Diamonds Are a Girl’s Best Friend


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(“Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, de Jule Styne. Canção escrita para o musical na Broadway ficou celebrizada no filme “Os Homens Preferem as Louras” de 1953, assinado por Howard Hawks e assente no duo Jane Russell e Marilyn Monroe)

Trump é um incessante tópico. Imensa gente escreve sobre ele, tentando interpretá-lo e prever o futuro que influencia. Na Notus-News of United States, John Judis, publicou “Trump as Alexander the Great: A Theory That Explains Iran (And Everything Else)”, coincidente com o artigo “The YOLO Presidency: Trump is focused on becoming one of history’s “great men”, de Ashley Parker and Michael Scherer. Em ambos os textos (críticos) Trump surge como imbuído do estatuto hegeliano de “Grande Homem” (herói universal), essas personagens históricas que carregam o “Espírito” do tempo, e transformam a realidade global, mesmo que não compreendam os motivos e as direcções das suas acções – como Júlio César causando o Império e Napoleão exterminando o feudalismo europeu, para seguir os exemplos de Hegel. E agora Trump assassinando a era do liberalismo, a ordem internacional aparentemente vigente pelo menos desde o colapso do comunismo europeu.

Pouco importa se os textos sobreviverão aos tempos – ou seja, se são diagnósticos com “pernas para andar…”. Mas o certo é que todos – dos populares nos cafés e redes sociais aos dignitários em conciliábulos internacionais – cirandamos em torno do que o homem vai dizendo e fazendo, pois não deixa ninguém indiferente.

Nessa azáfama opinativa e reactiva têm surgido algumas peças relevantes, Trump é um bom dínamo de oratória. Pois o contexto internacional decerto que influenciou o importante discurso do Papa em Luanda (que referi aqui), politicamente mais incisivo do que o habitual em “Santos Padres” – isto para além do inusitado “bate-boca” entre a Casa Branca e o Vaticano que então ocorria. Mas mais explícito foi o aclamado discurso – até manifesto liberal – do canadiano Mark Carney em Davos (que abordei aqui, ecoando as perspicazes reservas de Kasparov com os efeitos do discurso).

E agora a verdadeira pérola, o discurso de Carlos III no Congresso nos EUA (coloquei aqui a gravação completa) – momento sublime que decerto ocasionará um filme que virá a ser galardoado, pelo menos nos britânicos Prémios BAFTA. Como referi neste meu postal, no Congresso norte-americano o Rei Carlos III clamou “No Kings”. Com verdadeiro brilhantismo e finíssima ironia, defendendo a ordem democrática, a coesão intra-social, a solidariedade internacional, a coexistência ecuménica. Uma verdadeira Lição, que lhe garantiu um lugar mais elevado na História do seu país.

Ouvindo o discurso lembrei-me das acusações de “racismo” à família real inglesa, há anos colocadas na imprensa americana mais “liberal” (no sentido americana de “esquerda”) pela actriz Meghan Markle, a duquesa nora de Carlos III – entretanto saída de cena, tal como o seu marido. Que logo foram adoptadas não só nesse meio jornalístico, como também nas elites intelectuais-artísticas do Partido Democrata, enlevadas no frenesim “identitarista”. E até, com evidente desnorte diplomático, pela célebre mulher do antigo presidente Obama. E perguntei-me: o que dirão agora os “identitaristas”-“democratas” norte-americanos? Face ao garbo e à pertinência do Rei britânico?

Fui logo respondido, nos dias seguintes mesmo. Há poucos meses Zohran Mamdani fora eleito presidente da câmara de Nova Iorque, propagando uma agenda política de grandes investimentos estatais benevolentes. A nossa imprensa – e não só – acolheu o facto com júbilo. Jornalistas e comentadores fiéis à mundividência racialista viram a vitória do “socialista” como racialmente importante. E saudaram o sucesso de um filho de imigrantes, “racializados”. (De facto, Mamdani é um filho de expatriados – o grande académico Mahmood Mamdani e a conhecida realizadora Mira Nair – , coisa sociologicamente diferente, mas isso pouco conta para os empenhados alunos de raciologia).

