O desplante brasileiro


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No mais recente Índice de Desenvolvimento Humano 2026 o Brasil ocupa o 84º lugar e Portugal o 40º. Entre ambos os países é abissal a diferença quanto a população abaixo dos níveis de pobreza, tal como no respeitante à desigualdade da distribuição de riqueza interna – implicando a cristalização da estratificação social. Algo mostrado no Índice de Mobilidade Social (nos resultados de 2020 o Brasil era o 60º país e Portugal o 24º). Temas sempre articulados com essas características, como a percentagem de população encarcerada, mostram uma situação social brasileira bem pior do que a portuguesa. Questões como a presença de racismo interno também indiciam essa realidade, como este exemplo mostra. Ou seja, se mais exemplos haveria esta breve súmula é suficiente para se perceber que há no Brasil uma situação com conteúdos sociais, políticos e culturais muito mais violentos e estratificados do que no nosso país, e lá grassam – desde há muito – múltiplas formas de agrestes discriminações.

Entretanto a representação do Instituto Guimarães Rosa, dependente da embaixada brasileira em Lisboa, decide lançar um concurso nas escolas estatais “contra a discriminação” aqui existente, contra o racismo e a xenofobia da sociedade portuguesa. Mobiliza os nossos professores, a quem promete prémios pecuniários (bónus extra-salariais) para dinamizarem trabalhos dos alunos da escola oficial portuguesa que sejam favoráveis ao Brasil e aos brasileiros – e, também, à “lusofonia”.

Lendo isso lembro-me de que no final do milénio passado fui responsável em Moçambique pelo Instituto Camões (congénere do Guimarães Rosa brasileiro). Também havia apoios a escolas, a concursos escolares, a acções de formação, doacções de material – bibliográfico e não só -, colaborações várias, por vezes indução de “cooperação” bilateral, etc. Não fui um Oliveira da Figueira dessa “lusofonia”, apesar dessa salazarenta ideologia impregnada de nostalgia colonial vigorar então no funcionalismo socialista e na intelectualidade a la “Jornal de Letras”, tal como ainda agora entre os “oficiais” diplomáticos oriundos do “Itamaraty”.

Mas o fundamental é que nunca se associavam essas acções a explícitas campanhas de “relações públicas” que louvaminhassem os portugueses ou Portugal. Ou que interviessem nas dinâmicas do país – por exemplo, fazendo investidas contra quaisquer hipotéticas antinomias entre grupos sociolinguísticos, ou sobre violência doméstica, etc. Pois as agendas pedagógicas – curriculares e extra-curriculares – eram de responsabilidade do Estado moçambicano. E dentro dessas balizas (temáticas) actuavam os professores da escola pública com quem se articulavam as acções.

E agora, em 2026, vejo a representação diplomática de um Estado – que, para além de tudo, tem o seu país no pobre estado que tem -, ter o desplante de cometer esta iniciativa na nossa Escola pública. Para nos “sensibilizar”… Numa acção que é evidente corolário de um diagnóstico sobre a nossa sociedade. Pelo qual o Guimarães Rosa e a embaixada brasileira em Lisboa decidem melhorar-nos. “Desenvolver-nos”, por assim dizer, a seu bel-prazer. E o nosso ministério da Educação fica mudo e quedo, assim acolhendo este atrevimento brasileiro. Pior do que tudo, o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros, interlocutor do Instituto Guimarães Rosa, nada diz.

Isto seria inenarrável. Se não fosse verdade. É patético o silêncio estatal face a este desplante brasileiro.

[Esta é a segunda parte do meu postal de Páscoa no meu “O Pimentel”.  Ateu que sou não sigo na crença de uma “passagem” ou mesmo “renovação”. Mas partilho a crença na continuidade, e sobre isso escrevi. E sobre a necessidade de nos expurgarmos das arrogâncias próprias e alheias para… continuarmos.]

Uma agressão imigrante no metropolitano


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Já noite, pois pós-jantar, sigo no metropolitano rumo ao aeroporto para, saudoso, colher um abraço filial. Após a Oriente o comboio esvazia-se, prenúncio do que virei a confirmar – a Portela em estado semi-Covid, calmaria talvez fruto de longínquos drones…

Na carruagem resta apenas uma pessoa, no banco ao meu lado. Segue sob o uniforme de “mulher da limpeza” – assim o anuncia nas costas o dístico, “agenderado”, em inglês -, ainda um pouco jovem num abaixo dos trintas. Sofre da doença que agora grassa, tão comum nos futebolistas “afrodescendentes” – como sói dizer-se -, naquilo do alto do toutiço alourado e o restante preto. Mas esta é branca, bisneta de malteses e ratinhos. Não é feiosa. Apenas desfeada por tudo isto que a acomete.

Em Moscavide pega no telefone, e fala com alguém – talvez a mãe ou uma amiga próxima. Grita, viscosa, exasperada, sotaque carregado, o nosso: vinha de um supermercado estacionado num qualquer centro comercial, a caixa automática que usara tivera algum problema. Pedira ajuda a uma funcionária, esta atendera-a de longe, sem sair do seu poiso, vozeando-lhe lhe as instruções para resolver a situação. E todos a tinham olhado! Por isso, pela afronta sentida, sofrida, desvairou-se e assim continua. Vocifera, repete-o, incessante, que “devia ter pedido o livro de reclamações”, não o fez pois “tenho que pegar”, mas afiança que descompôs a outra, a atrevida, até porque, frisa, e várias vezes, “também já trabalhei atrás de um balcão, sei como deve ser”… Esganiça-se, desgraçada por alguém ter falado com ela em voz alta… E eu ali, apenas a duas braçadas, sem mais ninguém na carruagem, como se insensível àquela berraria, não existo! Velho, sinto-me, pois já invisível, como o são (somos) quando já assim. A Portela aproxima-se, a mulher avança célere para porta, eu irei, suave, não vá o Diabo social tecê-las, até às costas dela. E, imparável, desabafa “eu queria era ter um bomba” “para dar cabo do planeta” (“admiradora do Cazuza?”, surpreendo-me para mim-mesmo mas logo concluo, mudo, “não, não pode ser”). As portas abrem-se e ela, antes do primeiro passo, constata – para a tal mãe, talvez, ou amiga íntima -, já rouca, “ó se calhar sou eu que não sou deste planeta!”. Dou-lhe dois ou três passos de avanço, claro, mas sossegando-me naquele laivo de autoconsciência, desesperada, a que, afinal, assisto.

