Da rua


Adolfo Mesquita Nunes,

Não estou, nem de perto, entre aqueles que evitam a esperança do que se passa no mundo árabe nos dias que correm. Mas se há caminho que não percorro, nem aqui nem noutros casos, é na leitura unívoca da rua. As manifestações espontâneas de rua abarcam milhares ou milhões de vontades, muitas delas incompatíveis e não é possível dar-lhes uma única orientação. Aliás, momentos como este, se acaso se eternizam, derivam sempre em ditadura, porque um Estado não consegue cristalizar permanentemente essas reivindicações, e estas quando se colam a um regime, morrem, confundindo-se com ele perdendo a sua razão de ser. 

Ceci n’est pas une moção de censura


Adolfo Mesquita Nunes,

A moção de censura do Bloco de Esquerda não foi surpresa para ninguém. Incapaz, ao contrário do PCP, de votar favoravelmente uma qualquer moção vinda do PSD ou do CDS, o Bloco tinha rapidamente de encontrar o pretexto para sair do jogo das moções de censura sem aparecer como apoiante do PS. Para isso, nada melhor do que apresentar, o mais rapidamente possível, um texto inenarrável para garantir que nem PSD nem CDS votem favoravelmente a moção bloquista, que aliás vem num tempo pouco adequado. Quando, e se, chegar a hora da direita, o Bloco terá já saído do jogo. Se há coisa que o Bloco não quer são eleições. No entanto, que pena, o Bloco não é preciso para fazer aprovar uma moção de censura.

Vazio


Adolfo Mesquita Nunes,

Este ano, pela primeira vez em muitos anos, não vou passar o Natal à terra (das poucas cidades portuguesas onde a neve nos pode supreender à saída da missa do galo). E não sei escrever sobre isso.

Pergunta do dia


Adolfo Mesquita Nunes,

Por que razão as iluminações de Natal em Lisboa omitem toda e qualquer evocação natalícia, como se o Natal não fosse a celebração do nascimento de Jesus e se bastasse com umas luzes adaptáveis a qualquer arraial popular?

PS Olivia Patroa vs PS Olivia Costureira


Adolfo Mesquita Nunes,

O que anima a possibilidade de um governo de salvação nacional é a convicção, baseada até em experiência recente, de que os socialistas, agora em versão Olivia Patroa toda redução de défice e despesas, se deixados à solta na oposição, rapidamente se transformarão na Olivia Costureira toda líder da revolta popular contra as medidas de contenção que o futuro nos impõe. 

A salvação nacional não está, por isso, na ideia de compromisso entre os vários partidos unidos num governo e programa comuns mas, isso sim, na neutralização, a todo o custo, da vocação socialista para a oposição irresponsável.

 

Pode o próximo Governo, com ou sem FMI, sujeitar-se a um PS capaz, como em 2002-2003, de utilizar as mais socialistas normas da Constituição para fazer oposição, para travar as necessárias reformas ou para dirigir manifestações e greves? Pode o próximo Governo, com ou sem FMI, sujeitar-se a um PS de discurso Alegrista e Pintasilguista capaz de iludir, mais uma vez, os portugueses quanto à possibilidade de adiamento das reformas que se impõem? Só quem se não lembra desses anos de irresponsabilidade, cínica como se viu nos anos seguintes, pode considerar que o PS estará à altura do que dele se espera se as próximas eleições o remeterem para a oposição.

 

O debate em torno do governo de salvação nacional, e eu não estou ainda seguro quanto às suas virtualidades, deve fazer-se, quanto a mim, por aqui.

Blogue da Semana


Adolfo Mesquita Nunes,

Daniel Hannan é um eurodeputado inglês, eleito pelos Conservadores, que representa, em pleno Parlamento Europeu, grande parte dos valores que me definem politicamente. Sem medos, avesso ao politicamente correcto, Daniel Hannan tem constantemente dado a cara pela crítica ao gigantismo estadual fruto do socialismo reinante, na maior parte das vezes prevendo, com rigor e acutilância, o caminho para a servidão em que caminhamos. Tem um blogue que vale muito a pena ser lido por quem se interessa pela, ou por quem pretende conhecer um pouco mais a, alternativa liberal ao socialismo. E, já agora, vale igualmente a pena ver alguns dos vídeos com as suas intervenções. Este é o discurso que, em minha opinião, faz falta em Portugal.   

