Mozart (4)
vidabreve,
O que importa saber é porque diabo um primeiro-ministro mantém em funções gente que sabia – ou devia saber – da autêntica bandalheira em que se transformaram os serviços de inteligência portugueses. Como é possível um primeiro-ministro não despedir no acto as pessoas que fizeram relatórios internos que mais pareciam histórias da carochinha? Como é que um homem como Jorge Silva Carvalho, que alegadamente utilizou os serviços do Estado para o interesse duma empresa privada, primeiro como responsável dos serviços e depois já como quadro dessa empresa, esteve por um fio para ser o superdirector do SIS e do SIED? De que é que está à espera o Ministério Público para iniciar uma investigação? Porque é que as pessoas que denunciaram os crimes que se passavam, e provavelmente se passam, nesses serviços são afastadas e os que pactuaram com a infâmia são promovidos? Porque é que as declarações de Marques Júnior e Bacelar Gouveia, que praticamente admitiram não haver fiscalização rigorosamente nenhuma a estes serviços, não têm consequências?
O senhor procurador-geral da República deve estar, como sempre, a dormir. Eis a fotografia da rapaziada — atenção aos cargos.
jaa, o assunto é mesmo o da contradição entre actos e palavras. Que queres, chateia-me ver todos os dias o Crespo à conversa com uns senhores muito bons que esperam de mim uma vocação para o sacrifício enquanto acumulam prebendas ou aproveitam as vantagens da concorrência fiscal. É um problema que eu tenho: não gosto de ser espoliado por hipócritas. Quanto ao Soares dos Santos, podes ler isto. E para um resumo do que se está a passar no país, algo como isto é um excelente começo.
A família Soares dos Santos, principal accionista (56,14%) da rede de supermercados Pingo Doce e Recheio, transferiu o seu capital para a Holanda. Dito de outro modo: deixa de pagar impostos em Portugal. Lembrar que, no 1.º semestre de 2011, o lucro da rede de supermercados foi de 144 milhões de euros. (…)
Alexandre Soares dos Santos, patriarca da família, o homem que nos últimos anos não fez outra coisa senão dar lições de moral aos portugueses, em sucessivas entrevistas e programas de televisão («Plano Inclinado», etc.) pagos com os nossos impostos, mandou às urtigas o interesse nacional. O povo que suporte o agravamento fiscal. Ele foi pastar para outra freguesia.
Tem toda a razão, o Eduardo. Mas claro, a julgar pelas reacções da direita liberal, o problema está nas leis. Patriotismo é coisa para pobre.
Ana, entendamo-nos. Para alguém que — como eu — nem sequer tem carta de condução, o que se passa nas estradas portuguesas é um genocídio. Pior que isso, é uma orgia de parolos montados em altas cilindradas, psicopatas do tuning e espectadores da TVI.
Só que não é isso que estou a discutir. O que estou a discutir é se um responsável de uma força policial pode invocar a falta de cooperação dos mortos para sacudir a água do capote quando o confrontam com os resultados de uma acção que é e deve ser avaliada por nós. Na minha opinião, não pode. E já devia estar no olho da rua.
Repito, aliás, o que escrevi no post anterior: muitas das vítimas não são os maus condutores. Muitas das vítimas são apenas isso: vítimas, que tiveram o azar de levar com um bêbado em cima. Sugerir que a culpa é delas talvez não seja a melhor maneira de respeitarmos os mortos ou de resolvermos os problemas da sinistralidade.
Mas permitir que um incompetente qualquer de uma instituição pública encarregada de manter a ordem se safe com esta aisance de nos explicar onde falhou é um convite para que nunca mais alguém seja responsável pelo que quer que seja neste país.
O Estado tenta? Pelos vistos tenta pouco.
Ana, as declarações desse homem são uma vergonha, não por efeito de qualquer menosprezo colectivo pela responsabilidade individual mas porque implicam a desresponsabilização do Estado e das polícias, que têm o dever de manter as estradas seguras quer os mortos “cooperem” ou “não cooperem”. Ao sugerires que a culpa é dos condutores esqueces que para além dos que provocam acidentes também existem os outros, que não bebem, não aceleram e ainda assim morrem na estrada.
Aliás, pelo teu raciocínio esquecíamos a avaliação quantitativa do número de acidentes e das vítimas: dizia-se que a responsabilidade era nossa e acabava-se a conversa. Ou seja, tínhamos o Governo e as instituições postas em sossego, sem necessidade de responderem pelos resultados das suas decisões. Eu até compreendo que lhes dê jeito: quando no próximo ano avaliarmos a evolução da pobreza e das desigualdades é bem provável que a conversa regresse.
Era só o que faltava.
Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados.
Todos sujinhos
e tão magrinhos
a linda graça
dos pobrezinhos.
De porta em porta
sempre rotinhos
tão delicados
os pobrezinhos.
Não façam mal
aos pobrezinhos
Dêem-lhes pão
e tostõezinhos.
Os pobrezinhos
tão engraçados
pedem esmolinha
com mil cuidados.
(Armindo Mendes de Carvalho, várias vezes declamado por Mário Viegas — e a falta que ele cá faz).
Na sala as mulheres chegam e partem, falando sobre Salazar.
Aqui.