No final de tarde seguinte de novo apanho o metro, vou fazer o jantar. Na mão levo um saco de plástico das compras, amarfanhado pelo uso e mal amanhado pela escassez de víveres: peitos de frango (em promoção), laranja para condimentar, bananas com evidência sensaborona, cebola, ervilhas, duas cenouras, tudo isso para o mero arroz, uma ou outra cerveja… Debaixo do braço segue uma também velha revista, francesa (uma hors-série “Être Français”), francesa, repito, trazida para com ela disfarçar a roupa puída e nada engomada que me envolve.

A carruagem vai quase cheia, entro para o meio do corredor, pouso o saco no chão para compor a pose da revista, encostando-a ao sovaco suado. Logo diante de mim se levanta uma mulher, jovem ainda, trintinha, não beldade mas bonita, dotada do nariz arrebitado que sempre convoca, cabelo bem preto, longo, baixa pelo meu queixo, vestida naquele preto da elegância remediada, que a aparenta bem torneada. Está a oferecer-me o lugar sentado, eu sorrio e agradeço-lho, recusando, claro. Ela insiste num olhar, mimoso de cálido, “por favor”. E nisso o sotaque denuncia-a brasileira… Torno a recusar, cavalheiro, versão gentil-homem, enquanto sinto “eu queria era ter uma bomba….”. E ela, imagine-se, repete-se num suave cantado “por favor, sente-se” sorrindo ao decano. Ocorre-me gritar “Vai para a tua terra!” mas apenas sussurro “Por favor, não me faça mais velho do que já sou!”. Ela baixa os olhos e senta-se. Eu aguento-me, hirto!

Não podemos continuar a deixar que estes imigrantes nos venham tomar os lugares (sentados). E agredir.

(Postal antes colocado no meu “O Pimentel“)

Marcha pelo clima


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Em imensos países os estudantes saem hoje à rua, exigindo melhores e urgentes políticas de protecção ambiental. Em Novembro aqui deixei nota de uma primeira manifestação estudantil, em Bruxelas. Organizada por um pequeno grupo ecológico da Escola Europeia, e já reflectindo o exemplo da estudante sueca Greta Thunberg (com a qual este núcleo tem até algumas relações pessoais prévias), tornada símbolo de um movimento geracional contra a inconsciência produtivista da corporação etária no poder: pois ninguém das gerações adultas quer prescindir de nesga que seja dos seus “direitos adquiridos” ao consumo para assumir as medidas drásticas necessárias. As grandes empresas veiculam a ideia de que é preciso “reciclar” e aumentar os preços dos combustíveis, qual panaceia. Os (neo)comunistas dizem que não, que o necessário é controlar as grandes empresas. Ou seja, sobre isto apenas reflectem a “luta de classes”. Nenhum tem razão, pois todos têm razão. É preciso prejudicar todos, para a todos beneficiar. É isso que os putos, tão mais esclarecidos e cultos do que as bestas adultas que ocupamos todos os tipos de poder, nos estão a dizer. Desde então, em constantes (semanais) manifestações, num movimento crescente em vários locais do mundo, em mais de 100 países (notícias indicam 123).

Nota: no postal que fiz há meses recebi um conjunto abjecto de comentários boçais, os imundos patetas negacionistas – epígonos do bloguismo “Blasfémias”, tudo reduzindo à crença de que se a livre empresa é virtuosa e a intervenção estatal prejudicial então o aquecimento global é um mito (chinês, dizem agora os trumpianos) para minar o “ocidente”. Não tenho qualquer paciência nem respeito por esse lixo humano. Poupem-se ao teclar, mal me assome esse mau hálito apagarei sem ler.

O chavalo é dos Olivais ….


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Soube agora que o chavalo é do bairro, olivalense pura gema, crescido ali para as bandas dos “Candeeiros”, à Chibuto, junto ao campo da bola (o Branca Lucas, para quem não saiba). Dá-lhe gás puto, mostra-lhes do que és capaz …

Vá-se onde se vá, há sempre um gajo dos Olivais, nada de chibaria nisso, é o que nos vale neste vale de lágrimas. E acho que até no céu (n)os encontraremos.

Queen Margot


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Há alguns meses, a propósito do affaire Robles (não sei se estais recordados …) aqui deixei um elogio do uísque que me cabe em sorte nesta fase da vida, o Queen Margot, o uísque do Lidl, aí vendido a meros 7 euros a garrafa, aqui a 11. Recebo agora mesmo uma mensagem de um amigo, a avisar-me que a marca acaba de ganhar um belo prémio no World Whisky Awards, certame uísqueiro em Nova Iorque – não, não foi escolhido o “melhor do mundo”, mas foi seleccionado para a ronda seguinte, batendo no seu segmento (baratucho, popular) os mui afamados Cutty Sark, Grant’s, JB, Johnnie Walker, etc. – que normalmente custam o dobro.

Fico deliciado com a notícia. Rejubilo mesmo, ainda que sejam, objectivamente, más notícias: estou certo que com esta publicidade o Lidl vai meter um euro ou euro e meio a mais por garrafa. Não já, já. Mas daqui a uns tempos. Pelo sim, pelo não, amanhã lá estarei a abastecer-me, em registo de açambarcamento.

Moral da história? Não vale a pena ser Robles …

Em nota de rodapé: informo os prezados leitores que o Clan’s Special, o equivalente uísque da casa da cadeia Delhaize é muito mauzito, não justifica. 

Paulo Rangel e as eleições europeias


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As pessoas podem simpatizar ou não com Rui Tavares e/ou com o seu agrupamento político. Independentemente disso – eu, por modesto exemplo, fico sempre com “pele de galinha” diante desse MES new age -, vale ler este seu artigo sobre o can-can de Paulo Rangel,  candidato nº 1 do PSD nas listas para o Parlamento Europeu, como já o fora nas últimas eleições. 

Se houvesse algum tino no prezado eleitorado (uma utopia, a gente sabe), um artigo destes, letal, faria mossa nas aspirações rangelianas e dos da sua igualha, hipócritas que vão. Entenda-se, um pontapé nas eleições. Mas como não há, esse tal utópico tino, lá será ele – e mais alguns da sua inestimável (sim, “inestimável”) estirpe – eleitos para o vai-vem Estrasburgo- Bruxelas.

A mim não fará grande mossa: aqui só vejo “casacos azuis” – o inconfundível uniforme dos tugas doutores – no vizinho “Tiago’s“. E aproveito a desculpa da imperial ali custar o dobro do que custa no meu “Ponto de Encontro” – sítio aprazível que me faz sentir como se em … Maputo ou nos Olivais – e nunca lá vou. Entenda-se, evito aquilo mesmo por causa dos “casacos azuis”, raios partam os Rangéis e companhias ilimitadas.

