
De Quelimane
No passado sábado assaltantes invadiram a residência oficial (“Paço Episcopal”) do bispado de Quelimane e assassinaram Osório Citora Afonso, ali bispo desde 2025 – o qual em Abril passado fora nomeado também administrador apostólico interino da Beira.
As notícias não ecoam quaisquer indícios de roubo. Entretanto chegam-me fotografias do seu cadáver, as quais me eximo de partilhar – e é denotativo do estado insecuritário que estas brutais imagens passem de imediato para o público. Tudo indica que o bispo foi, pura e simplesmente, executado com tiros de metralhadora, a simbólica AK-47, a qual também não é arma usual entre meros criminosos de delito comum.
É evidente o carácter extraordinário deste crime. Pois mesmo sendo recorrente o assassinato de clérigos católicos em diversos países, neste XXI há apenas notícia de outros quatro assassinatos de bispos: O’Connell, bispo auxiliar de Los Angeles, abatido em 2023 por um indivíduo com problemas mentais; Padovese, morto em 2010 por motivos religiosos na Turquia pelo seu motorista; Courtney, núncio apostólico no Burundi, vítima de emboscada em 2003; e Cancino, morto em 2002 em Cali por iniciativa dos cartéis guerrilheiros.
Ou seja, este inusitado assassinato de um bispo católico é demonstrativo do estado geral em Moçambique, o de uma violência armada galopante que segue impune. A qual integra a perseguição aos oposicionistas políticos – como denuncia o partido Anamola, alertando para o assassinato de 57 dos seus membros durante o último ano. Sendo que é usual não serem encontrados os agentes e os mandantes desses crimes.
E, mais ainda, a prevalência do conflito no Cabo Delgado, já longo de quase uma década. No qual nestes últimos meses a “insurgência” islamita vem recrudescendo as acções, também muito incidindo sobre instalações e agentes cristãos. E dizer isto não é reduzir o conflito a uma “guerra de religiões” – como logo alguns “intelectuais” acorrem a criticar. É apenas constatar uma realidade.
Sendo assim surpreendente que a União Europeia tenha agora terminado o financiamento ao destacamento ruandês – que agora passou a provir de Maputo. O qual está na região para suster aquela guerrilha, dada a incapacidade patenteada durante anos pelas forças armadas moçambicanas para cumprir esse objectivo. Um caso de desatenção europeia, muito provavalmente provocada por excessivo seguidismo às sanções norte-americanas aos parceiros do Ruanda. E se há caso para se exigir autonomia face aos EUA é este! Pois há que matizar as políticas externas.
O bispo Afonso havia recentemente denunciado esse aumento da actividade da guerrilha islamita, e alertado e para a perseguição que (também) os membros do clero católico sofriam. E é dramaticamente exemplificativo que a sua última prelecção pública – nesta gravação – tenha sido na véspera da sua morte, uma ecuménica visita a uma mesquita em prol da pacífica convivência inter-religiosa.
Este lamentável assassinato mostra bem o estado da situação moçambicana, económica, política e militar. Só não a vê quem não quer.

A Nova Iorque
Há uns dias aqui coloquei o texto “Escravos nas Nações Unidas” no qual defendi a pertinência de uma recente abstenção portuguesa nas Nações Unidas durante a votação de uma proposta de cariz ideológico. Considerando que não é o momento para exarcebar conflitualidades, espúrias, que adviriam de um voto negativo.
Agora, dois meses depois, Portugal foi eleito pela quarta vez para um biénio como membro não-permanente no Conselho de Segurança da ONU – já ocupara o lugar em 1979-1980, 1997-1998, 2011-2012. E, ao invés das situações pretéritas, desta vez a eleição ocorreu logo na primeira ronda de votações. É um sucesso que traduz um bom trabalho da diplomacia portuguesa – uma actividade demasiado subvalorizada – e demonstra uma boa percepção internacional sobre os rumos do nosso país.
Ou seja, as coisas reais são assim – e é melhor dirimi-las com realismo do que entrar em frenesim diante dos radicalismos alheios, tantas vezes superficiais.
É certo que alguns tendem a invectivar que “a ONU é inútil”, “nada resolve” pois “não tem poder!”, “basta ver o estado do mundo”, muito por ser uma “confusão” – o pobre termo com o qual conseguem formular a percepção de pandemónico babélico que sobre a organização têm. É evidente que estas pobres, de irreflectidas, opiniões normalmente são emitidas pelos mais ferrenhos adeptos da “soberania nacional” – aqueles da “Europa das nações”, os mais reaccionários dos reaccionários -, como se esta sacra e quase infinita. Enquanto ao mesmo tempo criticam uma multilateral universal por “não mandar”, não lhes restringir bastante a tal “soberania”. De facto, no afã da contestação, há quem não perceba as contradições próprias.
