Modo de vida (9)


Adolfo Mesquita Nunes,

Para o calor tropical a Ana Margarida recomenda um livro que nos transporta para o gelo nórdico. Fiquei a pensar nisto. Se um livro tem a faculdade de nos transportar para outro lugar ou contexto ou, neste caso, temperatura, porque não aproveitar a boleia para moderar a tortura solar?  

 

Mas depois lembrei-me de uma das mais interessantes experiências de leitura que tive, talvez determinante para ter gostado tanto do livro: a leitura d’ O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, nos dois ou três dias mais quentes (os jornais gostam muito do campeonato das temperaturas) de um Verão qualquer. 

 

Se o tivesse lido numa noite de Inverno talvez não tivesse compreendido tão bem, ou não tivesse quase sentido, aquela solitária e angustiante espera ao Sol.

 

Não, Ana. Se o livro nos pode transportar para outro lugar, talvez seja preferível evitar que a realidade dificulte a tarefa. 

2 comentários em “Modo de vida (9)”

  1. Tens toda a razão, Adolfo. Há certos livros que devem ser lidos em determinadas épocas do ano. ‘O Deserto dos Tártaros’ foi um dos melhores romances que li no ano passado – em dias de calor, o que acentua a atmosfera opressiva da obra, que só perde se for lida em tempo frio. Sucedeu-me o mesmo, por exemplo, com ‘As Vinhas da Ira’, de Steinbeck (o calor é uma personagem adicional do romance, que perde parte do sentido sem ele). Há livros de Inverno e livros de Verão. Eis um tema a que me apetece voltar.
    (Um abraço, senhor deputado)

    1. Há claramente livros de Inverno e de Verão. O problema está em que, ou alguém nos avisa, ou só descobrimos a desadequação climatérica tarde demais.

      Se bem me recordo houve uma editora que lançou uma colecção para Outono/Inverno e outra para Primavera/Verão (Cotovia, será?).

      Um abraço, Pedro!

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