Nos dias prévios à visita de Carlos III Mamdani anunciou-se bloqueado por problemas orçamentais. Não dei grande atenção, apenas me lembrei, por evidente associação de ideias, do dueto Tsipras & Varoufakis, que tanto mimo colheu há uma década por parte da nossa imprensa e políticos então geringôncicos.

Entretanto Carlos III fez o seu discurso fundamental em Washington, aclamado pelos democratas de diferentes tendências. E seguiu para Nova Iorque, em homenagem às vítimas do atentado às Torres Gémeas, ocorrido há já 25 anos. Mamdani, o “socialista” identitarista, que fez? Apesar do contexto geral, apesar da prestação do rei britânico, renuncia a um encontro individual com o real visitante. E faz constar que se o fizesse seria para lhe “exigir” a restituição do diamante the Koh-i-Noor, tudo assim subordinando à agenda “decolonial” em voga.

É de uma superficialidade inenarrável, típica deste esquerdismo global. De facto, só lhe(s) fica mesmo isso do “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Bem ao invés, diga-se, das magníficas Jane Russell e Marilyn Monroe que acima coloco. Pois essas eram actrizes, excelentes. E este é só isto…

(Postal que é a primeira parcela da Gazeta Semanal no meu blog “O Pimentel“)

O Conde de Ferreira


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Há 11 anos José Capela publicou o livro “Conde de Ferreira e Cª: Traficantes de Escravos“, colecção de biografias de comerciantes de escravaturas (“negreiros”) do século XIX. Quando ele morreu deixei no “Canal de Moçambique” esta muito breve recensão a esse livro (e a outro que ele publicara no ano seguinte, uma verdadeira pérola: “Delfim José de Oliveira…”). Foi uma espécie de homenagem minha, pois Soares Martins (de pseudónimo Capela) fora muito importante na minha vida e tinha (e tenho) para ele uma enorme gratidão. E um grande respeito intelectual, também (mas não só) por ter passado décadas a vasculhar documentos e a publicar, sem pejo nem adornos, sobre como o comércio de escravos foi estruturante no pré-colonialismo português em Moçambique. E como isso moldou as características do subsequente regime colonial – apesar das tralhas lusotropicalistas e lusófonas que vão subsistindo, já para não falar das dulcificadas invocações dos “bons velhos tempos”, que tanto misturam as normais (e respeitáveis) memórias individuais de juventude com pronunciamentos de cariz sociológico. Enfim, talvez com um bocadinho de exagero, mas cheguei aos 50 anos com a sensação de que se tive algum “maître à penser” acabou por ser ele… sem que isso possa macular a sua memória devido às atoardas que vou botando. Mas já estou a divagar, avante,

 

Nesse “Conde de Ferreira…” Capela deixou explícito que vários desses comerciantes de escravos regressaram do Brasil mais ou menos após a ilegalização da actividade e se integraram na sociedade do novo regime liberal (e o financiaram), usando as doações beneficientes para ascenderem socialmente. Nisso também patrocinando instituições que ainda existem (misericórdias, hospitais, etc.).

 

Sei agora por intermédio do historiador João Pedro Simões Marques que aconteceu o que eu esperava há já anos – os cirugiões plásticos da História descobriram o Conde de Ferreira (tão presente por esse Portugal afora, ainda que quase ninguém saiba quem foi). E o “Público” (claro) já está em ardores de expurgar as tais instituições dessa memória…

 

Eu continuo na minha, ao que consta na documentação da época (ainda que um pouco posterior) o malvado D. Pedro I não só castrou um aio devido aos seus ilegítimos actos sexuais (um antecessor do prof. Ventura e seus acólitos, está visto) como matou por mãos próprias uns esbirros do seu pai (e terá até comido parte do coração de um deles, a crer ou no cronista ou na colecção de cromos a que tive acesso). E apesar de tudo isso, que tanto agride os actuais valores, continua ali, plantado no centro do nosso Mosteiro de Alcobaça, como símbolo de amor, ainda por cima. Não será, mesmo, de acabar o que os franceses começaram, e rebentar-lhe com a tumba? Ou, pelo menos, retirá-la dos nossos olhos, evitar aquele elogio à memória da ditadura, da pena de morte e da castração por infidelidade amorosa (invertida ou não)?

