Conheci o Miguel Pires há uns vinte anos, quando ele talvez (talvez) bebesse Esteva e talvez (talvez) ainda gostasse de bacalhau com broa. Mas as origens de um gastrónomo devem ser envolvidas num certo mistério, e tratadas com uma amnésia muito selectiva sem a qual se desvanecem as oportunidades para o chantagearmos.
Bastaram duas décadas para que esta figura hoje olímpica, hoje rodeada de perfumes éclatantes, que trata por pá os grandes da alta cozinha internacional nos templos adornados com três estrelas Michelin de Tóquio a Copenhaga (não exagero) produzisse, enfim, um livro. E como ama profundamente o seu país, a cidade e tudo isso, dedicou a obra às tascas, lojas, mercados, mercearias, talhos e padarias de Lisboa. Porque o Miguel Pires, não sei se o disse, é a Amália dos gastrónomos.
Nesta recomendação entra algum amiguismo, sem dúvida: à custa do autor papei mais jantares de borla em restaurantes de luxo do que o Henry James quando se mudou para Londres. Mas leiam o testemunho independente da Alexandra Prado Coelho, jornalista do Público. Acho que já sei o que ela vai oferecer aos primos no Natal. E não admira, porque a obra é belíssima.


Com alguma sorte ainda está escrito sem erros? Sou capaz de comprar se assim for.
Mas o acordo não é obrigatório? Há algum livro que seja publicado sem o aplicar?
Obrigatório? Como? E se fizer uma editora só para Português antigo?
Obrigatório?! É boa… como? Não posso editar um livro em Português Antigo?
Claro que pode, Javali. Acabei de editar 2 livros em português, não em acordês. E um deles no Brasil, imagine! (neste, os textos de autores brasileiros seguem a grafia de lá, e os de autores portugueses seguem a nossa, mas pré-acordo. foi uma norma que exigi e foi aceite)
Bom proveito, então 🙁
Javali, não sei bem, mas creio que sim. E então, vamos todos deixar de comprar livros?
Eu vou.
(já agora, sobre a duplicação de comentários acima: pensei que o browser tinha pendurado e submeti outro)
Quanta generosidade, Luís Jorge, quanta generosidade. Comparado com vários dos exageros que referes* * o epíteto, “a Amália dos gastrónomos”, até me parece modesto. Venha de lá o Panteão.
quanto ao português utilizado vigora o actual, pré-acordo ortográfico
P.S. Para a próxima edição fica a revelação onde é que o Manuel Godinho comprou a caixa de robalos do Vara (isso se o Rodrigues dos Santos não me roubar a ideia e a misturar com a 3ª namorada de Jesus)
* se bem me lembro a última (e diria única) vez que jantámos num restaurante de luxo foi no Gambrinus e foste tu que pagaste. Lembras-te? aquele jantar em que o crepe suzete custou 28€ e não incluiu a Suzete
Ah! Finalmente alguém com as consoantes no sítio. Conte comigo, então.
Miguel Pires, só este seu comentário já deixa augurar o melhor. Quanto a espírito, estamos falados. Acho que podemos arriscar nas escolhas da ‘carne’ 😉
Passo a Suzete. Mas não passarei o livro. Boa dica, Luís. Gosto dos textos do Miguel no blogue e seguramente gostarei desta obra também.
Aqui entre nós, eu é que lhe ensinei tudo.
Vou procurar o livro com o maior interesse, Luís. Obrigada pela dica. Respirei fundo quando li o comentário do Miguel Pires, sobre a grafia. Assim, conta comigo.
(já agora, espero que ele faça o mesmo com o meu, quando estiver à venda aqui… 😉
hehehe, o acordo vai matar a edição portuguesa, está visto. não dou seis meses à nova ortografia.
Nem eu. Uma boa forma de acabar com ela é boicotar a compra de livros, o que até nem será difícil com as carteiras vazias que temos agora…