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O eurodeputado Paulo Rangel publicou anteontem no jornal “Público” o artigo “Cabo Delgado, Moçambique – black lives matter!” julgo que já é de acesso livre (eu estou a consegui-lo). Não concordo com todo o seu teor mas o meu desconforto é por assuntos secundários: 1) não gosto do título pois funciona, de facto, como um remoque aos apoiantes do movimento nele aludido. E não é o momento de provocar “ruídos” entre quem se possa congregar nesta verdadeira causa, em torno do Cabo Delgado; 2) deixa entender que o conflito é entre muçulmanos e cristãos, o que é um reducionismo, tanto daquele universo social como das dinâmicas do conflito.
Ainda assim é um texto relevante naquilo que é o mais relevante, a convocatória da atenção activa sobre tudo o que se passa no Cabo Delgado. Até porque, como muito bem diz Rangel, neste momento “A actuação do governo português é tíbia e decepcionante. Limita-se a declarações, quase extorquidas a ferros, do ministro dos Negócios Estrangeiros. Fala no papel da CPLP, mas ninguém ouve falar dela. Em Bruxelas, é tal a timidez dos esforços de Portugal, que ninguém diria que está em jogo a vida de centenas de milhares de cidadãos de um país irmão.” E mais: “Nem só o nosso Governo decepciona; também a esfera pública e a sociedade civil desiludem. Diante de crimes tão ominosos, como é explicável este silêncio brando, esta letargia conformada e conformista?“

julgo que já é de acesso livre
Para mim não é, pedem-me para assinar o jornal por 68 euros.
O que é que Portugal tem a ver com o que se passa em Cabo Delgado, Moçambique?
Tem sim a ver com um empresário português desaparecido (raptado) na zona da Beira, de cuja investigação nunca que as autoridades moçambicanas deram resposta capaz. Fosse o desaparecido americano e as coisas seriam diferentes!
Está em jogo a vida de centenas de milhares de cidadãos de um país irmão? Que exagero!
Já aqui tinhamos falado deste tema e nunca é demais repetir, para que nunca caia no esquecimento.
De facto a postura do governo e deste inócuo ministro dos negócios estrangeiros é lamentável. Ainda coloco a hipótese de o motivo ser o medo de que o problema islâmico nos bata à porta, com Lisboa a poder vir a ser palco de resposta terrorista. Poderá ser pouco provável, mas nem por isso impossível.
Estranha-se também e talvez mais, o silêncio do BLOCO, de Joacine, de Rui Tavares, de Marisa Matias, que em Bruxelas se mantém muda sobre o assunto. Acaba por ser Rangel, eurodeputado de direita, a levantar a questão.
Triste, no mínimo.
Que eu saiba o BE – que é loquaz sobre muitos assuntos internacionais – não tem tomado posições políticas nem feito agit-prop sobre este assunto intra-muros. Mas a sua deputada Matias abordou com veemência o assunto no Parlamento Europeu. Abordei o assunto neste postal no meu blog (em particular no ponto 4): https://estan.blogs.sapo.pt/paulo-range l-e-a-resolucao-do-115277
Acho que a abordagem de Marisa Matias foi pobre. Poderia ter ido muito mais longe se se preocupasse com o que é realmente importante. Mas não conseguiu deixar de lado as ideologias. O resultado foi um desenrolar de descrições que se debruçaram sobre os mais variados assuntos, onde o mais importante é mencionado assim ao de leve pelo meio.
Parece que o mais importante ali são os grupos económicos e a industria e mais não sei quantos assuntos que os bloquistas desprezam.
E como tal, a apresentação de Matias foi ignorada. Não apenas pelo conteúdo, mas também.
A sensação que fica é que não houve genuinidade na atitude da eurodeputada. Mas antes o aproveitamento de um assunto sério e grave, para fazer propaganda ideológica.
E assim ninguém a levou a sério.
o BE – que é loquaz sobre muitos assuntos internacionais – não tem tomado posições políticas nem feito agit-prop sobre este assunto intra-muros
Portanto: os ataques em Cabo Delgado são, para jpt, um assunto intra-muros, por oposição a outros assuntos que são internacionais.
Eu discordo veementemente. Cabo Delgado não é intra-muros. Os problemas de Moçambique são um assunto internacional. Eu não sou neocolonialista, nem quero que Portugal o seja.