Pelas quotas étnico-raciais


Paulo Sousa,

Este episódio já descrito como miraculoso, que foi  descoberto no distante e rural Missouri, noutros tempos seria suficiente para uma beatificação meteórica, elevação de um templo e romagens devotas.

A incorruptibilidade de um corpo inumado não é coisa com que se brinque, ainda mais por se tratar da fundadora de uma congregação beneditina.

A diocese de Kansas City pede calma e orações aos fiéis. Há que dar tempo ao tempo.

A madre Cecília, actual superiora da congregação, afirma tratar-se da primeira afro-americana a ser encontrada incorrupta nos EUA.

Aguardam-se reações da vanguarda woke. Por cada dia a mais, que a Congregação das Causas dos Santos demore a elevar a Madre Wilhelmina, no mínimo a figura venerável, só confirma o poder do patriarcado (neste caso literal) que governa o Vaticano.

A esquerdalhada


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Num postal recente usei o termo “esquerdalhada” (que me é habitual). E logo três amigos me enviaram mensagens, pois com ele incomodados. Nos comentários recebidos (no meu mural de Facebook) também surgiu algum desconforto – e mesmo imprecações. Naquela plataforma a ligação ao texto foi partilhada por outros – o que lhes agradeço – em cujos murais também notei algumas reacções desagradadas, até furiosas. Isto mostra a vigência de um sentimento pelo qual sobre os locutores de “esquerda” não se deve verbalizar menosprezo ou desrespeito pelas suas atrapalhadas ou aldrabadas opiniões.

Reacções ao invés das esperadas face à rapaziada da direita. Sobre esta há dois termos que vão surgindo: o mais raro “direitinhas” – em tempos consagrado em banda desenhada publicada no “Diário”, o jornal do PCP dirigido por Miguel Urbano Rodrigues -, mas que não vinga muito dado o tom pouco ferino que aquele sufixo sempre dá. E o mais habitual – e quase automático – “fascistas” (ou “faxos”), uma evidente desvalorização ética e intelectual.

 

Ou seja, se eu, ou outrem, diante dos dislates agora até algo habituais daqueles que se propõem decepar genitais alheios, hastear bandeiras nacionais em edifícios oficiais nas antigas colónias ou louvaminhar as inexcedíveis qualidades do colonialismo português (o qual “nunca existiu”, a crermos na douta bibliografia, titulada sem a ironia do texto que glosa), falar de “direitinhas”, de “fascistas” (ou mesmo de “fdp’s” por extenso, como fiz há pouco – quando o professor Ventura inculpou Costa de um duplo assassinato) não tenho ecos abespinhados. E isso não se restringe às peculiaridades do agora CHEGA. Pois sou tão velho que me lembro de ver o tal insulto “fascistas” atribuído a gente como… Franco Charais e Pezarat Correia. Ou António Barreto. E desde então Ferreira Leite ou Vítor Gaspar e um vasto etc. foram assim ditos, e também estrangeiros, estes até mesmo nazis, como Merkel ou Bento XVI. E tais epítetos não colhem apenas silêncios mas mesmo anuências – mesmo entre aqueles que os assumem como meras metáforas (e não são as invectivas, sarcásticas ou insultuosas, quase sempre metafóricas?).

Mas o apreço “neutral” pelo desapreço face à malta à direita é até mais abrangente: nenhum amigo se preocupa quando afloro eu – como aqui o fiz – os dizeres, de facto apenas onomatopaicos, dos negacionistas das alterações climáticas, estes sempre urrando que tal coisa é mito emanado do “marxismo cultural”, deístas pagãos que são, e nisso obtusos crentes de que da divindade Mercado nada de negativo pode brotar. “Sempre as houve”, “dizem que há aquecimento mas está a chover”, expectoram ainda que doutores e engenheiros. E mesmo que pais e avós extremosos das suas “boas famílias” fazem trocadilhos brejeiros com o nome da célebre jovem ecologista sueca, num verdadeiro Cialis deste senil imbecilismo “liberal”.

