
Como anunciara, ontem foi dia de Tubarões Azuis. Grande resultado na estreia contra Espanha, campeã europeia. Ficou símbolo o guarda-redes Vozinha. Um “Vozeirão”, disse-o aquando do apito final! Mas depois – e sem com isso o apoucar, bem pelo contrário – sopesei bem isto da produção simbólica. Como justificar que o maciço Golias não esmague o arquipelágico David? Pelo heroísmo de um herói, tornado lendário. Mas, de facto, Vozinha não foi heróico, apenas competente. Na meia dúzia de defesas, duas ou três difíceis (até espectaculares). Mas nada sobre-humano. Fica símbolo de uma outra realidade: um conjunto de profissionais relativamente modestos muito bem organizados que jogaram com enorme competência contra um grupo de celebridades. Nada de sobrenatural!

Mas, claro, a alegria da “bola” é esta, os nada-favoritos cobrirem-se de glória. Até o generalista “The Guardian” coloca o símbolo Vozinha na capa! De ontem para hoje este ganhou 6 milhões de adeptos (eu um deles) na rede Instagram! Mas a verdadeira coroa de louros? O espanhol Rodri, cabecilha do milionário Manchester City, Bola de Ouro 2024, a choramingar que Cabo Verde só se defendeu!!!! Grande Vozinha, grandes Tubarões Azuis…
E O BRASIL

O Brasil não entrou mal, pois Marrocos é uma grande equipa, subvalorizada pela distracção eurocentrada. Mas o empate foi mal recebido pelos torcedores brasileiros, menos fanáticos do que irrealistas, sempre julgando as suas selecções melhores do que o são. Vi algures um qualquer “comentador” gritando que “a selecção de Brasil é como a selecção de Moçambique”, e repetia a invectiva… Mas o relevante é este excerto, delicioso, que apanhei:
A propósito do Mundial e da campanha brasileira, uma entrevista recente de Rivelino (para os mais novos, Rivelino foi um enorme médio, titular na equipa-maravilha campeã mundial em 1970, herdeiro da camisola 10 de Pelé em 1974 e era o ídolo de juventude de Maradona).
Repórter: “Rivelino …tu tens assistido aos jogos da Selecção? “
Rivelino: “tentei …mas só vi uns dez minutos e desliguei a TV.”
Repórter: “Rivelino, se aquela Selecção da Copa de 70 jogasse contra a atual, quanto seria o placar?”
Rivelino: “Seria 1 X 0 pra nós…ou 2 x1 …por aí.”
Repórter: “Mas só isto?”
Rivelino: “Você tem que ver o seguinte – Pelé já morreu e nós estamos com mais de oitenta anos.”
(A imagem é a do cromo da minha colecção do Mundial de 1974)

Na altura do Mundial de 70, eu tinha 14 anos. Lembro-me bem do Alemanha × Inglaterra, salvo erro com vitória teutónica por 4 a 2, com Uwe Seeler a fazer um fantástico golo de cabeça, vingando a final de 1966. A final Brasil × Itália foi um hino ao futebol. Só recordo um escrete canarinho parecido, talvez o de Zico, Falcão, Sócrates, talvez em 1982, mas faltava defesa e guarda-redes à altura.
Actualmente confesso uma relativa indiferença, não acreditando que a nossa selecção chegue longe. Feitios 🙄.
Abraço
A questão é, precisamente, que a equipa de Espanha está sobrevalorizada. Sobretudo o Yamal, endeusado pelos jornalistas e benfiquistas cá do burgo porque é black, muçulmano e do Barcelona. Por esta ordem. Mas não é muito diferente de outros bons laterais como Cancelo, Conceição e quem não se lembra do endiabrado Quaresma, naquela posição. O Quaresma mete o Yamal num chinelo. Mas nasceu cigano, não é das tribos sobre as quais recai a condescendência dos jornalistas.
Olha quem ele é… um craque da “minha” primeira selecção. A do tri do Brasil no México-70.
Pelé, infelizmente, já não está. Mas restam alguns dessa campanha inesquecível.
Gerson, 85 anos
Piazza, 83 anos
Jairzinho, 81 anos
Rivelino (ele mesmo), 80 anos
Tostão, 79 anos
Clodoaldo, 76 anos
Aposto que alguns deles ainda dão uns toques…
Fabuloso sentido de humor, só no fim da resposta se percebe a crítica implícita à selecção de 2026.
Grande Rivelino, aquela selecção era mágica, futebol espectáculo, bonito, sem os espartilhos das novas técnicas que priorizam a defesa ofuscando o brilho do talento.