O Clima, aqui em Bruxelas


jpt,

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Ontem cerca de 300 estudantes liceais manifestaram-se contra a global apatia institucional face às emissões poluentes e seus (muito) presumíveis efeitos climatéricos. Foi aqui mesmo na minha vizinhança, geográfica e pessoal, uma congregação de alunos de várias escolas bruxelenses na praça Schuman, centro das instituições europeias, o coração do “bairro europeu” da capital administrativa da UE.

Os jovens apontam aos organismos multilaterais e governos nacionais o escamotear dos dados reais da situação ecológica actual e dos concomitantes indícios para o futuro. Exigem a divulgação da gravidade da situação e aceleração de novas políticas. Não há aqui o bucólico do sonho pastoral, anti-industrialista e anti-capitalista, que alimentou ecologistas de décadas passadas. Há sim a consciência da necessidade de preservação ambiental – algo que este mais-velho poderá sintetizar como implicando novos moldes produtivos, novas formas de consumo, com novos processos de produção identitária. É um novo radicalismo, bem distinto dos anteriores radicalismos estetizantes, e nisso eunucos, dos ecologismos ocidentais.

A reacção a esta demonstração foi muito interessante. Um dos vice-presidentes da Comissão Europeia, o finlandês Jyrki Katainen, desceu à praça para conversar com os jovens manifestantes (algo que um político da Europa Austral dificilmente faria). E chegou, simpaticamente, com os argumentos de medidas já tomadas ou anunciadas sobre reclicagem ou substituição de plásticos, temas actuais, decerto que importantes e saudáveis, mas de facto apenas presumidas panaceias face à grandeza dos desafios que se enfrentam, até símbolos da modorra político-institucional. Ou seja, Katainen veio, simpática e até paternalmente … desconversar, elidir o fundamental que os manifestantes colocam, assim tentar inconsciencializá-los (algo que um político da Europa Austral facilmente faria), acantoná-los no comezinho do “ecologicamente aceitável” e do folclore a que muitos bem-intencionados ainda se deixam vincular.

À melíflua iniciativa de Katainen a reacção deste jovens foi fantástica. Mal ele enunciou as suas ideias apaziguadoras, o rame-rame do costume, face a quem apela a um debate sobre verdadeiras soluções, um dos manifestantes, um tipo para aí com 17 anos (!) , teve o sangue-frio de improvisar, clamando “Temos uma mensagem para o Vice-Presidente da CE“: “Dois minutos de silêncio“. E todos se calaram, olhando para o homem.  Pois para resposta à desconversa que melhor do que o silêncio?

Isto sim, é um grande radicalismo. O radicalismo nada folclórico do realismo. Exigente.

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Adenda: Deixo um trecho de um documento dos manifestantes. Pode ser que os adultos, ainda que decadentes e já degenerados, possam aprender algo:

 

“People have underestimated the power of silence. The omission of climate change facts and solutions has prevailed for way too long in our society – and this needs to change immediately. Indeed, politicians, the media and institutions themselves censor each other due to their inherent conflict and because of external pressure. However, people do not yet know the scale of this censorship and how self-censorship has taken over in modern days and become a power that in fact, culminates in the control of everyone, everywhere. This is so ingrained in society that the population does not seem to either notice it, realize it, or care. We live in an increasingly smaller world, under the impression that it is a more open place, where public and private spheres have blended together and become almost undistinguishable. In this intensely globalized world people do trust politicians and institutions because, after all, in who would they trust? However, people do not see through the curtain. So many powers lie behind these organizations, but their sole interests are all the same: to not scare people and cause endemic panic to society, yet most importantly: to protect our economy, our insatiable economy.”

26 comentários em “O Clima, aqui em Bruxelas”

    1. Então se não é medrosa porque é que diz que vivemos num mundo cada vez mais pequeno ? Em vez de dizer com todas as letras: o mundo não aguenta tanta gente a consumir tanto ? Estes ecologistas da treta, que eu chamo eco-consumistas, pelo menos os que conheço, são os que mais viajam de avião, mais possuem SUVs, mais tempo estão no banho quente, mais consomem todo tipo de “gadgets”, em suma, mais desrespeitam 2 dos 3 RRRs, Reduzir e Reutilizar.

