
(“Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, de Jule Styne. Canção escrita para o musical na Broadway ficou celebrizada no filme “Os Homens Preferem as Louras” de 1953, assinado por Howard Hawks e assente no duo Jane Russell e Marilyn Monroe)
Trump é um incessante tópico. Imensa gente escreve sobre ele, tentando interpretá-lo e prever o futuro que influencia. Na Notus-News of United States, John Judis, publicou “Trump as Alexander the Great: A Theory That Explains Iran (And Everything Else)”, coincidente com o artigo “The YOLO Presidency: Trump is focused on becoming one of history’s “great men”, de Ashley Parker and Michael Scherer. Em ambos os textos (críticos) Trump surge como imbuído do estatuto hegeliano de “Grande Homem” (herói universal), essas personagens históricas que carregam o “Espírito” do tempo, e transformam a realidade global, mesmo que não compreendam os motivos e as direcções das suas acções – como Júlio César causando o Império e Napoleão exterminando o feudalismo europeu, para seguir os exemplos de Hegel. E agora Trump assassinando a era do liberalismo, a ordem internacional aparentemente vigente pelo menos desde o colapso do comunismo europeu.
Pouco importa se os textos sobreviverão aos tempos – ou seja, se são diagnósticos com “pernas para andar…”. Mas o certo é que todos – dos populares nos cafés e redes sociais aos dignitários em conciliábulos internacionais – cirandamos em torno do que o homem vai dizendo e fazendo, pois não deixa ninguém indiferente.
Nessa azáfama opinativa e reactiva têm surgido algumas peças relevantes, Trump é um bom dínamo de oratória. Pois o contexto internacional decerto que influenciou o importante discurso do Papa em Luanda (que referi aqui), politicamente mais incisivo do que o habitual em “Santos Padres” – isto para além do inusitado “bate-boca” entre a Casa Branca e o Vaticano que então ocorria. Mas mais explícito foi o aclamado discurso – até manifesto liberal – do canadiano Mark Carney em Davos (que abordei aqui, ecoando as perspicazes reservas de Kasparov com os efeitos do discurso).
E agora a verdadeira pérola, o discurso de Carlos III no Congresso nos EUA (coloquei aqui a gravação completa) – momento sublime que decerto ocasionará um filme que virá a ser galardoado, pelo menos nos britânicos Prémios BAFTA. Como referi neste meu postal, no Congresso norte-americano o Rei Carlos III clamou “No Kings”. Com verdadeiro brilhantismo e finíssima ironia, defendendo a ordem democrática, a coesão intra-social, a solidariedade internacional, a coexistência ecuménica. Uma verdadeira Lição, que lhe garantiu um lugar mais elevado na História do seu país.
Ouvindo o discurso lembrei-me das acusações de “racismo” à família real inglesa, há anos colocadas na imprensa americana mais “liberal” (no sentido americana de “esquerda”) pela actriz Meghan Markle, a duquesa nora de Carlos III – entretanto saída de cena, tal como o seu marido. Que logo foram adoptadas não só nesse meio jornalístico, como também nas elites intelectuais-artísticas do Partido Democrata, enlevadas no frenesim “identitarista”. E até, com evidente desnorte diplomático, pela célebre mulher do antigo presidente Obama. E perguntei-me: o que dirão agora os “identitaristas”-“democratas” norte-americanos? Face ao garbo e à pertinência do Rei britânico?
Fui logo respondido, nos dias seguintes mesmo. Há poucos meses Zohran Mamdani fora eleito presidente da câmara de Nova Iorque, propagando uma agenda política de grandes investimentos estatais benevolentes. A nossa imprensa – e não só – acolheu o facto com júbilo. Jornalistas e comentadores fiéis à mundividência racialista viram a vitória do “socialista” como racialmente importante. E saudaram o sucesso de um filho de imigrantes, “racializados”. (De facto, Mamdani é um filho de expatriados – o grande académico Mahmood Mamdani e a conhecida realizadora Mira Nair – , coisa sociologicamente diferente, mas isso pouco conta para os empenhados alunos de raciologia).
Nos dias prévios à visita de Carlos III Mamdani anunciou-se bloqueado por problemas orçamentais. Não dei grande atenção, apenas me lembrei, por evidente associação de ideias, do dueto Tsipras & Varoufakis, que tanto mimo colheu há uma década por parte da nossa imprensa e políticos então geringôncicos.
Entretanto Carlos III fez o seu discurso fundamental em Washington, aclamado pelos democratas de diferentes tendências. E seguiu para Nova Iorque, em homenagem às vítimas do atentado às Torres Gémeas, ocorrido há já 25 anos. Mamdani, o “socialista” identitarista, que fez? Apesar do contexto geral, apesar da prestação do rei britânico, renuncia a um encontro individual com o real visitante. E faz constar que se o fizesse seria para lhe “exigir” a restituição do diamante the Koh-i-Noor, tudo assim subordinando à agenda “decolonial” em voga.
É de uma superficialidade inenarrável, típica deste esquerdismo global. De facto, só lhe(s) fica mesmo isso do “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Bem ao invés, diga-se, das magníficas Jane Russell e Marilyn Monroe que acima coloco. Pois essas eram actrizes, excelentes. E este é só isto…
(Postal que é a primeira parcela da Gazeta Semanal no meu blog “O Pimentel“)
