
Manuel Alegre com os filhos Francisco, Joana e Afonso
«Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não»
Excerto do “Quinto Poema do Pescador”, de Senhora das Tempestades (1998)
Admiro pessoas que não cedem à tentação da renúncia nem andam na vida de braços cruzados. Admiro pessoas que se mantêm activas muito para além da data legal prevista para a reforma. Admiro pessoas que nunca se esquecem de que a cidadania, mais do que um direito, é um dever. E há muitas formas de exercê-la, como faz Manuel Alegre, ainda imune às inclemências do tempo. É com imensa satisfação que assinalo isto neste dia do seu 90.º aniversário.
Enviando-lhe daqui um caloroso abraço de parabéns.
Em 2015 legou-nos um dos seus melhores livros de poemas, Bairro Ocidental, que estabelece uma surpreendente rima interna com as suas primeiras obras, Praça da Canção e O Canto e as Armas. No ano seguinte recolheu textos dispersos, atribuindo-lhes um título feliz: Uma Outra Memória. Li-o em dois dias, com o prazer de um leitor já antigo deste magnífico prosador que Alegre também é.
Ele não tem de pedir licença a ninguém para pensar como pensa. Nem molda o discurso ao sabor das modas: por isso gosta de pronunciar na sua voz bem timbrada a palavra pátria, que outros condenam ao ostracismo. Nem autoriza que os ignorantes de turno lhe imponham listas de consoantes prontas a mutilar como tábuas de uma nova lei: ele foi um dos quatro deputados (em 230) que na Assembleia da República votaram contra a entrada em vigor do “acordo ortográfico”, rejeitado pela esmagadora maioria dos escritores portugueses.
Com a certeza de saber que milhares de portugueses conhecem de cor os seus poemas, recitados ou cantados.
Também não necessitou do beneplácito de chefe algum para concorrer à Presidência da República fez agora vinte anos, num longo e gratificante périplo pelo País que tive o gosto de acompanhar passo a passo como repórter.
Ouvi-o falar largas dezenas de vezes: nunca o ouvi amesquinhar um adversário ou sequer tratá-lo com deselegância. A crítica, para dar provas de contundência, nunca necessita baixar de nível – ele, que é mestre das palavras, sabe isso melhor que ninguém.

Autógrafo da edição original de Senhora das Tempestades
Manuel Alegre tem um porte fidalgo e modos um pouco deslocados nesta época tão propícia aos sarrafeiros de turno, à esquerda e à direita. Além disso é alguém com biografia, o que parece dispensável neste tempo de celebridades-proveta, tão instantâneas como os pudins de pacote e com prazo de validade mais breve do que um iogurte.
Muito para lá das conjunturas políticas, quando estiverem extintas as fogueiras ateadas pelas paixões de circunstância, o autor de Senhora das Tempestades – um dos mais belos livros da poesia portuguesa do século XX – sobreviverá pela sua obra, que permanece inacabada.
Privilégio dele, privilégio nosso também.

Devia ter sido o Presidente da Republica pelo seu passado e por ser um homem de sensibilidades ao contrario da múmia que tivemos em Portugal.
Uma só palavra revela a tua falta de carácter. Os derrotados assim se manifestam.
Merece um abraço bem apertado. Não nos devemos esquecer que boa parte dos 90 anos que agora celebra foram vividos na luta por um Portugal diferente, tendo sofrido na pele as agruras do exílio, em Argel e em França, sempre com a Pátria na voz e no coração. Já só sobram poucos desta têmpera, poeta da resistência e do amor a ela, combatente pela liberdade que ajudou a construir, muitas vezes menosprezado pois um poeta é um inconformado para com os sabujos dos corredores da política. Parabéns Manuel Alegre.
Tenho uma enorme admiração por ele, como deixei sempre bem expresso aqui.
Ganhou o Festival da Canção há 50 anos.
Ele e José Niza, de quem guardo gratas saudades.
Para o outro lado da moeda, leia-se João José Brandão Ferreira.
Parabéns pelos notáveis noventa anos, convindo no entanto acrescentar o seguinte: há cerca de cinquenta anos, a maneira como conduziu o encerramento no jornal O Século conduziu ao desespero, e até mesmo ao suicídio de alguns funcionários (entre eles um familiar chegado). Os dotes poéticos estão bem caracterizados na definição de Agustina Bessa-Luís: “…é talvez um dos melhores poetas assim-assim…”
Concordo por inteiro. Admiro tanto o poeta como o homem. Que viva em beleza os seus 90 anos.
São os meus votos também.
Segundo consta na Foz do Arelho, Manuel Alegre é um exímio pescador de robalos…
De certa forma, também é um “pescador de homens” (e de mulheres), um persuasor, pela sua forma de ser e de estar na vida…
A mim, “pescou-me” em 2006, levando-me a votar em si, por ocasião das Eleições Presidenciais desse ano… Não ganhou, mas fez História.
Parabéns, Manuel Alegre.
Atraiçoado por Soares e Sócrates. Comportou-se com irrepreensível dignidade.
Eu estava lá e vi.
Esse foi um dos principais motivos que me levou a votar nele… Soares e Sócrates portaram-se como uns canalhas. Canalhas, sem qualquer pudor em o afirmar.