José Nuno Martins e a Besta Negra


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José Nuno Martins chamou “besta negra” ao Jorge Andrade e caiu o Carmo e a Trindade. O Jorge Andrade, que eu saiba, não reagiu ao dichote mas já reconheceu que se havia “esticado”. Ele foi um extraordinário jogador, um magnífico defesa-central (muito prejudicado por lesões) e é um homem simpaticíssimo e muito bem-disposto. E “esticou-se” porque disse na tv que ao miúdo-maravilha que por ora desponta no Benfica ele “daria um pisão”, para o amansar em campo. Sejamos francos, é o que os gajos da bola fazem. E é o que os gajos da bola falam. Mas não em público, claro, que a compostura e o respeitinho são muito apreciados. Faltou ao Jorge Andrade mudar de registo (de “chip” diz-se agora), ali no estúdio da tv. E, francamente, para quem gosta de futebol, para além dos clubes, este miúdo, que dá pela graça de João Félix, é um regalo, o franzino reguila artista, o tipo de jogador que nós povo adoramos: guardem lá os “pisões” para outros morcões …

Também José Nuno Martins já veio reconhecer que se esticou, na defesa do jogador do seu clube, e com boa verve o fez. Claro que o invectivaram de racista, nos tempos que correm nem havia como evitar isso, dado o fenotipo do ex-futebolista – e mesmo que o alvo fosse louro, que o afã purificador anda desbragado. O homem tem o defeito de ser director do jornal do Benfica, e por isso a minha solidariedade escasseia. Mas ao mesmo tempo lembro-me que é meu vizinho. Nunca com ele falei mas desde os meus 7 anos que vive no prédio ao lado daquele onde cresci, e onde agora – quando em Lisboa – me recolho. E quando eu era miúdo era ele uma celebridade radiofónica, o homem da música brasileira, do “Cantores da Rádio” – como o Luís Filipe Barrros era o do rock mainstream no “Rock em Stock” e o grande António Sérgio era o do rock, o verdadeiro, nos “Rotação”, “Rolls Rock” e “Som da Frente”. E lembro-me bem do frisson lá na rua, bem nos anos 1970s, quando corria a notícia que na casa do José Nuno Martins estava o Chico Buarque ou o Gilberto Gil (julgo que do mor-Milton nunca ouvi ecos) ou outros ícones de então. Havia amigos meus, putos na puberdade a fazerem-se já adolescentes, que tinham a lata de subir, bater à porta, a pedir autógrafos nos singles. 

Certo, estas memórias não significam, obrigatoriamente, que o homem não tenha preconceitos. Sei lá eu se os tem. Mas poderiam (eu acho que deveriam) matizar um bocado a imediata raiva (sim, eu sei que ele é o director do jornal do malévolo clube), a imputação de racismo (e de xenofobia, que também aparece). E acima de tudo poderiam – num contra-ciclo ao purismo actual – deixar lembrar que “besta negra” é uma expressão algo antiga. Julgo eu, que não sou especialista hermeneuta, que é uma derivação literária da Besta bíblica, a do Apocalipse, que está presente na simbologia dos 4 Cavaleiros do dito cujo, e anuncia a morte e a esterilidade. Ou seja, a lesão de um jogador de futebol, no registo futebolês actual. E, vamos lá a ver, só o mais radical dos pós-coloniais ou dos crentes da Igreja Holandesa Reformada sul-africana é que encontra no Antigo Testamento o germe literal das imagens do colonialismo, da escravização dos negros, e dos preconceitos racistas actuais.

Há, com toda a certeza, outras expressões a inutilizar – “pintar a cara de preto” como símbolo de auto-punição será, talvez, a mais escandalosa de todas. E há imensos preconceitos a combater. Agora “besta negra”? É mais do que utilizável, adequada, consoante os desgostos de cada um. Assim apropriada à caucasiana Lagarde, ao latino Bolsonaro, ao alaranjado Trump, ao árabe Assad ou ao Mugabe, filho de Cush. Ou imensos outros. Que o Apocalipse não tarda, como bem se sabe.

O meu irmão


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(Patrícia Reis fala do femicídio.  E lembra-me uma história da minha meninice.)

Eu tenho 4 ou 5 anos, não sei bem, é cerca de 1969 mas não me acordaram ou acordarão para ver Armstrong dar o pequeno passo, e por isso já estou amuado com os meus pais e assim continuarei no próximo meio século. Estou doente, ouvi que tenho uma coisa no rim, pois aparece-me sangue no xixi, acho que há meses que não vou à escola, as minhas avós revezam-se a acompanhar-me, ainda que cá em casa haja várias empregadas (chamar-se-ão assim no futuro, quando eu entrar no liceu, que agora dizemos criadas) e ama. Se calhar não são meses, julgo que pensarei isso no futuro, mas agora tenho a certeza que estou doente há imenso tempo. Hoje é sexta-feira, e, como não posso ir brincar para a rua, estou na varanda deste rés-do-chão a ver os amigos ali mesmo defronte, numa rua como se pátio deste nossos Olivais, a Cabinda. As criadas estão comigo, atraídas pelo barulho, a gritaria. Pois um pouco abaixo, junto à rua, uma porteira está a ser espancada pelo marido, um bêbedo, dizem enquanto entre elas espreito. Ele bate-lhe, ela está no chão e grita. Às portas da mercearia, da farmácia, do café e às dos prédios está gente a ver o que se passa, e também às janelas das casas chegaram curiosos. 

De repente vejo o meu irmão João descer, muito devagar, as escadas do prédio. Ele chegara há pouco a casa, vindo da Escola Naval para o fim-de-semana. Mas, noto-o, já se desfardou. O Artur, o mais-velho, já casou – eles, irmãos, cunhado, primos, casam todos muito cedo, virei a pensar, tudo para poderem levar as mulheres para África -, acho que anda embarcado num petroleiro chamado Sopanata ou coisa assim e o João, que já tem 20 anos também está quase, a casar-se e a ir para a guerra, diz a minha mãe à minha avó. E a minha irmã também se prepara para ir, noiva que já está.

O meu irmão parou no pátio defronte ao prédio. Não percebo se termina o cigarro, mas fica bem crer nisso. Desce a pequena escadaria até mesmo à rua, a tal Cabinda. Chega-se ao casal e, nada dizendo, dá um soco no marido bêbedo. A zanga deles acabou logo ali, a mulher levanta-se e sai não sei para onde, e o homem fica-se apardalado. Mas, até antes disso, o João já está, devagar (vaidoso que é, constatarei quando crescer), costas viradas, a regressar a casa. Sem mais.