Já várias vezes abordei o tom dos comentários do DO. 17 anos de bloguismo fazem-me, mesmo depois de anos aqui, surpreender-me com a recorrente verrina de desconversa feita, quase sempre em registo anónimo. Veja lá isto, anónimo das 15.33, se não é mesmo patética a sua intervenção:
O comentador O Inconveniente comenta e refere que o BE, do Livre e do ex-Livre sobre o assunto. Eu, que acompanharei – por razões biográficas – esta situação com mais atenção do que o referido comentador, respondo-lhe. E digo que, pelo contrário, o BE abordou o assunto com veemência no PE (honra lhe seja feita). Ressalvo que apesar desse partido ser habitualmente loquaz sobre assuntos internacionais – como tem sido recorrente entre os outros grandes partidos ao longo dos 45 anos de democracia, e no caso do BE como se pode exemplificar na sua atenção sobre Angola – não tem falado intra-muros sobre esta situação (apesar, repito, de ter feito intervenção em Estrasburgo/Bruxelas).
Que conclui você, anónimo das 15.33? Que apesar de eu explicitamente me referir a uma prática política sobre “muitos assuntos internacionais” eu não o estou a fazer e estou a afirmar que para mim esta é uma questão nacional (“intra-muros”). Servindo isso para deixar o remoque de ser esta minha posição de índole “neocolonialista”. Que sentido tem isto? Qual o ganho de alguém vir anonimamente aos comentários de um blog – sobre uma temática que nem sequer atinge os nossos quotidianos (ainda se estivessemos a discutir algo prementes da vida nacional, lei, um político, qualquer coisa assim ..) – deturpar de modo tão básico o que um bloguista escreveu para lhe mandar “bocas”? Qual o ganho, o objectivo, o interesse? Para quê gastar tempo assim? Porquê tanto fel neste percorrer dos blogs? E ainda por cima sobre um assunto que é, independentemente dos diversos pontos de vista analíticos, um verdadeiro drama?
Que gente …!
Vejamos. Moçambique, nunca é de mais repeti-lo, é um país independente. Portugal, nunca é de mais repeti-lo, não tem nada que ver com Moçambique, a não ser a língua comum. Portugal não tem nada que falar ou que interceder por Moçambique junto da União Europeia ou de qualquer outro forum internacional.
Aquilo que se passa em Cabo Delgado é um problema interno de Moçambique, no qual nenhum país estrangeiro tem nada que se imiscuir.
Se Moçambique deseja ser ajudado pela União Europeia ou por seja quem fôr, deve pedir ajuda. Portugal não tem nada que pedir ajuda por Moçambique.
Compreendo que jpt e muitos outros portugueses, por motivos pessoais, se angustiem peculiarmente com o que se passa em Cabo Delgado. Mas essas angústias pessoais de jpt e de muitos outros portugueses não podem encontrar eco na política externa do Estado português, o qual tem a obrigação de não se imiscuir na política interna de outros países, nem de se armar em neocolonial.
Faço notar ainda que Portugal não tem grandes interesses em Moçambique, que eu saiba. Ao contrário daquilo que acontece com Angola. Mesmo a exploração de gás natural que se prevê (para sabe-se lá quando, o preço do gás natural é atualmente muito baixo) para o largo de Cabo Delgado não será feita, segundo julgo, por empresas portuguesas.
Luís Lavoura (e outros comentadores no mesmo rumo): concordo, Portugal não tem nada a ver com Moçambique. Nem com nenhum outro país.
JPT:
Percebo que possa ter razões pessoais que o levam a preocupar-se com o que se passa em Cabo Delgado (ou em Moçambique).
No entanto, eu penso que Portugal, enquanto país, tem que se abstrair desse assunto em particular.
Também não exagere quando diz que Portugal não tem nada a ver com o que se passa em qualquer outro país. É evidente que tem, sim, mas enquanto integrante de uma comunidade internacional.
Moçambique que peça ajuda à ONU, ou OUA (Organização da Unidade Africana), por exemplo.
A OUA tem como objectivo, entre outros, defender a soberania, integridade territorial e independência dos Estados africanos.
