militares. O caso é fascinante porque foi manchete no Diário de Notícias esta semana, borbulhou no pântano e desapareceu sem rasto. O ministro cala-se como de costume, enquanto a opinião esclarecida se ocupa da licenciatura de Sócrates ou do tipo que trocou a Vespa pelo Mercedes.
Não lerás posts que incluam as palavras ou expressões neoliberal, imperialismo, cabala, ataque pessoal, acima das possibilidades, especuladores internacionais, despesismo, politicamente correcto, eduquês, contenção, novas formas de luta, corporações, populista, indignados, pacote de ajuda, sacrifícios e competitividade.
Estava, digo bem, porque perdi o maldito livro hoje mesmo.
Ao sair para tomar café e levantar dinheiro no multibanco e visitar uma loja de electrodomésticos onde há umas merdas a bom preço (sou um Scrooge no que toca a electrodomésticos e detergentes, ao contrário da minha mulher-a-dias que é a raínha de Sabá, a Ivana Trump dos limpa-vidros) de repente olhei para as mãos — e tungas, estavam vazias. Regresso à loja de electrodomésticos, ao multibanco e ao café, entrei por desfastio numa frutaria, numa loja de candeeiros e no Celeiro, quase comprei uma barra energética com sementes de sésamo e alfafa, e telefonei para a minha namorada a choramingar. Ela é uma santa, mas mais gira, disse-me deixa lá querido, oh que azar, coitadinho, não penses nisso.
E eu pensei: Está bem, abelha.
Mal entrei em casa encomendei outro. Para poupar portes de envio mandei vir também este, este, este e este. Como precisava de um miminho, e ainda ontem fiz anos, julguei que não era mal nenhum acrescentar este. E já agora este. Ou seja, fiz um excelente negócio em portes e dei um bom uso aos meus euros, que agora estão a salvo em Inglaterra.
O livro é muito bom — sei disso porque já ia na página 23. Tem a palavra o Luis Menezes Leitão.
Nouriel Roubini, o homem que previu a recessão de 2008, faz uma síntese exemplar da crise do Euro e enumera as soluções que ainda nos restam. A Alemanha está contra, evidentemente. Um trecho com sublinhados meus:
(…) A reflação [estimular a economia através do aumento do suprimento de moeda ou reduzindo taxas, é o oposto de deflação] simétrica é a melhor opção para restaurar a competitividade e o crescimento na periferia da Zona Euro, ao mesmo tempo que se levam a cabo as necessárias medidas de austeridade e reformas estruturais. Isto implica uma significativa flexibilização da política monetária por parte do BCE; provisão de apoio ilimitado de credor de último recurso a economias ilíquidas mas potencialmente solventes; uma forte depreciação do euro, o que poderá transformar os défices das contas correntes em excedentes; e estímulos orçamentais nos países do núcleo se a periferia for obrigada à austeridade.
Lamentavelmente, a Alemanha e o BCE opõem-se a esta opção, devido à perspectiva de uma dose temporária de inflação modestamente mais elevada nos países do núcleo da Zona Euro face à periferia.
O amargo medicamento que a Alemanha e o BCE querem impor à periferia – a segunda opção – é a deflação recessiva: austeridade orçamental; reformas estruturais visando impulsionar o crescimento da produtividade e reduzir os custos unitários do trabalho; e uma depreciação real, através do ajuste de preços, por oposição ao ajuste da taxa de câmbio nominal.
Os problemas com esta opção são imensos. A austeridade orçamental, se bem que necessária, significa uma recessão mais profunda no curto prazo. Mesmo as reformas estruturais reduzem a produção no curto prazo, porque é algo que exige que se despeçam trabalhadores, que se encerrem empresas que estão a dar prejuízos e que seja feita uma realocação gradual da mão-de-obra e do capital em novas indústrias emergentes. Assim, para evitar uma espiral de recessão ainda mais profunda, a periferia precisa de uma depreciação real para melhorar o seu défice externo. Mas mesmo que os preços e salários caiam 30% nos próximos anos, o valor real da dívida aumentará fortemente, agravando a insolvência dos governos e dos devedores privados.
(…) Se os países periféricos continuarem enredados numa armadilha deflacionista de elevado endividamento, queda da produção, fraca competitividade e défices externos estruturais, acabarão por se sentir tentados por uma terceira opção: o “default” e a saída da Zona Euro. Isso permitir-lhes-ia revitalizar o crescimento económico e a competitividade, através da depreciação das novas moedas nacionais.
