Tenho vindo a descrever aquela que, na minha opinião, foi a estratégia seguida por José Sócrates para amarrar o Presidente da República ao seu Orçamento e para, obrigando o PSD a viabilizá-lo, esvaziar o PSD de algum capital de oposição.
São dois os pontos centrais dessa estratégia: o primeiro diz respeito à dramatização de Sócrates a propósito da sua demissão em caso de não aprovação do Orçamento, destinada a pressionar Cavaco a tomar o Orçamento como seu; o segundo diz respeito à mentira contada por José Sócrates a Passos Coelho de que não estava disposto a tomar medidas de austeridade, destinada a provocar em Passos Coelho uma reacção exaltada e veemente o suficiente para, em caso de viabilização por pressão presidencial, enfraquecer o líder do PSD.
Quanto ao segundo aspecto, parece-me já evidente que essa mentira foi de facto contada. As medidas de austeridade apresentadas pelo Governo não podem ter sido pensadas em dois ou três dias pelo que é impossível que, quando se sentaram em negociações, Sócrates não estivesse já bem ciente das medidas que estava disposto a adoptar. Apenas as não revelou a Passos Coelho.
Quanto ao primeiro aspecto, a confirmação de que a possibilidade de demissão do Governo foi uma mera encenação chegou-nos do próprio Primeiro-Ministro, que ontem, quase sem querer, disse que “nunca me passou pela cabeça qualquer intenção de me ir embora”.
Têm-me feito chegar, a propósito desta minha série de posts, a ideia de que nada garante que o PSD viabilize o Orçamento. Aceito essa hipótese, mas não acredito nela, como explico aqui. De qualquer forma, esta minha teoria nunca poderá ser confirmada, mesmo que o PSD viabilize o Orçamento.
