
No mais recente Índice de Desenvolvimento Humano 2026 o Brasil ocupa o 84º lugar e Portugal o 40º. Entre ambos os países é abissal a diferença quanto a população abaixo dos níveis de pobreza, tal como no respeitante à desigualdade da distribuição de riqueza interna – implicando a cristalização da estratificação social. Algo mostrado no Índice de Mobilidade Social (nos resultados de 2020 o Brasil era o 60º país e Portugal o 24º). Temas sempre articulados com essas características, como a percentagem de população encarcerada, mostram uma situação social brasileira bem pior do que a portuguesa. Questões como a presença de racismo interno também indiciam essa realidade, como este exemplo mostra. Ou seja, se mais exemplos haveria esta breve súmula é suficiente para se perceber que há no Brasil uma situação com conteúdos sociais, políticos e culturais muito mais violentos e estratificados do que no nosso país, e lá grassam – desde há muito – múltiplas formas de agrestes discriminações.
Entretanto a representação do Instituto Guimarães Rosa, dependente da embaixada brasileira em Lisboa, decide lançar um concurso nas escolas estatais “contra a discriminação” aqui existente, contra o racismo e a xenofobia da sociedade portuguesa. Mobiliza os nossos professores, a quem promete prémios pecuniários (bónus extra-salariais) para dinamizarem trabalhos dos alunos da escola oficial portuguesa que sejam favoráveis ao Brasil e aos brasileiros – e, também, à “lusofonia”.
Lendo isso lembro-me de que no final do milénio passado fui responsável em Moçambique pelo Instituto Camões (congénere do Guimarães Rosa brasileiro). Também havia apoios a escolas, a concursos escolares, a acções de formação, doacções de material – bibliográfico e não só -, colaborações várias, por vezes indução de “cooperação” bilateral, etc. Não fui um Oliveira da Figueira dessa “lusofonia”, apesar dessa salazarenta ideologia impregnada de nostalgia colonial vigorar então no funcionalismo socialista e na intelectualidade a la “Jornal de Letras”, tal como ainda agora entre os “oficiais” diplomáticos oriundos do “Itamaraty”.
Mas o fundamental é que nunca se associavam essas acções a explícitas campanhas de “relações públicas” que louvaminhassem os portugueses ou Portugal. Ou que interviessem nas dinâmicas do país – por exemplo, fazendo investidas contra quaisquer hipotéticas antinomias entre grupos sociolinguísticos, ou sobre violência doméstica, etc. Pois as agendas pedagógicas – curriculares e extra-curriculares – eram de responsabilidade do Estado moçambicano. E dentro dessas balizas (temáticas) actuavam os professores da escola pública com quem se articulavam as acções.
E agora, em 2026, vejo a representação diplomática de um Estado – que, para além de tudo, tem o seu país no pobre estado que tem -, ter o desplante de cometer esta iniciativa na nossa Escola pública. Para nos “sensibilizar”… Numa acção que é evidente corolário de um diagnóstico sobre a nossa sociedade. Pelo qual o Guimarães Rosa e a embaixada brasileira em Lisboa decidem melhorar-nos. “Desenvolver-nos”, por assim dizer, a seu bel-prazer. E o nosso ministério da Educação fica mudo e quedo, assim acolhendo este atrevimento brasileiro. Pior do que tudo, o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros, interlocutor do Instituto Guimarães Rosa, nada diz.
Isto seria inenarrável. Se não fosse verdade. É patético o silêncio estatal face a este desplante brasileiro.
[Esta é a segunda parte do meu postal de Páscoa no meu “O Pimentel”. Ateu que sou não sigo na crença de uma “passagem” ou mesmo “renovação”. Mas partilho a crença na continuidade, e sobre isso escrevi. E sobre a necessidade de nos expurgarmos das arrogâncias próprias e alheias para… continuarmos.]

Este foi sempre o comportamento dos brasileiros em geral. Por mim nada disto passa. Acordos? Línguas diferentes, com nomes diferentes. Nós ficamos com o Português e eles ficam com o Brasileiro. Alegriazinha de pacote? Não, obrigado.
Devemos ser o único país que está a ser invadido ao mesmo tempo pelo Islão e pelo tropicalismo.
ainda se afunda em breve.
Continuaremos a chamar a nossa língua de portuguesa, quanto quisermos e por quanto tempo entendermos fazê-lo, gostem vocês disto ou não. Se os incomoda darmos o nome da sua língua à nossa, que mudem o nome da sua, se quiserem. Ou, como dizem no seu português torto, se “vos” incomoda… mudem o nome da “vossa”.
diziam alguns emigrantes brasileiros sobre o caso do racismo no estádio da Luz:
«preto só serve para jogar futebol e dançar o samba»
”estórias da América Latrina”
Não é desplante, é ingerência. Naturalmente, essa inexistência patética em que o MNE se tornou não vai dizer nada, para não comprometer sabe o Diabo o quê.
Até Angola se está a deixar abraliseirar.
Como os portugueses não conseguiram cristianizar Angola completamente em 500 anos, o bispo Macedo e outros brasileiros estão completando, graças a deus.
É, deixaram-se e deixam-se!, explorar e oprimir pelos emigrantes que literalmente os invadiram, italianos, alemães, holandeses, levantinos, japoneses, que em medida muitíssimo mais larga do que os portugueses vieram compondo a verdadeira miscelânea que é o brasileiro actual – mas a culpa de não serem mais desenvolvidos é sempre do colonialismo português, que ficou muito, muito, muito, mais lá atrás.
E isso há-de ser por essa “explicação” ser a que mais romantiza a sua própria inépcia enquanto povo mal governado – é assim como nós a justificarmos o nosso atraso resignado com “a longa noite salazarista”, apesar do onde isso já vai e das carradas de dinheiro vindas da UE…; e também por ser a que menos bule com as elites e ‘coronéis da indústria’, brasileiros sim, mas orgulhosos descendentes dos tais emigrantes. Bater no “colonialismo português” é mais patriótico e prudente, o bode expiatório é mais manso.
Mas adiante. E o mais cómico (porque é mesmo cómico) é quando começam a falar de “devoluções do ouro” e “indemnizações” e tretas por aí; porque afinal quem fala nos dias de hoje é muito provavelmente descendente dessas ondas de emigração, e como se o português actual, mesmo tetraneto de bandeirantes que fosse!, devesse alguma coisa ao filho do emigrante serôdio naturalizado brasileiro. Estão a brincar, só podem. Ou então são oportunistas ignorantes da sua própria história…
E faz muito mal o Governo português querer parecer sério por não ter ouvidos: é método cobarde e ineficaz, que não só não funciona como até incentiva o escalar dos abusos, para lá de fazer os cretinos sentirem-se validados na sua cretinice pelo silêncio consentidor.
Só contribui para mal-entendidos e azedumes, o que é sempre de evitar.
Esse seu texto só demonstra, à perfeição, que a iniciativa do Instituto Guimarães Rosa é, ademais de pertinente, ainda muito tímida diante do enorme desafio de fazer ver aos portugueses quão xenófobos e racistas eles são, quanto naturalizam a xenofobia e o racismo entre si e quão rapidamente deitam areia aos olhos dos outros quando se lhes apontam tais defeitos. Os brasileiros pelo menos sabem que têm de combater a xenofobia e o racismo entre si.