Evidentemente, um tal desmoronamento desordenado da Zona Euro constituiria um choque tão severo como o do colapso do Lehman Brothers em 2008, se não mesmo pior.
No mesmo sentido não percam este texto de Vitor Bento, sim o Vitor Bento, que agora se mobiliza contra o fundamentalismo moralista (e quem sou eu para o contrariar?) de alguns governos e do BCE.
Teresa de Sousa, no Público:
Talvez a maior medida do perigo iminente seja a mudança de discurso nas capitais europeias que costumam ser mais papistas do que Angela Merkel. Em Helsínquia, começa a admitir-se que talvez seja preciso uma intervenção a sério do BCE. Em Haia a mesmíssima coisa. A Áustria prepara medidas dissuasoras. Em Estocolmo, que está fora do euro mas não da Europa, o ministro das Finanças admite que os países superavitários poderiam ir em socorro financeiro dos deficitários.
Eis o canto do cisne da escola económica judaico-cristã. Agora que os efeitos da crise chegam à Espanha, à Itália, à França e à Bélgica, e já nem a Alemanha consegue colocar as suas obrigações de dívida pública a dez anos, suponho que vai ser um pouco mais difícil encontrarmos preguiçosos e irresponsáveis para incriminar. Há cerca de um mês escrevi que
se até agora os cidadãos da UE encaravam a crise da dívida como um problema que a Grécia tinha de resolver para benefício da Europa, mesmo que fosse à custa da humilhação do povo, hoje sabem que é a Europa que tem de resolver o problema da Grécia para seu próprio benefício, se quiser sobreviver. Repito: se quiser.
E aqui, as análises sobre quem tem a culpa ou quem merece um castigo interessam muito pouco. Pois é mesmo assim (sem culpabilizações) que gente adulta enfrenta tempos desesperados.
Em vez de Grécia leiam agora metade da Europa. É o preço da cegueira.
A quimera, repetida à exaustão, de que a Alemanha andou a suportar os desvarios da Europa do Sul já tinha sido descartada por muito boa gente, mas desta vez quem se encarrega do assunto é o sisudo e respeitável Financial Times (assinem para ler, que é gratuito):
(…) It is time for Germany to decide once and for all: how much will it pay to save Europe?
Germans can reach the sensible answer only if they discard the myth, widely cherished in northern Europe, that peripheral southern countries are the undeserving beneficiaries of a charitable transfer union. You can see whence this myth comes: the Greeks do retire in their fifties; they did lie about their budget deficit; and it is galling when they demand serial bailouts. But despite those aerial photographs of untaxed Athenian swimming pools, the north’s resentment of lazy southerners is overdone. The truth is that Germany derives myriad benefits from the currency union. It should pay more to save it.
Que se tenha alimentado por aqui, durante meses e sem grande controlo crítico, uma mitologia repleta de santos e pecadores a respeito deste assunto é, lamento dizer-vos, um embaraço. (Via).
Na Casa dos Segredos, concurso dedicado à análise da cópula entre prostitutas loiras e grandes símios suburbanos, Diogo Cruz termina o seu noivado com Fanny, a princesinha de Oliveira de Azeméis.
Às onze da manhã e às cinco da tarde, no Opinião Pública da SIC Notícias, todos os desocupados do país erguerão as vozes em uníssono para denunciar a infausta repugnância lusitana pelo trabalho.
Enquanto não chega o Jornal das Nove — momento sempre elevado, com o beicinho trémulo do Crespo a beber as palavras venerandas do professor Carreira, do doutor Duque ou do Presidente da CIP (como ocorreu ontem, notem a coincidência) — abre-se nova janela de oportunidade para redigirmos sábios comentários em blogues e jornais online, apelando à união de todos os portugueses neste contexto difícil em que o Governo e a Europa tanto precisam de um esforço adicional.
Pela meia-noite visitaremos como sempre a TVI, onde outro macaco fode a princezinha de de Oliveira de Azeméis em cenário de plástico colorido, para grande alegria da Júlia e consolo lúbrico das porteiras.
Ainda bem que acabou a greve. O país regressa à produtividade.
Dia de greve é dia de trauliteirismo galopante, como sabemos. Daí a importância de mimarmos a nossa direita civilizada, que não alça mocas de Rio Maior nem vitupera a infame Constituição marxista onde se consagram direitos a quem dá cabo da economia. Para começar, leiam este texto sereno e inteligente do Carlos Botelho. Depois, uma boa prova de fair play democrático da autoria do Pedro Pestana Bastos. E em conclusão visitem o Tiago Moreira Ramalho que resume, a este respeito, todo o meu pensamento.