A nova versão do interesse nacional


Adolfo Mesquita Nunes,

Agora que o Orçamento foi viabilizado, e os juros continuam a subir, os cultores do interesse nacional preparam-se para exigir aos partidos da oposição que façam como os macaquinhos, na desesperada tentativa de encobrir a incapacidade socialista de gerir o nosso dinheiro. Se pensam que exagero, vejam as declarações de Luís Amado ao DN, por exemplo: “o ambiente de tensão política está presente nas avaliações que os mercados fazem da situação de risco da economia portuguesa“. E não é só o Governo. Também o Presidente da República, ou candidato a, veio pedir menos agressividade no debate político em torno do Orçamento.

Maiorias


Adolfo Mesquita Nunes,

Não percebo essa teoria da necessidade de maiorias absolutas como mais eficaz cenário de governação. Alguém já imaginou o que estaria a ser esta legislatura se José Sócrates e o seu PS tivessem obtido maioria absoluta?

Socialistas rima com despesistas


Adolfo Mesquita Nunes,

A viabilização, a todo o custo, de um mau Orçamento só coincide (e mesmo assim…) com o tão proclamado interesse nacional se, a executá-lo, estiver gente responsável, capaz e com respeito pelas gerações futuras. Responsável, para saber medir as consequências de cada uma das cedências ao socialismo que vai ser convidado a fazer; capaz, para fazer vingar, contra os interesses instalados, uma política de drástica redução da despesa e de reforma do Estado; com respeito pelas gerações futuras, para impedir que se continuem a diferir os problemas e as contas para as gerações que estão a nascer. 

 

Com este Governo, com este Primeiro-Ministro e este Ministro das Finanças, poderemos dizer que estamos perante gente responsável, capaz e com respeito pelas gerações futuras? Não me parece. Estamos por isso na eventualidade de oferecer um fósforo a um pirómano que se prepara para entrar numa floresta e deixá-la em cinzas. Isto é, estamos na eventualidade de dar aos socialistas (rima com despesistas) a possibilidade de continuarem a gerir o nosso dinheiro, deixando-o, precisamente, em cinzas.   

O cerco ao Presidente (4)


Adolfo Mesquita Nunes,

Tenho vindo a descrever aquela que, na minha opinião, foi a estratégia seguida por José Sócrates para amarrar o Presidente da República ao seu Orçamento e para, obrigando o PSD a viabilizá-lo, esvaziar o PSD de algum capital de oposição.  

  

São dois os pontos centrais dessa estratégia: o primeiro diz respeito à dramatização de Sócrates a propósito da sua demissão em caso de não aprovação do Orçamento, destinada a pressionar Cavaco a tomar o Orçamento como seu; o segundo diz respeito à mentira contada por José Sócrates a Passos Coelho de que não estava disposto a tomar medidas de austeridade, destinada a provocar em Passos Coelho uma reacção exaltada e veemente o suficiente para, em caso de viabilização por pressão presidencial, enfraquecer o líder do PSD.

 

Quanto ao segundo aspecto, parece-me já evidente que essa mentira foi de facto contada. As medidas de austeridade apresentadas pelo Governo não podem ter sido pensadas em dois ou três dias pelo que é impossível que, quando se sentaram em negociações, Sócrates não estivesse já bem ciente das medidas que estava disposto a adoptar. Apenas as não revelou a Passos Coelho.

 

Quanto ao primeiro aspecto, a confirmação de que a possibilidade de demissão do Governo foi uma mera encenação chegou-nos do próprio Primeiro-Ministro, que ontem, quase sem querer,  disse que “nunca me passou pela cabeça qualquer intenção de me ir embora”.

 

Têm-me feito chegar, a propósito desta minha série de posts, a ideia de que nada garante que o PSD viabilize o Orçamento. Aceito essa hipótese, mas não acredito nela, como explico aqui. De qualquer forma, esta minha teoria nunca poderá ser confirmada, mesmo que o PSD viabilize o Orçamento.   

O cerco ao Presidente (3)


Adolfo Mesquita Nunes,

A oportunidade da apresentação das medidas de austeridade do Governo ajuda, salvo melhor opinião, a confirmar a minha teoria de que José Sócrates procurou encurralar Passos Coelho e Cavaco Silva. Senão vejamos.

