Cabo Verde (e o Brasil) no Mundial


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Como anunciara, ontem foi dia de Tubarões Azuis. Grande resultado na estreia contra Espanha, campeã europeia. Ficou símbolo o guarda-redes Vozinha. Um “Vozeirão”, disse-o aquando do apito final! Mas depois – e sem com isso o apoucar, bem pelo contrário – sopesei bem isto da produção simbólica. Como justificar que o maciço Golias não esmague o arquipelágico David? Pelo heroísmo de um herói, tornado lendário. Mas, de facto, Vozinha não foi heróico, apenas competente. Na meia dúzia de defesas, duas ou três difíceis (até espectaculares). Mas nada sobre-humano. Fica símbolo de uma outra realidade: um conjunto de profissionais relativamente modestos muito bem organizados que jogaram com enorme competência contra um grupo  de celebridades. Nada de sobrenatural!

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Mas, claro, a alegria da “bola” é esta, os nada-favoritos cobrirem-se de glória. Até o generalista “The Guardian” coloca o símbolo Vozinha na capa! De ontem para hoje este ganhou 6 milhões de adeptos (eu um deles) na rede Instagram! Mas a verdadeira coroa de louros? O espanhol Rodri, cabecilha do milionário Manchester City, Bola de Ouro 2024, a choramingar que Cabo Verde só se defendeu!!!! Grande Vozinha, grandes Tubarões Azuis…

E O BRASIL

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O Brasil não entrou mal, pois Marrocos é uma grande equipa, subvalorizada pela distracção eurocentrada. Mas o empate foi mal recebido pelos torcedores brasileiros, menos fanáticos do que irrealistas, sempre julgando as suas selecções melhores do que o são. Vi algures um qualquer “comentador” gritando que “a selecção de Brasil é como a selecção de Moçambique”, e repetia a invectiva… Mas o relevante é este excerto, delicioso, que apanhei: 

A propósito do Mundial e da campanha brasileira, uma entrevista recente de Rivelino (para os mais novos, Rivelino foi um enorme médio, titular na equipa-maravilha campeã mundial em 1970, herdeiro da camisola 10 de Pelé em 1974 e era o ídolo de juventude de Maradona).

Repórter: “Rivelino …tu tens assistido aos jogos da Selecção? “
Rivelino: “tentei …mas só vi uns dez minutos e desliguei a TV.”
Repórter: “Rivelino, se aquela Selecção da Copa de 70 jogasse contra a atual, quanto seria o placar?”
Rivelino: “Seria 1 X 0 pra nós…ou 2 x1 …por aí.”
Repórter: “Mas só isto?”
Rivelino: “Você tem que ver o seguinte – Pelé já morreu e nós estamos com mais de oitenta anos.”

(A imagem é a do cromo da minha colecção do Mundial de 1974)

Dia dos Tubarões Azuis


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Mesmo detestando eu a mediocridade poluente da ladainha “lusofonia” (que ambiciona ser muito mais do que a mera descrição de “falantes de português”), há tempos deixei aqui uma crónica sobre o “internacionalismo lusófono” futebolístico – evocando um caso de entusiástica (e então até surpreendente) adesão austral à nossa selecção nacional…

 

Recordo o texto pois hoje é a minha vez de “internacionalista”. Estou completamente por Cabo Verde, neste dia da sua estreia no Mundial de futebol. E logo contra os “nuestros hermanos”, esses Cains dos quais nunca será de esperar “nem bom vento, nem bom … cruzamento”.

 

E, desprovido que estou de cachecol dos “Tubarões Azuis” que me acompanhe ao sofá, hoje neste estarei ombreando com esta garrafa de “Tropicana”, grogue do arquipélago que casal de bons amigos acabou de ofertar no seu regresso de férias por lá passadas – junto fotografia comprovativa:

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A Feira do Livro nos Olivais


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(Banca de livros ofertados no “Evaldo”, entre a Rua Cidade de Bissau e a Rua Cidade de Bolama)

Os velhos cafés e restaurantes de bairro, tais como as consagradas tascas, estão a desaparecer. As razões são várias. Pelo lado da “procura” – a clientela – a mudança de hábitos é evidente, com as gentes fechando-se nas casas, abandonando as contas da rede social “vizinhança”, optando pelas grátis nas digitais e – no caso dos mais-velhos – pela infinitude de canais televisivos.

E também pelo lado da “oferta” – dos proprietários – não haverá muitas dúvidas sobre a causa desta extinção. Pois arrendar um espaço – vão de escada com postigo que seja – tornou-se empresa arrojada, até inconsciente. Mas do que isso, alteraram-se as expectativas de vida. E assim se esvaiu aquele antigo modelo do casal beirão, minhoto ou mesmo até galego, a aportar à cidade grande para dedicar a vida conjugal, de breu a breu, ao incessante e exaustivo labor de servir petiscos, “bicas” ou “penaltis” aos outros. Socorrendo-se, logo que o negócio melhorasse um pouco que fosse, de algum marçano oriundo da velha aldeia a quem mandavam “carta de chamada” oficiosa. Isso enquanto não lhes medrava a prole, esta logo que púbere posta a “ajudar”.

Nada contra isto, é uma vertente da melhoria do “Índice do Desenvolvimento Humano”. Mas este enriquecimento global trouxe também o empobrecimento local. Pois assim escasseiam, mesmo inexistem, os locais de convívio vicinal, de entreajuda moral (e não só), aqueles “centros de dia” para mais idosos ou “vespertinos” para os ariscos, tutelados pelo “amigo Quaresma” ou “Sô Claudino”, coadjuvado pela “Alice” ou “Dona Maria”. Cada um com a sua tabela de “não fiados”, tempero próprio e onde o cliente é não só alguém (o “Teixeira” ou o “Zezé” no meu caso) como encontra o habitual ror de alguéns que aprova e até demanda.

Tudo isso vem sendo substituído, esvaziando a vida cidadã. Na década de 1980 o aperto do FMI causara aquela epidemia de croissanterias às mãos das desgentrificadas da classe média remediada. Agora algumas das suas descendentes “bruncharam-se”, meneiam-se em “bistrôs” ou proselitam vegetais. E grassam as sensaboronas “cadeias”, desde a anódina lusa “Padaria Portuguesa” e suas tristes sequelas até aos evidentes investimentos em plataformas para obtenção de vistos de residência europeia, nos quais rotativos “colaboradores” servem plasticinas ditas “latte”, “kebab”, “pita shoarma” e quejandas agressões.

Face a este (cada vez mais) antipático ambiente, aqui no bairro Olivais houve recentes inovações, benfazejas. Pois foram concessionadas licenças para “barracas”, modestos estabelecimentos amovíveis que os donos trazem. E nos quais se esfalfam a trabalhar…

Na minha vizinhança, nas cercanias do pólo Centro Comercial, entre as “bocas” do metropolitano, a igreja velha, a Biblioteca e a célebre Quinta Pedagógica, estabeleceram-se duas dessas, mesmo no entroncamento da Bissau com a Bolama. Geridas por casais imigrantes brasileiros, já portugueses dadas as décadas que acumulam por cá. Modelos de verdadeiro “empreendedorismo”, essa moda ideológica reformista, de honesto “trabalho” popular, esse mais anterior valor revolucionário.

O gentil Silva, e a sua Rosângela, cumprem servindo bons pastelinhos lá na barraca amarela mesmo à saída do metropolitano – não será o “Bar Vesúvio” da Gabriela mas os veteranos vizinhos palitam os dentes e sorriem dizendo-o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E voltam no dia seguinte.

