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Livro cinco: Octaedro, de Julio Cortázar
Tradução de Isabel Pettermann
Edição Cavalo de Ferro, 2017
125 páginas
Cortázar (1914-1984), escritor argentino nascido na Bélgica e naturalizado francês, verdadeiro cidadão do mundo, é um mestre da narrativa breve – ao nível de um Tchekov, de um Maupassant ou do seu compatriota Borges. Vários dos seus contos foram adaptados ao cinema, como Las Babas del Diablo, que originou Blow-Up, de Michelangelo Antonioni (1966), ou La Autopista del Sur, transposto para a Sétima Arte por Jean-Luc Godard sob o título Week End (1967).
O título desta breve colectânea com chancela da Cavalo de Ferro – editora que tem vindo a publicar a obra completa de Cortázar, incluindo títulos inéditos no mercado português, como este – é bem ilustrativo da escrita deste prosador que concebia a escrita à semelhança de uma construção geométrica tão elegante e tão complexa como um octaedro, com as suas oito faces triangulares, as suas 12 arestas e os seus seis vértices.
Oito histórias fragmentadas no tempo e no espaço, permitindo múltiplas leituras, interpelando o leitor, convidando-o a decifrar todos os veios da delicada arte de transmitir emoções através da escrita sem concessões ao estereótipo ou à vulgaridade.
Histórias como Liliana a Chorar, em que o narrador imagina as reacções de vários daqueles que lhe são mais próximos após a sua própria morte, aliás iminente; ou Verão, onde temores ancestrais se infiltram no banalíssimo quotidiano de um casal sem filhos, conduzindo-os a uma atribulada viagem ao fim da noite; ou Manuscrito Encontrado num Bolso, em que uma simples digressão de metropolitano em Paris, com as imagens de vultos projectadas nas vidraças da carruagem, gera imprevistas reminiscências no subconsciente do protagonista.
«A ti, que me lês, nunca te aconteceu uma coisa começar num sonho e voltar em muitos sonhos mas não é aquilo, não é apenas um sonho?», questiona-nos Cortázar. É isto mesmo: de literatura se trata.
Sugestão 5 de 2016:
Telex de Cuba, de Rachel Kushner (Relógio d’ Água)
Sugestão 5 de 2017:
Coração de Cão, de Mikhail Bulgákov (Alêtheia)

Acho que Cortázar não atingiu a estilização de Tchekov, Maupassant ou Borges. As coisas que li dele — não demasiadas, confesso — eram sem dúvida bem escritas mas pareceram-me um pouco confusas
Já escrevi aqui sobre dois contos dele de que gosto muito:
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4 383243.html
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/g randes-contos-20-cortazar-6419227
Sim, lembro-me do seu texto de Cortázar como precursor do Realismo Mágico. Se calhar é daí aquela ideia que retive de alguma aceleração e dispositivos meio surrealistas como faz Huysman n’O Castelo do Homem Ancorado.
Sim, foi precursor. E é um escritor com mais capacidade para resistir ao tempo do que vários dessa escola.
Os contos de ‘Todos os Fogos o Fogo’ e ‘Bestiário’ são todos bons. Alguns são muito bons. Excelentes mesmo.
“E é um escritor com mais capacidade para resistir ao tempo do que vários dessa escola.”
Sim, disso não duvido. Mas sempre tive a ideia de que (mal comparado) Cortázar estaria para Borges como Ambrose Bierce está para Allan Poe — ou seja, os últimos foram mais lapidares e universais nos objectos literários que criaram.
Vou reler! Um abraço.
Julgo que gostará. Abraço.