Avistei a farmácia onde esperava adquirir o medicamento que me aliviasse uma inflamação nas gengivas. Abri a porta, com as mãos cobertas por luvas grossas, e comecei por sorrir, sabendo que a paciência, a linguagem gestual e recurso a um inglês básico – que mais se parecia com um “You Jane, Me Tarzan” – seriam a melhor arma para fazer passar a minha mensagem.
Por detrás do balcão o sorriso foi-me devolvido, juntamente com uma sopa de letras, que em linguagem local deveria significar algo do género: “Como posso ajudar?”. Talvez ele, de corpo enrolado na sua bata branca, me tenha dito algo diferente – do estilo: “Que tempo que está hoje! Que frio!”. Fiquei-me pela intuição.
Ora, apontei para as gengivas e fiz rostos que, na nossa terra, remetem para o verbo “sofrer”. Raios, como se diz gengivas em inglês? – pensei. Raios, como se chamam aqueles produtos que se usam para estes males!? Não passei por macaco, nem por analfabeta, mas também não havia palavra que pronunciasse à qual ele conseguisse atribuir significado.
Por fim, disse-me – apontando com o dedo o circuito -, que contornasse o balcão e me sentasse na sua cadeira. Hesitei, com receio de ter lido mal o esquema. Por fim, cedi. Sentou-me, colocando as mãos sobre os meus ombros e apontou para o visor no qual abrira a página do “Google translate”. Sorri, seleccionei o idioma. Ele observava e acenava. Escrevi: “gengiva inflamada”. De imediato algo indecifrável se formou do lado direito e o senhor exclamou “Ahhhh”. Sai porta a fora com uma embalagem de Listerine e um sorriso satisfeito. Ele permaneceu, divertido. Ambos levámos para casa uma história para contar – cada um na sua língua, enfim.

Com as novas tecnologias, não há inglês enferrujado para ninguém, nem gengivas inchadas que resistam. Só há ‘novas oportunidades’, é o que é!
ahahah =) O problema não é o facto de me faltar uma palavra, mas o facto de cá ninguém falar inglês… =/
Mas pelo menos são desenrascados e esforçam-se. O mesmo não se pode dizer dos russos e falo deles porque nunca tinha estado num sítio onde a comunicação fosse tão difícil. Esses não querem saber mesmo.
Não me digas nada Leonor. Para saber o caminho que deveria tomar para chegar ao aeroporto em Moscovo, tive de estender os braços, correr em círculos e imitar o som de um motor. =/
Finalmente alguém que me entende. São impressionantes, os moscovitas.
E antipáticos 😐
Muito. Escrevi aqui no Delito uns post sobre eles, mas não consigo encontrar o link. Fica este: http://o-meu-pai-e-eu.blogspot.com/sear ch/label/v%C3%AAm%20a%C3%AD%20os%20russo s
é realmente estranho fazermos fila para ver um corpo sem vida. Eu, criança como sou, queria ir ver de perto, para comprovar se era de carne ou de cera 😉 E é engraçado o que dizes de Moscovo: realmente há muita beleza nas profundezas. Com o resto, tirando os “must see”, fiquei um pouco desiludida.
É mesmo, mas lá fomos. Ainda me ri porque fui com a minha mãe ver o dito e ela para ver melhor, tipo o lobo do Capuchinho Vermelho, lembrou-se de de ir buscar os óculos para ver melhor o Lenine. Os guardas ficaram logo em alerta não fosse uma senhora de 75 anos fazer algum mal. E sim, as profundezas são avassaladoras. Valeu pela experiência mesmo.
Adorei 🙂
Agradeço a leitura, Leonor 😉
Penso que a mesma táctica poderá ser usada, ainda com mais vantagem, a partir de um simples telemóvel.
É um facto…mas parece que, nem eu, nem os turcos, estamos muito entregues às “novas” tecnologias. 😉
gums, swollen gums
Cláudia, gengivas inflamadas é mau em qualquer parte do mundo. Mas em Istambul tem o seu quê de aventureiro, filme de Indiana Jones, assim dentro do género. 🙂
Espero que o Listerine turco tenha resultado.
Sim, a Cláudia deve ter corrido imensos perigos para arranjar esse medicamente tão raro na Turquia, numa feira de rua em Constantinopla a um otomano façanhudo;)
Vende-se muita coisa aqui na rua. Vim para cá determinada a experimentar um pouco de tudo 😉
Olá Ivone! Sim, felizmente, resolveu o problema e ainda deu para eu me rir um pouco 😉
Este post chama-se “Inutilidades…” mas é muito útil. A ver se não me esqueço da próxima vez que me faltarem as palavras. Afinal, temos os instrumentos, só é preciso lembrarmo-nos de os usar.
Obrigada, Cláudia.