Rui Ramos, em estilo de velha raposa, alerta:
Resta saber se este país descontente não irá também ver esta greve como uma espécie de abuso, atendendo à situação em que nós estamos e ao dinheiro que vai custar.
Não me vou deter na manipulação retórica das condicionais — os resta saber, não irá, espécie de e atendendo à combinam bem com o espírito de um tempo em que nem todos arriscam (por enquanto) a embófia grosseira e enfadonha do João Duque.
Ramos não é um duque. É mais fino, tem outra cultura e outro trato, fala com gente de esquerda sem demasiado asco, e ainda que lhe puxe o pé para um ocasional facciosismo fraldiqueiro a la Helena Matos recupera sempre bem, exibe alguma esperteza natural e é, por comparação claro, um senhor.
Dito isto, vale a pena recordarmos que nem Sócrates, nem os amigos de Sócrates, nem os jornalistas e colunistas de Sócrates, nem os abrantes de Sócrates se atreveram a pôr alguma vez em causa a legitimidade de uma greve. Podem ter insultado os grevistas com a panache do costume, mas não discutiram direitos fundamentais. E essa pequena diferença revela-nos muito do que em breve teremos de enfrentar.
Deixo a propósito uma frase de Mário Soares:
Não podemos saudar democraticamente a chamada ‘rua árabe’ e temer as nossas próprias ruas e praças.
Não é a austeridade, acreditem — nunca foi. O que me chateia mesmo é o gozo mal disfarçado de quem a impõe com esta mistura tão lusitana de tacanhez endémica, subordinação saloia e analfabetismo panfletário. Tragam-me um vilão do Graham Greene, melancólico e sem peneiras, para desenjoar.
Algum dos senhores jornalistas me podia apresentar, antes de Dezembro, um trabalho de investigação decente intitulado “Como preparar-se para a extinção do Euro”? Muito agradecido.
Cerco internacional à corrupção vai afectar negócios com Angola. E já que falam no assunto, eis quem aparece:
Na terça-feira, o presidente do Banco Espírito Santo Angola, Álvaro Sobrinho, foi interrogado no Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa por suspeita de fraude no Banco Nacional de Angola (…). A situação já está a afectar o sistema financeiro angolano, com reflexos indirectos na imagem do terceiro maior banco português, o BES.
“Nosso Senhor recomenda-vos que trabalheis com gosto, sem fazerdes férias nem gozardes feriados. E nunca vos esquecei de orardes sempre o terçozinho pela conversão dos funcionários públicos…”
Conheci o Miguel Pires há uns vinte anos, quando ele talvez (talvez) bebesse Esteva e talvez (talvez) ainda gostasse de bacalhau com broa. Mas as origens de um gastrónomo devem ser envolvidas num certo mistério, e tratadas com uma amnésia muito selectiva sem a qual se desvanecem as oportunidades para o chantagearmos.
Bastaram duas décadas para que esta figura hoje olímpica, hoje rodeada de perfumes éclatantes, que trata por pá os grandes da alta cozinha internacional nos templos adornados com três estrelas Michelin de Tóquio a Copenhaga (não exagero) produzisse, enfim, um livro. E como ama profundamente o seu país, a cidade e tudo isso, dedicou a obra às tascas, lojas, mercados, mercearias, talhos e padarias de Lisboa. Porque o Miguel Pires, não sei se o disse, é a Amália dos gastrónomos.
Nesta recomendação entra algum amiguismo, sem dúvida: à custa do autor papei mais jantares de borla em restaurantes de luxo do que o Henry James quando se mudou para Londres. Mas leiam o testemunho independente da Alexandra Prado Coelho, jornalista do Público. Acho que já sei o que ela vai oferecer aos primos no Natal. E não admira, porque a obra é belíssima.
Dez mil militares saíram à rua. Parece que estão fartos desta democracia que não respeita a sua condição e esperam resolver o assunto com alguma limpeza. Não são os únicos. Quando a intelligentzia europeia se fartou dos eleitores, nomeou presidentes honoríficos, repetiu referendos, delegou poderes nos excelentes políticos da França e da Alemanha e extinguiu consultas populares que considerava irresponsáveis. Quando os bancos se fartaram do Papandreu e do Berlusconi, chamaram aqueles rapazes do Grupo de Bilderberg e não se maçaram excessivamente com sufrágios.
Por isso, agora vai ser um bocadinho mais difícil explicarmos aos militares que precisamos de eleitores, de eleitos, e dessas merdas que não servem para nada.