Daqui a décadas contarei esta história, várias vezes, aos filhos dele e aos sobrinhos. E depois aos netos, os dele. E aos meus, se os vier a conhecer. Ele sorrirá, com bonomia, dirá que eu invento, que de nada disto se lembra. Mas é verdade, eu não irei imaginar uma lenda dessas. Terei uma filha. Adolescente, resmungará com o tio, que é incisivo e escolhe os programas de TV quando lá em casa  ou outra coisa qualquer, pois nunca perderá os tiques de comandante de navio (que não se pode dizer barco). Ela protestará comigo, “pai, mas tu mudas quando o tio está!...”. 

Claro, dir-lhe-ei. É óbvio. Pois o mais-velho é o meu herói. Desde hoje.

 

Um postal que não é sobre futebol


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‘Tweet’ sobre jogo … vale suspensão e multa a Afonso Figueiredo. Defesa do Rio Ave punido pelo Conselho de Disciplina: o lateral esquerdo Afonso Figueiredo  foi esta terça-feira (ontem) suspenso por uma partida e multado em 580 euros devido a um “tweet” publicado a 16 de setembro do ano passado, na sequência de um duelo entre o Rio Ave e o Benfica referente à fase de grupos da Allianz Cup (…). Na altura, na rede social Twitter, numa publicação que posteriormente apagaria, o (jogador de futebol do Rio Ave) deixou a seguinte mensagem: “Quando uma equipa ‘pequena’ assusta um grande, há sempre ‘alguém’ para os ajudar… Quando evoluis, Portugal? P.S.: dentro de campo não havia buracos“.

Não sendo eu jurista não posso falar de cátedra. E até acredito que haja um qualquer regulamento das associações profissionais da actividade futebolística que o jogador (e todos os seus colegas) tenha, explícita ou implicitamente (ao assinar contrato de trabalho), subscrito.

Mas fica-me a dúvida: será legal (constitucionalmente falando) proibir alguém de exercer o seu trabalho, e também multá-lo, por exercer o seu direito de opinião?  E ainda por cima sem caluniar ou injuriar alguém, o que a ter acontecido deveria ser tratado em tribunal? 

Isto é normal? Ou é o que o parece, um Estado dentro de um Estado, regulando-se por normas diferentes? Diante da simpática (e adepta) complacência alheia? Há por aí algum jurista que me possa esclarecer?

(Durante-scriptum para comentadores menos “ágeis”: o postal não é sobre o Benfica e as coisas dos clubismos).

Ba e a polícia


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Ba disse que a polícia é uma “bosta” (nota: “bosta” é um termo canónico). Muita gente indigna-se, pois Ba é do BE e não deveria dizer isso. Torço o nariz. Não sei se ele tem razão na interpretação do caso que causou as declarações – pelo que se vê nas curtas imagens, feitas pela vizinhança, é um típico caso de “porrada no beco”, com os cidadãos a investirem contra os polícias ali convocados para sanarem a situação. E estes a responderem. E daquele pouco que tenho lido de Ba e seus correligionários – alguns deles demagogos com palco usual no jornal “Público” e galões universitários – acho aquele discurso histriónico e sob uma ideologia execrável: são racialistas, e no caso dos académicos a adesão a essa ideologia é uma estratégia de obtenção de recursos, económicos e estatutários. Mas isso são contas de outros rosários.

Ba é um assessor do grupo parlamentar do BE. É um emprego. Presume-se que o exerça devido a que o BE nele tenha confiança política. Mas não representa a coligação estalinista-maoísta. É empregado. Não é autarca, não é deputado, não é membro do governo. Se o fosse a crítica às suas declarações teria em conta essas funções de representação (e/ou executivas). Neste caso é “apenas” um cidadão a ter declarações. É conotável com a tal coligação? Sim. Mas qualquer cidadão pode ser conotável com um movimento político. Melhor dizendo, tem o direito de ser conotável com um movimento político. Assim sendo, se o que Ba diz é conotável com o BE e se isso é positivo e negativo é apenas problema do tal BE – raciocínio que não se aplica quando deputados da coligação ecoam essas posições, pois a função de representação tem outras implicações. Mas isso, outra vez, são contas de outros rosários. Há quem resmungue que Ba é dirigente da SOS Racismo e como tal não poderia dizer coisas destas. Mas essa é uma organização da sociedade civil, representa-se a si própria, aos seus membros. As declarações de Ba podem ou não ser prejudiciais para a organização, podem ou não vinculá-la, é problema deles.

Ou seja, pode-se criticar o conteúdo das declarações de Ba, a sua pertinência. Mas nunca pôr em causa a pertinência de as proferir. Esta é algo que deverá ser questionado (não é a pertinência do seu conteúdo, é o acto de as realizar) por aqueles que pertencem à sua organização e pelos seus empregadores. E isto é límpido como água cristalina, como se diz na língua dos imperialistas racistas e dos afro-americanos. O coro de ofendidos, que refutam não o conteúdo mas tê-las ele proferido, é um coro ignaro, desafinado. E hipócrita.

Entretanto o deputado do PSD João Moura manda Ba à “bardamerda” (nota: “bardamerda” é um termo não canónico). Moura é deputado. Não deveria dizer coisas destas, é representante do eleitorado. Ou por outras palavras, não é empregado do PSD (ele se calhar sente-se bem empregado, mas isso é outra coisa), é seu representante. Mas, pior do que citar o antigo Primeiro-Ministro Pinheiro de Azevedo (que utilizou o célebre termo em invectiva impessoal, um desabafo, “vão bardamerda com o fascista”, que era o termo de moda que os sindicalistas do PCP contra ele utilizavam), é a patetice de Moura, que vem dizer a posteriori que não utilizou o termo com vontade insultuosa. Patetice pura. E conviria que um deputado não fosse tão pateta. Ou que, pelo menos, não o mostrasse.