Um pouco acima está a barraca de listas azul-e-branco, qual malvado F. C. Porto, e que tanto me faz lembrar as concessionadas barracas de praia (essas que agora tanta polémica causam) de “meu” São Martinho do Porto. Eu e alguns amigos dela fizemos o nosso poiso, e muitos outros vizinhos o têm feito. É o local do Evaldo, um já lusobrasileiro muito boa onda – nada daquela simpatia plástica que tantos brasileiros afixam (“isso é coisa de carioca” outros me afiançam). Pois uma gentileza mesmo, de vero sorriso afivelado na sua labuta constante.

À barraca do Evaldo chamámos entre-nós o “Leblon” (“vamos ao Leblon”, desafiamo-nos, “leblonas?” telefonamo-nos). Ali se bebe o copo vespertino, no rescaldo do dia. Comem-se uns belos hamburgueres (sim, hamburgueres, pois aqui não há ponta de xenofobia comensal) e alguns canapés, produtos preparados em casa pela D. Eugénia, sua mulher.

O casal está cá há mais de vinte anos, numa dura labuta na “restauração” (como agora se chama a esta actividade). E soube, aqui em plena rua dos Olivais, criar um “sítio”. Um espaço como aqueles que décadas atrás existiam aqui no bairro, resguardados nas “lojas” dos prédios, mas que foram mirrando e, depois, desaparecendo. Ou seja, o “Evaldo” (o nosso “Leblon”) faz “bairro”, faz “Olivais”.

E nesse registo de vizinhança, de (quase) “comunidade”, neste entre-feriados soalheiros brotou uma mostra disso, desta comunhão. Pois ali se instaurou uma Feira do Livro. Alguns clientes levam livros para oferecer, outros clientes e os passantes são convocados pelo dono, este usando uma maravilhosa expressão, o “gosta de ler livros?” – que logo me fez brotar saudades ao lembrar a forma “horas de tempo” moçambicana. E quem gosta vasculha o que lá está nesse dia, pois a oferta sempre muda, e leva o que lhe interessar. Outros animam-se e regressam com dádivas num simpático “boa ideia!”. E vai-se bebericando, sendo vizinho.

Fazendo Olivais. Aparece por lá! Apareça por lá. Com uns livros para dar. Ou em busca de um qualquer livro… Sendo vizinho.

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(Postal antes colocado no meu “O Pimentel“)

De Quelimane a Nova Iorque


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De Quelimane

No passado sábado assaltantes invadiram a residência oficial (“Paço Episcopal”) do bispado de Quelimane e assassinaram Osório Citora Afonso, ali bispo desde 2025 – o qual em Abril passado fora nomeado também administrador apostólico interino da Beira.

As notícias não ecoam quaisquer indícios de roubo. Entretanto chegam-me fotografias do seu cadáver, as quais me eximo de partilhar – e é denotativo do estado insecuritário que estas brutais imagens passem de imediato para o público. Tudo indica que o bispo foi, pura e simplesmente, executado com tiros de metralhadora, a simbólica AK-47, a qual também não é arma usual entre meros criminosos de delito comum.

É evidente o carácter extraordinário deste crime. Pois mesmo sendo recorrente o assassinato de clérigos católicos em diversos países, neste XXI há apenas notícia de outros quatro assassinatos de bispos: O’Connell, bispo auxiliar de Los Angeles, abatido em 2023 por um indivíduo com problemas mentais; Padovese, morto em 2010 por motivos religiosos na Turquia pelo seu motorista; Courtney, núncio apostólico no Burundi, vítima de emboscada em 2003; e Cancino, morto em 2002 em Cali por iniciativa dos cartéis guerrilheiros.

Ou seja, este inusitado assassinato de um bispo católico é demonstrativo do estado geral em Moçambique, o de uma violência armada galopante que segue impune. A qual integra a perseguição aos oposicionistas políticos – como denuncia o partido Anamola, alertando para o assassinato de 57 dos seus membros durante o último ano. Sendo que é usual não serem encontrados os agentes e os mandantes desses crimes.

E, mais ainda, a prevalência do conflito no Cabo Delgado, já longo de quase uma década. No qual nestes últimos meses a “insurgência” islamita vem recrudescendo as acções, também muito incidindo sobre instalações e agentes cristãos. E dizer isto não é reduzir o conflito a uma “guerra de religiões” – como logo alguns “intelectuais” acorrem a criticar. É apenas constatar uma realidade.

Sendo assim surpreendente que a União Europeia tenha agora terminado o financiamento ao destacamento ruandês – que agora passou a provir de Maputo. O qual está na região para suster aquela guerrilha, dada a incapacidade patenteada durante anos pelas forças armadas moçambicanas para cumprir esse objectivo. Um caso de desatenção europeia, muito provavalmente provocada por excessivo seguidismo às sanções norte-americanas aos parceiros do Ruanda. E se há caso para se exigir autonomia face aos EUA é este! Pois há que matizar as políticas externas.

O bispo Afonso havia recentemente denunciado esse aumento da actividade da guerrilha islamita, e alertado e para a perseguição que (também) os membros do clero católico sofriam. E é dramaticamente exemplificativo que a sua última prelecção pública – nesta gravação – tenha sido na véspera da sua morte, uma ecuménica visita a uma mesquita em prol da pacífica convivência inter-religiosa.

Este lamentável assassinato mostra bem o estado da situação moçambicana, económica, política e militar. Só não a vê quem não quer.

 

A Nova Iorque

Há uns dias aqui coloquei o texto “Escravos nas Nações Unidas” no qual defendi a pertinência de uma recente abstenção portuguesa nas Nações Unidas durante a votação de uma proposta de cariz ideológico. Considerando que não é o momento para exarcebar conflitualidades, espúrias, que adviriam de um voto negativo.

Agora, dois meses depois, Portugal foi eleito pela quarta vez para um biénio como membro não-permanente no Conselho de Segurança da ONU – já ocupara o lugar em 1979-1980, 1997-1998, 2011-2012. E, ao invés das situações pretéritas, desta vez a eleição ocorreu logo na primeira ronda de votações. É um sucesso que traduz um bom trabalho da diplomacia portuguesa – uma actividade demasiado subvalorizada – e demonstra uma boa percepção internacional sobre os rumos do nosso país.

Ou seja, as coisas reais são assim – e é melhor dirimi-las com realismo do que entrar em frenesim diante dos radicalismos alheios, tantas vezes superficiais.

É certo que alguns tendem a invectivar que “a ONU é inútil”, “nada resolve” pois “não tem poder!”, “basta ver o estado do mundo”, muito por ser uma “confusão” – o pobre termo com o qual conseguem formular a percepção de pandemónico babélico que sobre a organização têm. É evidente que estas pobres, de irreflectidas, opiniões normalmente são emitidas pelos mais ferrenhos adeptos da “soberania nacional” – aqueles da “Europa das nações”, os mais reaccionários dos reaccionários -, como se esta sacra e quase infinita. Enquanto ao mesmo tempo criticam uma multilateral universal por “não mandar”, não lhes restringir bastante a tal “soberania”. De facto, no afã da contestação, há quem não perceba as contradições próprias.

O exercício deste lugar no Conselho de Segurança não atribui um “poder” mandante, fáctico. Mas permite alguma influência na administração das problemáticas em curso e no agendamento de questões internacionais que sejam mais relevantes para o interesse (não necessariamente interesseiro) nacional – sobre o exercício anterior (2011-2012) basta procurar o descritivo artigo “Portugal no Conselho de Segurança das Nações Unidas e a Importância das Questões de Direito Internacional Humanitário Face aos Conflitos” de Sónia Roque. Assim sendo, esta eleição é um dado positivo.

