Modo de vida (13)


Adolfo Mesquita Nunes,

É raro atrasar-me. Corrijo. É raro fazer esperar alguém. Quando percebo que vou atrasar-me, e isto não acontece dez minutos antes da hora mas muito antes, aviso atempadamente para que não me esperem. Sou por isso obsessivamente pontual. E deveria esquecer-me disto mais vezes: em vez de esperar por opção, dou por mim a esperar por estupidez.  

Modo de vida (12)


Adolfo Mesquita Nunes,

Ter um olfacto, como dizer?, quase inexistente pode ser uma bênção numa ou outra circunstância, mas fico sempre com a sensação de que boa parte da vida me passa ao lado. Não teria essa sensação se o olfacto estivesse completamente desligado, mas não está. Há cheiros, poucos, que sinto com intensidade (e segundo sei nem sequer serão cheiros especialmente fortes quando comparados com outros que me passam ao lado).

 

 

E são esses poucos, com as sensações raras que me permitem, que me deixam a pensar no tanto que não vivo. Se o Verão me é trazido pelo cheiro das alfarrobeiras, se a frescura me é recordada pelo limão, se o amor dos meus avós me é lembrado pelo cheiro dos bolos no forno, quanto não me está a ser roubado pela insensibilidade olfactiva? Ou talvez não. Talvez esta minha incapacidade me ofereça a vantagem de ter os cheiros, poucos é certo, como parte importante da minha geografia sentimental.   

Modo de vida (11)


Adolfo Mesquita Nunes,

Passam 11 meses a pedir por Agosto para terem uma Lisboa vazia, disponível, à espera. Chega Agosto e desfilam a vida social no facebook ao jeito de quem faz check in em todas as sugestões das agendas culturais ou de lazer. Mas basta um dia de chuva para desmascarar tanta falta de amor à cidade.

Blogue da Semana


Adolfo Mesquita Nunes,

Nunca soube escrever sobre cinema, talvez porque o cinema seja, de todas as artes que conheço, a única de que não tive de aprender a gostar. Não, não é desculpa: acredito mesmo que a boa escrita foge do inato a sete pés. Mas deixemos estas tergiversações e ofereçamos o destaque a quem sabe escrever, e bem, sobre a coisa: http://www.dacasaamarela.blogspot.com/. Para saber o que está por aí, ou porque está por aí, não há melhor, garanto.  

Modo de vida (10)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Gosto muito de idiomas que nos arranham a pele, feitos de violência, nem sempre triste, que sugerem uma caminhada cheia de paragens pelas bermas. A realidade é melhor carregada por idiomas que não a disfarçam melodiosamente, como o hebraico. Quando tiver tempo, e um dia vou ter, vou tentar aprendê-lo. Até lá, a música.    

Modo de vida (9)


Adolfo Mesquita Nunes,

Para o calor tropical a Ana Margarida recomenda um livro que nos transporta para o gelo nórdico. Fiquei a pensar nisto. Se um livro tem a faculdade de nos transportar para outro lugar ou contexto ou, neste caso, temperatura, porque não aproveitar a boleia para moderar a tortura solar?  

 

Mas depois lembrei-me de uma das mais interessantes experiências de leitura que tive, talvez determinante para ter gostado tanto do livro: a leitura d’ O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, nos dois ou três dias mais quentes (os jornais gostam muito do campeonato das temperaturas) de um Verão qualquer. 

 

Se o tivesse lido numa noite de Inverno talvez não tivesse compreendido tão bem, ou não tivesse quase sentido, aquela solitária e angustiante espera ao Sol.

 

Não, Ana. Se o livro nos pode transportar para outro lugar, talvez seja preferível evitar que a realidade dificulte a tarefa. 

Modo de vida (7)


Adolfo Mesquita Nunes,

Conseguem imaginar quantas vezes por mês atendo o telefone para ouvir um bolso cheio de chaves, uma carteira de senhora a abarrotar ou até, com sorte, conversas alheias? Se acham que a coisa não vai às dezenas é porque não têm um nome começado por A seguido de D.

Modo de vida (6)


Adolfo Mesquita Nunes,

Em tempo e modo de campanha eleitoral, perguntaram-me hoje qual o maior problema que enfrenta Portugal. Há tantos à escolha que a resposta não é fácil. Mas querendo fugir das respostas chavão e querendo sair da campanha eleitoral propriamente dita, respondi: a triste circunstância de cada um de nós viver preso ao meio social em que nasceu e de nos ser exigida uma quase sobrenatural excepcionalidade para vencer a imobilidade social.   

