Austeridade (1).


vidabreve,

Foi o pior dos tempos, foram tempos do pior. Numa rua calma, o engenheiro Armando erguia uma beata da borda de um canteiro quando se deixou sobressaltar pela voz do Albertino, velho camarada do Técnico.

 

– Ainda fumas, pá?
– Não, Albertinho — é esta canalha que enche as ruas de lixo…

 

Com certo pesar deitou fora o cigarro e anuiu ao convite do amigo para tomar uma bica. Na esplanada da Mexicana maldisseram o Governo, o estado social, as elites muito reles e o populacho acabrunhado.

 

– E o que podíamos ser com este sol e este mar, Armando: Londres, Berlim, Nova Iorque!

 

Ficaram em silêncio, a pensar em Nova Iorque.

 

– Nunca vi gajas tão boas, Albertinho…

 

Quando chegou a conta — dois euros e quarenta—  puseram as mãos nos bolsos com gestos imperiosos.

 

– Deixa estar.
– Não, eu é que convidei.

 

Mas um conjunto de circunstâncias explicava que, tendo um deles saído à pressa, sem carteira, e o outro posto roupa de Outono por causa da manhã enevoada, não reunissem entre ambos mais de setenta e cinco cêntimos.

 

Armando foi ao multibanco. Pouco depois, Albertino desertou.

Um comentário em “Austeridade (1).”

  1. Francamente , caro Luis M. Jorge !
    A malta depois de deixar o Técnico já não volta à Mexicana, pelo menos eu, as gajas já eram velhas e agora sou eu 🙂
    E da malta do Técnico há aquela dos leões no circo…e ainda não havia austeridade ( ou haveria ? )
    Cumprimentos

    PS ( não me leve a mal) : Albertino dá Albertinho porquê, se ainda fosse Alberto, senão Abertininho … )

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