  1. Jpt, concordando ,permita-me as adendas:

    Não podemos discutir estratégias de protecção ambiental sem abordar novas politicas que alterem os actuais hábitos de consumo (diminuindo-os e portanto diminuindo o que se produz – ex: agropecuária, electrodomésticos, etc). Escamoteando estes, reduzido tudo aos “interesses das petrolíferas” acaba-se discutindo pouca coisa

    https://www.wook.pt/livro/tudo-pode-mudar-naomi-klein/17417253

    https://www.youtube.com/watch?v=8W3scqbuJVQ

    1. A experiência no Gulag soviético e nos campos de concentração nazis demonstraram que um grande número de pessoas vive com pouca alimentação e com temperaturas muito baixas.
      Para quê aquecer as casas na Bélgica ou, muito menos ainda, em Portugal? Para quê 3 refeições diárias?
      Bem diz que o nosso ministro, que podemos baixar a potência contratada.
      Mantinhas – mas não muitas que, o processo de produção e fiação da lã tem inconvenientes.

  2. Por aqui e por agora, os nossos políticos e as nossas prioridades são outros.
    Agora mesmo, sou confrontado com uma revoltante entrevista do nosso primeiro ministro sobre a tragédia das pedreiras:
    – Ao Estado compete gora dar condolências, resgatar os mortos, fazer as devidas fiscalizações…
    Por amor de deus, não haverá maneira de, pelo menos, fazer calar estes senhores em direto, por respeito às vítimas e à inteligência humana?!
    Então é esta a competência de um estado em pleno séc. XXI?!
    A de fazer concorrência às carpideiras, aos fiscais e às funerárias?!
    João de Brito

    1. Que queria o João de Deus que o Estado fizesse?
      O Estado não pode (ainda bem que não pode!) forçar municípios a encerrar uma estrada deles. Também não pode (ainda bem que não pode!) proibir pessoas de utilizar uma estrada que preferem.
      (Na Alemanha, à entrada de alguns caminhos não vigiados e que podem ficar cobertos de gelo no inverno, coloca-se uma tabuleta a dizer Betreten auf eigene Gefahr, ou seja, “Você utiliza este caminho por sua própria conta e risco”. Seria bom que tabuletas similares fossem colocadas nalgumas estradas.)
      O Estado Central não tem culpa nenhuma, nem que os alentejanos gostem de utilizar aquela estrada (que é a mais curta entre Borba e Vila Viçosa), nem que os municípios locais, atentos a esse gosto, decidam não encerrar a estrada.
      É como as praias do Algarve cujas falésias correm o risco de desabar: o Estado não interdita o acesso a elas (haveria uma revolta popular se o fizesse!), apenas avisa as pessoas do risco em que incorrem.

        1. Tem razão João de Brito (desculpe no comentário anterior ter-lhe chamado “João de Deus”), as autarquias também fazem parte do Estado.

          Mas repito, o ponto é (parece-me) que aquela estrada era muito prática para a população local. Por isso a população gostava de a usar. Por isso as autarquias decidiram deixar a população usá-la. E, de facto, a população usou a estrada durante dezenas de anos sem que a estrada caísse. Por isso as autarquias, mais ou menos, até atuaram bem (em minha opinião).

          Repare, se você fôr ao Algarve, também tem montes de praias em que se arrisca a que a falésia lhe desabe em cima e o mate. Mas essas praias não estão interditadas ao público, e muitas pessoas até gostam muito de as frequentar e de se deitarem à sombra mesmo por baixo das falésias. As autarquias não impedem as pessoas de tomarem os riscos que lhes apetece.

          Repare também que as autarquias até teriam vantagem material em fecharem a estrada, uma vez que por debaixo da estrada há valiosas jazidas de mármore. Em encerrando a estrada (como agora certamente será feito), as autarquias poderão licitar a exploração de pedreiras por debaixo da atual estrada, e certamente ganharão alguns dinheiros com a licitação. Se as autarquias decidiram não ganhar dinheiro desta forma, foi certamente porque acharam que a população preferia ter a estrada aberta.

      1. Ou está a brincar ou desconhece totalmente as funções primevas e primárias do estado!
        A segurança pública é uma delas e o governo não se pode demitir dela!

