
(Fiz uma versão mais elaborada deste postal: “Pacheco Pereira vs Ventura: a demagogia sobre a violência política e o passado colonial“)
No curso de mestrado tive dois grandes professores: Armando Trigo de Abreu e Mário Murteira. Antes, na mais influente – pois formativa – licenciatura, tivera alguns bons professores. Na qual dois se realçaram: o antropólogo João Leal – que décadas depois vim a constatar que fora o docente que mais me marcara, pela sua sageza e decência, que o tornavam um verdadeiro mestre – e José Pacheco Pereira, um professor diferente, também esplêndido de cultíssimo, mas mais iluminador do que guia, pois desprendido. Um quarto de século depois tive o prazer, honroso, de o acompanhar durante uns dias em Maputo, a propósito de um congresso ao qual ele compareceu, e então esforcei-me por ser o mais hospitaleiro possível. E entretanto, blogando eu desde 2003, acompanhava diariamente o seu Abrupto, o blog português mais lido e que tinha características únicas. E fui lendo os seus livros…
Politicamente é diferente: muito torci o nariz quando ele se apresentou na Aula Magna, naquele arremedo de “Estados Gerais” convocado pelo ex-nº 2 de Sócrates, a apelar a uma espécie de “Frente Popular”, tornando-se assim o verdadeiro ideólogo do que veio a ser dito “geringonça”. E sempre me desagradou o (de facto) seu programa televisivo destinado à produção de opinião política burguesa, algo falsamente pluralista dado que ali ele defende o PS em articulação com alguém da direcção desse partido em falsa contraposição com um “representante” do desde há muito defunto CDS. E pior – pois intelectual e deontologicamente inaceitável – desde que uma direcção de canal quis suspender o programa político e o então primeiro-ministro Costa se imiscuiu na programação e conduziu a que outro canal o continuasse. Há limites para a falta de autonomia e o professor Pacheco Pereira nesse momento cruzou-os, no mau rumo…
Sobre André Ventura, uma criatura de Passos Coelho e Luís Filipe Vieira, amamentada por António Costa, pouco tenho a dizer. Não o vejo como “fascista” mas sim como um mariola demagogo – por mais que tenha levantado discussões que são importantes na nossa sociedade e que os estabelecidos descuravam. O meu problema nem é com ele mas sim com aqueles seus apoiantes que me são próximos, até extremamente íntimos. Pois os “cheganos” são-me carnalmente repugnantes. E isso exige-me uma enorme disciplina afectiva para sustentar as relações.
Hoje, por alguma razão que desconheço, o meu antigo professor foi debater na televisão com o presidente do segundo partido português (“líder da oposição”, no falacioso linguajar actual). O que assisti, contristado, até com vergonha alheia, foi a um pungente exercício de soberba, o mais grave dos pecados mortais. Muito para além dos argumentos previstos e dos instrumentos brandidos, o que ali esteve foi um velho professor a falar de si – “no 25 de Abril eu estava…”, “eu concorri em Loures…”, “eu na Assembleia da República…”, pobre e último recurso ilustrativo de quem quer estruturar um discurso sobre processos históricos, já acantonado no repetido queixume “você não está a falar com um atrasado mental“, o que está dizer “funciona lá para as suas gentes no tik-tok“, etc.
O reaccionário Ventura não se combate assim. E o processo histórico desta “República” (da democracia liberal) não se analisa desta pobre forma. Por mais que muitos dos anti-Ventura o aplaudam, lhe saúdem a “coragem” ou o “vigor”. Foi um naufrágio intelectual. Repito, pungente.
E é com pesar, para além de discordâncias, que o digo: chegou o seu tempo de sair de cena. “Pendurar as chuteiras” (televisivas), por assim dizer. Pois a soberba … mata.

Sim, mais uma vez JPP tropeçou na sua própria soberba e mal escondido fanatismo das esquerdas simplórias. E o André até teve razão, há-de tudo tanto às esquerdas como às direitas.