 

Primeiro, José Sócrates enganou Passos Coelho, dando a entender que os socialistas não estavam na disposição de enfrentar a realidade adoptando medidas de austeridade. Com isto, provocou uma reacção histérica de Passos Coelho e pressionou uma posição de maior inflexibilidade do PSD.

 

Depois, aproveitando o histerismo de Passos e a aparente recusa de viabilização do Orçamento pelo PSD, Sócrates ameaçou com a demissão, criando o clima necessário para provocar a entrada em cena de Cavaco Silva. Com isto, obrigou Cavaco a sancionar as políticas orçamentais do Governo, porquanto se não admite que Cavaco tivesse andado a pressionar os partidos para aprovar algo que fosse mau para o país.

 

Tendo conseguido a intervenção de Cavaco, Sócrates decidiu-se por fim a anunciar as medidas de austeridade que, dias antes, escondera de Passos Coelho, suavizando as críticas de todos os sectores e quadrantes e escapando às pressões internacionais (pode lá acreditar-se que estas medidas foram pensadas em 2 ou 3 dias?). Com isto, fornece ao PSD o espaço necessário para, seguindo as directivas de Cavaco, e em nome do interesse nacional, viabilizar o Orçamento (o que não significa que não tenha de desdizer-se, uma vez mais…).

 

Tudo somado, José Sócrates vai ter o seu Orçamento, sancionado pelo Presidente da República e com a anuência do partido que aspira substituir os socialistas. Pelo caminho, fez Passos Coelho passar por histérico, obrigando-o, aliás, a desdizer-se uma vez mais (teremos, quem sabe, mais um pedido de desculpas). Nos dias que correm, com a miserável situação do país e perante a escancarada incompetência técnica do Governo, não deixa de ser admirável.

 

(Postado originalmente, com adaptações, no Aparelho de Estado.)

Paradoxos


Adolfo Mesquita Nunes,

A putativa (e naturalmente legítima) candidatura presidencial de José Ribeiro e Castro não está pensada para ajudar Paulo Portas, como me parece que é evidente. Mas a verdade é que, e porque Ribeiro e Castro sem o apoio de grande parte do CDS não poderá avançar, tem a virtualidade de fazer crescer o peso negocial de Paulo Portas perante Cavaco Silva. O incómodo causado a Paulo Portas e ao CDS por José Ribeiro e Castro apenas fará subir, precisamente, o valor do apoio ao actual Presidente. Pela primeira vez, em muitos anos, Cavaco Silva terá de olhar para, e agradecer ao, CDS.

O cerco ao Presidente (2)


Adolfo Mesquita Nunes,

Escrevi ontem que a actual estratégia de Sócrates, ameaçando demitir-se em caso de não aprovação do Orçamento, passa por encurralar o Presidente da República. Gostava de desenvolver um pouco esta ideia, evidenciando, pelo menos, e na minha opinião, quais os objectivos de tal estratégia.

 

Deixando (enganando-o) Passos Coelho comprometer-se com o PEC e, mais do que isso, comprometer-se com negociações orçamentais, José Sócrates esperou pela impossibilidade de o Presidente da República dissolver a Assembleia da República para, dramatizando e chantageando, vir ameaçar com a demissão em caso de não aprovação do Orçamento. Com tal estratégia, obrigou o Presidente da República a vir fazer aquilo que este menos queria: iniciar diligências que garantam a aprovação do Orçamento socialista. 

 

Se o Presidente da República for bem sucedido, e tudo indica que o será, levando o PSD a invocar o interesse nacional, José Sócrates amarra o Presidente ao Orçamento e à estratégia governativa dos socialistas. Na verdade, se o Orçamento for aprovado, tê-lo-á sido graças à intervenção do Presidente. O que na prática equivale a dizer que o Presidente o sancionou.

 

Que Presidente da República pode dissolver a Assembleia da República, daqui a uns meses, com fundamento no cumprimento de uma estratégia orçamental que ele próprio sancionou? Não lhe faltará legitimidade constitucional, mas é mais duvidoso que tenha legitimidade política para o efeito. E se assim é, José Sócrates consegue garantir um intervalo de sobrevivência maior do que aquele que lhe era apontado há uns tempos, com a vantagem do desgaste de Passos Coelho (obrigado a dar piruetas umas atrás das outras, acabando por se subjugar a Cavaco Silva). Claro que este intervalo não dura para sempre, e há um novo Orçamento a aprovar no ano que vem. Mas até lá, José Sócrates jogará de novo, como até aqui.     