E não posso deixar de pensar isto: há seis anos louvei a excelente actuação do então eurodeputado Paulo Rangel face à inércia geral reinante sobre o Cabo Delgado. Fê-lo num bom artigo no “Público” em crítica ao nosso próprio governo de então. E numa bela intervenção no Parlamento Europeu – no qual encabeçou uma preciosa Resolução sobre o assunto.

Muito espero que o agora Ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel, após ter capitaneado o esforço português para ascender ao Conselho de Segurança, possa promover as urgentíssimas matérias moçambicanas para o rol de preocupações prioritárias deste orgão máximo da ONU. Para a sua “agenda”, como sói dizer-se.

(Texto antes colocado no meu “O Pimentel“)

A Páginas Tantas, de Carlos Brito


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Após a sua morte li alguns livros de Carlos Brito, entre os quais este romance “A Páginas Tantas” (2000). A trama é pouco refinada – mas suportaria um folhetim televisivo. Decorre durante a queda do muro de Berlim, entre personagens algo tipificadas, representativas do espectro de sensibilidades políticas dos resistentes ao Estado Novo. O mote político é a ascensão ao poder – então o PSD de Cavaco Silva – de Valdez. Este fora um exilado, líder de um pequeno grupo maoísta avesso aos “sociais-fascistas e revisionistas do PCP”, que refutavam a luta armada e por isso vistos como instrumentos “para controlar a classe operária”.

Brito recupera o diagnóstico de Cunhal sobre os radicais “pequeno-burgueses de fachada socialista”, alertando não serem (todos) “más pessoas” (p. 77), mas faz desse Valdez um arquétipo. Rodeado de uma “fauna dos gabinetes” (os futuros “boys”, diz mesmo), literalmente gulosa e voraz – enquanto os camaradas surgem em cenas comensais com apetite jubiloso, pois legítimo, um traço moralista evidente -, o ex-maoísta é desprovido de valores, tendo ascendido a Secretário de Estado da Cooperação e rumar a Ministro dos Negócios Estrangeiros (é impossível não pensar tratar-se de um decalque de Durão Barroso). Mas pressionado por uma conspiração através dos “serviços de informação” – o que traduz a percepção de uma omipresença de uma “Pide” na democracia – acaba por sair do governo e transitar para a administração dos grandes interesses económicos, o verdadeiro poder.

Mas o mais interessante, pois tão actual, deste Valdez é uma sua antiga proposta – que lhe causa a demissão governamental. Pois em finais do Estado Novo, o líder maoísta exilado havia defendido fazer confluir vagas de emigrantes portugueses para o pequeno Luxemburgo, numa “substituição demográfica” que o tornasse trampolim contra a ditadura portuguesa. Ou seja, o ficcional Valdez surge como um precursor da actual e explícita Irene Montero do PODEMOS, e de tantos outros implícitos, na ânsia de que a imigração altere os contextos políticos nacionais.

O outro mote do livro é a apresentação da mundividência dos “antifascistas” naquele final de ciclo histórico, em particular a dos comunistas. Num ambiente em que “não há separação das vidas pessoais da política” (p. 122). Tão nítido quando Rogério e Ester, antigos maoístas convertidos aos partidos sistémicos, se casam e “selaram a união com os papéis oficiais e uma pequena festa que reuniu os correligionários mais próximos de cada um, visto que tinham divergido politicamente e rumado para diferentes destinos partidários” (45). Nesse registo existencial a prática comunista surge assente na moral. Diz um militante, dos rijos: “Temos um coração maior… Recuso qualquer insinuação de fanatismo. Chamo-lhe antes amor pelos outros, especialmente pelos mais sofredores e injustiçados… parece que bebi a punção de advogados dos oprimidos, seja qual for o lugar do mundo onde se encontrem…” (p. 123).

A “queda do muro”, a desagregação comunista, é sofrida, pois os “americanos” recuperam terreno com “o fim das democracias populares”. E vista através do alijar de consequências teóricas e políticas, pois devida a “meros erros de prática”6 dos “gorbatchoves” (p. 189). Face à catadupa das notícias entre os militantes invectivam-se “as barbaridades” da televisão, contra a “hedionda manipulação histórica” esquecendo a “luta contra os nazis” (p. 160), esta sempre justificativa da realidade posterior.

E a isso se alia o diagnóstico sobre a correcção do PCP. Um calibrado militante esclarece terem um programa pluralista e já feito profíqua e suficiente autocrítica face aos rumos soviéticos (pp. 174-175). Alertando para a “furiosa” “campanha anticomunista” que adviria e refutando o fraccionismo “divisionista” (pp. 170-171) – a realçar pois Brito terá tido invectivas desse teor. O cerne do livro surge na explicação do título, en passant, numa recusa que é lamento: “E de repente, a páginas tantas, querem transformar-nos, a nós que sempre fomos vítimas, em carrascos” (p. 176).

É certo que Brito faz falar várias personagens, nisso várias perspectivas sobre as ocorrências passadas e contemporâneas. Mas do global não se retira algum nítido afastamento do autor das visões mais generalizadas entre os seus camaradas. E, acima de tudo, resta um substrato moral como justificativo da vida política. Moralista, de facto. O que é escasso para quem se dedicou à militância através de uma perspectiva que se disse – e impôs com extrema acidez e virulência – como “científica”. Mas das leituras ficou-me também outra visão: a de que o autor terá sido um homem firme mas plácido, com a qualidade de leitor de Simenon. E bem-intencionado. O que é, moralismos à parte, mau na política, pois originando rumos tétricos, comprova-o a história.

[Parcela de um texto mais longo, “O anticomunista primário“, que publiquei no meu blog “O Pimentel“]

Evidentes melhorias no Aeroporto de Lisboa!


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Os cidadãos portugueses – e alguns residentes estrangeiros, em particular os brasileiros – têm uma enorme e enfadonha tendência para sempre criticarem as instituições e empresas portuguesas. Como se o país involuísse constantemente.

 

Ora isso não corresponde à verdade. Há evidentes melhorias no funcionamento dos serviços e na mundividência dos seus agentes. Disso evidente exemplo é o Aeroporto da Portela. E explico:

 

Há cerca de 15 anos estávamos de regresso a Moçambique. Avançámos até ao balcão de devolução do IVA. A fila de passageiros era enorme – a maioria angolana – e a execução muito morosa, por mais que se esforçasse o único funcionário ali colocado. Enfim, não se justificava esperar mais tempo, logo decidimos desistir.

 

Praticante do meu então Blackberry, empunhei-o para registar a mole ali expectante e deixar nota em blog da evidente malícia administrativa, seguindo aquela estratégia para reduzir a devolução de taxas indevidas. De imediato um funcionário avulso investiu contra mim, sendo depois secundado por “senhor agente” ali prestável. Em tom marcial, numa rispidez escorregando para o desabrido, fui “proibido” de tirar fotografias nas instalações do aeroporto. Ali em família, e com pressa de ir até às cercanias da porta de embarque para beber uma cervejola, guardei o meu resmungo, embolsei o telefone e … perdi o “postal” para o ma-schamba, meu blog de então.

 

Agora vejo fotografias e filmes no Portela, partilhados por várias pessoas – até um deputado, pelo menos -, devido a umas quaisquer minudências aeroportuárias. Já não é “proibido” fotografar e filmar nos aeroportos!

 

E saúdo este evidente sinal da democratização do país!