Rua Direita


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Porque nunca quis fazer do Delito uma espécie de prolongamento da minha actividade política, podem ler-me, até às eleições legislativas, na Rua Direita, o blogue que junta algumas das pessoas que entendem que o CDS deve crescer eleitoralmente. Vou mas com V de volta. Até logo! 

 

Modo de vida (5)


Adolfo Mesquita Nunes,

Vieille Europe acclame le pays qui gagne

Puis verse une larme, c’est la fin du charme

 

Sem explicação, porque não há explicação que resista, ano após ano, país após país, douze points após douze points, me deixo levar; agora na convicção de que a improvável, quase impossível vitória, neste ou outro ano, chegará mais rápido que a superação dos principais problemas do país.   

Modo de vida (4)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Saio de casa, com a casa às costas, e entro na nova casa, onde a coloco. Cansado, não descanso. Agora que está tudo certo, é tempo de tirar os livros encaixotados, ao acaso ou por comodidade de tamanho, e inventar uma nova ordem. O pior só agora começou.  

Modo de vida (3)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Em dias sem sol, muita cor para compensar. Em dias de sol, muita cor para acompanhar. Quando na moda, porque é bom estar de acordo com ela. Quando fora de moda, porque é bom fazer de original. E com estas desculpas me deixo levar todas as manhãs.  

Blogue da Semana


Adolfo Mesquita Nunes,

Vale a pena passar diariamente pelo Imprensa Falsa para perceber como até a melhor ficção (e esta é das melhores e mais originais que tenho visto, tanto que o Inimigo Público não raras vezes, como dizer?, nela se inspira) consegue ser superada pela realidade. Todos os dias ali temos as mesmas notícias publicadas pela imprensa não falsa mas sem a mesma falta de originalidade.

Modo de Vida (2)


Adolfo Mesquita Nunes,

Hazel Motes walked along down town. The black sky was underpinned with long silver streaks that looked like scaffolding & depth on depth behind it were thousands of stars that all seemed to be moving very slowly as if they were about some vast construction work that involved the whole order of the universe & would take all of time to complete. No one was paying attention to the sky.

Modo de vida


Adolfo Mesquita Nunes,

 

O Sol triunfa sempre devagar, mesmo quando os primeiros sinais são tão fortes que quase acreditamos que veio para ficar. Há quem não goste desta lentidão, quem se sinta desiludido com a facilidade com que o Sol se deixa acobardar pelos restos de Inverno.  Não é o meu caso: gosto de viver de expectativas.  

Um Governo a evitar


Adolfo Mesquita Nunes,

As medidas de austeridade apresentadas pelo Governo não são todas inevitáveis. Mas mesmo que fossem, há muito que o problema deste Governo deixou de ser apenas o estilo de opções políticas que faz. O problema que na actualidade mais gravemente afecta este Governo é a sua própria incapacidade de sequer levar a cabo, com sucesso, as políticas que entende adequadas.

 

Estamos perante um mau Governo, o que é evitável numa altura como esta. Estamos perante um Governo que tem uma estranha noção de prioridades, o que é também evitável numa altura como esta. Mas estamos acima de tudo perante um Governo incapaz de levar a bom porto as suas próprias políticas de austeridade, o que não só é evitável como é incomportável numa altura como esta.   

Já basta


Adolfo Mesquita Nunes,

 

É evidente que neste momento uma crise política, ou a ameaça de, terá repercussões negativas nos mercados e na confiança que estes podem ter em Portugal.

 

Mas não é menos certo que, com este Governo e à conta da sua especial inabilidade governativa e institucional, as crises políticas, ou as ameaças de, têm sido e serão uma constante.

 

O que equivale a dizer que quanto mais cedo nos livrarmos daqueles que nos fazem entrar em crise política permanente, melhor. Deixar este Governo em funções mais não é do que deixar arrastar esta triste condição.

 

O que só vem dar razão a todos quantos alertaram para a necessidade de não deixar este Governo continuar as trapalhadas em que é perito. Se o Governo tivesse saído há mais tempo, os estragos teriam sido menores.