Tal como não li agravos quando propus o regresso ao útero materno dos energúmenos anti-vacinas do Covid-19 – como, por exemplo, aqui – saídos das grutas mais recônditas do reaccionarismo pimpão, desvairados avessos à intrusão estatal que lhes quis injectar químicos pois entendendo-a escrava das apetências lucrativas das farmacêuticas – ainda que depois não hesitem em encharcar-se (e às respectivas parentelas) das tão dispendiosas quimio e radioterapias que os Estados compram às tais farmacêuticas interesseiras para a eles – e seus próximos – prolongar as verborrágicas vidas. Ou ainda, para último exemplo, quando resmungo contra a rústica inintelectualidade de alguma direita portuguesa, incapaz de avisar um irritante, e de histriónica ignorância, casal nortenho de que a Escola tem mesmo como tarefa Educar Para a Cidadania.

Em suma, neste ambiente é aceitável, e até saudável, usar do sarcasmo para invectivar a “direita” mas é inaceitável, pois ofensivo, escarnecer da “esquerda”. Como se esta, e os seus fiéis, tenha uma universal virtude. Qual uma superior decência e uma acrescida potência.

É um traço interessante porque o pejorativo (e quantas vezes enojado) “esquerdalho” – e o correlativo “grupelho” – são termos que não têm um “pedigree” de “direita”. De facto, emanaram de uma força de esquerda, aplicados às moles de patetas m-l de então, essas que agora se apresentam sob as pestíferas vestes “identitaristas”: tratava-se do feixe de excitados sociopatas que o secretário-geral abordou no seu “O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”, entretanto travestido (ou transvestido, não sei…) num tal de “identitarismo”.

Também por isso esta expressão pejorativa não recai sobre o amplexo PCP. Não só por estas razões históricas mas ainda devido a dados estéticos: mesmo na sua decadente situação intelectual actual – longe vai a época em que o PCP tinha quadros como Luís Sá, Barros Moura, João Amaral, ou Vital Moreira a renovar Marx, para além da tutela de Cunhal, e fica-se agora pelos esparvoados tuítes do tão elogiado António Filipe – o “partido” tem alguma… “correcção formal”. Como se uma espécie de quadratura do quadrado, algo que o torna algo imune a algum tipo de críticas mais sarcásticas ou ríspidas: foi decerto por esse desvelo estético, nisso ético, que nesta era de tamanhas retóricas “cuidadoras” das “minorias etnoculturais” puderam os comunistas emanar um comunicado oficial – após a invasão russa da Ucrânia – louvando a excelência das políticas soviéticas relativas às “minorias [étnico-]nacionais” sem que tivessem sequer tremido o Carmo e a Trindade “identitarista”, “multicultural”.

Também, fora dos dizeres presentes no espectro partidário, não aplico, nem se costuma aplicar, este tipo de sarcasmo a discursos desenvolvimentistas – de facto muito ausentes da cena pública portuguesa. Mesmo que nestes abundem os utopismos e, bem pior, sejam frequentemente poluídos pela recepção das “causas” e linguajares típicos de alguns movimentos identitaristas ocidentais. É como se a adesão, sob variadas formas, ao ideário do “desenvolvimento humano” blinde algumas das vozes mais impensantes que sob ele se agregam, como por exemplo os palradores do “empoderamento”, que nem fabianos se percebem, ou os que mesclam a temática do “género” com as questões da sexualidade, imaginando que o mundo é uma Nova Inglaterra hollywoodesca.

De facto esta “esquerdalhada”, demagógica – e nisso desonesta – ou apenas tonta, e sempre histriónica, não é a “esquerda” mas apenas (plurais) feixes internos à “esquerda”. Por cá muito em voga e muito visíveis dada a descabida influência que têm na imprensa e nas universidades. E tendo alguns agentes de verve fácil muito escapa esta mole ao crivo crítico. Nessa pluralidade loquaz, e abrangência temática, torna-se algo difícil descrever (e assim definir) este cadinho de textos oriundos do “radicalismo pequeno-burguês de fachada identitarista” sem recorrer a laivos de alguns locutores, qual galeria de ilustrações, uma chinoiserie…

Mas fazê-lo acabará por ser desagradável. Pois não só eu não leio muitos desses constantes textos idolátricos – até os evito -, como à maioria daqueles a que chego faço-o por conselho de alguns cruéis amigos, malévolos nos seus verrinosos avisos “já viste o que fulano de tal botou?”. Ora isso tem um corolário, pois sou conduzido (deixo-me conduzir) a ler as trapalhadas botadas por gente que conheço ou com a qual tenho conhecimentos comuns, afinal uma pequena “lisboa” do Minho à Madeira. E assim o meu sacar da cimitarra, a volúpia assassina, pode parecer ad hominem. Quando não é, mas sim uma aversão higiénica face a destrambelhados argumentos colectivos individualmente expostos. E, por vezes, mas apenas no caso dos socratistas, um afã sociocida, portanto também colectivo.

