
José Nuno Martins chamou “besta negra” ao Jorge Andrade e caiu o Carmo e a Trindade. O Jorge Andrade, que eu saiba, não reagiu ao dichote mas já reconheceu que se havia “esticado”. Ele foi um extraordinário jogador, um magnífico defesa-central (muito prejudicado por lesões) e é um homem simpaticíssimo e muito bem-disposto. E “esticou-se” porque disse na tv que ao miúdo-maravilha que por ora desponta no Benfica ele “daria um pisão”, para o amansar em campo. Sejamos francos, é o que os gajos da bola fazem. E é o que os gajos da bola falam. Mas não em público, claro, que a compostura e o respeitinho são muito apreciados. Faltou ao Jorge Andrade mudar de registo (de “chip” diz-se agora), ali no estúdio da tv. E, francamente, para quem gosta de futebol, para além dos clubes, este miúdo, que dá pela graça de João Félix, é um regalo, o franzino reguila artista, o tipo de jogador que nós povo adoramos: guardem lá os “pisões” para outros morcões …
Também José Nuno Martins já veio reconhecer que se esticou, na defesa do jogador do seu clube, e com boa verve o fez. Claro que o invectivaram de racista, nos tempos que correm nem havia como evitar isso, dado o fenotipo do ex-futebolista – e mesmo que o alvo fosse louro, que o afã purificador anda desbragado. O homem tem o defeito de ser director do jornal do Benfica, e por isso a minha solidariedade escasseia. Mas ao mesmo tempo lembro-me que é meu vizinho. Nunca com ele falei mas desde os meus 7 anos que vive no prédio ao lado daquele onde cresci, e onde agora – quando em Lisboa – me recolho. E quando eu era miúdo era ele uma celebridade radiofónica, o homem da música brasileira, do “Cantores da Rádio” – como o Luís Filipe Barrros era o do rock mainstream no “Rock em Stock” e o grande António Sérgio era o do rock, o verdadeiro, nos “Rotação”, “Rolls Rock” e “Som da Frente”. E lembro-me bem do frisson lá na rua, bem nos anos 1970s, quando corria a notícia que na casa do José Nuno Martins estava o Chico Buarque ou o Gilberto Gil (julgo que do mor-Milton nunca ouvi ecos) ou outros ícones de então. Havia amigos meus, putos na puberdade a fazerem-se já adolescentes, que tinham a lata de subir, bater à porta, a pedir autógrafos nos singles.
Certo, estas memórias não significam, obrigatoriamente, que o homem não tenha preconceitos. Sei lá eu se os tem. Mas poderiam (eu acho que deveriam) matizar um bocado a imediata raiva (sim, eu sei que ele é o director do jornal do malévolo clube), a imputação de racismo (e de xenofobia, que também aparece). E acima de tudo poderiam – num contra-ciclo ao purismo actual – deixar lembrar que “besta negra” é uma expressão algo antiga. Julgo eu, que não sou especialista hermeneuta, que é uma derivação literária da Besta bíblica, a do Apocalipse, que está presente na simbologia dos 4 Cavaleiros do dito cujo, e anuncia a morte e a esterilidade. Ou seja, a lesão de um jogador de futebol, no registo futebolês actual. E, vamos lá a ver, só o mais radical dos pós-coloniais ou dos crentes da Igreja Holandesa Reformada sul-africana é que encontra no Antigo Testamento o germe literal das imagens do colonialismo, da escravização dos negros, e dos preconceitos racistas actuais.
Há, com toda a certeza, outras expressões a inutilizar – “pintar a cara de preto” como símbolo de auto-punição será, talvez, a mais escandalosa de todas. E há imensos preconceitos a combater. Agora “besta negra”? É mais do que utilizável, adequada, consoante os desgostos de cada um. Assim apropriada à caucasiana Lagarde, ao latino Bolsonaro, ao alaranjado Trump, ao árabe Assad ou ao Mugabe, filho de Cush. Ou imensos outros. Que o Apocalipse não tarda, como bem se sabe.

Genial: “besta negra” são duas palavras, uma que, dirigida a pessoas, é uma injúria e outra que é uma cor. E as desculpas devem-se ao uso da segunda.
Saudações, caro maiúsculo
Vivemos asfixiados pelo politicamente correto.
Tanto que deixamos de ter em conta os registos de linguagem e os contextos.
Os exageros e as delarações imprudentes são exageros e declarações imprudentes e não têm cor.
Ponto!
João de Brito
Asfixiados será exagero. É mais como aquelas camisolas de mousse de gola alta, basto desconfortáveis
ou um colarinho apertado, sobre a papada resplandecente, coisa que por vezes sofri
Defina “politicamente correcto”.
O registo “memórias” adoptado nos últimos posts, perdão, postais, é delicioso. Contudo, ver-te ser simpático com um benfiquista, ainda que vizinho, deixa-me em cuidados…
Para onde foi o mau feitio? Um destes dias ainda te resvala o teclado a favor do Sócrates.
