Agora que Lisboa começa a esvaziar-se, e até que chegue Setembro com as insuportáveis campanhas do regresso às aulas, ouviremos vezes sem conta a lengalenga do ‘que bom é Lisboa em Agosto lai lai lai’. Nunca tive grande pachorra para essa conversa, confesso. E recupero, explicando, o que uma vez já escrevi sobre o assunto:
Fica-me mal, tenho plena consciência disso, mas não gosto de Lisboa em Agosto. Não sinto apego pelas ruas surdas, pelas avenidas enormes ou pelos lugares à espera nas esplanadas e miradouros. Em Agosto, Lisboa deixa de ser um privilégio, uma cidade escondida, objecto de duelos e conspirações. De repente, a cidade esquece quem a conhece e abre as suas portas a quem, cá vivendo, se deu ao luxo de a ignorar durante onze meses. Já não é preciso chegar cedo, reservar, correr, rezar. Basta cruzar a esquina e sentar. Como se aquela vista, aquele lugar, não merecesse um combate sério para o alcançar. Como se o prazer de lisboetar pudesse, afinal, esperar pelo vazio.

Talvez essa gente tenha outra luta para travar no dia a dia, que não é por um lugar num restaurante ou esplanada… E só quando o Verão impõe uns dias de descanso se possam dar ao luxo de “lisboetar”, já que nem para Allgarvar têm possibilidades…
Meu caro,
Sinta-se livre para ler no meu post, ou dele retirar, aquilo que lá não está.
Um abraço,
a.
Meu caro,
apenas me ocorreu que ignorar Lisboa 11 meses por ano não é necessariamente um luxo,
(e essa ideia está lá).
A ideia que lá não está, nem poderia estar, é a de que usufruir de Lisboa está apenas ao dispor de quem tem tempo e dinheiro ou, pior, a ideia de que só com dinheiro e tempo livre em abundância se pode sentir Lisboa, fazendo do meu post, precisamente, um exercício de diletantismo de que não sou adepto.
Acho que este ano Lisboa não vai sentir tanto o Agosto, Adolfo. Por causa do lai-lai-lai governamental.
Achas? Pois que eu acho que é no próximo Agosto que a coisa se vai sentir a sério…
Por acaso costumo dizer que gosto muito de Lisboa em Agosto. Precisamente por isso: menos trânsito, menos tempo e confusão para chegar onde quer que seja de autocarro (recordo que não ando de carro em Lisboa), lugares mais calmos, e um anoitecer tardio para que possa aproveitar alguma coisa do dia entre a saída do trabalho e a hora do jantar.
A marcar férias, prefiro Setembro – assim já posso ir para a Zambujeira do Mar e encontrar a coisa também nestes preparos, ou seja, calminha e agradável. Mas eu sou alentejano, deve ser por isso 🙂
o melho do que dizes é mesmo essa do anoitecer tardio (embora muitas vezes ventoso!). mas isso depende mais do verão do que da deserção 🙂
Facto. No entanto, Agosto ainda nos calha ao Verão (hehe) – e quando não está vento, o miradouro da Graça (indo para lá de eléctrico, obrigatoriamente) é bem capaz de ser dos melhores sítios da cidade para se sentar das sete às nove a ler um livro e a beber uma cerveja.
“Lisboetar” é fixe! – vou-te roubar a expressão, até porque assenta que nem uma luva naquilo que eu gosto de fazer, por cá, em todas as estações 🙂
se esconderes a autoria, ainda vais parar ao não há coincidências da ana 🙂