    2. Não seja inconveniente, nem perturbe a manifestação de dor do Sr. Primeiro-Ministro. Se faltou alguma coisa, foi porque não podia ser feita.
      Ninguém sofre mais de que o Sr. Dr. António Costa.

  3. Os media e as redes sociais são especialistas em manipular e transformar certos assuntos nos assuntos mais importantes que existem.

    O povo é muito fácil de influenciar, basta falar “meia-dúzia” de vezes num determinado assunto e ele passa a ser um assunto importantíssimo. E os jovens também fazem parte do povo, ou seja também são assim manipulados.

    A verdade é que certos assuntos são usados como manobras de diversão para esconder os verdadeiros assuntos importantes.

    A verdade é que existe um atraso civilizacional muito grave e as manobras de diversão ajudam a esconder isso.

    Perguntem a um sem abrigo se ele está preocupado com a poluição!

    A verdade é que não interessa falar muito, interessa falar bem.

  4. Carinhas larocas, as das alunas bruxelenses. Belles toujours.
    Mas, manifestações de alunos de liceu, também a JCP as promove. E os animalistas também têm muito sucesso junto desse público. Não é propriamente a classe social mais séria e capaz.

  5. Por acaso os estudantes de Bruxelas não têm muita razão de se queixar das alterações climáticas: em geral, o clima de lá é frio de mais e deverá beneficiar com algum aquecimento global.
    Quem tem razão para se queixar são os habitantes de Portugal, por exemplo. Nós sim, temos muito a perder com as alterações que se prevêem.

  6. São estes jovens que consomem carradas de alimentos e bebidas com embalagens plásticas….
    …Como eram os jovens de antigamente contra as guerras…. hoje, homens são muitos deles que as fazem / ou / pelo menos ,nao as evitam…
    .Eles têm o futuro na mãos… Será que “amanhã” estaremos melhor?!!!

    amendes

  7. “como implicando novos moldes produtivos, novas formas de consumo, com novos processos de produção identitária.”
    E em que consistiriam, exactamente esse novos moldes produtivos, e o que seriam “novos processos de produção identitária”? Quanto ao consumo, por exemplo, de energia eléctrica no Inverno das zonas temperadas mas com muito frio nos USA e da Europa, consistiriam em quê, as inovações? E cada uma delas – a serem possíveis – não trariam inconvenientes?

  8. “The omission of climate change facts and solutions has prevailed for way too long in our society – and this needs to change immediately.”

    Vamos então aos factos.

    1- 2000 anos de alterações climáticas com base em 18 proxys da temperatura
    ( http://www.drroyspencer.com/global-warming-background-articles/2000-years-of-global-temperatures/ )

    2- Os oceanos constituem a maior fonte de CO2 atmosférico
    (“Natural CO2 sources account for the majority of CO2 released into the atmosphere. Oceans provide the greatest annual amount of CO2 of any natural or anthropogenic source.”
    https://www.netl.doe.gov/research/coal/carbon-storage/carbon-storage-faqs/what-are-the-primary-sources-of-co2 )

    3- A solubilidade do CO2 na água diminui com o aumento da temperatura
    (“À medida que o oceano foi aquecendo, tem vindo a expulsar oxigénio e dióxido de carbono”, explicou David Nicholson, um cientista da Woods Hole Oceanographic Institution, ao The New York Times. https://observador.pt/2018/11/03/os-oceanos-estao-a-aquecer-muito-mais-rapido-do-que-se-pensava/ )

    4- A curva de concentração de CO2 atmosférico (valores médios mensais) apresenta um carácter sazonal com periodicidade bem definida, apresentando mínimos em Setembro/Outubro e máximos em Abril/Maio, aumentando genericamente quando o Sol, no seu movimento anual aparente, se encontra no hemisfério Sul.
    ( https://www.esrl.noaa.gov/gmd/ccgg/trends/index.html )