Isto sim, parece-me o início do Apocalipse.
Volta, jpt, estás perdoado! 🙂
Anónimo, pelo tom presumo que não me és nada anónimo. Fica o abraço, másculo ou terno, consoante quem fores … Mas tens razão em chamares-me a atenção: ao longo destes últimos anos, e decerto que devido à crise da meia idade que me acometeu, fui várias vezes excessivamente intempestivo com o engenheiro Sócrates e seus apaniguados, perdão, camaradas de partido. Chegada agora a idade da sageza cumpre-me reconhecer isso em público, de que embarquei em críticas espúrias por quem, decerto que também com alguns erros, tentou promover o bem do país, em situações internacionais difíceis e enfrentando oposições internas, quantas vezes subordinadas a interesses externos e mesmo anti-nacionais.
Estou mesmo, nesta minha era mais sábia, disponível, em troca de uma modesta avença mensal, para, caso isso seja considerado positivo por quem de direito, a integrar neste ano tão eleitoral, blogs, páginas fb ou twitter ou fluxos whatsapp, em prol do engenheiro Sócrates e restantes apaniguados, perdão outra vez, quero dizer camaradas de partido
Eu bem digo que estás irreconhecível!
Isso das avenças dá muito trabalho e pouco retorno…há que falar directamente com os teus camaradas posicionados na CGD e solicitar um pequenino empréstimo, como fez, p. Ex. O Sr Comendador, o outro!
Cristina, a anónima de serviço.
Eu sou modesto, nas avenças: um servicinho como o amigo das jugulares, uns parcos miles de euros por mês e pronto, nem precisaria do emprestimo da cgd nem da comenda
Hehehehehe!
Inspiradissimo na resposta!
Eu, anónima me confesso, ignorante nestas artes de autenticação via Facebook ou outros.
Tenho de reconhecer que estás a tornar-te num geronte sábio. O “Inginheiro” e sus muchachos foram, variadissimas vezes, injustiçados nos teus textos. Essa contrição perante os camaradas de partido, fica-te bem e condiz com a nova candura da escrita.
Escolho o abraço terno, pois claro, porque sou a Cristina (não vá dar-se o caso de aparecer anónima, outra vez!)
Ó Cristina (eu ainda perguntaria qual, se isso não parecesse volúvel) então, e já agora, sem querer incomodar-te, e porque me soas algo articulada com os apaniguados, desculpa, quero dizer camaradas, do referido engenheiro dominical, arranjas-me tu a avença de /agitador de redes sociais anónimo? Ou tenho que ir à delegação da Kamov cá no burgo, a oferecer os préstimos?
E não é que a Cristina, ao que diz por não dominar inteiramente esta coisa dos blogs, como me acontece frequentemente a mim, voltou a aparecer como Anónimo, no masculino? Não acha que estão questão devia ser apresentada à malta da “igualdade de género”? Não lhe parece que, nestes casos, a identificação deveria ser Anónimo/a? Ou ao contrário: Anónima/o?
Eu acho que essa gente da “igualdade de (ou do) género” anda distraída.
O Tiro no alvo, fez jus ao seu nome e acertou na mouche. Para além de ter voltado a aparecer como anónima (já percebi que é um erro de autenticação através do Facebook, embora não saiba soluciona-lo…), levantou uma questão importantíssima, fracturante, como é moda dizer-se.
Ser anónimo é ofensivo para uma senhora. Embora ultimamente os requisitos para se ser uma coisa ou outra, leia-se mulher ou homem, me façam olhar cada vez com mais atenção para a quadrícula dos “outros”…
Seja como for, sou tentada a dizer que a culpa será dos novos camaradas do jpt. 🙂
Ass. A anónima Cristina
Os apaniguados? especialistas em anonimatos e maçonaratos, ao que consta
Duas ondas de indignação.
Da propaganda dos clubes, e dos “adeptos”. Estes, na boa maioria, nunca deram um chuto na borracha.
O JAndrade expressou o que se fazia e faz lá dentro. Uma pancadinha do defesa para amaciar.
Junte-se o espírito guerrilheiro da net, ao facto de não se poder falar mal da Nossa Senhora (personificada pelo Maradona Felix), e prontos…
anonimus terá razão nisso dos adeptos, sofá em demasia desde a mais tenra idade
Não me parece que Jorge Andrade, quando jogador, tivesse sido violento, ao nivel de João Pinto, André, Paulinho Santos e mais recentemente Renato Sanches, Ruben Dias e Samaris; aquilo saiu-lhe. Ja no tempo das peladas quando aparecia um “brinca na areia” era ver quem molhava a sopa. São jogadores irritantes, a maioria acaba a carreira cedo.
Futre terá sido um pouco isso, mas era um génio e arranjou uma namorada aos 18 anos, fora as ameaças.
O radialista, com quem sempre embirrei, paõzinho sem sal, é que foi MISERÁVEL.