Um homem normal na Casa Branca


eventhorizon,

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O título, claro, alude ao excelente texto que o Pedro Correia publicou ontem sobre Harry Truman. Mas neste caso serve para aludir não ao 33.º mas ao 44.º Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que deu há dias uma entrevista muito interessante a Jeffrey Goldberg para a The Atlantic a propósito do seu novo livro. Ao fim de quatro anos de decreto-via-twitter, de birras ridículas, de gritaria incoerente e com fraco domínio do idioma materno, é refrescante regressar ao discurso articulado, ponderado e frequentemente autocrítico de Obama. Quatro anos de chinfrineira infantil – quase foram suficientes para esquecer que este era o tom normal e expectável num Presidente norte-americano.

Deixo a sugestão para a leitura da entrevista, que vale bem a pena. E destaco duas passagens: a primeira, a propósito da ascensão do populismo de direita nos EUA e de um certo paradoxo (digamos assim) de masculinidade:

Obama: (…) If you think about populists from the past, someone like Huey Long—he wasn’t from the right; he was a classic populist, rooted in the earth; he knows the lives of the people he is rallying; he genuinely understands them. I guess I would not have expected someone who has complete disdain for ordinary people to be able to get attention and then the following from those very same people.

I guess I’m also surprised by, and this is not an original thought on my part—but I think about the classic male hero in American culture when you and I were growing up: the John Waynes, the Gary Coopers, the Jimmy Stewarts, the Clint Eastwoods, for that matter. There was a code. This is something I always emphasize. I may be African American but I’m African and American. This is part of me. The code of masculinity that I grew up with that harkens back to the ’30s and ’40s and before that—there’s a notion that a man is true to his word, that he takes responsibility, that he doesn’t complain, that he isn’t a bully; in fact he defends the vulnerable against bullies. And so even if you are someone who is annoyed by wokeness and political correctness and wants men to be men again and is tired about everyone complaining about the patriarchy, I thought that the model wouldn’t be Richie Rich—the complaining, lying, doesn’t-take-responsibility-for-anything type of figure.

I think that indicates the power of television in the culture that sometimes I miss because I don’t watch a lot of TV. I certainly don’t watch reality shows. And sometimes I’d miss things that were phenomena. But I thought there was a shift there. I write about it to some degree. I actually have great admiration for a lot of those traditions, what were ascribed to be masculine qualities. When you think about the Greatest Generation, you think about sacrifice. (…)

E a segunda, sobre o impacto das redes sociais na democracia:

(…)

Goldberg: Do you hold the companies responsible?

Obama: I don’t hold the tech companies entirely responsible, because this predates social media. It was already there. But social media has turbocharged it. I know most of these folks. I’ve talked to them about it. The degree to which these companies are insisting that they are more like a phone company than they are like The Atlantic, I do not think is tenable. They are making editorial choices, whether they’ve buried them in algorithms or not. The First Amendment doesn’t require private companies to provide a platform for any view that is out there. At the end of the day, we’re going to have to find a combination of government regulations and corporate practices that address this, because it’s going to get worse. If you can perpetrate crazy lies and conspiracy theories just with texts, imagine what you can do when you can make it look like you or me saying anything on video. We’re pretty close to that now.

Goldberg: It’s that famous Steve Bannon strategy: flood the zone with shit.

Obama: If we do not have the capacity to distinguish what’s true from what’s false, then by definition the marketplace of ideas doesn’t work. And by definition our democracy doesn’t work. We are entering into an epistemological crisis. (…)

Para mais contexto, é ler na íntegra.

21 comentários em “Um homem normal na Casa Branca”

  1. Barack Obama não é um homem normal. Ele é um homem fisicamente elegante, magro, o que nos EUA atuais é altamente anormal.

  2. Creio que tanto o João como o Pedro queriam dizer normal=comum. Estas novas normalidades são muitas vezes entendidas como anormais pelos comuns e críticos mortais. Já li a entrevista. Obama continua a ser uma das minhas pessoas favoritas.

    1. Julgo que os sentidos são um pouco diferentes. Obama, a meu ver, é mais “animal político”, mais carismático, mais eloquente: um tipo sem ambição não conseguiria gerar o entusiasmo que ele gerou na primeira campanha, por mais oleada que a máquina partidária estivesse.

      Defino-o como “normal” porque as qualidades que lhe atribui tornaram-se raras nos últimos quatro anos.

      1. Os quatro anos já foram, não sem deixar cicatrizes de uma pantomima mediática sem história nem legado positivos. Obama é história e futuro. Pode ser que venha a integrar a nova administração .