A Embaixada do Brasil em Lisboa


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Há cerca de um mês aqui referi a intervenção da embaixada brasileira em Lisboa no nosso sistema educativo oficial, a qual considerei um verdadeiro “desplante“. Através da sua secção de acção cultural (o Instituto Guimarães Rosa) estabeleceu um concurso para alunos e professores, no intuito de combater a “xenofobia” e o “racismo” avessos a brasileiros que, segundo aquela embaixada, grassarão no nosso país. Para além de divulgação da ideologia “lusofonia”, cara ao governo brasileiro e que, pelos vistos, considera necessário disseminar em Portugal.

Permiti-me então também especular. Aventando que teria havido alguma contestação – em surdina – diante da iniciativa. Algo que me surgiu ao saber que o sempre “prestável” “Público” fez publicar, exactamente naquele momento, um inusitado artigo, louvaminhando a actividade desse instituto brasileiro de acção cultural externa. Tratou-se deste “Cultura, Língua Portuguesa e Diplomacia: o trabalho do Instituto Guimarães Rosa”, escrito pelo seu presidente, o embaixador Marco António Nakaka (publicado em 4 de Abril de 2026). Inusitado pois o Guimarães Rosa não é uma instituição tão recente assim, a necessitar de uma apresentação aos leitores portugueses (e brasileiros residentes). Pareceu-me até óbvio ter sido uma “coincidência” … demasiada.

O conteúdo da iniciativa é local (só em Portugal) e a sua dimensão é modesta. Ou seja, tudo indica que a decisão de a encetar foi da responsabilidade da embaixada brasileira em Lisboa, sob condução do seu actual embaixador. Esta acção pode ser (des)interpretada de modo plácido, como efeito da cândida mundividência de alguns professores do ensino básico/secundário que – por redes pessoais ou razões partidárias – tenham sido alcandorados a postos na diplomacia “cultural” daquele país e aqui colocados. Mas sem terem, de facto, saído do pátio da escolinha, arreigados na sua (de)formação profissional, nisso estando ainda restritos à apetência de usarem pincéis, plasticinas e cartazes para fazerem as criancinhas serem muito amiguinhas entre elas… Sendo essa platitude, e concomitantes iniciativas, aqui aceite (ou enfastiadamente aturada) por distraídos (entenda-se: assim incompetentes) diplomatas de carreira.

Mas, ao invés, esta iniciativa diplomática brasileira, por modesta que seja, deve ser interpretada com a densidade necessária, política. Pois neste pequeno intrometido concurso a embaixada do Brasil exarou uma avaliação da sociedade portuguesa actual, basto negativa. E anunciou uma forma “activa” – altiva, digo-a – de intervenção do Brasil não só no nosso país como, e fundamentalmente, nas nossas instâncias estatais. Ou então – o que será pior – teve de obedecer a instrução oriunda da sua sede, o Ministério dos Negócios Estrangeiros brasileiro. O que tornará ainda mais oficial essa presunção de legitimidade de ingerência em Portugal, assim não apenas um “deslize” (dislate, de facto) da actual representação diplomática cá colocada.

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O concurso lá decorreu. Não com sucesso estrondoso, o que se nota no adiar do prazo da sua conclusão. Agora o Guimarães Rosa anuncia ter recebido mais uma centena de trabalhos concorrentes, uma quantidade nada abrasiva. Não consta que o nosso Ministério de Educação – até porque sempre assoberbado de matérias prementes – se tenha pronunciado. Nem se ouve que o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros (o interlocutor da embaixada brasileira e seu Guimarães Rosa) se tenha pronunciado sobre o assunto – nem nunca se ouviria, dadas as características da locução diplomática. No máximo constaria…

Enfim, é óbvio que, por si só, não vem grande mal ao mundo com o concursito. O Guimarães Rosa que distribua as dezenas e até centenas de euros por alguns dos púberes concorrentes. E leve os três setôres premiados a passear ao Brasil, eles que se encantem face ao amplexo “cidade maravilhosa”, “garota(s) de Ipanema”, “menino(s) do Rio”, “leãozinho(s)” que seja. 

Mas que também algum graduado (nomeado, entenda-se) do nosso MNE expresse ao “Senhor Embaixador” o nosso “incómodo” (esse tão belo termo diplomático) sentido, embrulhando com um cálido sorriso o necessário “não repitam, se faz o favor”…

Um assassinato político e a distracção da imprensa portuguesa


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Há dois dias em Chimoio, capital da província de Manica (Moçambique) foi  assassinado Anselmo Vicente, o coordenador distrital do novo partido oposicionista Anamola (dirigido por Venâncio Mondlane). Até agora não há qualquer referência nos órgãos de comunicação social escrita portugueses. Ou nos sítios digitais da audiovisual nacional.

Entretanto, os leitores e ouvintes mais atreitos às notícias sobre Moçambique, decerto que poderão continuar a acompanhar, até encantados, os “intercâmbios literários” de escritoras veementemente opinativas, as “performances” artísticas em prol das “restituições” patrimoniais, as deambulações feirantes de  poéticos ficcionistas, embrenhadíssimos defensores do bloco social por lá no poder, e as ladainhas legitimadoras em jargão apostas no “Público” e quejandos. E nisso o nosso público local que se imagina literato, seguirá “informado” e “reflexivo”.

(Durante a semana passada um grande amigo moçambicano perguntou-me, sarcástico, se eu continuava a não falar sobre a actualidade do seu país, depois do meu postal – irritado com o real e enjoado com enleantes que me vieram insultar – “Bye Bye Moçambique” de há uns tempos… Respondi-lhe que assim queria continuar, apesar de ser difícil. Não por ter eu algo a acrescentar sobre o país. Mas devido ao meu incómodo sobre os meus compatriotas aqui. Mas que se lixe a coerência pessoal… Pois o silêncio, mesmo que apenas na mesa desta tasca blogal, é cúmplice…)

Diamonds Are a Girl’s Best Friend


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(“Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, de Jule Styne. Canção escrita para o musical na Broadway ficou celebrizada no filme “Os Homens Preferem as Louras” de 1953, assinado por Howard Hawks e assente no duo Jane Russell e Marilyn Monroe)

Trump é um incessante tópico. Imensa gente escreve sobre ele, tentando interpretá-lo e prever o futuro que influencia. Na Notus-News of United States, John Judis, publicou “Trump as Alexander the Great: A Theory That Explains Iran (And Everything Else)”, coincidente com o artigo “The YOLO Presidency: Trump is focused on becoming one of history’s “great men”, de Ashley Parker and Michael Scherer. Em ambos os textos (críticos) Trump surge como imbuído do estatuto hegeliano de “Grande Homem” (herói universal), essas personagens históricas que carregam o “Espírito” do tempo, e transformam a realidade global, mesmo que não compreendam os motivos e as direcções das suas acções – como Júlio César causando o Império e Napoleão exterminando o feudalismo europeu, para seguir os exemplos de Hegel. E agora Trump assassinando a era do liberalismo, a ordem internacional aparentemente vigente pelo menos desde o colapso do comunismo europeu.

Pouco importa se os textos sobreviverão aos tempos – ou seja, se são diagnósticos com “pernas para andar…”. Mas o certo é que todos – dos populares nos cafés e redes sociais aos dignitários em conciliábulos internacionais – cirandamos em torno do que o homem vai dizendo e fazendo, pois não deixa ninguém indiferente.

Nessa azáfama opinativa e reactiva têm surgido algumas peças relevantes, Trump é um bom dínamo de oratória. Pois o contexto internacional decerto que influenciou o importante discurso do Papa em Luanda (que referi aqui), politicamente mais incisivo do que o habitual em “Santos Padres” – isto para além do inusitado “bate-boca” entre a Casa Branca e o Vaticano que então ocorria. Mas mais explícito foi o aclamado discurso – até manifesto liberal – do canadiano Mark Carney em Davos (que abordei aqui, ecoando as perspicazes reservas de Kasparov com os efeitos do discurso).