Na realidade, mais do que avaliar da hipotética pertinência dos problemas sociais que são apontados ou das soluções que são propostas (quando o são) o que é mais notório é que neste eixo discursivo esquerdalho se tratam de expressões atitudinais, assentes numa vácua superficialidade embrulhada em retóricas histriónicas. O objectivo é sempre o de constituir “grupos”-para-si, entidades mobilizadas para o “activismo”, numa burguesa refracção do velho ideário da – agora – “luta das identidades” como “motor da história”. Mas ouvindo/lendo os pretensos “intelectuais orgânicos” o que logo se apreende é que na sua grandiloquência surgem como aquilo a que José Cutileiro aludiu no seu “Abril e Outras Transições”, nada mais do que discursos reconhecíveis como “when a man is talking rot”… 

Há três trombos fundamentais nestas vias discursivas, que passo a a exemplificar usando alguns casos que vão vegetando na minha memória. Um é o culto do “construtivismo”, a académica ideia – pacífica em si mesma – de que as realidades sociais são socialmente construídas. E que nesses processos – o que é um bocadinho mais discutível – os formatos discursivos (os conteúdos linguísticos, para facilitar) são um material fundamental da edificação das lógicas e das mundividências, assim da miríade de valores e poderes presentes em cada sociedade. Há nisso uma espécie de linear determinismo, como se sociológico fosse, e que vem promovendo esta moda de depuração dos linguajares. Troque-se por miúdos: parece que o governo indiano – agora muito louvado na reemergência geopolítica dos BRICS, considerada fundamental pela esquerda radical para se combater a “episteme” obscurantista “ocidental” – acaba de retirar o evolucionismo darwiniano do ensino escolar. Em Portugal, membro da perversa hidra capitalista ocidental, esse ensino mantém-se, tal como os restantes itens da ciência contemporânea. No entanto para esta esquerda identitarista, prenhe de afã purificador da língua, tudo funciona como se o ensino (escolar e por outros meios) da ciência de nada sirva, pois continuamos a chamar “nascer do Sol” à alvorada e “pôr-do-sol” ao ocaso. Ou seja, crêem que apesar de alguns esforços pedagógicos as palavras nos condenam – neste caso à mundividência da crença geocêntrica, pois as amarras linguísticas nos farão pretéritos a Copérnico e Galileu.

Tal concepção nota-se no eixo feminista – em sentido amplo, a defesa da igualdade e equidade de mulheres e homens, algo que é historicamente uma matéria de “esquerda”. Um dia li no “Público” um artigo de uma cientista social – muito louvado pelas minhas colegas moçambicanas especialistas em questões de Género, decerto que por conhecerem a autora – a clamar contra o universal masculino gramatical, como sendo este um instrumento de reprodução da opressão falocrática. Reparei que a senhora tinha aposto como epígrafe o Magritte do “ceci n’est pas une pipe” – estava eu a viver na Bruxelas do artista, o que mais me chamou a atenção. Ora a autora feminista passava o artigo a defender que “cachimbo” deve ser cachimbo – no tal ditirambo contra as algemas gramaticais, as masmorras sintácticas e os cadafalsos semânticos que considera serem e promoverem os malvados poderes -, sem perceber a sua gritante contradição. Não pude evitar pensar, e por várias razões, que tudo aquilo (preocupações gramaticais, textinho ufano e aplausos dos cientistas apoiantes) era uma esquerdalhice tonta, típica da esquerdalhada. E é apenas um exemplo de incultura aplaudida pelas “elites” “intelectuais”, do ambiente geral cristalizado no patético uso das “Todes” ou “Todxs” e afins por burguesotes que assim se imaginam “radicais” e, mesmo, “cidadãos”. E o passo avante desta deturpada perspectiva “construtivista” é o que agora grassa, a vertigem censória, a purga que se faz aos textos do passado e os limites censórios àqueles ainda em produção, convocados a associarem-se a determinadas “sensibilidades” em voga…