  3. “And so even if you are someone who is annoyed by wokeness and political correctness and wants men to be men again and is tired about everyone complaining about the patriarchy, I thought that the model wouldn’t be Richie Rich—the complaining, lying, doesn’t-take-responsibility-for-anything type of figure”.

    Que alívio, deixar a “chinfrineira infantil” e regressar ao tom “normal e expectável num Presidente norte-americano”! Infelizmente, confunde-se autoridade com “birras ridículas” e “gritaria incoerente”, virando as costas aos problemas verdadeiramente importantes. O que interessa é dar murros na mesa e apontar o dedo, soltando disparates, hoje assim amanhã assado… Que infantilidade! Espero que este estilo passe de moda, enfraquecendo imitações de Trump, como o inenarrável Bolsonaro (não sei porquê, lembra-me o anterior presidente do SCP) e, no nosso caso, de Ventura (que, felizmente, é só um pequenino líder; espero que não o deixem crescer).

    1. Infelizmente, não creio que a política contemporânea seja para moderados como Obama (há uma passagem muito interessante da entrevista sobre a sua base de apoio o ter considerado pouco agressivo). Receio que os tempos sejam dos Trumps, dos Bolsonaros, etc. Espero enganar-me!

  4. Obama é-me figura francamente simpática. Não sei o suficiente para avaliar a política norte-americana, apesar da sensação do muito de errado que foi feito no seu mandato em termos de política internacional, e do muito de bom que tentou fazer internamente. Destaco duas passagens da entrevista.

    We’re past the time in which some peasant in a feudal system is starving and looks up on the palace and there’s a king somewhere, and the peasant thinks, Yeah, that’s okay. Now all those peasants have phones and they can see how the lord of the manor is eating, and some of them are going to say, “Why him instead of me?” The willingness to accept one’s fate or lot in life because of your skin color or gender or religion or sexual orientation—that you are going to accept being less than someone else—that’s over.

    Estaria tudo muito certo se ao invés de cor da pele, género, religião ou orientação sexual, tivesse dito simplesmente condição humana. As causas do momento, por justas que sejam, são as bandeiras do momento, e quem tem a aspiração a acreditar que o mundo progride apesar dos sobressaltos, não se pode dar ao luxo de preterir bandeiras. Apesar de tudo as classes sociais do comunismo são mais abrangentes do que amálgama de bandeiras identitárias da esquerda moderna.

    For example, I actually think that it is entirely legitimate to push China much harder on trade issues. I didn’t come into office as a knee-jerk anti-trade guy, but if you looked at the facts, China consistently ran mercantilist policies that violated international trade rules to help build up their economy from the late ’80s through today. And if we hadn’t been going through a financial crisis, my posture toward China would have been more explicitly contentious around trade issues. But I couldn’t have a trade war in 2009 or 2010. At that point I needed the cooperation of China as well as Europe as well as every other potential engine, just to restart the global economy.

    Depois de pousar esta patetice da passagem de testemunho, isto é o que prevalece e importa. E aqui a divisão entre republicanos e democratas é zero.

    1. Concordo consigo. Obama é um simpático. Um fixe. No entanto como político não lhe vejo o valor que tão avidamente lhe tentam dar. Será no futuro uma figura mais proeminente na cultura pop, do que propriamente na política.
      Sobre esta confusão atual na América, temo que foi um, senão o maior responsável.
      Costumo dizer que Trump ganha em 2016 não pelo seu valor individual, mas pelo péssimo legado que Obama deixou. Foi Obama que possibilitou a entrada em cena de Trump, com a sua política destrutiva da sociedade americana, nomeadamente ao nível do emprego, da dívida e da economia.
      Se Trump tivesse o carisma e a personalidade de Obama, seria o melhor político de sempre e vice-versa.
      Costumo medir a mediocridade do governo de Obama com a eleição de Trump. Melhor ainda, o seu legado foi de tal modo desastroso, que ao fim de 4 anos de Trump, ainda assim a eleição foi renhidíssma. E com 4 anos de propaganda pelo meio.
      Penso que será sintomático da incompetência do Obama político.
      Entretanto, acho que Obama, o seu séquito e o sistema que montou, são tão, ou mais responsáveis pela instabilidade racial americana, mas isso dava pano para mangas para outra discussão.

