
Livro cinco: Os Livros Que Não Escrevi, de George Steiner
Edição Gradiva, 2026 (3.ª ed)
219 páginas
O franco-americano George Steiner (1929-2020) era um verdadeiro erudito: não de pose, mas de substância. Daquelas pessoas que parecem ter lido tudo, parecem perceber um pouco de tudo, parecem capazes de encontrar respostas para os mais intrincados enigmas ligados ao ser humano e ao mundo que habitamos. Dotadas da sabedoria global que funde passado com presente e permite perspectivar o futuro.
Agora reeditado, este volume de 2008 reúne sete ensaios, cada qual com cerca de 30 páginas, sobre assuntos que o fascinavam ao ponto de ter desejado escrever livros autónomos centrados neles. Não aconteceu, mas quase parece. Deixou-nos aqui rascunhos – todos brllhantes. Cada qual resumido nos seguintes títulos: “Chinoiserie”, “Invidia”, “As línguas de Eros”, “Sião”, “Condições escolares”, “Do homem e do animal” e “Pôr a questão”. Erotismo, a condição judaica, a nossa relação com a natureza e a nossa relação com Deus são alguns dos temas. Sem faltar a suave ironia de pendor britânico que este antigo professor em Oxford e Cambridge também cultivava.
A erudição era a condição natural deste judeu nascido em Neiuilly-sur-Seine numa família oriunda de Viena, acossada pelo anti-semitismo, e refugiada nos EUA pouco antes da ocupação nazi de França. O pequeno George viria a ser o único sobrevivente judaico da escola parisiense que frequentou antes do exílio no Novo Mundo.
Ser poliglota ajudou muito. Dominava três línguas desde o berço: alemão, inglês e francês. Tornou-se fluente em italiano, que viria a ser um dos seus idiomas lectivos na Universidade de Genebra. Conhecia latim, lia grego clássico. Frequentou o Liceu Francês de Nova Iorque, estudou Literatura, Matemática e Física na Universidade de Chicago, concluiu o mestrado em Harvard. Nos anos 50, foi jornalista da Economist em Londres. Errante, como os seus melhores ancestrais.
«Desde muito cedo, quando somos lúcidos, sabemos que deixámos o futuro atrás de nós. E podemos, num gesto defensivo transparente, chamar à nossa autobiografia Errata», escreve neste livro, com tradução superlativa de Miguel Serras Pereira. Aqui Steiner evidencia uma das suas melhores características enquanto autor, realçada pela revista New Yorker: «Seriedade sem monotonia, erudição sem pedantismo».
Destaco outras frases que funcionam como chamariz para mergulhar nesta obra que tanto me fascinou – desde já com presença assegurada na galeria das dez melhores no lote das minhas leituras de 2026:
«O impulso messiânico do judaísmo foi um aspecto central do génio furioso de Marx e da sua retórica apocalíptica.»
«Foram a ciência e a técnica ocidentais, a física e a engenharia ocidentais que geraram a ordem planetária em que todos nós, incluindo os chineses, conduzimos as nossas modernas vidas pública e privada. A estrada real vai de Galileu e Kepler a Newton, Darwin, Rutherford e Einstein. Não há um único nome chinês neste panteão.»
«Com a linguagem dos militares americanos durante e após a Segunda Guerra Mundial, chegou a época do expelitivo universal. Fuck e shit podem passar a pontuar qualquer frase corrente. Perderam até a mais ténue aura de intimidade, de estimulação clandestina ou de inibição.»
«A verdadeira catástrofe de Babel não é a divisão das línguas: é a redução do discurso humano a meia dúzia de línguas “multinacionais” planetárias.»
«À escala temporal da evolução e tomando como termo de comparação a idade do planeta, o Homo sapiens é um recém-chegado. A nossa história tem a duração de um abrir e fechar de olhos.»
Não lhe bastava ser culto. Também escrevia admiravelmente bem.