José Manuel Fernandes também admite a emigração dos professores. Será porque a ideia assegura algum futuro, alguma esperança aos desempregados portugueses? Não: apenas porque lhe parece um excelente negócio para o país. Hoje exibiu no blog este gráfico só para recordar… (notem as reticências, a alegria incontida) …o que já pesaram as remessas dos emigrantes na nossa economia:
De facto trata-se de um quadro espectacular… Em 1979, as remessas alcançaram quase 10% do PIB… Os olhinhos sonhadores do ex-director do Público brilham de ânimo enquanto medita na repetição eventual dessa extraordinária performance…
Com mais dez por cento do PIB metidos no seu banco… o senhor doutor Ricardo Salgado não teria pejo em obedecer aos exigentes critérios das instituições financeiras internacionais… O próprio senhor engenheiro Belmiro, deus o proteja, talvez poupasse um jornal de referência aos… ajustamentos necessários resultantes da conjuntura… Ele mesmo, o Zé Manel, poderia voltar a… a experimentar jipes e veículos todo-o-terreno nos suplementos da especialidade…
Com 10% do PIB acabava-se a crise, graças ao sacrifício meritório e desinteressado dos professores… Seria a glória… O progresso… A realização fulminante da utopia liberal…
Portanto, é assim.
O José Manuel está convencido de que um jovem com habilitações superiores tresmalhado em Portugal, desempregado em Portugal, escorraçado de Portugal, que finalmente refaz a vida fora de Portugal irá depositar, como os campónios de antigamente, o seu dinheiro num banco sediado em Portugal. Não lhe destruamos esta doce ilusão.
Há pouco mais de uma semana José Sócrates afirmou que as dívidas de um Estado são por definição eternas — uma evidência que não inibiu a direita de lhe cair em cima.
Ontem, Pedro Passos Coelho esclareceu que não haverá emprego para milhares de professores, sugerindo-lhes em alternativa os países de língua portuguesa — declaração sensata, pela qual é hoje fustigado com indignação universal.
Em Portugal podemos dizer tudo, excepto a verdade. No fundo isto não é um país, é uma ópera bufa.
José Medeiros Ferreira é um dos actores mais interessantes da democracia portuguesa. Tolerante e crítico, coerente mas não rígido, culto sem exibicionismos, ele fica no seu lugar enquanto outros se movem ou sobressaltam, e merece sempre, pela qualidade do pensamento e da escrita, que lhe recomendemos o Córtex Frontal.
Lisboa – Castelo Branco em primeira classe. Chego ao cais e não encontro diferenças entre as carruagens. Depois noto que uma tem bancos de forro avermelhado, para satisfazer a noção de prestígio de quem cobra mais sete ou oito euros pelo trajecto. Infelizmente eu não procurava prestígio mas sossego — aspiração logo contrariada pela horda ululante que invade o compartimento. Claro, são os funcionários da CP e suas mulheres, filhos, noras e gatos, de sacos de plástico nas mãos, bifana entre os dentes, garrafão de vinho à ilharga e imprecações contra os gajos.
Os gajos que mandam neles. Os gajos que lhes permitem viajar gratuitamente à janela numa carruagem de primeira igual às outras, enquanto eu pago 23 euros encostado à coluna, de costas para a paisagem, suspirando em vão pela tranquilidade e pela vista que mais uma vez perdi. É sempre assim, só que nunca me lembro que é sempre assim.
Evidentemente, não culpo estes palermas. Tal como eles, também acredito que a culpa é dos gajos. Do gajo que dirige o marketing desta merda e ainda não percebeu nem quer perceber que alguns dos seus clientes precisam de trabalhar enquanto viajam. Do gajo que senta o cu no conselho de administração e nunca deve ter posto os pés num comboio, mesmo que mande numa empresa de transportes ferroviários. Do gajo responsável pelas relações laborais, que trocou aumentos por arranjinhos e prebendas em espécie de alcance familiar. Do gajo que nunca quis saber se era errado cobrar mais por um serviço que vale menos ou cortar linhas enquanto se sonha com o TGV. Do gajo que não quis saber se o site pelo qual pagou uma fortuna a um bandido qualquer amigo de um palhaço qualquer do seu partido de sempre aceita reclamações, excepto talvez no único browser que o gajo conhece.
A CP é o pior exemplo do que pode acontecer a uma empresa pública assolada por funcionários políticos e separada dos cidadãos. Merece bem o opróbrio e a ruína.
O Procurador-geral da República (PGR) criticou hoje a morosidade da justiça britânica em cumprir “há mais de três anos” o mandado de detenção do ex-presidente do Benfica Vale e Azevedo, que, mercê de sucessivos recursos, “passeia-se por Londres” (via).
Nem de propósito: Paulo Morais recorda-nos hoje mesmo que Isaltino continua em liberdade.
Para alguma coisa há-de servir lermos Júlio Dinis: sempre nos dá um retrato do Portugal caciqueiro, sabujo e vil que antes de gritar merda repara no lado de que a merda vem.
Assistir ao comportamento da opinião pública nestes dez ou vinte anos em que foi passando das mercearias para os blogs e dos terços a Salazar para as invectivas em economês é um exercício doloroso e acabrunhante.
Os que fustigaram Cavaco por ser um parolo novo-rico, autoritário e rodeado de corruptos foram os mesmos que perdoaram a Sócrates a saloiice de fatinho laroca, o despotismo e a máfia que agora ocupa os conselhos de administração dos empreiteiros.
Não se espere mais consciência cívica dos apoiantes deste Governo. Às suspeitas sobre ministros respondem com um assobio para o ar, ao saque dos lugares públicos com um sorriso amarelo, às incursões ansiosas nos media com um encolher de ombros, às privatizações que se preparam sabe deus como dedicam silêncios fecundos, ao abuso das polícias uns considerandos filosóficos.
A única ética que sensibiliza a opinião pública lusitana é a que se pratica no comentário aos jogos da Liga: os nossos filhos da puta são melhores que os filhos da puta dos outros. Eis o seu credo e o fundamento da sua razão prática.
Que uma democracia sobreviva e frutifique entre gente assim é um milagre. Mas os milagres não existem, não se merecem nem, como veremos, costumam ser eternos.