A Embaixada do Brasil em Lisboa


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Há cerca de um mês aqui referi a intervenção da embaixada brasileira em Lisboa no nosso sistema educativo oficial, a qual considerei um verdadeiro “desplante“. Através da sua secção de acção cultural (o Instituto Guimarães Rosa) estabeleceu um concurso para alunos e professores, no intuito de combater a “xenofobia” e o “racismo” avessos a brasileiros que, segundo aquela embaixada, grassarão no nosso país. Para além de divulgação da ideologia “lusofonia”, cara ao governo brasileiro e que, pelos vistos, considera necessário disseminar em Portugal.

Permiti-me então também especular. Aventando que teria havido alguma contestação – em surdina – diante da iniciativa. Algo que me surgiu ao saber que o sempre “prestável” “Público” fez publicar, exactamente naquele momento, um inusitado artigo, louvaminhando a actividade desse instituto brasileiro de acção cultural externa. Tratou-se deste “Cultura, Língua Portuguesa e Diplomacia: o trabalho do Instituto Guimarães Rosa”, escrito pelo seu presidente, o embaixador Marco António Nakaka (publicado em 4 de Abril de 2026). Inusitado pois o Guimarães Rosa não é uma instituição tão recente assim, a necessitar de uma apresentação aos leitores portugueses (e brasileiros residentes). Pareceu-me até óbvio ter sido uma “coincidência” … demasiada.

O conteúdo da iniciativa é local (só em Portugal) e a sua dimensão é modesta. Ou seja, tudo indica que a decisão de a encetar foi da responsabilidade da embaixada brasileira em Lisboa, sob condução do seu actual embaixador. Esta acção pode ser (des)interpretada de modo plácido, como efeito da cândida mundividência de alguns professores do ensino básico/secundário que – por redes pessoais ou razões partidárias – tenham sido alcandorados a postos na diplomacia “cultural” daquele país e aqui colocados. Mas sem terem, de facto, saído do pátio da escolinha, arreigados na sua (de)formação profissional, nisso estando ainda restritos à apetência de usarem pincéis, plasticinas e cartazes para fazerem as criancinhas serem muito amiguinhas entre elas… Sendo essa platitude, e concomitantes iniciativas, aqui aceite (ou enfastiadamente aturada) por distraídos (entenda-se: assim incompetentes) diplomatas de carreira.

Mas, ao invés, esta iniciativa diplomática brasileira, por modesta que seja, deve ser interpretada com a densidade necessária, política. Pois neste pequeno intrometido concurso a embaixada do Brasil exarou uma avaliação da sociedade portuguesa actual, basto negativa. E anunciou uma forma “activa” – altiva, digo-a – de intervenção do Brasil não só no nosso país como, e fundamentalmente, nas nossas instâncias estatais. Ou então – o que será pior – teve de obedecer a instrução oriunda da sua sede, o Ministério dos Negócios Estrangeiros brasileiro. O que tornará ainda mais oficial essa presunção de legitimidade de ingerência em Portugal, assim não apenas um “deslize” (dislate, de facto) da actual representação diplomática cá colocada.

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O concurso lá decorreu. Não com sucesso estrondoso, o que se nota no adiar do prazo da sua conclusão. Agora o Guimarães Rosa anuncia ter recebido mais uma centena de trabalhos concorrentes, uma quantidade nada abrasiva. Não consta que o nosso Ministério de Educação – até porque sempre assoberbado de matérias prementes – se tenha pronunciado. Nem se ouve que o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros (o interlocutor da embaixada brasileira e seu Guimarães Rosa) se tenha pronunciado sobre o assunto – nem nunca se ouviria, dadas as características da locução diplomática. No máximo constaria…

Enfim, é óbvio que, por si só, não vem grande mal ao mundo com o concursito. O Guimarães Rosa que distribua as dezenas e até centenas de euros por alguns dos púberes concorrentes. E leve os três setôres premiados a passear ao Brasil, eles que se encantem face ao amplexo “cidade maravilhosa”, “garota(s) de Ipanema”, “menino(s) do Rio”, “leãozinho(s)” que seja. 

Mas que também algum graduado (nomeado, entenda-se) do nosso MNE expresse ao “Senhor Embaixador” o nosso “incómodo” (esse tão belo termo diplomático) sentido, embrulhando com um cálido sorriso o necessário “não repitam, se faz o favor”…

6 comentários em “A Embaixada do Brasil em Lisboa”

  1. nos países da Europa que conheço encontro tantos brasileiros que chego a pensar que no Brasil só existem governo e funcionários públicos

  2. Hoje em dia, qualquer Embaixador acreditado em Lisboa espirra e o MNE (nomeados e sem ser) vai pressurosamente perguntar se quer lenços sem cheiro, de menta ou alfazema e promete não voltar a ligar o ar condicionado que provocou o espirro sem autorização… É o que é.

  3. Ventura (deputado eleito em Portgal) fez um lindo papel quando veio cá o presidente brasileiro (goste-se ou não dele o presidente representa o país), mas isso faz parte da liberdade de expressão. A embaixada brasileira sugerir que há racismo em Lisboa é intolerável.
    A diferença é que como raça superior os portugueses têm direito a criticar, mas não são passíveis de crítica pelas raças inferiores.

    1. é um comentário típico do renhanha anónimo. Não é apenas grotesco, é sujidade. É evidente a diferença entre um deputado eleito (neste caso exercendo a sua lamentável demagogia) e uma instância estatal diplomática. Mas será pueril explicar isto a alguém como vossemecê, embrenhado nessa sua execrável mania de comentar anonimamente.

      1. Promover um concurso entre alunos portugueses é intreferir no ensino? Porquê?
        Considera que os alunos portugueses são estruturalmente estúpidos, logo manipuláveis, ou considera que os estrangeiros, como pessoas de segunda, não se podem dirigir a escolas?

        Explique-me para que quer saber o meu nome. Vem confrontar-me a casa?
        Quando não sabe o que dizer insulta.Típico do renhama racista..

  4. Caro Senhor

    Muito adequado post ao comportamento tão pouco diplomático (educado) da embaixada do Brasil.
    E, como diz o ditado “quem não se respeita não ó é”, devemos ser exigentes a exigir delicadeza dos nossos convidados, em nossa casa. De qualquer um.

    Cumprimentos

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