E agora a verdadeira pérola, o discurso de Carlos III no Congresso nos EUA (coloquei aqui a gravação completa) – momento sublime que decerto ocasionará um filme que virá a ser galardoado, pelo menos nos britânicos Prémios BAFTA. Como referi neste meu postal, no Congresso norte-americano o Rei Carlos III clamou “No Kings”. Com verdadeiro brilhantismo e finíssima ironia, defendendo a ordem democrática, a coesão intra-social, a solidariedade internacional, a coexistência ecuménica. Uma verdadeira Lição, que lhe garantiu um lugar mais elevado na História do seu país.

Ouvindo o discurso lembrei-me das acusações de “racismo” à família real inglesa, há anos colocadas na imprensa americana mais “liberal” (no sentido americana de “esquerda”) pela actriz Meghan Markle, a duquesa nora de Carlos III – entretanto saída de cena, tal como o seu marido. Que logo foram adoptadas não só nesse meio jornalístico, como também nas elites intelectuais-artísticas do Partido Democrata, enlevadas no frenesim “identitarista”. E até, com evidente desnorte diplomático, pela célebre mulher do antigo presidente Obama. E perguntei-me: o que dirão agora os “identitaristas”-“democratas” norte-americanos? Face ao garbo e à pertinência do Rei britânico?

Fui logo respondido, nos dias seguintes mesmo. Há poucos meses Zohran Mamdani fora eleito presidente da câmara de Nova Iorque, propagando uma agenda política de grandes investimentos estatais benevolentes. A nossa imprensa – e não só – acolheu o facto com júbilo. Jornalistas e comentadores fiéis à mundividência racialista viram a vitória do “socialista” como racialmente importante. E saudaram o sucesso de um filho de imigrantes, “racializados”. (De facto, Mamdani é um filho de expatriados – o grande académico Mahmood Mamdani e a conhecida realizadora Mira Nair – , coisa sociologicamente diferente, mas isso pouco conta para os empenhados alunos de raciologia).

Nos dias prévios à visita de Carlos III Mamdani anunciou-se bloqueado por problemas orçamentais. Não dei grande atenção, apenas me lembrei, por evidente associação de ideias, do dueto Tsipras & Varoufakis, que tanto mimo colheu há uma década por parte da nossa imprensa e políticos então geringôncicos.

Entretanto Carlos III fez o seu discurso fundamental em Washington, aclamado pelos democratas de diferentes tendências. E seguiu para Nova Iorque, em homenagem às vítimas do atentado às Torres Gémeas, ocorrido há já 25 anos. Mamdani, o “socialista” identitarista, que fez? Apesar do contexto geral, apesar da prestação do rei britânico, renuncia a um encontro individual com o real visitante. E faz constar que se o fizesse seria para lhe “exigir” a restituição do diamante the Koh-i-Noor, tudo assim subordinando à agenda “decolonial” em voga.

É de uma superficialidade inenarrável, típica deste esquerdismo global. De facto, só lhe(s) fica mesmo isso do “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Bem ao invés, diga-se, das magníficas Jane Russell e Marilyn Monroe que acima coloco. Pois essas eram actrizes, excelentes. E este é só isto…

(Postal que é a primeira parcela da Gazeta Semanal no meu blog “O Pimentel“)

O 25 de Abril em Oeiras.


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Em Oeiras, o dia 25 de Abril foi celebrado com o presidente da câmara local, Isaltino de Morais, inaugurando a rotunda “Otelo Saraiva de Carvalho. Ocorreu-me escrever este: “Otelo” nunca existiu!

Há uns dias fui ao teatro na companhia de duas das pessoas que me são mais íntimas e amadas, um pouco mais-velhas, nisso integrantes da “geração do 25 de Abril”. Busquei a sua boleia no El Corte Inglés, pois elas vinham de uma sessão com Pacheco Pereira sobre os anos da Constituinte. Muito devido a isso, no carro a conversa versou aquela época e seus protagonistas. Daí a “Otelo” foi um pequeno passo. Resmunguei. E de repente aquelas minhas queridas, cultas, cosmopolitas, vividas, viajadas, de suave identidade de “esquerda” – e sempre imunes aos desvarios dos “grupelhos” – sublinharam os elogios ao tal “Otelo”. Negando, com a veemência do total convencimento, não só a ligação de Saraiva de Carvalho com as FP-25, ou qualquer responsabilidade nos seus actos. E também refutando ter ele sido condenado em tribunal. E mesmo que as FP-25 tenham actuado sanguinariamente até 1987. E, entretanto, claro que invocaram o MDLP e o ELP, como congéneres…

“Passei-me”, transi abismado. E a meio caminho emudeci. Lá chegámos ao Teatro da Trindade (era “A Gaivota”, mediana), procurou-se um lugar, desceu-se ao estreito parque de estacionamento, avançou-se até ao teatro, fiquei cá fora sozinho a fumar um cigarro, depois lá subi até ao camarote. Sentei-me, já com mais um muito próximo entre-nós. E lá fui acalmando… Mas fiquei com esta mágoa: mesmo entre os meus mais queridos ainda resta esta malvada crença, a de que Saraiva de Carvalho não foi um miserável terrorista.

E esse vergonhoso véu sobre a realidade reproduz-se constantemente nessa invocação de um “Otelo” heróico e benfazejo. Isto que ontem Isaltino de Morais – o tal que o povo sabe “comilão” e louva porque “rouba mas faz” – mais reproduziu ao nomear uma praça de Oeiras com o nome do criminoso. Uma vergonha para todos os que o apoiam…

[ Manuel Castelo-Branco – órfão de pai pois ele assassinado pelas FP-25, e atento historiador do terrorismo pós-25 de Abril – lembra que “Otelo viveu em Oeiras, concelho que foi quase poupado ao terror das FP-25 – um atentado quase mortal contra Manuel Inglês Esquivel e um ataque à bomba contra as instalações do Comiberlant da Nato, em Oeiras.”]

Quando o criminoso morreu escrevi um texto – “Olhar os Políticos  Mortos em Democracia”, tal como quando no ano passado morreu o seu braço-direito Mouta Liz escrevi “Na Morte de Um Terrorista“. Nos quais abordo como a “personagem” de Saraiva de Carvalho vem sendo moldada utilitariamente por alguma extrema-esquerda. E sublinhando que o curial respeito póstumo aos participantes no 25 de Abril e sua sequência histórica não inibe críticas mas também não impede homenagens, independentemente dos seus percursos, até para melhor compreensão das matizes acontecidas e das actuais refracções dos seus legados. Aos militares – num eixo entre Galvão de Melo e Dinis de Almeida, para exemplos. E aos civis – num eixo entre Manuel Maria Múrias e Américo Duarte, idem.

Mas Saraiva de Carvalho é uma excepção a esse devido “nojo” post-mortem. Independentemente da acção executiva tida no golpe militar de Abril de 1974 (a revolução foi posterior e civil), tornou-se num vilão dirigente durante o PREC. E, posteriormente, num líder inspirador do terrorismo abjecto – causando julgo que 18 mortos e dezenas de feridos, em acções levadas a cabo muito após a instauração da democracia, da tal Constituição, e de várias eleições e governos.