Mas as declarações deste João Moura são algo bem pior do que patetice. Pois mostram bem o fascistazeco que habita no pobre deputado – e nos seus apoiantes, que os deve ter, caso contrário não seria parlamentar. Ba afirma que tem sido ameaçado. Há imagens dele a ser confrontado por indivíduos do PNR. Estes não foram violentos, foram incisivos, e quem se expõe em público arrisca este tipo de confronto, pois “quem anda à chuva molha-se”. Mas as coisas não são tão simples. Por um lado porque Ba afirma que tem sido ameaçado e, infelizmente, isso é de crer. Em segundo lugar porque este PNR é comandado por um homem (a quem a RTP de serviço público dá espaço de antena por se candidar a chefiar uma claque da bola; a quem um Goucha entrevista longamente para tentar ganhar audiências contra a Cristina) – errata: nos comentários um leitor avisa que o PNR não é comandado, mas apenas integrado por esse indivíduo – que foi preso por cumplicidade num assassinato cometido pelos militantes desse partido, cujo móbil foi exactamente o facto do assassinado ser … negro. Ou seja, é normal que Ba se preocupe. E é totalmente curial que solicite protecção policial.  A polícia existe para isto, é esse o seu dever numa sociedade liberal, democrática, o de proteger a vida dos cidadãos (já agora, precavendo ressalvas de comentadores “inteligentes”, sendo eles naturais ou estrangeiros, residentes ou turistas, “originários” ou selenitas, neo-nazis do PNR ou estalino-maoístas com frescuras new age). Ao apoucar esse direito, ao insultar Ba por solicitar protecção, o deputado Moura mostra assim o quão está longe de compreender o que é o chamado Estado de direito, democrático. É um morcão? É. Mas, acima de tudo, e talvez nem o saiba, talvez seja apenas uma besta, mas é uma besta fascistóide.

Há muitos anos, 30 já, Rushdie publicou “Os Versículos Satânicos” e foi condenado à morte pelo poder iraniano. Isto foi antes da I guerra do Golfo e da expansão do terrorismo do fascismo islâmico. A abjecção por essa via era bem menor na Europa. A esquerda europeia balbuciou um pouco com essa “fatwa”, entre a ignorância do que aquilo era e o estupor. Os comunistas gostavam do Irão, porque anti-americano. E aqueles que então eram ainda o embrião desta “nova” esquerda identitarista (os neo-comunistas) também. Estes, tal como hoje, à menor aragem já espirravam referências a Foucault. O qual, no seu desprezo pela democracia, pela razão, pelo ocidente e pelos EUA (apesar de adorar os prazeres de Frisco, onde terá adoecido mortalmente) fora um grande defensor da teocracia homofóbica e falocrata iraniana, sob o lema que perseguiu, o “tudo contra o Ocidente” (excepto, claro, os ares “liberais” de Frisco. E a universidade francesa). Um apreço que se mantém, basta ver como estes identitaristas actuais se indignam mais com um barman dizer que “não tem copos com paneleirices” do que com as penas de morte aos nossos, ateus, ou aos homossexuais, lá pelo Irão foucauldiano ou sítios religioso-politicamente aparentados. Nesse ambiente, de “pacto germano-soviético”, de colaboracionismo com o fascismo islâmico, por aversão aos EUA e por ademanes a la Foucault, a tal esquerda europeia algo balbuciou. Entre o tal estupor e o desagrado com a “blasfémia”, num “não havia necessidade”, a la Diácono Remédios, que Rushdie tivesse sido tão desbragado na sua utilização do corão. 

À direita foi diferente. O escritor fora um crítico do poder tatcheriano. E por isso vieram invectivá-lo por pedir protecção estatal (policial), como se isso fosse paradoxal. O desagrado com o escritor advinha também do repúdio pela “blasfémia”, esse refúgio anti-liberdade de expressão que o modelo de “secularização” anglófono (génese do multiculturalismo que depois grassou) carrega, isso de que temos de respeitar as religiões (o que é completamente diferente de respeitar a liberdade de culto). Enfim, devido ao seu repúdio pelo direito à blasfémia e com a oposição a Tatcher, a direita anti-Estado de Direito britânica invectivou escritor e sua necessidade de protecção. Depois, com o tempo e a expansão do terrorismo islâmico, esse repúdio baixou. Rushdie passou a ser pensado (quando ainda o é) como uma das vítimas, e não apenas como um alvo (algo) merecido, devido ao seu “desrespeito”.

Ba não é Rushdie, claro. E o PNR e outros feixes de holigões não são o estado iraniano nem as organizações fundamentalistas islâmicas. Mas em termos abstractos as situações são algo similares. Até porque temos em Portugal antecedentes de violência rácica por causas políticas, até mortal. E mesmo que não os tivéssemos. Como tal Ba tem não só o direito inquestionável de pedir protecção policial, independentemente do que pensa sobre a acção policial. Tem também o dever, cívico, de se proteger. Incompreender isto é incompreender a democracia. 

Que um deputado não o perceba, que mande Ba à merda por isto, é inaceitável, e mostra o miserável intelecto que tem, e a sua visceral aversão à democracia. E o PSD deveria perceber o que o Pedro Correia aqui deixou, com ironia, isso de que é hora de serrar fileiras. E expurgar-se deste Moura e de holigões similares que por lá andem. Aboletados, em busca de empregos estatais ou comissões.

Fiquei embasbacado


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Abaixo coloquei um postal meio a gozar com isto de Costa andar a fazer propaganda do programa televisivo no qual, quando só era presidente da câmara, foi avençado – isto de políticos em exercício de funções servirem de comentadores tem imenso que se lhe diga, mas enfim, acaba por ser coisa pouca no país do crédito da CGD …. 

Apareceram-me anteontem três comentários nesse postal aludindo à cor da pele do PM. Achei de imenso mau gosto, para além de virem a despropósito, e até de “má onda” para este blog – criticar alguém sim, surfar a patetice racista nunca. Por isso apaguei-os, pura e simplesmente. Só agora, já domingo, leio dos dislates do PM sobre a sua cor da pele. Não é o pior que ele já disse – nada ultrapassará o abjecto e execrável “não me faça rir” depois das dezenas de mortos nos fogos. Mas é vergonhoso.

Peço desculpa aos comentadores aos quais apaguei os tais comentários, obviamente glosavam a patetice ordinária e demagógica do PM que temos. E, se calhar, merecemos.

TV Rural e o governo


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Anda atarefado em comentários, qual blog colectivo, o governo português. Um seu membro, um tal de José Mendes, diz que secretário de estado da mobilidade (quê?), anuncia-se afinal imóvel pelo que não irá a Braga – de onde parece que é – ver a bola e lança-se (ainda que imóvel, repito) num ditirambo sobre árbitros e coisas assim.

E outro membro do governo comenta as novas programações televisivas dos canais privados, clamando contra a transferência do “TV Rural” para um canal concorrente.

(Já agora, têm visto o programa da “Cristina”? É que cá fora não apanho. Está a correr bem? Nos conteúdos e nas audiências? O Celo de Sousa já lá foi ser entrevistado? Ou, pelo menos, já telefonou à senhora?)

 

Estudantes de Bruxelas e Alterações Climáticas


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Há dois meses aqui botei um texto sobre uma manifestação em Bruxelas, cerca de 300 estudantes liceais a reclamarem mais e melhores políticas de protecção ambiental. Fi-lo com esperança, a de que a nova geração possa movimentar-se obrigando a algumas necessárias e urgentes alterações nas práticas produtivas e consumistas. (E fi-lo com orgulho, vendo a minha filha integrar-se activamente numa acção cívica. Ainda para mais porque me enviou uma bela fotografia que lhe fizeram durante a manifestação, que usei, pai babado, no postal. Tal como usei um trecho do belo texto que ela escreveu para aquele movimento). 