Quanto aos números ambos, espertalhões que são, foram bem capazes de os torcer a seu gosto.
Este post está em triplicado…
Obrigado, já emendei. E penitencio-me por este meu pecado de … soberba.
Soube do debate por mensagem recebida questionando se o estava a acompanhar. Claro que não. Aproveitar o tempo implica evitar a exposição a estímulos negativos. Ventura é incapaz de emitir algo que justifique ouvi-lo, pelo menos em directo. O que sobra de longas entrevistas, sempre exclusivas, resume-se a uma provocação bombástica que no dia seguinte lá aparecerá, já filtrada, nas notícias.
O que me surpreendeu da entrevista de ontem foi JPP ter aceitado descer do seu pedestal criado pela media canhota, um PSD desalinhado terá sido útil para apoucar a dita direita, e assim se envolver numa enlameada conversa com Ventura.
Arrisco dizer que estava triste por a atenção que tem recebido não ser suficiente para a excelsa capacidade que julgará ter. Posso estar enganado, o que é frequente, mas o Ventura parecer estar a tornar-se num cabide onde os descamisados da atenção mediática se podem pendurar para fazer prova de vida.
Pacheco Pereira nunca primou pela humildade…
E mesmo a sua capacidade intelectual parecia um pouco extrapolada…
Presenciei um enxovalhanço à maneira ao JPP por parte do Gorbatchov, fez um daqueles extensos discursos moralistas e pretensiosos, levou logo uma resposta que enfiou a viola no saco e ficou calado o resto do dia.
está certo sobre a inutilidade de Pacheco
Pacheco Pereira tem 77 anos de idade. Há já 10 anos que está na iade da reforma. Já deveria ter saído de cena há muito tempo.
A contrário do homónimo queirosiano, o passar do tempo vai-lhe retirando “importância”…
JSP
A frase atribuída a George Bernard Shaw, “Nunca lutes com um porco: ficas todo sujo, e ainda por cima o porco gosta”, constatei na sua plenitude neste debate do Pacheco Pereira com o adepto do benfica. Era o esperado.
Mas há Cheganas carnalmente jeitosas.
Não vi o debate. Pelo que ouvi foi Pacheco Pereira que desafiou Ventura para o duelo.
Pelos comentários PPereira levou nas trombas.
PPereira tem vindo a radicalizar-se e perdeu a fleuma. Não há pachorra para ouvi-lo.
Despropósito total.
Um envolveu-se nisto porque não perde uma oportunidade para aparecer. Outro, porque teima em aparecer pela ilusão de ainda ser escutado.
Espreitei parte – o suficiente para concluir que ambos abusaram da demagogia e da manipulação factual. Misturando alhos com bugalhos, comparando o incomparável, abusando do anacronismo. Nada de novo.
Entretanto, questiono-me: não haverá nenhum historiador, conotado com a área política do Chega, capaz de debater olhos nos olhos com Pacheco? Se há, porque não avança? Temor reverencial a Pacheco ou pavor de se expor em público?
“Soberba”
O melhor adjectivo que li sobre “aquilo” de ontem.
Uma coisa positiva trazido pelo AV – O Relatório das Sevícias tão ignorado.
Eu diria que Pacheco Pereira só lá foi por falta de comparência de todos os outros. Mais a subserviência e os repetidos “fellatios” ao desventurado da parte de repórteres e jornalistas de esquina (ou vão de escada).
