Rui Ramos, em estilo de velha raposa, alerta:
Resta saber se este país descontente não irá também ver esta greve como uma espécie de abuso, atendendo à situação em que nós estamos e ao dinheiro que vai custar.
Não me vou deter na manipulação retórica das condicionais — os resta saber, não irá, espécie de e atendendo à combinam bem com o espírito de um tempo em que nem todos arriscam (por enquanto) a embófia grosseira e enfadonha do João Duque.
Ramos não é um duque. É mais fino, tem outra cultura e outro trato, fala com gente de esquerda sem demasiado asco, e ainda que lhe puxe o pé para um ocasional facciosismo fraldiqueiro a la Helena Matos recupera sempre bem, exibe alguma esperteza natural e é, por comparação claro, um senhor.
Dito isto, vale a pena recordarmos que nem Sócrates, nem os amigos de Sócrates, nem os jornalistas e colunistas de Sócrates, nem os abrantes de Sócrates se atreveram a pôr alguma vez em causa a legitimidade de uma greve. Podem ter insultado os grevistas com a panache do costume, mas não discutiram direitos fundamentais. E essa pequena diferença revela-nos muito do que em breve teremos de enfrentar.
Deixo a propósito uma frase de Mário Soares:
Não podemos saudar democraticamente a chamada ‘rua árabe’ e temer as nossas próprias ruas e praças.

A moça do DN é amiga do blog?
Estará a comparar os regimes árabes com o nosso?
Excepto quando é a “extrema direita”
ou os “tea party” não é?
Há 700.000 desempregados que estariam dispostos a ocupar o emprego dos grevistas, provavelmente por um salário mais baixo, não fossem as malditas leis laborais era corrê-los a todos e comprar um contentor de desempregados. De preferência licenciados, que gostem de desafios (aka remuneração variável), com experiência profissional de 40 anos, dispostos a estágio profissional.
Ser trabalhador hoje é um favor que os empresários, esses heróis, nos fazem.
Que abuso, cuspir na mão que nos alimenta.
Se esta crise passasse (vai passar?) sem greves, algo de muito estranho estaria a acontecer. Porém, sendo as greves (em Portugal?) por natureza exclusivas de muitos cidadãos, mesmo as gerais, parece-me inevitável que algum, justo, descontentamento se gere.
Descontentamento, no género “que chatice”, é uma coisa — sugerir veladamente que são um abuso é outra. E quanto ao problema de excluírem os cidadãos, suponho que se resolvia em grande medida com outros sindicatos e com outros cidadãos.