A escola económica judaico-cristã dirige o seu olhar castigador para um novo alvo. Desta vez não exige a mortificação dos povos do Sul da Europa, ou a expiação dos graves pecados cometidos pela nossa função pública. Não; a prioridade da semana é extinguir feriados. Um raciocínio simples, adequado à tocante singeleza das nossas cabecinhas: com menos feriados, vamos trabalhar mais. Se trabalharmos mais, vamos produzir mais, logo não há que hesitar — certo?
Errado.
O Rui Passos Rocha, alma a que não se conheciam até agora tendências anti-liberais, descobriu em dois minutos um artigo a demonstrar que a existência de feriados afecta positivamente o crescimento económico, embora de modo marginal. E a seguir revela-nos uma lista com o número de feriados das economias mais produtivas da União Europeia (dica: a Suécia tem tantos como nós, e o Luxemburgo só um a menos).
Mas claro, agitar preconceitos disfarçados de evidências e espumar contra a preguiça é sempre mais fácil do que tentar perceber esse conjunto de fenómenos, nem sempre intuitivos, a que há quem chame realidade.

Luís, deixo-te esta história que é real. Uma fábrica do Norte decidiu, para combater a crise, há dois anos, cortar com a cozinha existente e contratar um serviço de catering. Conclusão? a produtividade baixou, aumentaram as baixas médicas, o ambiente estragou-se. Inteligente, o dono da fábrica reuniu com o pessoal todo e perguntou se a questão se prendia com os tabuleiros embrulhados em papel transparente com comida pré fabricada. Houve quem tenha dito que sim, houve quem tenha apontado outras questões. O dono da fábrica reabriu a cozinha. Que eu saiba a fábrica ainda está de saúde e a comida da dona Isaura e ajudantes é maravilhosa, caseira e cheira bem. Bom fim de semana P
Observar o problema sem preconceitos; testar soluções; reformular. Eis um bom exemplo de boa gestão.
Não tenho nada contra a preguiça, mas parece-me bem que se espume contra ela nos tempos que correm.
Mas também tu – e o RPR, e o tal estudo – estão a cometer o mesmo erro de raciocínio apressado que transforma em evidência uma estatística cega: os países que o estudo dá como principal exemplo para sustentar essa teoria (com os nórdicos à cabeça, como sempre nestas matérias) não são mais produtivos por terem mais feriados. Talvez seja exactamente o contrário, afinal: têm mais feriados porque podem dar-se a esse luxo, e podem dar-se a esse luxo porque têm altos índices de produtividade.
Não, Ana, o que o artigo diz é que os países referidos ganham alguma coisa (marginalmente) por terem os feriados que têm.
Ou seja: terem feriados é bom, não porque se podem “dar a esse luxo” como sugeres, mas porque esse “luxo” não é um luxo — é um incentivo ao crescimento.
Contra-intuitivo, sem dúvida.
E repara que este post não é bem sobre os feriados, mas sobre o modo como construímos “raciocínios económicos” sobre falsas evidências e preconceitos ideológicos.
Aliás o artigo do Vasco Pulido Valente que o Rui cita é um belo exemplo de péssimo exemplo muito comum entre nós.
Suspeito que os nossos líderes de opinião também são preguiçosos.
E o VPV mais do que todos. Cultiva o género, aliás.
Reparei nisso, Luís. Mas acho tão errado agitar esse estudo como evidência, como apontar aos feriados culpas nos nossos baixos índices de produtividade. O efeito de um feriado na economia não pode ser o mesmo cá e lá, até porque essa conclusão assenta na vantagem de um incentivo ao consumo durante os feriados, e o nosso poder de compra está abaixo de zero.
Ok, concordo: e mais que isso, nada me diz que um incentivo ao consumo fosse positivo neste momento (incentivar o consumo seria estimular a dívida?).
Por isso é que acrescentei que o post não é sobre feriados, mas sobre o modo como se constroem raciocínios económicos em cima de lugares-comuns ideologicamente interiorizados.
E a este respeito o post do Rui é tudo menos um lugar-comum.
Se pode ter desvantagens (e eu não julgo que tenha), tem uma vantagem enorme que é a de combater as tretas económicas arvoradas em verdades universais.
Incentivar o consumo, neste momento, seria aumentar a dívida porque cerca de dois terços dos produtos que consumimos são importados, Ana e Luís. E na década de 2000 Portugal tornou-se a terceira economia mais endividada do mundo.
Então, foi isso que sugeri, Pedro. Mas como digo, o post não é uma defesa do incentivo ao consumo, é uma defesa do rigor na justificação de decisões económicas. E, principalmente, uma defesa da separação entre declarações morais e análise económica, algo de que estamos a precisar como pão para a boca. Mas este é um grande tema que não se esgota aqui.