      1. Como disse acima, não estou suficientemente informada da realidade norte-americana. Até porque a informação que nos chega pelos canais habituais da televisão e imprensa é de tal forma primária e tendenciosa que pouco adianta. Para chegar às conclusões que chegou teria que ter conhecimento de factos que não tenho.

        De qualquer modo, quanto às críticas que faz a Obama na política interna, peço que se lembre que foi para a Casa Branca um ano depois da última grande crise financeira e que os Estados-Unidos são um país com desigualdades gritantes (maximizadas, por exemplo, pela inexistência de sistema de saúde universal), que qualquer ser humano decente que chegue à presidência percebe ter de resolver. E também que temos que ter em atenção que o sistema político permite haver um Presidente de mãos atadas, por falta de suporte do Congresso.

        Sobre a propaganda que referiu, do que vou lendo sobre o que se passa no mundo – maior reflexo norte-americano, vejo mais polarização e a radicalização de ambas as partes do que mediocridade só do lado democrata ou, em termos europeus, da esquerda.
        Mas vou ao seu encontro num aspecto. A tal cultura pop. Sente-se uma onda monopolizadora com base ideológica mais à esquerda, que se distanciou das questões habituais (do trabalho, da pobreza, etc.) e está a congregar um lote de reivindicações de moda, sejam legítimas ou não. Congregam os vários ressentimentos identitários e causas mais ou menos dispersas, que vão da orientação sexual à ecologia. A forma como expressam as suas reivindicações (muitas vezes legítimas) é tão ruidosa, intolerante e inconsequente como as erráticas declarações da extrema-direita. Mas ao contrário destas – que logo são desacreditadas (e bem) pela comunicação social e pelos atentos polígrafos -, as verdades da esquerda (ou do centro esquerda) consubstanciam o dito politicamente correcto e poucos têm coragem de se opôr, deixando espaço para a fúria das redes sociais. É uma questão de espaço. O discurso do ódio não nasce do nada, limita-se a ocupar os espaços deixados vazios por quem tinha obrigação de os ocupar: desde logo, intelectuais e comunicação social (os opinion makers).

        1. Não percebi a parte da comunicação social. Se no início falou do tendenciosismo, no final aplaude a atitude da mesma, bem como dos polígrafos.
          Mas adiante. Obviamente que a herança deixada por Bush foi pesada, apesar dos motivos para a crise de 07-08 terem começado ainda na década de 90.
          Seja como for, se avaliarmos as decisões de Obama durante os seus mandatos, facilmente verificamos que a recuperação possível no primeiro mandato não foi eficaz e a consolidação que poderia almejar no segundo, não aconteceu. Daí os resultados de 2016. Sobre a aura que envolve Obama, creio ter sido uma má decisão dos próprios democratas. Tornou-se suicida criticar Obama. E fazê-lo dentro do partido era uma heresia. Quase como se alguém no PCP criticasse Cunhal, ou no PSD criticasse Sá Carneiro, ou no PS Soares. Mal. Mal porque o encapotamento das más decisões de Obama tiraram credibilidade ao partido e quem pagou a fatura foi Hilary Clinton.
          Sobre a saúde e como em tudo, existem dois lados da mesma moeda. Que a iniciativa foi excelente e o objetivo necessário, isso é óbvio. Mas não foi eficaz, nem justo, e mais importante não foi viável nem eficaz. Mas como tudo o que diz respeito a Obama, não se pode apontar defeitos, não se pode criticar, ou alterar, ou melhorar. Tudo o que Obama fez parece ter sido gravado na pedra por deus e jamais passível de ser questionado.
          Relativamente à questão racial, não se percebe que Obama, o primeiro presidente negro, eleito por negros, brancos, asiáticos, hispânicos e todos os outros, se mantenha colado à narrativa em voga, sem ter o mínimo gesto, a mais simples palavra para amenizar o conflito.
          É incapaz de ser uma voz que congregue a comunidade, que inspire tolerância, que acuse os extremismos. Quer dizer, até o faz, mas apenas para um lado.
          Obama poderia ter hoje o papel que Mandela teve durante a sua presidência. Nunca Mandela tomou partidos a favor de uma facção contra outra. Apesar de ter todos os motivos pessoais.
          O discurso de ódio vem dos dois lados, não apenas de um e Obama parece esquecer-se disso.
          Endeusar Obama creio ser profundamente exagerado. Tem imenso valor, mas não aquele valor incomensurável que lhe atribuem. Poderia ter muito mais? Poderia e deveria.