    5- O aumento das temperaturas médias globais é um facto, existindo uma correlação entre temperatura e concentração atmosférica de CO2. Contudo, é a variação da temperatura que precede a variação da concentração de CO2 e não o contrário, como pode ver-se nestes gráficos, que mostram a média móvel de 12 meses das flutuações dos dados originais (valores médios mensais) resultantes de medições, em torno da respectiva média móvel de 60 meses ( temperaturas a verde, concentração de CO2 a vermelho):

    http://www.woodfortrees.org/plot/esrl-co2/isolate:60/mean:12/scale:0.2/plot/hadsst3gl/isolate:60/mean:12/from:1958
    (temperatura média da superfície dos oceanos)

    http://www.woodfortrees.org/plot/esrl-co2/isolate:60/mean:12/scale:0.2/plot/rss/isolate:60/mean:12/from:1958
    (temperatura média da baixa troposfera medida por satélite)

    http://www.woodfortrees.org/plot/esrl-co2/isolate:60/mean:12/scale:0.2/plot/hadcrut3vgl/isolate:60/mean:12/from:1958
    ( temperatura média global)

    As fontes destes dados podem ser consultadas no menu Credits da página de qualquer dos gráficos. Será que os meninos e as meninas de Bruxelas se referiam aos factos aqui apresentados? Duvido muito.

    1. O CO2 – anidrido carbónico – não é um gás poluente! É um gás que ocorre naturalmente na natureza e indispensável à vida. Sem ele morríamos todos: é essencial para a fotossíntese, processo que leva as plantas a converter.lo em oxigénio.
      O CO2 existe nos oceanos. Quando a temperatura desce é absorvido pelos oceanos e é libertado quando a temperatura sobre. Isto é, a quantidade de CO2 depende da temperatura, e não o contrário.

    2. O CO2 – anidrido carbónico – não é um gás poluente! É um gás que ocorre naturalmente na natureza e indispensável à vida. Sem ele morríamos todos: é essencial para a fotossíntese, processo que leva as plantas a converter.lo em oxigénio.
      O CO2 existe nos oceanos. Quando a temperatura desce é absorvido pelos oceanos e é libertado quando a temperatura sobre. Isto é, a quantidade de CO2 depende da temperatura, e não o contrário.

  9. Continua a pretensão de conhecer algo que é impossível conhecer.
    Mais uma vez se prova que o significado do que se aprende não interessa.

    Método Científico, reproduzir, prova?? nah…basta repetir muitas vezes que passa a verdade.

    O autor usa a palavra “factos” , já os factos das previsões dos climatologistas que servem de propaganda ao jornalismo Marxista terem saído todas furadas não interessam.

    Por exemplo quais eram as previsões para 2000? para 2010? para 2015?

    Quando é que ia acabar a neve?

    E a barragem do Alqueva que nunca iria encher?

    Um exemplo para demonstrar os problemas com a ciência:
    Recentemente um estudo propagandeado nas ultimas semanas de que os oceanos recebem 60% mais energia, que apareceu nas grandes revistas científicas, e jornais “de referência”, i passando por peer review. Destruído por um blogger atento…

    https://judithcurry.com/2018/11/06/a-major-problem-with-the-resplandy-et-al-ocean-heat-uptake-paper/

    From the San Diego Tribune:

    “When we were confronted with his insight it became immediately clear there was an issue there,” he said. “We’re grateful to have it be pointed out quickly so that we could correct it quickly.”

    “Our error margins are too big now to really weigh in on the precise amount of warming that’s going on in the ocean,” Keeling said. “We really muffed the error margins.”

    Então pelos vistos ainda não se sabe a quantidade de energia que afecta algo tão importante como os oceanos, a maior extensão do planeta mas pelos vistos já se sabe qual o clima de 2020, 2030, 2040…

    Uma ciência ainda incipiente, primitiva até, mas já permite marcar as datas do fim do mundo que estão sempre a serem mexidas:
    https://dailycaller.com/2015/05/04/25-years-of-predicting-the-global-warming-tipping-point/

  10. Se me permite, radicalismo é o que eu acabo de fazer. Explico: a patroa está brava comigo, e eu refugio-me aqui no corpo do Delito na expectativa de não ser extraditado.
    A minha Laurinda, brava, é bem capaz de ir para a cama com faca na liga. Eu não quero acordar sem apêndice. Exigente sou eu.

  11. “but their sole interests are all the same: to not scare people and cause endemic panic to society, yet most importantly: to protect our economy, our insatiable economy.”
    Quando os manifestante gritarem que estão dispostos a viver com menos, aí acreditarei que o radicalismo não é folclórico, and I am talking about the only possible solution (esta é para a menina sorridente do cartaz).
    Até lá, parecem-me fofinhos. Só isso.

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