
Há dois dias em Chimoio, capital da província de Manica (Moçambique) foi assassinado Anselmo Vicente, o coordenador distrital do novo partido oposicionista Anamola (dirigido por Venâncio Mondlane). Até agora não há qualquer referência nos órgãos de comunicação social escrita portugueses. Ou nos sítios digitais da audiovisual nacional.
Entretanto, os leitores e ouvintes mais atreitos às notícias sobre Moçambique, decerto que poderão continuar a acompanhar, até encantados, os “intercâmbios literários” de escritoras veementemente opinativas, as “performances” artísticas em prol das “restituições” patrimoniais, as deambulações feirantes de poéticos ficcionistas, embrenhadíssimos defensores do bloco social por lá no poder, e as ladainhas legitimadoras em jargão apostas no “Público” e quejandos. E nisso o nosso público local que se imagina literato, seguirá “informado” e “reflexivo”.
(Durante a semana passada um grande amigo moçambicano perguntou-me, sarcástico, se eu continuava a não falar sobre a actualidade do seu país, depois do meu postal – irritado com o real e enjoado com enleantes que me vieram insultar – “Bye Bye Moçambique” de há uns tempos… Respondi-lhe que assim queria continuar, apesar de ser difícil. Não por ter eu algo a acrescentar sobre o país. Mas devido ao meu incómodo sobre os meus compatriotas aqui. Mas que se lixe a coerência pessoal… Pois o silêncio, mesmo que apenas na mesa desta tasca blogal, é cúmplice…)

Nao e por nada, mas colocar um Edir Macedo no poder em mocambique…
Um retrato de Moçambique feito pelo jornalista moçambicano Edwin Hounnou
«Quando, a 25 de Junho de 1975, chegámos à independência, o país tinha tudo para dar certo. Tinha um complexo ferro-portuário invejável que permitia o escoamento de mercadorias para o interland, uma indústria metalo-mecânica bastante competitiva na região actual SADC com vagões para comboios, camas hospitalares, etc.
Possuía uma agro-indústria de grande nível que, para além de abastecer o mercado interno, exportava para Europa a laranja, banana, milho, feijões, madeira em prancha, batata, cimento, entre tantos produtos. Ninguém atravessava a fronteira para comprar alho, cenoura, pimento e verduras. O leite e seus derivados como a manteiga, presuntos, queijo eram da produção local. A carne de vaca, de ovelha, de coelho e cabrito abundavam nos talhos. As peixarias andavam repletas de peixe das nossas águas, os mercados vendiam do que as machambas produziam. Hoje, o que não importamos? – Quase tudo!
A indústria têxtil e de calçado estavam no seu auge de desenvolvimento. A roupa que usávamos e sapatos que calçávamos vinham das nossas machambas e das nossas fábricas. A capulana que a mulher moçambicana tanto gosta era feita nas nossas fábricas e do nosso algodão. Matávamos o frio com as mantas e peúgas eram feitas por nós e das nossas machambas. Não havia importação de xicalamidade. As baterias para viaturas eram feitas por nós. Os pneus e as câmaras de ar eram produzidos aqui. Não era permitida a importação de pneus velhos que põem as nossas vidas em perigo, porém hoje, é o negócio que está a dar. As autoridades incentivam a importação de coisas podres e não há sinais de que a presente situação venha a melhorar a breve trecho. Continuamos, como povo assim como país, a resvalar para o abismo.
Depois de 46 anos da proclamado da independência, carregamos às costas um pesadelo do que significa sermos governados por indivíduos que só pensam neles. Roubaram-nos a liberdade, a paz e o desenvolvimento. Perdemos o significado do valor da democracia, da alternância democrática ao poder e da justiça social. As eleições, ainda que periódicas, são uma falsa que visa convencer os parceiros internacionais menos exigentes da existência de democracia, para se continuar a receber ajudas que caiem da mesa dos países ricos, debaixo da qual os nossos governantes vão pedir apoios para construção de uma sala de aulas, um centro de saúde, uma latrina melhorada, para abrir um furo de água ou mesmo para colocar baldes de água de higienização nos mercados.
A pobreza em que estamos sujeitos não constitui herança da dominação colonial, mas sim, é produto da incapacidade de fazer uma boa governação do país.
O que está errado na nossa independência? A independência sempre representou a vontade legítima do povo e foi para isso que lutou contra o sistema colonial. O que muitos ignoravam era que pudesse haver um grupo que fosse substituir os colonialistas no espírito e na letra ao ponto de usurparem terras aos legítimos donos, na companhia de seus amigos. Muitos não sabiam que alguns dos que, no passado abraçaram a luta contra o sistema colonial, viessem a comportar-se piores que os colonialistas estrangeiros, pudessem roubar e nadassem em mar de corrupção. Não sabiam que os filhos dos que, ontem, empunhavam as armas contra o colonialismo rasgassem a nossa vista com carros de luxo sem nunca terem trabalhado e alguns deixassem seus meninos ir casar ao Dubai, em escandalosa luxúria enquanto milhares de deslocados passam fome e pernoitam nas praias por falta de tudo. A independência nacional é uma desilusão, tornou-se uma ocasião para roubar ao povo.
A doença que apoquenta o país chama-se partido Frelimo.» (Jornal on line “Canal de Moçambique”, 07.07.2021)
«A independência tem que servir para acelerar o desenvolvimento. Não é para retardar como está acontecendo com o nosso país. O povo perdeu quase tudo e só ficou com a bandeira, numa mão, na outra o BI, e um presidente preto na Ponta Vermelha como fruto da independência.
Ninguém lutou para ter apenas um BI, uma bandeira e um presidente de cor preta. O significado da luta do povo é muito mais profundo – liberdade.» (30.08.2023).
Isso aconteceu em Moçambique ou Mozambique (não é falsa ironia).
Curiosa tocha a da fotografia que ilustra o post. Parece Uluru, na Austrália.
Não, não é na Austrália, mas sim em Moçambique.
O Monte Cabeça do Velho, facilmente reconhecível por sua forma única, que lembra o perfil de um velho, dando origem ao seu nome, localiza-se sobranceiro à cidade de Chimoio (antiga Vila Pery no período colonial), capital da província de Manica, em Moçambique.
Além de sua beleza natural, o Monte Cabeça do Velho é um ponto de significativa importância cultural para as comunidades locais. Muitas acreditam que o Monte possui um carácter sagrado, sendo considerado um lugar de espiritualidade e reverência, ligado a rituais tradicionais por parte das comunidades locais.
Infelizmente, a Cabeça do Velho está a saque por parte de gente que procura pedra para construção civil (uma parte da face do monte que lhe dá a aparência de uma cabeça de velho já foi destruída), com queimadas descontroladas, caça que tem dizimado milhares de pequenas espécies, sendo fundamental para que o local continue a ser um destino turístico de Manica, que sejam adoptadas práticas de preservação ambiental e respeito pelas tradições locais.