Alguns, ignorantes ou imbecis, dirão que abominar a memória do vilão Saraiva de Carvalho é ser adversário do “25 de Abril”. Então eu lembro o meu pai, o Camarada Pimentel – que as minhas amadas que me levaram ao teatro tão bem conheceram. Recordo a sua ira até desesperada quando o cadáver de Aldo Moro foi encontrado numa bagageira – pois ele bem distinguia umas Brigadas Vermelhas de uma Acção Revolucionária Armada, do seu partido, actuante no ocaso do Estado Novo. E lembro-me do desprezo, indignado, que ele tinha pelas FP-25 (as nossas Brigadas Vermelhas, paroquiais mas assassinas) e o asco, visceral, que tinha pelo Saraiva de Carvalho, esses que assombraram a nossa década de 1980.

E seria bom, higiénico até, que os já decanos da “geração do 25 de Abril” e os mais-novos, “identitaristas” que sejam, percebessem isso: “Otelo” nunca existiu! E Saraiva de Carvalho era um miserável energúmeno. (E, já agora, este Isaltino é apenas um atrevido, hábil e ágil). Afirmar isto é ser “Abril” (como sói dizer-se), democrata entre as múltiplas formas que existem de o ser.

O 25 de Abril na Freguesia


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Pode ser uma imagem de livro, diário e texto

 

Cá nos Olivais este ano o 25 de Abril comemora-se não descendo a “Avenida” mas sim a Bissau, numa agitada Feira da Bagageira, depois parando na boa “Barraca do Evaldo” – essa a que alguns “habituais” chamam “o Leblon”, pois é ele brasileiro por cá há décadas, gente boa, feito símbolo desse Abril democrata, avesso a grunhidos xenófobos/racistas pois fiel à sageza do sábio povo afixada no tradicional mandamento “bem-vindo seja quem vier por bem”.

 

Antes vasculhei a Feira, de quinquilharia, trapos e monos feita… Os livros nada valem!, como é sabido. Por 2,30 euros, as moedas que tinha, saio com um Tolstoi, que terei em casa mas apenas por este ser exemplar em estado impecável da lendária colecção Unibolso (e com tradução – presumo que do francês – de António Sérgio), mais um de crónicas do Rui Zink, também intocado. E ainda uma História da Literatura Grega, nunca folheado apesar de publicado pela velha Estúdios Cor em 1973 (!).

 

Mas os livros nada valem!, repito. Pois reparo nem neste 25 de Abril alguém leva (por meros 50 cêntimos, presumo), o “Portugal e o Futuro” do general Spínola, que tanta lama agitou naquele tempo.

 

Enfim, para os que resmungam com a data: a gente passou a poder ler o que quer. O problema está mesmo nisso que aqui resmungo: agora os livros nada valem!

O Socratismo Perene


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A imprensa já esmiuçou o caso da derrotada candidatura do antigo governante socialista Tiago Antunes para o cargo de Provedor de Justiça. PS e PSD acordaram na sua eleição. O deputado Rui Rocha (IL) – antigo bloguista – recordou que Antunes havia tido uma participação activa no núcleo propagandístico digital de José Sócrates. E a Assembleia da República não o elegeu.

Entretanto, é muito interessante a jeremíada socialista “Tiago Antunes e a “maldição Sócrates”” da antiga directora do sempre empenhado “Público”, Bárbara Reis, uma contestação do repúdio parlamentar encetada com ênfase: “A minha alma está parva e a minha cabeça pergunta: até onde vai durar a “maldição Sócrates?”.

Reis defende o candidato por três razões: 1) na audição parlamentar prévia à eleição, ele usou um alfinete de peito (Reis usa o termo “pin” por razões que não explicita) com a imagem de uma prestigiada jurista americana, cuja biografia a jornalista condensa neste artigo; 2) aduz que ele trabalhara no núcleo socratista entre os seus 26 e 32 anos, deduz-se como se tal tivesse sido – e dado aquilo que agora (e já então, mas enfim…) se sabe do antigo primeiro-ministro – uma “irresponsabilidade” ou “devaneio” juvenil; 3) Reis afirma que todos os governos propagandeiam, e se Antunes nisso participou nada de estranho se deve concluir.

Sobre o broche que Antunes usou nada adianto, mas mal seria se os critérios de escolha para os cargos públicos fossem os adornos de cada candidato. Já sobre a “juventude” já tenho algo a dizer. Incorrecções ou disparates juvenis são outra coisa: roubar um cigarro no maço do pai, ou a este sacar o carro para uma passeata com amigos (ou amiga), beber demasiadas tequillas e vomitar na rua, faltar às aulas, não estudar o suficiente e reprovar num exame, acordar na cama com uma parceira desconhecida sem saber como aquilo aconteceu, vestir-se com despropósito para uma entrevista de emprego, usar drogas químicas “só para experimentar”, guiar sob influência, etc, pois há um enorme rol de disparates disponíveis. A maioria apenas merece … conselhos, alguns mesmo sanções morais. Outros, poucos, são crime: guiar sob influência será exemplo maior.

Mas como é evidente não se trata disso. Os mais veteranos, em particular (ex-)bloguistas – como o deputado Rui Rocha – e jornalistas, lembram-se do que foi uma verdadeira verdadeira rede de contra-informação. Que unia blogs anónimos e remunerados – o mais célebre foi o Câmara Corporativa, do “incógnito” “Miguel Abrantes” – com outros assinados de frenética actividade socratista (como o Jugular e tantos mais).. Que se dedicavam a uma espécie pré-robótica de produção de “fake news” conjuntamente com um desbragado espírito confrontacional, de arrogância extrema, face aos críticos do socratismo. Aquilo era uma barricada em torno do poder. Alguns dos seus agentes era remunerada de modo esconso, como se veio a comprovar. E tantos outros vieram a ser … recompensados: das simples avenças televisivas até postos governamentais, basta vasculhar os nomes dos “activistas” de então.

Sem rodeios, durante anos foi evidente a personalidade de Sócrates, os seus desmandos e o clientelismo vigente. Os colaboracionistas com aquele rumo, defendendo-o de modo indigno, devem ser inelegíveis para os cargos fundamentais do nosso ordenamento estatal. Independentemente das qualidades científico-académicas que possam ter. E dos adornos que usam.

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E isto não se trata de uma “maldição”, como lacrimeja Bárbara Reis. Trata-se de uma desconfiança fundamentada. Face às opções pessoais desses colaboracionistas, gente de difícil regeneração. Mas também, talvez até mais, diante das práticas do Partido Socialista. O qual insiste em não se expurgar, não se regenerar, como o demonstra esta indicação de Antunes. O PS sob Costa, limitou-se a seguir um Socratismo 2.0, numa estratégia de apenas minorar os danos. Durante anos tentando proteger o próprio Sócrates. Até àquela semana de 2018 em que 3 dos seus próximos (Fernanda Câncio, João Galamba – ambos fervorosos bloguistas socratistas – e Carlos César) o vieram repudiar, uma “coincidência” demonstrativa que o partido decidira deitar borda fora o seu ex-líder, tornado demasiado lastro para a borrasca que semeara.

Após isso César continuou impante presidente do partido, Galamba ascendeu da Assembleia ao governo, e Câncio mantêm o posto honorário de “grande repórter”, mesmo tendo passado mais de uma década em esbanjo de arrogância e sem perceber o que se passava à sua volta. Ou seja, nenhum deles sofreu qualquer “maldição”. Tal como não a sofreu o próprio António Costa, veemente nº 2 do antigo primeiro-ministro – tanto que até coordenador da moção de estratégia “Defender Portugal, Construir o Futuro”, a de Sócrates ao congresso do PS em 2011, já tudo aquilo há muito que fedia.