Mas este rumo não passa apenas por patetices como este exemplo que dei. Há muita demagogia, no rumo de um verdadeiro aldrabismo. Um dos vectores interessantes nestes “construtivistas” de cardápio é o facto de associarem esta crença de que os termos têm – por si só – efeitos sociais (perversos) à vontade de instaurarem a discriminação oficial de categorias raciais, uma evidente contradição. O debate sobre políticas equitativas é salutar e fundamental. Uma das dimensões desse debate – o qual em Portugal é muito frágil por deficiência intelectual societária – é o que opõe o secularismo comunitarista da esquerda identitarista aos adeptos da laicidade universalista, defensores de uma cidadania republicana. Os primeiros querem fragmentar a população em entidades discretas de cariz “étnico” e “racial” (ainda que não as saibam definir) para promoverem “discriminações positivas”. Este é um debate interno à “esquerda” mas também com a “direita” e o “centro”.

Ora, também no famigerado “Público”, li há anos um artigo – de alguém que se subscrevia com o nome da instituição científica estatal que o emprega (ou seja, convocando o empregador para sedimentar as suas opiniões políticas, uma manobra rasteira…) – no qual se defendia o tal recenseamento “étnico-racial” afirmando “numa sociedade aberta o Estado deve poder perguntar tudo” e “cumpre aos cidadãos comprovar a razão de não quererem responder”. Ou seja, o Estado deve exigir às pessoas que se identifiquem e situem segundo classes “étnicas” e “raciais”, se pensem e actuem consoante tal, e sejam objecto de políticas estatais peculiares sob essa condição. Sendo assim a tal “sociedade aberta”. A mim, diante desta torpe manipulação da célebre expressão de Popper, crucial no ideário liberal, ocorreu-me o óbvio, que o artigo era uma esquerdalhada, abjecta demagogia, talvez típica do seu autor, decerto que disseminada entre os seus admiradores. E convém perceber que este fervor racialista – apresentado como factor de equidade – implica a utilização das tais palavras que manipulam as mentes (como sempre assumem em relação a outros assuntos). Assim sendo, para estes esquerdalhos eu estou errado quando digo “todos” ou “todas” e estou errado quando não digo “negros” e “amarelos” – como se houvesse discriminações a fazer e outras a evitar. No fundo, o que este esquerdalhismo quer é sedimentar, enquistar, entidades conflituantes. E entretanto evitar que um cozinheiro “branco” apresente uma receita de moamba na televisão – e a desfaçatez é a minha. E não a dos esquerdalhos que se congregam em torno destes dislates.

Um segundo trombo desta “esquerda” radicalizada é o seu evolucionismo, metástase do seu marxismo vulgar. Pois nela habita a crença de que as sociedades evoluem (se direccionam num sentido positivo, pois é preciso traduzir isto num país onde amiúde se ouve o oxímoro “evolução negativa”), num rumo relativamente pré-determinado, “progressista” dizia-se. Nesse marxismo vulgar vigente o tal trombo é a crença de que as sociedades ocidentais, as do capitalismo pérfido, esgotaram as suas capacidades de se transformarem e daí a necessidade de uma qualquer “transição”. A efectivação desta crença do actual “imobilismo” por “exaustão” social, conduzindo a um “atavismo”, tem agora um tópico em Portugal – para este “esquerdismo”, o tal “esquerdalhismo” folclórico, a sociedade portuguesa é um mero e malévolo epifenómeno do passado recuado.

Daí o surgimento, cinquenta anos depois das independências das antigas colónias, de uma série de paladinos da necessidade de afirmar o país como fruto de uma história escravista, como se esta moldasse o Portugal actual, lhe estivesse no âmago. A vontade é simples, transformar o ensino da História e a consciência nacional numa traumatizada versão de nós-próprios, de facto seguindo o desígnio de apoucar a identidade nacional, e nisso a comunidade nacional – pois esta dada a capitalismos e até conservadorismos. Um projecto até contraditório num país que nem tem um ensino patrioteiro nem alberga projectos de expansão nacionalista ou neo-colonial.