“V. mesmo” há dois meses deixei aqui referência ao documento que Paulo Rangel propôs para Resolução no PE sobre este assunto (https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/p aulo-rangel-no-parlamento-europeu-117975 50). l-e-a-resolucao-do-115277
Já nesta caixa de comentários deixei ligação a um texto mais longo sobre o debate no PE sobre o Cabo Delgado, que coloquei no meu blog (não replico tudo o que vou insiro no meu blog e no meu mural de FB sobre a matéria para não fustigar os leitores do DO): https://estan.blogs.sapo.pt/paulo-range
Lembro isso devido ao seu comentário e a alguns outros. Há duas coisas face a isso: uma é normal e pacífica, as pessoas não têm que ler tudo o que um tipo escreve sobre um assunto, ou lembrar-se de textos já de há algum tempo, nem são obrigadas a ler os textos que ele refere (“linka”, no linguajar actual); mas a outra, sendo normal, já não é tão pacífica, que é isto de interpretar por pressupostos. Ou seja, parece que a minha insistência (e nisso coincido com Paulo Rangel ou com Paulo Sande que há dias também escreveu um texto, que aqui referi https://delitodeopiniao.blogs.sapo.p t/a-ler-sobre-mocambique-12018109) sobre o assunto, o apelar a uma maior atenção pública e a uma maior intervenção do Estado português, se trata de um desejo de intervenção portuguesa, que façamos uma ponte aérea militar ou enchamos, qual Estado Novo, paquetes de tropas para irem “resolver a situação”. Não me ocorre, e como já escrevi alhures, nem julgo aconselhável que militares portugueses participem nesta missão – por um lado, fundamental, pelo impacto local desse “regresso dos militares portugueses” (que estiveram, com garbo e competência, na missão de paz dos anos 1990s da ONU mas que estariam agora em terreno de guerra, o que é diferente em termos de percepção local); por outro lado, porque miliitares numa guerra no Cabo Delgado (zona mais “quente” da guerra colonial em Moçambique) incentivaria a discursos e sentires mais revanchistas dos núcleos irredentistas ainda existentes em Portugal.
A questão é completamente diferente – e bastaria ler os textos de Rangel e de Sande, que têm mais autorictas do que este mero bloguista. O Estado moçambicano tergiversou, seja no dirimir das causas que levaram ao suporte interno desta situação, seja no controlo das redes internacionais que o potenciam, seja – agora – no efectivo combate a esta situação. Isso deve-se a profundas e múltiplas causas daquela sociedade e da estruturação dos seus poderes (que tenho abordado acima de tudo ecoando, via FB e meu blog, um conjunto de investigações sobre esta situação). Ou seja, o Estado moçambicano está algo inerte, incapaz. Eu diria, sem sarcamo e sem crítica fácil, estuporado. O que Rangel diz no artigo, o que Sande também deixa transparecer, é que o nosso país pode reforçar o apelo internacional a uma maior capacidade de articulação interna de Moçambique e a uma maior rapidez e clareza nas articulações com organizações internacinoais, em primeiro lugar regionais, da África Austral e africanas, para enfrentar esta situação. A resolução do PE proposta por Rangel (e que ele invoca no artigo que acaba de publicar e que me levou a fazer este postal) é veemente explícita nesse sentido, clamando a disponibilidade da UE (cuja CE está algo adormecida nesta matéria, como Rangel nos informa) para se articular com as multilaterais africanas (e outras) nesse sentido. O que se pede é uma pressão internacional, das organizações multilaterais e dos Estados, bem como das sociedades (as “sociedades civis”) para que haja maior capacidade local para enfrentar esta situação, seja sob o ponto de vista militar, como humanitário e político-económico.
Mais, e em relação a essa sua opinião que Portugal nada tem a ver: tem, tem não só na dimensão da intensidade das relações político-diplmoáticas bilaterais (complexas mas intensas) como porque há a CPLP, que é uma mulilateral comum, e porque há – para além do feixe ONU e dos tratados internacionais – a articulação UE-ACP, os tratados de cooperação (o velho “Acordo de Lomé”, depois “de Cotonou”) que explicitam formas de articulação políticas.
Mas, de facto, volto à primeira forma: trata-se de, como se percebe lendo os textos que liguei de Rangel (artigo e resolução do PE) e de Sande, de apelar a um maior envolvimento português para, conjuntamente com outros países, pressionar Maputo para actuar com maior capacidade, maior urgência, com muito maior articulação com seus países aliados e inscritos em multilaterais variados e segundo as normas vigentes nos tratados internacionais, impedindo que o conflito descambe em configurações tétricas como é recorrente.
Diante disto, diante dos textos referidos, das intenções e desejos propostos, ver os visitantes do blog dizer que “nada ou pouco temos a ver com isto”, que há um “coração neocolonial”, que “eles que se entendam entre eles” é entristecedor. Está-se a escrever para quem? É-se lido por quem?