Passaram dois meses. Neste período a Bélgica tem tido posições internacionais absolutamente anti-ecológicas, nisso minoritária na União Europeia, pois tem o governo cativo das posições da extrema-direita flamenga (e tem uma ministra do Ambiente que é patética, para não dizer pior) – e é interessante ver como estes movimentos actuais de direita profunda, conservadora, são visceralmente anti-ecologistas, ao invés do tradicional anti-industrialismo da antiga direita conservadora. A sua base social é agora a pequeníssima-burguesia urbana, já não o mundo rural …  

Entretanto o movimento dos jovens liceais então iniciado cresceu. Dos 300 manifestantes de há dois meses passaram a 12 mil a semana passada. Ontem foram 35 mil a percorrer as ruas de Bruxelas, e houve manifestações em Namur e Liége, mostrando ao país e aos eurocratas a sua vontade de preservar o meio ambiente e a sua exigência para que os possidentes – nós, os mais velhos – recuem no seu omnivorismo voraz.

Parabéns meu querido Tintin, nos teus 90 anos


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Hoje o Tintin faz 90 anos, que bela idade. E por ele parece que o tempo não passa. Continua lindo, enérgico, cavalheiro pois cavaleiro dos pobres e desprotegidos. E tão actual – acabei de reler (pela quantésima? vez) “A Orelha Quebrada”, um espanto do tão contemporâneo que é, sendo também jovial, arte de associação que se perdeu.

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E foi aqui, no Petit Vingtième (jornal católico. Ou seja: belga) de 10 de Janeiro de 1929 que o Tintin se apresentou. Na sua viagem ao país soviético. “Anti-comunista” disseram-no, como se isso defeito e não extrema qualidade. E por isso alguns, foucauldianos tapiocas-alcazares, ainda o invectivam, apontam-lhe pústulas e rugas, inventando-lhe outras ditas malevolências. Comemoro-o, sempre: hoje relendo, com a alegria de sempre, “As Sete Bolas de Cristal” e “O Templo do Sol”. Mergulhando, com felicidade, naquela espantosa actualidade.

Deixo aqui Hergé, o avatar de Tintin, a contar como apareceram:

Viva o Tintin. 

Viva Hergé.

E viva eu …

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E para quem tiver meia hora para dedicar à história aqui deixo

Celo de Sousa


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A seguir a Sócrates, Celo de Sousa é o político de expressão nacional que mais abomino no rincão. Ou seja, o que julgo pior fazer ao país. Sim, pior do que os corruptores siameses Campelo/Portas, ou o insuportável Louçã, o stôr Nogueira ou o “florentino” (as known as filhodamãe) Augusto Santos Silva. Ainda assim surpreende-me a baixaria (e é difícil que um PR que muda em cuecas em público possa baixar mais baixo) a que ascendeu esta semana passada. A minha atenção para o facto é convocada por um comentário aqui no DO. Na mesma semana em que, em verdadeiro delírio popularucho, telefona em directo para a estreia de um programa de entretenimento televisivo – certo, a apresentadora é uma balzaquiana interessante, mas menos apetecível do que a do concorrente “Praça da Alegria”, já que o assunto é convocável -, os serviços de Celo de Sousa esqueceram o falecimento de Joaquim Bastinhas, figura relevante da cultura nacional. Googlei e confirmei. Bastinhas, exímio cavaleiro, e genro do incontornável Comendador Nabeiro (que tive a honra de conhecer em Maputo, quando integrou uma comitiva de um predecessor de Sousa), era uma figura popular e expoente de uma prática cultural tradicional portuguesa. Se fosse um futeboleiro Sousa iria abraçar a sua prole. 

Mas o BE resmunga? O PAN protesta? Celo cala-se. E telefona à “Cristina”. O povo, em especial os seniores, demente ou proto-demente, rejubila. Os outros? Já lá não estão.

Preconceitos e Judite de Sousa


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Nos dias actuais vigora a ideia de que não se pode ter preconceitos – algo que parece ser sinónimo do iluminismo, qualquer coisa como o cume da evolução da inteligência humana, da razão. E, assim sendo, urge que deles nos depuremos. E isso deve ser exercido também nas formas de tratamento, como nos dirigimos aos outros, como os nomeamos. Mesmo em relação aos que nos são mais próximos. Pois essas formas estão impregnadas de desvalorizações, relações de poder implícitas ou explícitas, categorizações que nos hierarquizam e a tantos amesquinham, mesmo  violentam. E nisso, por vezes, somos surpreendidos com as oposições que, cândidos, geramos. Muito me lembro do meu espanto quando, há cerca de 15 anos, uma colega antropóloga, feminista radical, me invectivou violentamente por eu ter referido, com evidente desvelo amoroso, “a minha mulher”. “É tua propriedade? és dono dela?“, clamou, La Pasionaria do género … Eu ainda tentei contribuir, anunciar a minha certeza (empírica até) de que me seria dedicado aquilo do “o meu marido” (ou até o mais coloquial “o meu homem”). Mas de nada serviu essa tentativa de defesa, e a inexistência da minha auto-crítica pública por esse “desvio de direita (machista)” esfriou o nosso relacionamento.

Parece bonita, sob boas causas, esta depuração da linguagem, o extirpar dos preconceitos que habitam, insidiosos, na placidez das formas de tratamento, reprodutores da ignomínia passada e presente . Mas, em absoluto, não é. Sê-lo-á se com “conta, peso e medida”, aquilo do bom senso. Eu faço o culto dos preconceitos e vejo, com agrado ou sarcasmo, consoante quem observo, como os outros o fazem. Quantas vezes inconscientemente. Melhor dizendo, quase sempre inconscientemente.