Parte deste rumo vem de uma até pungente condição, o facto de alguns intelectuais (historiadores e afins) terem dedicado parte das suas carreiras de investigação a temáticas da expansão portuguesa em África (e no Brasil) e de ansiarem por um estatuto de “intelectuais públicos”. Algo para o qual sentem (erradamente, diga-se) necessitar de capitalizar, usando-o linearmente, o que estudaram sobre séculos prévios, atribuindo as características que nesses identificam às realidades actuais. O interessante é que se forçam a presença actual das categorias existentes na sociedade portuguesa de antanho são incapazes, ou disso desinteressados – por alguns motivos ideológicos -, de vasculharem nas sociedades africanas actuais alguns vestígios dessa realidade escravista ali duradoura durante séculos.

O que demonstra que, por mais punitivos que queiram ser sobre o passado e o presente português, são incapazes de ultrapassar um traço típico nacional – o da distracção face a realidades outras, sempre centrados no nosso país (isto é algo que esmiucei num texto longo, “O Olhar Português“). Ou seja, estes doutos intelectuais, 50 anos depois das independências das colónias portuguesas, sobre África pouco ou nada dizem, apenas lhes importam os ecos (demoníacos ou gloriosos) da história pátria. E é isso que os torna “intelectuais públicos”, “críticos”. É evidente que há diferenças internas neste eixo de discursos, entre os que analisam a história portuguesa, na sequência do que fizeram alguns da geração anterior – quantas vezes seus mestres -, e os que se limitam a gesticular – como alguns que, também no “Público” (sempre o palco privilegiado deste coro), defendem a “intervenção” “anti-colonial” sobre o património artístico. Mas, e o que é uma deliciosa demonstração da pantomina desses autores, daqueles itens patrimoniais que estão na rua, pois isentam os itens alojados no interior de edifícios desses propósitos “intervencionistas”…

O terceiro trombo, evidentemente ligado aos anteriores, é a afirmação de que o nosso país é um extremo caso de racismo, que “Portugal vive num apartheid”, como clamava (no “Público”, claro) há anos um antropólogo defendendo a inenarrável Katar Moreira (a tal da moamba racializada). Talvez por isso possa ter eu visto uma activista, apresentada como senhora professora, na televisão defendendo o “Mamadu” – assim como um sindicalista em apoio à “Isabel” (Camarinha), um autarca ombreando com o “Rui” (Moreira), um académico louvando o “António” (Sousa Pereira), um camarada subscrevendo o “Francisco” (Louçã), etc. E nessa candura, até pungente, afirmando a pés juntos que o racismo é monopólio dos brancos, explicitando querer ensinar isso à audiência televisiva enquanto tentava balbuciar uma recensão oral de um qualquer “paper” onde aprendera a atoarda, tão “decolonial”. Pobre jovem senhora, com todos os sinais físicos e verbais da boa pessoa, cheia de boas intenções salvíficas, avatar de avoengas missionárias, nem sabia o que significava “uigures”! E ali estava defendendo, pedagógica, um conjunto de sábias (porque produtivas) patacoadas. 

Esquerdalhada? É isto, entre inúmeros, constantes, exemplos, provindos de algumas almas caridosas ou mentes fabianas misturadas com uns mariolas “activistas” – estes sempre com “um olho no racializado, outro no burro“. De facto militantes da superficialidade, eles sim algemados à “atitude”. Que julgam certa ou isso lhes convém no mercado estatutário.

Há uns anos dediquei um postal a uma querida amiga, que senti demasiado sensível a alguma daquela verve esquerdalha. Tinha até a ideia de lhe dedicar uma série de postais, procurando demonstrar-lhe os chorrilhos de asneiras convictas que ia lendo por cá. Mas depois desisti, que há tanto mais em que pensar. Então, sobre a superficialidade esquerdalha e suas patéticas atitudes, ficou só aquele postal: “O Corredor“, minha memória de quando trabalhei na África do Sul. 30 anos depois o mundo mudou bastante. Mas não o esquerdalhismo, seus ademanes, trejeitos. E objectivos. Os quais são, como antes o foram, malévolos. Por mais roupagem garrida que traga.