Estou muito preocupado com a nossa disciplina intelectual. A disciplina intelectual e analítica, os meus amigos perdoem a sentença, é a base do desenvolvimento. Tenho dito.
Reproduzo o comentário que deixei no post:
Duas correcções:
– a Holanda tem, fixos, 9 feriados. Lista: 1 de Janeiro; Domingo e segunda-feira de Páscoa; Dia da Rainha (30 de Abril); Dia da Ascenção (40 dias depois da Páscoa); Pentecoste (domingo e segunda feira, 7 semanas depois da Páscoa); Natal (25 e 26 de Dezembro).
A estes adicionam-se possivelmente o dia da libertação (5 de Maio – todos os anos para funcionários públicos e obrigatoriamente a cada 5 anos para todos os outros); a sexta-feira santa para funcionários públicos e empresas que a decidam dar; o dia de S. Nicolau (5 de Dezembro) poderá receber tolerância de ponto (na prática quase toda a gente desaparece à tarde); o mesmo para o dia 24 de Dezembro.
– Na Alemanha os feriados dependem dos estados (“Länder”). Quanto mais católico, mais feriados terá (combinando feriados católicos e protestantes). Baviera e Baden-Württemberg são os estados com mais feriados, 12 (também são os mais produtivos e ricos). Vários outros têm apenas 9 feriados.
O assunto, seja como for, é ridículo. Na Alemanha e como funcionário público (trabalho numa universidade) tenho direito a 29 dias de férias (25 se tivesse menos de 30 anos de idade). Nas empresas este valor é muitas vezes ultrapassado através de sistemas de horas e outras compensações. Na Holanda tinha um módico total de 42 dias de férias na Universidade onde estive (mais uma vez através de sistemas de compensações) e 31 na empresa onde trabalhei.
Se somarmos os 31 dias de férias (valor habitual nas empresas holandesas) aos 7 (não contando domingos) de feriados, temos 38 dias livres por ano na Holanda (na Alemanha será semelhante). Em Portugal, somando os 14 feriados aos 21 dias de férias, chegamos aos 35. Os holandeses ficam-se a rir. Se falarmos em função pública então os holandeses podem prescindir dos feriados que continuam a ter mais descanso. Além de trabalharem menos horas, na prática, que os portugueses.
Obrigado pela correcção, João André.
De facto o assunto é menor, mas o modo como se fala destes assuntos revela muito sobre nós.
Tenha calma, que esta medida, segundo o que me chegou, não é para aplicar a todos os trabalhadores! Destina-se apenas aos mandriões da função pública, pois toda a elite que trabalha na privada poderá continuar a gozar, como até aqui, a totalidade dos feriados, atenta a sua altíssima produtividade e reconhecida competência em todos os sectores do mundo laboral, sem excepção.
A Suécia e o Luxemburgo podem ter esses feriados todos, mas não têm pontes.
O problema em Portugal não são os feriados, são as pontes. A eliminação dos feriados é uma forma de reduzir esse problema.
Os portugueses pecaram de mais com as pontes. Agora vem o castigo, a redução dos feriados.
Claro, Luís. A seguir ao “pecado” vem sempre um “castigo”.
Mas qual é o problema das pontes? Os dias das pontes não são dias de férias gastos? Então afinal a livre iniciativa e gestão liberal privada é má? As pontes são dogmaticamente más, por isso há que combatê-las?
Que diabo, então afinal já nem sequer o trabalhador tem direito de dispor de metade dos dias de férias para marcar como lhe aprouver? Mesmo quando, normalmente, nem estes são exactamente como interessa ao trabalhador, mas uma combinação de interesses entre este e a empresa?
Essa história das pontes ainda é pior que a dos feriados!
Tirar dias de férias é um pecado, como toda a gente sabe e o Álvaro não tardará a revelar-nos.
Sobre a questão dos feriados nunca oiço dizer que, por exemplo na Bélgica, onde tenho família, se um feriado calha ao Sábado é gozado à sexta, se calha ao Domingo avança para Segunda. Não sei se feitas as contas não temos feriados a menos.
E veja os indicadores de produtividade da Bélgica.
Os feriados são a nuvem, Juno é outra coisa. Mas já agora que (não) vem ao caso, por acaso sou completamente a favor de uma reestruturação dos feriados. Não digo que fossem menos nem mais: digo simplesmente que deviam passar para a sexta ou para a segunda e ponto final (à excepção de datas como o 25 dez e o 1 de Jan).
Com essa simples medida acabava-se com 2 cancros: o vício da pedinchice das pontes e o transtorno das paragens a meio da semana. Todos ganhávamos.
Mas ainda existe gente a pedir pontes, Laura? Julgo que é um fenómeno extinto.
Peanuts. E completamente irrelevante para mudar o país.
O nosso problema não é trabalhar mais é produtividade.
Mas num pais sempre preocupado mais com as aparências do que com os contas que importam era fatal aparecer…
Exacto.