Exemplifico: detesto o tratamento “tio” se fora da família. Quando os filhos dos meus amigos medraram até à idade púbere lá chegava eu de férias a Lisboa para aturar a pantomina burguesota do “olá tio”. Bufava de raiva: fui tio aos 4 anos, tio-avô aos 30, tenho sobrinhos que cheguem, e até sobram (literalmente falando, pois espalhados pelo mundo), não preciso de acrescentos. Cresci, entre esses tais velhos amigos, ensinado a tratar-lhes os pais pelo primeiro nome (na terceira pessoa mas pelo nome). E agora eles educam os filhos na tiozice? Foi difícil ajudar a minha filha a calibrar o entendimento face a esses meus velhos amigos: “tio” é tabu; há aqueles a quem se dá o “tu” e aqueles a quem se dá a terceira pessoa, distinção que é feita caso a caso, de modo fluído, inconceptualizável. Pois esta tiozice, disseminada nos anos 80s na pequena-burguesia (na altura não se dizia classe média), terá razões. Mas não temos que as seguir. Ou seja, podemos seguir outras formas de tratamento. Entenda-se, outros preconceitos …

Por essa década apareceram outros “marcadores de classe”, estratégias ascensionais. Em muito jovem uma muito apetecível beldade da vizinhança informou-me que os homens não podem usar meias brancas (nem dizer peúgas, mas essa era ideia mais antiga). Grassou a piroseira de que só se cumprimenta com um beijo (“dá cá o segundo, que eu sou dos Olivais“, disse centenas de vezes) e outras patetices parecidas. E, nestas coisas da fala, algum tempo depois brotou talvez a pior de todas, que me convoca iras sanguinárias, vertigens fuziladoras: a elisão do possessivo relativo aos pais. Da mercearia ao consultório médico perguntavam-me “a mãe precisará de …?” e eu sempre a resmungar “a mãe de quem?, que por aqui há filhos de muitas mães” (como, e muito bem, aprendi na tropa), ou por todo o lado “então como tem passado o pai?” e eu a embrulhar o peludo palavrão num azedo “o meu pai? (será dele que está a falar?)”. Enfim, sempre falei do “meu pai” e falo da “minha mãe” e de certeza que não é palrar sobre “o pai” e “a mãe” que lhes azuleará o sangue ou doirará antepassados e descendência. E, mais, muito gosto de os referir como o “meu pai António” e “minha mãe Marília”. Mas esse é o meu gosto. Dirão os que se julgam mais puristas que só se tem um pai e uma mãe, tornando redundante o possessivo. Pobre ignorância, reduzindo parentesco a consanguinidade, incapaz de olhar a sociologia: até pela disseminação do divórcio, e pela sua legitimação moral que é motriz de afectividades, generalizou-se a pluralidade paternal e maternal.

O que acho piada é que todos estes modos são também gozadas por muitos. As “bocas” aos “tios”, aos arrivismos, à construção de sotaques – ainda que todos nós construamos sotaques e os moldemos aos interlocutores, procurando fundi-los para episódicas osmoses ou preservando-os para demarcação das distinções. Ora estas reacções negativas, tantas vezes achincalhadoras, são meros preconceitos. Conservadores, e do piorio. Pois estas tais estratégias ascensionais, mesmo que sob formas um bocadinho patetas, até kitsch, mostram a legitimidade da mobilidade social. E essa é boa, é a democracia, a república de cidadãos. Mas, paradoxalmente, convocam a verrina de muito boa gente – que depois também segue outros ademanes identitários -, principalmente, mas não só, num mundo “esquerdinha”. Que gozam estas práticas sem perceberem que apenas seguem outros preconceitos. Acima de tudo o que subscreve a sociedade de “antigo regime”, isso do “nasceste sapateiro nunca tocarás rabecão” – a não ser que tenhas um extremo talento, aquilo do “génio”, que te permita ascender, romper, mas só tu, a natural ordenação de classes. E como tal “nada de falares ou de te comportares acima da tua condição”. O que restou da “esquerda que ri” é só isto, preconceituosa, reaccionária. Policiesca.

Vem tudo isto a propósito da sanha generalizada contra Judite de Sousa. A senhora publicou um livro. Fez uma sessão de apresentação. Publicou fotos dessa sessão. Numa delas colocou uma legenda, tipo “em família, eu, mãe, irmã, a senhora cá de casa”. Esta última é a empregada doméstica. É negra. Cai o Carmo e a Trindade. Acusações de desrespeito. De racismo. Chego a isto porque o jogador de futebol William Carvalho intervém na querela invectivando a jornalista por não dar nome à senhora em causa. Judite de Sousa não nomeou a mãe e a irmã. Isso está bem – repare-se, por mero preconceito nosso, habituados a que não se digam os nomes dos familiares. E utiliza uma velha expressão, que não tem origem nem conteúdo racial, para descrever empregados domésticos com os quais se têm grande intimidade. O trabalho doméstico é muito complicado, e integra situações muito injustas. Mas essa é uma situação geral, de sociologia (e de direito) do trabalho. Não se pode dizer que seja este caso, que a jornalista tenha um comportamento ilegal (ou imoral) para com a sua funcionária. O trabalho doméstico também muitas vezes cai em relações complexas, de patrocinato (de “paternalismo”, como se costuma dizer), que podem violar os direitos dos trabalhadores. Mas também nada disso se pode adiantar neste caso. 

Judite de Sousa apenas usa uma velha expressão, não discriminatória (de facto, já que as pessoas vasculham a língua para imputar sentidos implícitos, saberão o que quer dizer “senhora”?), para integrar a sua “empregada doméstica” no âmbito familiar, as 4 mulheres. As 4 senhoras. Visto de longe é um pequeno acto de ternura, ou companheirismo, que cruza relações contratuais. Mas a outra senhora é negra. E como tal tudo isso se torna condenável, insuportável. Porque é preciso denunciar, seja lá o que for. Principalmente se houver “raça” à mistura.

A reacção generalizada a este pequeno gesto torna o “fait-divers” num óbvio sintoma do estado da arte aí. O policiamento do linguajar, o afã purificador, de facto racista, virou pandémico. Pois grassam os imbecis. Imbecis racistas. E, como é típico da imbecilidade, vão convictos de que não o são. Aturem-nos. Aos negros e aos brancos. E aos das outras cores também (os patetas aos tipos de “outras cores” chamam “étnicos”). E se não tiverem paciência para os aturar? Combatam-nos.

Postal de Facebook para as Boas Festas


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Em 1973 o país mais pobre da Europa Ocidental estava há 12 anos em guerra, de facto 3 guerras coloniais. Era o segundo país não comunista no mundo que mais gastava, percentualmente, em despesas militares. As guerras, para quem não saiba, eram absurdas. Nem discuto se estavam ganhas, empatadas ou perdidas. Nem tão pouco discuto se os portugueses eram maravilhosos colonos, ou só mais ou menos. Ou péssimos. Nem elaboro sobre se os regimes subsequentes foram magníficos, catastróficos ou normais. As guerras eram absurdas pois o tempo histórico das colónias europeias ultramarinas tinha passado. O Estado Novo nelas insistiu. Não argumento se era fascista ou não. Se era um Estado Bom ou Mau. Apenas digo que era o Estado Novo. Muito resistente: aguentou o fim da II Guerra; a pressão democratizadora da entrada na NATO; o plano Marshall despejado nos vizinhos. a campanha do prestigiado governador colonial Norton de Matos (um homem da sua época, com muita visão); a forte campanha do ex-nazi com aspirações a caudilho; o êxodo de centenas de milhares de emigrantes; a integração económica transpirenaica; a invasão de Goa; a morte de Salazar; o opróbrio internacional.