No fundo, no fundo, a diferença é mais ou menos como olhar para este mural que encontrei patente na construção de um prédio de Bogotá: “Obrero Sexy”. Que cada um interprete à sua maneira. De modo mais ou menos em voga…

(Também no Nenhures)

 

Expurgar Agatha Christie


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Agora todas as semanas segue mais um “expurgo”, “protector” das “sensibilidades”, “racializadas” ou quejandas. O mais recente  é com os livros de Agatha Christie, toca a retirar-lhes termos que possam ofender alguns trastes – é a instrução dada pela sua editora, atenta aos temíveis efeitos actuais das agressões cometidas pelos pressupostos de época de Miss Marple, Hercule Poirot e restantes personagens daquele pequeno emaranhado pós-vitoriano, tão pequeno-doméstico de facto.

Tendemos a confundir estas trapalhadas – o outro dia foi notícia que uns rústicos americanos, lá de uma aldeia de fundamentalistas cristãos, despediram a directora de escola porque havia mostrado uma obra-prima renascentista aos petizes, ofendendo-lhes as progenituras devido ao pequeno pirilau aposto por Michelangelo ao “David”. Gente do mesmo universo que volta e meia é notícia por querer impor o ensino do criacionismo nas suas escolas locais – efeitos directos da peculiar administração escolar dos EUA e consequências do molde de secularismo (comunitarismo) desbragado que vigora naquele país. E que por cá os esquerdistas querem assumir – a maioria dos quais sem mesmo perceber que é disso que falam, tamanha a indigência intelectual que os caracteriza. 

Mas estas “depurações” literárias que se vão acumulando têm outra dimensão… Não provêm de minorias social e geograficamente excêntricas. Vêm embrulhadas no capital “cultural”/“académico” dos proponentes e defensores e estão a penetrar nas administrações dos grupos económicos editoriais. Tornam-se “elite”, “norma”. E há imbecis à nossa volta que os defendem…

E agora, o nosso momento zen


Dâmaso Salcede,

Livros de Roald Dahl sofrem alterações para remover linguagem “ofensiva” (…)

Augustus Gloop, por exemplo, o rapaz gordinho de “Charlie e a Fábrica Chocolate”, com uma camisola às riscas vermelhas e brancas, viciado em chocolate, agora será “enorme” ao invés de “gordo”  (…)

Segundo o Daily Telegraph, a editora Puffin contratou leitores “sensíveis” para reescrever fragmentos dos textos, garantindo assim que “eles possam continuar a ser apreciados atualmente por todos”. (…)

As alterações foram feitas, sobretudo, ao nível das descrições sobre a aparência física dos personagens, onde se encontram palavras como “gordo” e “feio”.

Em “The Witches”, de acordo com o The Guardian, no parágrafo em que as bruxas são carecas sob as perucas, é acrescentada uma frase que Dahl nunca escreveu: “Existem muitas outras razões pelas quais as mulheres podem usar perucas e certamente não há nada de errado com isso”. (…)

Nas publicações, as palavras “preto” e “branco” também não são usadas, e “louco” ou “insano” também já não é utilizado “​​em defesa da saúde mental”.

A editora Puffin e a Roald Dahl Story Company fizeram as mudanças juntamente com o “Inclusive Minds”, um grupo que o seu porta-voz descreve como “um coletivo de pessoas apaixonadas por inclusão e acessibilidade na literatura infantil”.

(no Jornal I)

 

(…) References to “female” characters have disappeared. Miss Trunchbull in Matilda, once a “most formidable female”, is now a “most formidable woman”.

Gender-neutral terms have been added in places – where Charlie and the Chocolate Factory’s Oompa Loompas were “small men”, they are now “small people”. The Cloud-Men in James and the Giant Peach have become Cloud-People. (…)

Alexandra Strick, a co-founder of Inclusive Minds, said they “aim to ensure authentic representation, by working closely with the book world and with those who have lived experience of any facet of diversity”. (…)

(no The Guardian)