          1. Para ficar claro. Sim, acho que há tendenciosismo no sentido de que os democratas (como a esquerda em Portugal) são poupados. Mas não é por isso que vou defender que se calem as críticas a Trump. Combater o tendenciosismo implica desejar que a CS escrutine os erros de ambas as partes.

            Quanto à incapacidade de Obama ter uma voz congregadora (capaz de um papel tão universal quanto o de Mandela), foi o que tentei defender com a ideia de substituir as várias causas da diversidade pela condição humana (é pela condição de homem e não por qualquer faceta redutora – como o sexo, religião, raça ou o quer que seja -, que se tem que respeitar o outro; só a educação e carácter que dele decorre nos leva a este patamar).

    2. Também não pretendi fazer qualquer avaliação dos dois mandatos de Barack Obama – não sei o suficiente para o fazer, pelo que prefiro ler e/ou ouvir quem saiba. Apenas distinguir o tom do discurso, a ponderação das palavras, a capacidade de autocrítica, a empatia – qualidades que o ainda actual inquilino da Casa Branca manifestamente não possui.

      1. Sim. Nesse aspecto é da água para o vinho.
        Mas como nem tudo é forma, resolvi comentar o resto da entrevista, que aproveitei para ler na íntegra, já que aqui tive acesso.

  5. Oportuno destaque, João. Obama, além de ser um notável orador (talvez o melhor político do século XXI, até à data, neste domínio), recuperou não apenas para a política interna dos EUA mas para a cena política internacional aquela que tem sido a mais esquecida das virtudes nesta época de trincheiras cavadas cada vez mais fundo: a virtude da moderação.
    Nada a ver com o ar do tempo. Até por isso merece elogio. Seria sempre mais fácil seguir a maré.
    Com Angela Merkel e Emmanuel Macron, Barack Obama integra um trio de verdadeiros estadistas do mundo contemporâneo. Um clube cada vez mais selecto e cada vez mais raro.

    1. Muito a propósito, é nteressante recordar o que algumas almas bem pensantes disseram de Angela Merkel há não muitos anos…

      Talvez Obama tenha sido demasiado moderado durante os seus mandatos; ele mesmo reflecte sobre isso na entrevista. Pessoalmente, sinto saudades de alguma moderação na política. Os últimos anos foram ensurdecedores em praticamente todo o lado.

      Obama deu ainda uma entrevista interessante ao 60 Minutes há dias; vi alguns trechos, parece complementar muito bem esta. Ainda tentarei vê-la na íntegra.

  6. Temos no Delito de Opinião um texto a pedir a censura dos delitos de opinião.
    Fantástico nem se vêem ao espelho.
    Ou então não são capazes de lerem o que está escrito.

    Obama “o moderado” perseguiu jornalistas, incentivou o racismo -veja-se as várias reacções a quente a diversos casos sem sequer estar informados- ou como apoiou a discriminação racial de Asiáticos e Caucasianos. Deixou o Iraque para o Estado Islâmico a que chamou “junior varsity”. Um dos seus embaixadores foi assassinado por pura incompetência do seu Governo.
    Apoiou o Irão e a Irmandade Muçulmana. Espiou com o FBI uma campanha eleitoral adversária – tão ou maior escândalo que o Watergate. Perseguiu com o IRS inimigos políticos.
    Hoje pede às grandes multinacionais para censurar o que não concorda.

    Que o entrevistador tenha sido com o Goldberg das fake news é só a cereja em cima do bolo.

    lucklucky

    1. Estava a estranhar a ausência dos trolls de serviço. Pelos vistos é como nas histórias: aparecem de noite, pois a luz do Sol transforma-os em calhaus.

      lucklucky, há muito tempo que não tenho qualquer interacção consigo em comentários, e esta será a última. Nos meus posts, por escassos que sejam hoje em dia, escusa de deixar quaisquer comentários. Não serão aprovados, nem sequer lidos. Criar e manter um blogue no Sapo – ou noutra plataforma, há várias à escolha – continua a ser gratuito em 2020 como era há dez ou vinte anos; crie uma conta, faça um blogue e ponha a sua cassete a tocar como bem entender. Ou vá para as redes sociais, como meio mundo foi – se não gosta do Twitter ou do Facebook, tente o Parler; talvez até seja mais à sua medida. Continuará a ter liberdade para dizer o que lhe passar pela cabeça. Já eu preservarei a minha liberdade de não lhe dar guarida. Passe bem.

  7. Obama o presidente americano que mais dinheiro transferiu para a indústria de armamento, e ainda conseguiram dar-lhe o prémio nobel da paz, tantos gelados tenho de comer com a testa.

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