Sugestão 5 de 2016:
Telex de Cuba, de Rachel Kushner (Relógio d’ Água)
Sugestão 5 de 2017:
Coração de Cão, de Mikhail Bulgákov (Alêtheia)
Sugestão 5 de 2018:
Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
Sugestão 5 de 2019:
Júlio de Melo Fogaça, de Adelino Cunha (Desassossego)
Sugestão 5 de 2020:
Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro (Objectiva)
Sugestão 5 de 2021:
Gramática Para Todos, de Marco Neves (Guerra & Paz)
Sugestão 5 de 2022:
As Praias de Portugal, de Ramalho Ortigão (Quetzal)
Sugestão 5 de 2023:
Como Perder uma Eleição, de Luís Paixão Martins (Zigurate)
Sugestão 5 de 2024:
A Porta, de Magda Szabó (Cavalo de Ferro)
Sugestão 5 de 2025:
O Pacto Nazi-Soviético, de Manuel S. Fonseca (Guerra & Paz)

Não há um único nome chinês neste panteão.
E???
O que mais interessa é o futuro, não o passado.
Não haverá nenhum nome chinês no futuro também.
Pois não.
Pois não. A segunda lei da termodinâmica vai dar cabo dos chineses todos.
Ora bem , comecemos :
1-Esse tipo traça uma linha recta e isolada que vai diretamente de Galileu a Einstein, um erro clássico de anacronismo e isolacionismo histórico. Nenhuma ciência nasce no vácuo. A Revolução Científica europeia do século XVII só foi possível porque a Europa herdou e absorveu séculos de avanços de outras civilizações.A prova: Copérnico e Galileu apoiaram-se fortemente na astronomia e na matemática do Mundo Islâmico (como os trabalhos de Al-Tusi e Al-Khwarizmi, que inventou a Álgebra). Sem os algarismos indo-árabes e o conceito do zero (vindos da Índia), a matemática de Newton e o cálculo moderno seriam impossíveis de formular. A “estrada” não é europeia; é uma rede global de estradas que convergiram.
2-Confundir “Ciência Teórica” com “Ordem Planetária”. Esse cromo afirma que foi a física e a engenharia ocidentais que criaram a “ordem planetária” e a vida moderna. Aqui ocorre um erro conceptual profundo :: a globalização (a “ordem planetária”) e a modernidade industrial baseiam-se em infraestruturas técnicas, navegação e comunicação. Nessas áreas, a China moldou o mundo muito antes do Ocidente.A prova: Para que a Europa pudesse navegar, colonizar e criar o comércio global, precisou de tecnologias fundamentalmente chinesas. O filósofo Francis Bacon (contemporâneo de Galileu) admitiu que três invenções mudaram o mundo: a imprensa, a pólvora e a bússola. As três são invenções chinesas. Sem a bússola chinesa, os europeus não teriam mapeado o globo; sem o papel e a imprensa chineses, as ideias de Galileu e Newton não teriam sido amplamente publicadas e difundidas.
3- O argumento do cromo de que “não há um único nome chinês” baseia-se num critério puramente ocidental de como a história deve ser registada. A ausência de nomes num panteão ocidental diz mais sobre os critérios de quem construiu o panteão (o próprio Ocidente) do que sobre a realidade histórica. Além disso, a tradição científica chinesa era frequentemente coletiva, estatal e burocrática, focada em resultados práticos para a sociedade, e não no culto individual ao “génio isolado”.A prova: Se o critério for o impacto real na vida moderna, nomes como Shen Kuo (que descobriu a declinação magnética da Terra séculos antes dos europeus) ou Zu Chongzhi (matemático) pertencem a qualquer panteão global do conhecimento. No século XX e XXI, a barreira do panteão foi definitivamente quebrada, com cientistas de origem chinesa a liderar a física quântica, a inteligência artificial e a medicina (como a Nobel Tu Youyou).
4- Conclusão : Aqui temos um belo exemplo do pensamento judaico ” é tudo nosso” !!!