Agora muitos discutem as nomeações de juízes para o Tribunal Constitucional. Pois então convém lembrar que em 2020 o PS de Costa – fiel a essa melíflua estratégia de “evolução na continuidade” – nele tentou colocar Vitalino Canas. Então escrevi sobre essa absurda candidatura, tanto pelo desajuste do candidato, alheado do sentir democrático, como pela sua profunda ligação ao socratismo – e deixo acima a fotografia, tirada no dia em que Sócrates saíra da prisão e se juntou aos seus íntimos. Vitalino Canas não foi eleito pelo parlamento não por causa de uma “maldição”. Mas devido a uma avaliação política, tal como agora Antunes o foi. Sobre a incompatibilidade entre a comunhão com o desmando socratista e a elevação necessária ao desempenho das funções políticas e jurídicas.

O “Público” e os socratistas não o percebem? Paciência. O importante será (ou apenas seria?) que o próprio PS o perceba. Mas esta indicação de Antunes faz duvidar que a autocrítica partidária tenha acontecido.

(Este é um dos 8 textos da minha Gazeta Semanal no meu blog)

ADENDA:

O Pedro Correia deixou em comentário esta memória sobre o candidato ao cargo de Provedor de Justiça. Mas antes de a replicar deixo esta nota: no “Expresso” de ontem Tiago Antunes escreve sobre este episódio. Depois de um longo auto-ditirambo termina “Assim não contem comigo“, devido a ter sofrido “campanhas persecutórias absolutamente infundadas e ridículas“. Mas na sua narração transparece uma mundividência política peculiar: diz que há 9 meses foi escolhido por acordo entre Carneiro e Montenegro. O qual não foi agora votado pelos deputados. Para Antunes isso significa que estes “desrespeitam acordos, brincam com o bom-nome das pessoas e alimentam campanhas persecutórias…”, o que é “lamentável“. Esta é concepção que o jurista e o político Antunes tem do exercício parlamentar, ser eleito para estar subjugado aos ditames do “chefe”. E o docente universitário nem dá conta do verdadeiro conteúdo antidemocrático do que escreve…

PEDRO CORREIA: Sobre Tiago Antunes escrevi três vezes no DELITO. Aproveito para lembrar essas ocasiões.

Quando ele, na altura blogonauta do “País Relativo” (sugestivo nome), procurou suavizar os inaceitáveis “corninhos” de Manuel Pinho, o ministro avençado pelo BES. 

Quando ele, já na dependência directa de António Costa no governo pós-geringonça, teorizava sobre a necessidade de “assustar as pessoas” a pretexto da pandemia.

Quando ele procurou impor ao País restrições só possíveis em estado de emergência sem fundamento legal para o efeito nem o indispensável escrutínio parlamentar.

Nada deste passado o recomendaria hoje como Provedor de Justiça.
É por isso que a memória dos blogues é preciosa. É também por isso que ela não pode ser silenciada. Nem pensar.

Morreu Desmond Morris


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O macaco nu, Desmond Morris Almada, Cova Da Piedade, Pragal E Cacilhas •  OLX.pt

Aos 98 anos morreu Desmond Morris. Como aconteceu com tantos dos seus leitores da minha geração, conheci-o através do célebre “O Macaco Nu”, que li aos 17 anos.

Por vezes vejo conversas sobre quais os melhores “começos” literários (”Já não temos começos!”, queixou-se George Steiner, não exactamente sobre essa questão…), os grandes arranques romanescos. Não sou eleitor nessa matéria, mas não contestarei a primazia dada ao “Era o melhor de todos os tempos, era o pior de todos os tempos, era a idade da sabedoria, era a idade do disparate, era a época da fé, era a época da descrença...” de Dickens (no “História de Duas Cidades”).

Mas sobre começos de ensaios? Caramba, voto sempre neste, pois ainda me lembro do júbilo nesse imediato pós-Natal ao deparar-me com esta viril entrada:

“Existem actualmente cento e noventa e três espécies de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo coberto de pêlos. A única excepção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo sapiens. Esta insólita e próspera espécie passa grande parte do tempo a examinar as suas mais elevadas motivações, enquanto se aplica diligentemente a ignorar as motivações fundamentais. O bicho-homem orgulha-se de possuir o maior cérebro dentre todos os primatas, mas tenta esconder que igualmente o maior pénis, preferindo atribuir erradamente tal honra ao poderoso gorila.”

E segui a leitura, encantando-me com o etólogo.

(Versão curta de postal no meu “O Pimentel“)

Arquivo Digital


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Em Janeiro deixei o postal “O fim dos blog SAPO“. Lamentando que a plataforma encerre a secção blogal e contestando que apagasse os seus arquivos. E recordei que desde 2004 eu e outros bloguistas – como Rui Cerdeira Pinto, Leonel Vicente ou José Pacheco Pereira – havíamos escrito sobre a necessidade de se constituir um arquivo digital, abarcando a então  dita “blogosfera” mas também outros materiais que se iam multiplicando. 

Em Portugal os blogs começaram com gente da imprensa. Depois, em 2002/3, disseminaram-se (ler este curto “A história dos blogs em Portugal“, com ligações a textos informativos), e muitos dos integrantes dessa vaga blogal vieram a transitar para a imprensa e para a política, inclusivamente para postos governativos, parlamentares ou de assessoria. Em tudo isso ficou um quadro muito interessante das questões e opiniões em voga durante duas décadas mas também das personagens intervenientes, um relevante legado informativo sobre a sociedade portuguesa. 

Ainda assim durante estas duas décadas nenhum decisor ou influenciador político se encarregou de dinamizar um “Tombo digital” nacional. O que muito diz sobre a superficialidade cultural da chamada “classe” política vigente. 

Por isso muito saúdo esta iniciativa parlamentar, finalmente incentivando o Estado a criar um abrangente Arquivo Digital. Esteve excelente a Iniciativa Liberal, nesta matéria representada pelo seu deputado Rodrigo Saraiva – sim, tenho criticado o rumo de dirigentes daquele partido (aqui Cotrim, aqui Leitão), mas neste caso esteve muito bem, em particular este seu deputado Saraiva, que também venho acompanhando com agrado nas suas intervenções sobre política externa.

A soberba


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No curso de mestrado tive dois grandes professores: Armando Trigo de Abreu e Mário Murteira. Antes, na mais influente – pois formativa – licenciatura, tivera alguns bons professores. Na qual dois se realçaram: o antropólogo João Leal – que décadas depois vim a constatar que fora o docente que mais me marcara, pela sua sageza e decência, que o tornavam um verdadeiro mestre – e José Pacheco Pereira, um professor diferente, também esplêndido de cultíssimo, mas mais iluminador do que guia, pois desprendido. Um quarto de século depois tive o prazer, honroso, de o acompanhar durante uns dias em Maputo, a propósito de um congresso ao qual ele compareceu, e então esforcei-me por ser o mais hospitaleiro possível. E entretanto, blogando eu desde 2003, acompanhava diariamente o seu Abrupto, o blog português mais lido e que tinha características únicas. E fui lendo os seus livros…

 

Politicamente é diferente: muito torci o nariz quando ele se apresentou na Aula Magna, naquele arremedo de “Estados Gerais” convocado pelo ex-nº 2 de Sócrates, a apelar a uma espécie de “Frente Popular”, tornando-se assim o verdadeiro ideólogo do que veio a ser dito “geringonça”. E sempre me desagradou o (de facto) seu programa televisivo destinado à produção de opinião política burguesa, algo falsamente pluralista dado que ali ele defende o PS em articulação com alguém da direcção desse partido em falsa contraposição com um “representante” do desde há muito defunto CDS. E pior – pois intelectual e deontologicamente inaceitável – desde que uma direcção de canal quis suspender o programa político e o então primeiro-ministro Costa se imiscuiu na programação e conduziu a que outro canal o continuasse. Há limites para a falta de autonomia e o professor Pacheco Pereira nesse momento cruzou-os, no mau rumo…

 

Sobre André Ventura, uma criatura de Passos Coelho e Luís Filipe Vieira, amamentada por António Costa, pouco tenho a dizer. Não o vejo como “fascista” mas sim como um mariola demagogo – por mais que tenha levantado discussões que são importantes na nossa sociedade e que os estabelecidos descuravam. O meu problema nem é com ele mas sim com aqueles seus apoiantes que me são próximos, até extremamente íntimos. Pois os “cheganos” são-me carnalmente repugnantes. E isso exige-me uma enorme disciplina afectiva para sustentar as relações.