Como a soberba se agrava com a idade, Pacheco Pereira propôs um debate em que os factos objectivos eram totalmente favoráveis ao seu adversário, com base na sua convicção de que a enunciação desses factos objectivos é ilegítima (“isso é tudo verdade, mas dizê-lo é fascismo”). Ora, se os “Polígrafos” que decidem a “verdade” sem contraditório, e fazem as perguntas e escolhem as fontes e os factos consoante as respostas que pretendem, podem dar-se ao luxo de enunciar falácias tão óbvias que até dão vontade de rir (e votos ao Chega) num debate, isso é fatal. Se Ventura não fosse o que é (estridente, sôfrego, histriónico, demagogo), teria sido uma noite histórica. Apesar de tudo, foi um contributo para afastar a pesada nuvem sectária que ainda é imposta pelos “agentes culturais”, pela academia e pela imprensa, sobre o século XX português (pois nem toda a gente tem tempo e dinheiro para ir a comprar ler livros a alfarrabistas, e depois lê-los, ou, com mais sorte, tê-los já em casa) e pôr fim ao maniqueísmo propagandista e infantil dos filmes e séries, que, inexplicavelmente, em 2026, continuam a ser produzidos e pagos pelos contribuintes portugueses (com raríssimas excepções, como o documentário “A Guerra” e, em especial, a série “A Conspiração”).
Tentar explicar o que quer que seja num programa televisivo com Aldrabé Aventura é o mesmo que correr com um saco de farelo de trigo em cada pé.
Pode-se não gostar da persona de JPP, mas algo não lhe pode ser negado: honestidade intelectual e coragem para sujar as mãos a debater com alguém que mente descaradamente.
Aventura quer fazer confundir a andorinha com a Primavera, ao assacar ao período pós-revolucionário aquilo que o antigo regime praticou em larga escala.
Para além do meritório trabalho da Ephemera, que este ano vai levar parte da minha parcela de IRS.
Não partilho da opinião que deva pendurar as botas. Está em muito melhor forma que o Ronaldo.
Boas Leituras
“algo não lhe pode ser negado [ao Pacheco Pereira]: honestidade intelectual”. Suponho que o “leitor improvável” será o próprio Pacheco Pereira, pois é precisamente por lhe faltar honestidade intelectual que a “persona” de Pacheco Pereira é de fugir – algo que já era evidente no tempo em que ele era um ponta-de-lança do “cavaquismo”, mas, nesse tempo, eram só os actuais apreciadores da sua “honestidade intelectual” que o diziam.
Convenhamos, ao lado de Aldrabé Ventura todos somos honestos intelectualmente.
Outra coisa é confundir honestidade intelectual com tomar partido por causas ou ideias, como todos nós fazemos. Como JPP fez como líder da bancada parlamentar do PSD.
Mas se não quer olhar por esse prisma, atente-se ao menos na coragem e disponibilidade para confrontar o demagogo mor do regime.
Diz bem: confrangedor!
Uma intelectualidade alheada da análise de factos considerando valores e realidades no seu tempo, o que traduz a desonestidade esquerdalha no seu melhor.
Um propagandista que afoga bons argumentos em impertinentes sons e gestos.
Um acaba tudo justificar porque conduziu aos meios de o fazer ser ouvido, e tudo condena no tempo em que tal não acontecia.
O outro, quero crer que entenda, que ser patriota é sê-lo a todo o tempo, sendo o presente o tempo da sua responsabilidade, não diminuída nem amargurada pelo passado.
O problema de JPP é que a sua sobranceria intelectual não corresponde de todo à má qualidade do seu pensamento, e isso acontece talvez porque ele se supõe dono de uma genialidade que não possui. As coisas que ele apresentava na TV como descobertas que tinha feito na “internet” eram memes com 10 anos, e os raciocínios que utiliza para os demonstrar pecam todos precisamente por esse desprezo pessoal pela vulgaridade da qual, helás, ele próprio comunga.
Logo no início (nos anos 90?) quando começou a aparecer nos debates televisivos me pareceu uma pessoa que propõe um discurso confuso, que procura ser complexo mas é apenas complicado e, na verdade, pouco interessante. É o mesmo género de José Eduardo Martins, um tipo que também recorre à complicação e à pose afectada para tentar ser complexo e simular uma profundidade analítica que não possui de todo. Em ambos os casos, nenhuma clareza resulta dali.
Além disso, JPP escreve mal. Escreve como pensa.