O “cromo”, como você lhe chama, tem um defeito imperdoável aos seus olhos anti-semitas.
É judeu.
Merece fogueira, câmara de gás, “limpeza” étnica, zyklon B.
típico …uma pessoa limita-se a demonstrar o etnocentrismo e propaganda baseada em falsidades de um senhor da categoria dos “intelectuais” e leva logo com o rótulo calimérico.
Não. A questão é que vocês estão sempre a tentar importar o conhecimentos árabe, chinês africano e sabe-se lá que mais e a verdade é que para a história do conhecimento científico tal como ele é, a sua relevância é nula.
Ó V., dizer que os conhecimentos árabes tiveram nula relevância na história do conhecimento científico tal como ele é também é manifesta omissão exagerada… E muita coisinha útil também foi trazida da China pelos “descobridores” europeus, como o V. sabe muito bem, e como aliás a marina refere – tendo igualmente razão no que devia ser para todos evidente, a História da Ciência de há muito recebe contributos de cientistas de todas as latitudes.
A História da Ciência não parou na sistematização do método científico – esse sim, particular contributo do pensamento europeu, que penso ser aquilo a que o V. realmente se refere.
Há isso tudo, mas quem inventou o método experimental, quem descobriu a geografia do mundo e foi capaz de o representar pela primeira vez de maneira realista em forma de mapa foram os europeus.
GEORGE STEINER in DESPUÉS DE BABEL
« El hombre actúa como si fuera el creador y el dueño del lenguaje, cuando es éste su señor. Cuando esta relación de dominio es invertida el hombre sucumbe a extrañas coacciones
«A verdadeira catástrofe de Babel não é a divisão das línguas: é a redução do discurso humano a meia dúzia de línguas “multinacionais” planetárias.»
O português incluído?
O Brasileiro, disse bem.
Ele , o Steiner, incluído na catástrofe , fala através do discurso da meia dúzia de línguas multinacionais planetárias , tanto que até esqueceu a língua mais falada o mundo , o mandarim , e varreu o seu legado histórico para debaixo do tapete.
Outro fulano da craveira de Steiner é Giorgio Agamben, cuja leitura de alguns livros recomendo. Talvez começando pelo “A Potência do Pensamento”, Relógio D’Água, 2013.
E mais uns tipos interessantes:
Roberto Calasso
Didi-Huberman
Daniel Arasse
Bom , continuemos :

Esta é de mijar a rir “«O impulso messiânico do judaísmo foi um aspecto central do génio furioso de Marx e da sua retórica apocalíptica.»” _
1.No ensaio “Sobre a Questão Judaica” (1844) Marx debate a emancipação política dos judeus na Prússia. A dada altura , Marx usa a palavra “judeu” como um sinónimo metafórico do burguês capitalista, associando o judaísmo secular ao comércio e ao dinheiro. Argumenta que a sociedade burguesa cristã se tornou “judia” porque passou a adorar o dinheiro.
2-Marx era um materialista convicto, não um idealista: O messianismo baseia-se na fé, numa promessa divina e na vinda de um salvador para redimir a humanidade. A teoria de Marx (o Materialismo Histórico) baseia-se no oposto: na análise científica das forças económicas e das condições materiais de produção. Para Marx, a história não avança por providência divina ou “retórica apocalíptica”. Isso é mais para o tuga e Don Sebastião e o chato do Pessoa.
3 – E sim , a condição judaica do Marx teve grande influência nele , tentou por tudo renegá-la e redimi-la.
4- A era dos intelectuais publicitados sem escrutínio já era. Ty , Sokal.
5 – Esta também é de ir às lágrimas “«À escala temporal da evolução e tomando como termo de comparação a idade do planeta, o Homo sapiens é um recém-chegado. A nossa história tem a duração de um abrir e fechar de olhos.». Que grande descoberta , só contaram para você , foi ?
Ó Pedro , francamente…