O exercício deste lugar no Conselho de Segurança não atribui um “poder” mandante, fáctico. Mas permite alguma influência na administração das problemáticas em curso e no agendamento de questões internacionais que sejam mais relevantes para o interesse (não necessariamente interesseiro) nacional – sobre o exercício anterior (2011-2012) basta procurar o descritivo artigo “Portugal no Conselho de Segurança das Nações Unidas e a Importância das Questões de Direito Internacional Humanitário Face aos Conflitos” de Sónia Roque. Assim sendo, esta eleição é um dado positivo.
E não posso deixar de pensar isto: há seis anos louvei a excelente actuação do então eurodeputado Paulo Rangel face à inércia geral reinante sobre o Cabo Delgado. Fê-lo num bom artigo no “Público” em crítica ao nosso próprio governo de então. E numa bela intervenção no Parlamento Europeu – no qual encabeçou uma preciosa Resolução sobre o assunto.
Muito espero que o agora Ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel, após ter capitaneado o esforço português para ascender ao Conselho de Segurança, possa promover as urgentíssimas matérias moçambicanas para o rol de preocupações prioritárias deste orgão máximo da ONU. Para a sua “agenda”, como sói dizer-se.
(Texto antes colocado no meu “O Pimentel“)

Tinha 54 anos.
o jornalismo português, como dizia Eça dos deputados «de pé por fora, de cócoras por dentro». acrescento algumas presenças na AR
Desde que Moçambique ascendeu à independência, tornou-se um país único e diferenciado em toda a África Austral em que o fenómeno da guerra se converteu numa característica profunda da nação. Durante os últimos cinquenta anos, nenhum país na SADC regista tantos conflitos permanentes (guerra civil dos 16 anos, continuidade de conflitos de baixa intensidade com a Renamo após períodos eleitorais, o conflito com a Junta Militar da Renamo, e desde 2017 a guerra em Cabo Delgado, com o alastramento intermitente às vizinhas províncias do Niassa e Nampula.
A que se deve este triste recorde e as razões que fazem com que Moçambique registe conflitos permanentes e a existência da violência que ocorre de forma contínua e permanente na sociedade civil?
Moçambique era, à data da independência, um complicado caleidoscópio de dezenas de povos com as suas línguas, os seus costumes, as suas religiões, podendo sem rebuço afirmar-se que é, de todos os países da África Austral, o que mantém a maior diversidade étnica e múltiplas formas de organização social, além da diversidade cultural e linguística.
Ao contrário do comumente afirmado, o Estado colonial, manifestamente incapaz de controlar as vastas extensões de território e a população sob o seu domínio, socorreu-se de um modelo de gestão do território e da população do estilo do “indirect rule”, em que as autoridades tradicionais locais foram enquadradas, de modo diferenciado de região para região, consoante as capacidades de controlo da própria administração colonial. O Estado colonial construiu, pois, durante os anos de dominação, um conjunto de modos de ver e agir (por exemplo, as a alianças com as lideranças locais, como o caso dos régulos, autoridades tradicionais nas quais manteve a regulação dos conflitos “milandos” locais, nomeadamente os relacionados com as relações familiares, pequenos roubos, feitiçaria, etc.), respeitador dessa diversidade étnico-linguístico.
Foi, a Frelimo que após a independência, considerando que o colonialismo procurou esmagar a “nação moçambicana” pretendendo impor uma imagem falsa de um povo repartido por etnias e culturas regionais sem qualquer comunhão entre si, privilegiando os costumes e tradições ao nível de cada região, definiu como objectivo principal, consolidar uma entidade nacional homogénea e unitária (a ideia de Samora de um “Moçambique do Rovuma ao Maputo” e “um só povo, uma só nação, uma só cultura, uma só língua, um só partido”), uma suposta unidade nacional fictícia e manipulatória, que mais não visou senão a marginalização dos povos (línguas, culturas, valores, hábitos, tradições) do Centro e Norte do país.
As raízes dos permanentes conflitos que tem assolado Moçambique radicam nesta falsa “identidade/unidade nacional” criada após a independência e da homogeneização do poder político pela Frelimo, mesmo após o fim do regime do partido único, assente numa aliança histórica dos “changanas” (associados aos “intelectuais ronga”) e dos “guerrilheiros/militares maconde”.