 

Ao fim de 12 anos de guerras o regime, relativamente exaurido, mexeu nas formas de promoção dos militares profissionais – que, desde sempre, tinham sido um dos seus sustentáculos. Os oficiais mais novos, entrados nas academias militares em finais de 50s e inícios de 60s, e nisso algo militantes do regime e suas formas de nacionalismo, então exaustos de sucessivas missões em África, devido a essas medidas associaram-se corporativamente contra o regime. Pouco ou nada politicamente conscientes (como tantos deles repetiram em registo memorialista), foi esse o motivo que os levou a sistematizar e a comungar a impossibilidade de manter essas guerras. E o regime que as exigia. O que os conduziu aos golpes de Março e de Abril de 1974. A este segundo já o regime não conseguiu reagir militarmente e, na ausência de confrontos, a população de Lisboa saiu à rua. E deu corpo ao futuro mito. Nacionalista, falsificador da história, desta higienizador.

 

Em que consiste esse mito nacionalista? Na censura. Isso ilustra-se assim: há uma bela canção da época, panfletária como então era norma, de Sérgio Godinho cujo refrão é “Só há liberdade a sério quando houver / A paz, o pão / habitação / saúde, educação“. Ora quando se fala do antes, no célebre “onde estavas no 25 de Abril” a tal “paz” parece que desapareceu das questões prementes. Como se as únicas questões relevantes, influentes, fossem as internas ao Portugal, a Pátria.

 

E com isso se torna evidente o tal mito, nacionalista: a democracia, a liberdade, a II República, como quiserem, foi fruto das energias e anseios portugueses, internos, endógenos. Da nossa “virtude”, capitaneada pelos “gloriosos capitães”.

 

A que propósito vem isto? Ontem os populistas (integrados pelos fascistas do PNR) tiveram o seu arroubo, o “fiasco amarelo”. Uma amiga minha saúda esse falhanço da extrema-direita, esta tão em voga pelo mundo afora, citando um execrável texto de um desses fazedores de opinião consagradores da cleptocracia socialista. Reza assim o texto, que saúda o tal fiasco: “No Brasil, na Itália, muitos estão a sucumbir. Nós não. Porque ninguém veio de fora para nos libertar. Fomos nós que conquistámos a nossa liberdade e a nossa democracia. Frágil, imperfeita, cheia de erros.”.

 

A tal falsificação da história, a “naturalização” e “endogeneização” da democracia portuguesa. Essa que, de facto, resultou de que “alguém veio de fora para nos libertar”, de que em três futuros países se combateu o Estado Novo. Mas estas trapalhadas, este nacionalismo viscoso, falsário, esta mitificação necessária a um atrapalhado regime repercute-se. Com apreço, pelos académicos, intelectuais. Até por quem tem experiência de África.

 

Porquê? Porque para gostar das patetices que estes fazedores de opinião botam basta que eles defendam Vara, Sócrates, e quejandos. Desde que sejam dos “nossos”, do PS, do Livre, do BE (ou, vá lá, do PC) podem cuspir todas as asneiras, mesmo estas de um nacionalismo tão bacoco como os dos Livros Únicos do Estado Novo. De facto, que se lixem os “fiascos amarelos”. O que interessa é que o juiz Alexandre seja arrumado, como foi a PGR. E que o Vara se safe. E entretanto que se digam todas as asneiras que a gente aplaude. Ulula. É esta imunda merda, natalícia, que é a “esquerda” portuguesa. Um Feliz Natal para todos vós. E o 19 que mereçam – o ano em que Sócrates regressará da Ericeira. Para gáudio da Clara Ferreira Alves e deste tipo de gente, essa que  “ao fim destes anos todos só nos enganámos numa coisa, julgámos que havia uma campanha da direita contra Sócrates”, e o povo aceita-lhes a desfaçatez. De “esquerda”. E a rapaziada partilhará. E dirá de “direita” (e se calhar até “anónimos”) os que se enjoam com este lixo. O fedor da cloaca. Vosso.

A ministra da Saúde e os criminosos


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(Entrevista ao Diário de Notícias: transcrição e excertos em filme. Para quem tenha dúvidas ou queira aludir a uma hipotética descontextualização, este trecho em rodapé aparece no oitavo filme apresentado)

 

Quem me está próximo preocupa-se por eu falar sozinho, aparente sinal de senilidade, óbvio marcador de maluquice. “Não te preocupes”, vou adiantando, “sempre falei”, o que não sei se sossegará alguém. Não sabe, passará agora a saber, se isto ler, que muitas vezes, não sempre mas muitas vezes, nisso falo com o meu pai. Ontem à noite conversei com ele sobre isto, esta ministra da Saúde PS que considera os sindicalistas renitentes como “criminosos, infractores”. “Pai, viste esta tipa, então o Partido apoia isto?” e ele, que foi comunista até à morte, daqueles cunhalistas “sem qualquer culto de personalidade”, a menear a cabeça, com ar até amargurado, e eu sarcástico “isto já parece lá a vossa União Soviética, para estes gajos um dia destes nem haverá direito à greve“, e ele a repreender-me “deixa-te de coisas“. E eu, qual adolescente implacável, “eu deixo, mas vocês é que são a geringonça, a esquerda, a apoiarem esta tipa“. Ele escorropichou o seu, sempre frugalíssimo, cálice de genebra (ou seria rum?), levantou-se e praguejou, à sua maneira, “patifes!“. E culminou “isto tem que acabar” antes do seu “boa noite, vou-me deitar“. Eu sorri, servi-me com abundância do rum (ou seria genebra?) e fiquei até a desoras a ver o “trio de ataque”, o Oliveira, o Gobern e um rapaz de melena arisca que “representa” o Sporting. Pois antes estes que tal ministra geringôncica. Depois, antes de me deitar, ao espelho lavando os dentes, surpreendi-me a falar sozinho, “criminosos? infractores? os sindicalistas? … estes gajos perderam completamente a noção”. Nisso a minha mãe assomou ao corredor, preocupada, “Zé vai-te deitar, já é tardíssimo e estás para aí a falar sozinho“, e eu que “tá bem, mãe, já estou a ir“, e ela sorri-me “vai, que já bem me basta o teu pai que não me deixa dormir, ali a falar mal do governo“.