O cerco ao Presidente


Adolfo Mesquita Nunes,

José Sócrates soube esperar pela data limite para a dissolução da Assembleia da República para radicalizar o discurso, se necessário no estrangeiro e perante credores, e colocar o ónus da aprovação do Orçamento na oposição.

 

 Esta estratégia é boa para o PS e funciona. Pena que não seja boa para o país e que apenas funcione porque o Presidente da República se chama Cavaco Silva.

 

Por mais do que uma vez atraiçoado pelo Primeiro-Ministro, não estava já na hora de o Presidente da República se ter apercebido que, com Sócrates, não há regular funcionamento das instituições democráticas, precisamente porque este funcionamento se não confunde com a garra ou a motivação ou lá o que é do nosso Primeiro, que lhe serve de justificação para a funcionalização do Estado a seu bel-prazer?

 

Ao contrário do que por aí se escreve, não foi Passos Coelho o maior encurralado com a estratégia de Sócrates. Foi o Presidente da República. E se Passos foi encurralado porque não tem grandes opções, já o Presidente foi encurralado porque quis. Ou por sistemática nabice, que é pior. 

O FMI e Cavaco


Adolfo Mesquita Nunes,

Parece que o Presidente da República colocou ontem um ponto final na especulação sobre um eventual recurso de Portugal ao Fundo Monetário Internacional. É natural que Cavaco Silva procure descartar a hipótese de ter o FMI a entrar pelo país, com a inevitável perda de soberania subjacente, para nos salvar do desvario deste Governo. É que o actual Presidente foi eleito, se bem lembro, pela maioria que nele confiou para impedir que o Governo pusesse os seus interesses, próprios e eleitorais, à frente do interesse do país.

 

Se o FMI entrar por aqui adentro, não foi apenas o Governo que falhou. Foi Cavaco Silva que redondamente se encostou a uma qualquer bananeira que encontrou por Belém e que preferiu, afinal também ele, a aparência à realidade. É por isso que Cavaco nem quer ouvir falar de FMI, sobretudo nesta altura de pré-campanha eleitoral.

Sei lá.


Adolfo Mesquita Nunes,

Tenho estranhado o facto de o tom afectado de Isabel Alçada, que nem mesmo Ana Bola, nos velhos tempos, conseguiria igualar, ter passado ao longo destes meses despercebido aos gozões do costume. Parece que o tom afectado só é risível quando dextro. Mesmo que em vez de “carreiras” se diga “carráiras”.

Blogue da Semana


Adolfo Mesquita Nunes,

Não é pelo facto de eu ser particularmente adepto de limões que o blogue escolhido da semana, que me coube nomear, é o Mercado de Limões. As razões que fundamentam a escolha são outras: num contexto em que todos somos economistas e todos os economistas que ouvimos alinham pelo coro socialista do costume, é bom ler quem, com fundamento, expõe uma outra forma de analisar o fenómeno económico e propõe, com segurança, uma outra grelha de avaliação. A ler por quem procura esta nova grelha, claro. Mas também, e sobretudo, para os que insistem, apenas porque sim, nas verdades imutáveis dos socialismos que nos governam.

Lisboa em Agosto


Adolfo Mesquita Nunes,

Agora que Lisboa começa a esvaziar-se, e até que chegue Setembro com as insuportáveis campanhas do regresso às aulas, ouviremos vezes sem conta a lengalenga do ‘que bom é Lisboa em Agosto lai lai lai’. Nunca tive grande pachorra para essa conversa, confesso. E recupero, explicando, o que uma vez já escrevi sobre o assunto:

 

Fica-me mal, tenho plena consciência disso, mas não gosto de Lisboa em Agosto. Não sinto apego pelas ruas surdas, pelas avenidas enormes ou pelos lugares à espera nas esplanadas e miradouros. Em Agosto, Lisboa deixa de ser um privilégio, uma cidade escondida, objecto de duelos e conspirações. De repente, a cidade esquece quem a conhece e abre as suas portas a quem, cá vivendo, se deu ao luxo de a ignorar durante onze meses. Já não é preciso chegar cedo, reservar, correr, rezar. Basta cruzar a esquina e sentar. Como se aquela vista, aquele lugar, não merecesse um combate sério para o alcançar. Como se o prazer de lisboetar pudesse, afinal, esperar pelo vazio.