 

Hoje, por alguma razão que desconheço, o meu antigo professor foi debater na televisão com o presidente do segundo partido português (“líder da oposição”, no falacioso linguajar actual). O que assisti, contristado, até com vergonha alheia, foi a um pungente exercício de soberba, o mais grave dos pecados mortais. Muito para além dos argumentos previstos e dos instrumentos brandidos, o que ali esteve foi um velho professor a falar de si – “no 25 de Abril eu estava…”, “eu concorri em Loures…”, “eu na Assembleia da República…”, pobre e último recurso ilustrativo de quem quer estruturar um discurso sobre processos históricos, já acantonado no repetido queixume “você não está a falar com um atrasado mental“, o que está dizer “funciona lá para as suas gentes no tik-tok“, etc.

 

O reaccionário Ventura não se combate assim. E o processo histórico desta “República” (da democracia liberal) não se analisa desta pobre forma. Por mais que muitos dos anti-Ventura o aplaudam, lhe saúdem a “coragem” ou o “vigor”. Foi um naufrágio intelectual. Repito, pungente.

 

E é com pesar, para além de discordâncias, que o digo: chegou o seu tempo de sair de cena. “Pendurar as chuteiras” (televisivas), por assim dizer. Pois a soberba … mata.

Quantas divisões tem o Papa?


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An AI-generated illustration of Trump as Jesus.

“Quantas divisões tem o Papa?” diz-se que perguntou Estaline a Pierre Laval, então ministro dos Negócios Estrangeiros de França, ou a Churchill já durante a guerra, na conferência de Teerão… Mas talvez a história seja apócrifa, mas se assim for è ben trovato.

O desatino da recente publicação de Trump sobre o Papa é evidente, nem necessita de comentários. É para todos preocupante que o Presidente dos poderosos EUA tenha esta “condição” intelectual e sobreviva nesta mundividência desaustinada – este ataque ao Papa é inusitado, e a auto-representação como Cristo é demencial. E não é preciso abandonar o ateísmo para o constatar.

Mais grave ainda é que esteja circundado por um pessoal de suporte que o … suporta. E assente numa enorme massa de apoiantes, grosso modo metade da população. Grave é também, mas ultrapassa-o, que o mais poderoso regime democrático do mundo se tenha enquistado de tal forma que os seus (quase únicos) partidos se deixem dominar pela abissal senescência dos seus líderes, como foi com Biden, como o é agora.

Enfim, “quantas divisões tem o Papa?”. (Julgo que o Wojtyla que se transformou em João Paulo II sabia…)

E julgo que não será pertinente perguntar isso àqueles que insistem em gabar os “feitos” de Trump,  independentemente das “bocas” que “amanda”, insignificantes aos olhos desses letrados.

Magiares


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JD Vance backs Orbán's re-election bid in Budapest visit and hits out at EU

A derrota de Orbán não é uma panaceia mas é um unguento. Ao qual são alérgicos os fascistas e os comunistas europeus, actualmente unidos pela sua imundície. Tal como os gringos cristianistas e os seus patéticos sequazes locais, a la “Observador”…

 

Quanto ao resto? A ver vamos pois, como dizia o ágil Manuel Galrinho Bento, “não é por acaso que são conhecidos por magiares”.

Uma interpretação do Sporting-Arsenal


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Qual de nós o aventaria? Até mesmo o sonharia? Abandonados pelo (ex?)mago Rúben Amorim, amputados do bombardeiro Gyokeres, e – afinal (!) – eis-nos nos quartos-de-final da Liga dos Campeões (a “Champions” dizem os guturais). 43 anos depois!, e tão mais difícil o é agora do que o era então…

Quanto ao jogo? Começo pelo melhor em campo: Rui Borges! Grande lição dada. Pois desprovido de vaidade teve a competência de se saber adaptar, desnecessitou de afixar o seu “selo”, a sua “marca d’água”, nisso poisou o seu tiki-tasca que tanto se vem impondo e face ao melífluo e competente Arsenal trancou a equipa. Não a esta fazendo expectante, “pequena” diante do Golias John Bull, mas injectando-a de venenoso contra-ataque, nisso supreendendo o adversário. Mas a sorte não protegeu os audazes, logo no inicial estoiro à barra do Maxi Araújo – que grande jogo!, será melhor começarmos a despedir-nos dele, algum colosso o levará… – e em mais meia dúzia de jogadas. Os adversários ficaram meio manietados, sem grandes hipóteses mesmo sendo uma tropa de artistas que num ápice desencantam fragilidades alheias.

Entretanto o nosso moçambicano Geny Catamo foi reafirmando que é a alegria do povo (não pode ser transferido…!), Trincão que está um jogador fantástico, muito para além do habilidoso que sempre foi, e o quase-velho Morita flanando excelente. Enfim, o Sporting foi muito competente, mesmo. E nem vale a pena procurar um bode expiatório, apesar de quatro ou cinco péssimos passes de um dos centrais (que não nomearei, pois “é a equipa que ganha, é a equipa que perde”), o qual durante o jogo me pareceu acabrunhado, vá-se lá saber porquê, talvez assuntos da sua vida pessoal. E aquele buraco na defesa aos 90 minutos?, raisparta…

Mas logo após o golo, doloroso, sofrido no último minuto, houve Sporting! Ainda a bola estava no centro, pronta para o recomeço, e todos em pé a aplaudir a equipa – mostrando o óbvio: a gente vai lá, à Pérfida Albion, e ganha! Pois “Borges Rules!”, lamentar-se-ão eles… E o apêndice. Soado o apito final Gyokeres com honra (e coragem) sai sozinho para uma volta ao estádio e é acolhido com os aplausos devidos. A zanga conjugal foi feia, no “divórcio” os “advogados” dele foram péssimos (e não lucraram com isso, uma lição que lhes foi dada…). Mas agora as pazes estão feitas, o amor é assim quando entre gentes de bem.

(Excerto com as partes mais “técnicas” do meu postal “Fui à bola” no meu blog)

(O Mundo Sabe Que, bicampeões 24/25)

Trump pascoal


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Este é o dito pascoal, de hoje mesmo, de Donald Trump. O relevante não é o que temos a dizer sobre isto, nem um bater de asas de borboleta austral somos diante da política americana… Mas relevante é o que temos a dizer, a conviver, com aqueles nossos compatriotas e vizinhos que continuam a encontrar algo racional e até justificado na actual deriva norte-americana (nem mesmo o gago balbuciar de que “os aiatólas são malvados”). Porque me parece evidente que esses – dos ufanos do artigo  de opinião na imprensa, pago ou gratuito, à auto-gargalhada de podcast, até aos anónimos das catacumbas dos comentários digitais – são … infrequentáveis. Não por estarem errados. Mas por mera, modesta, indecência. Para quê ouvir ou ler qualquer  tralha que escrevam sobre qualquer outro assunto, por comezinho que seja? É que isto já chegou à pura questão da … higiene.