Blogue da Semana


Adolfo Mesquita Nunes,

Não sei quem é, acho!, o Mr. Brown que escreve n’Os Comediantes, o blogue que escolhi para ser blogue da semana. Sei apenas que gosto das análises políticas que faz (nem sempre – e bem! – favoráveis ao governo que apoio): quer na forma, muito clara e precisa, quer no conteúdo, desconfiado do bem intencionado estatismo que nos tem governado. É, por isso, um blogue que leio com regularidade e que é surpreendentemente pouco citado ou linkado pela blogosfera que se dedica à política. Para além disso, e já basta, desconfio que partilho com ele (e, ao que parece, com a Clara Ferreira Alves) um gosto especial por Graham Greene.

  

Modo de Vida (27)


Adolfo Mesquita Nunes,

O Sol no Inverno, como cantava a Simone, não tem calor. Mas se pensarmos bem o melhor que o Sol tem para nos dar não é o calor: é a luz. Não há por isso, como cantava a Simone, um Sol de Inverno. Há Sol, ponto.

Modo de Vida (26)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Um dia, sem mais nem porquê, percebi que o limão reunia o meu cheiro favorito, a minha cor favorita e, como se já não bastasse, o meu sabor favorito. Com tanto favoritismo, habilito-me a acabar afogado num copo de gin tónico na minha próxima reencarnação.

(post republicado, com adaptações; imagem retirada daqui)

Modo de vida (25)


Adolfo Mesquita Nunes,

Gosto muito da noção de recomeço. A coisa talvez me venha da educação católica (“a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias”, escreveu Sophia) mas ficou para além dela. É por isso que aproveito todos os pretextos para ensaiar, ou legitimar, um recomeço. A passagem de ano é apenas um deles, e o menos original.

O que ando a ler (14)


Adolfo Mesquita Nunes,

Quando a Teresa me reencaminhou o desafio de revelar o que ando a ler pensei imediatamente em mentir. Não por vergonha mas tão simplesmente porque a revelação não só desviará a atenção para a política como me afastará do meu género de eleição, que é a ficção.

Ponderei por isso em falar da Flannery, que me enche as medidas, ou da Agustina, que merece que se fale dela. Uma e outra poderiam dar bem conta do que me apaixona na leitura. Mas tenho a leve sensação de que a Flannery não gostaria que mentisse, ainda que a Agustina, aposto, se divertisse com a coisa. Para não deixar uma vencer sobre a outra, optei pela verdade. Se não ficam a conhecer os meus gostos literários, ficam com certeza a conhecer os meus gostos políticos (venham de lá as pedras).

O que estou a ler é isto:

 

 

Não é possível descrever esta obra sem falar de Thatcher, a líder política que mais inspira, talvez porque se tenha inspirado, como eu, nas ideias de Hayek. E falar de Thatcher afasta-me um pouco dos meus propósitos neste blogue e, parece-me, da intenção desta série de posts. Sobretudo porque, apesar da recente reabilitação dos seus discursos e ideias, gostar de Thatcher ainda requer muitas explicações e gera alguma controvérsia. Ela não beneficiou nunca de uma complacência que se tem por quem vem de outros quadrantes políticos em que a bondade e a sensibilidade social são pressupostas e não têm de ser demonstradas. Mas isso é toda uma outra discussão que fica para outros plenários. Para quem a quiser conhecer melhor, antecipando o filme que aí vem, é uma boa proposta de leitura.

 

E tu, Ana Cláudia, o que andas a ler?

Modo de vida (24)


Adolfo Mesquita Nunes,

Não sei de onde me vem esta cansativa necessidade de a tudo reagir com bom humor, coisa que muitos tomam, naqueles momentos em que a aparência parece contar muito, com ligeireza. Mas nasci assim, de riso ágil e piada fácil. Mas é uma arma, senhores. Não é um refúgio.   

Modo de Vida (23)


Adolfo Mesquita Nunes,

Uma casa vazia não me desafia. Fecho a porta sem sequer perder tempo a imaginar o que poderia fazer com e naquele espaço. O mesmo se passa com uma página em branco. Se a encontro em branco, em branco fica sem que me ocorra qualquer coisa de consistente para a preencher. Mas tudo muda se naquela casa, ou naquela página, existirem vestígios de ocupação. Um candeeiro ou um primeiro parágrafo podem, esses sim, convocar-me ao desafio.

Não sei se esta circunstância tem algum nome, daqueles nomes que hoje se dão a tudo e a nada para descrever tudo e nada. Mas deve ter um nome qualquer, a dar para o patológico. Se esta circunstância estivesse em branco e por classificar eu nem sequer me interessaria por ela. 

Modo de Vida (22)


Adolfo Mesquita Nunes,

Cheguei atrasado ao fado, um pouco como quem se encontra na religião depois de a ter negado. Não dou grande importância ao atraso, até porque permitiu a boa sofreguidão na descoberta, mas não o nego. Não entendo por isso aqueles que, de uma década para a outra, fingem nunca ter desdenhado a coisa. E desdenhado é favor, que houve quem fosse saneado ou esconjurado ou relegado só por, na linguagem de agora, ter dado voz ao sentir português.

Modo de Vida (20)


Adolfo Mesquita Nunes,

Hoje de manhã, num corredor, encontrei um livro da Flannery O’ Connor pousado numa mesa. Se alguém um dia me quisesse fazer seguir um trilho seria assim, pensei eu, com vários livros, todos da Flannery, a indicar o caminho (os livros teriam de ser repetidos, claro, que ela por cá deixou poucos). Mas não havia mais livros por ali e fiquei à espera para saber a quem pertencia. E não esperei muito até perceber que, afinal, a vida nem sempre é mais interessante do que a ficção: que não, que não conhecia a autora; que não, que ainda não tinha começado sequer; que não, que ainda não tinha nada para dizer.  

Modo de Vida (19)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Não custa perceber que uma canção (ou um artista ou um livro ou um quadro, não interessa agora) tenha a capacidade de se colar a nós até a fazermos nossa. O que custa a aceitar é que a vida seja pequena demais (ou circunstancial em demasia, vá) para nos deixar descobrir todas, ou pelo menos algumas, dessas canções. Quantas aí estão, escondidas num álbum qualquer, tão nossas, sem que sequer saibamos da sua existência? Esta, por exemplo, que vos deixo porque o senhor vai estar em Sintra já depois de amanhã, chegou até mim pelo acaso que reservamos à ficção; não esperou anos para vir até mim mas todos os anos que esperasse teriam sido perdidos.

Modo de vida (18)


Adolfo Mesquita Nunes,

Não consigo precisar qual a minha primeira memória da infância, se é que não é mais importante conseguir coleccionar umas quantas. Mas consigo, com notável precisão, identificar a música que mais facilmente me transporta até lá. Não sei se isso acontece convosco, e se acontece não posso senão convidar-vos a partilhá-la connosco, esta coisa de ter uma música que nos mergulha nos cheiros, texturas e afectos de um tempo que passou mesmo. Eu tenho essa sorte, que nem sempre traz alegrias, de conseguir recuar apenas porque a ouço. Mais do que uma sorte, é uma benção. Aqui está ela, pois.

 

Modo de Vida (17)


Adolfo Mesquita Nunes,

Já por aqui falei da minha capacidade de chegar pontualmente ao local combinado: nem antes, nem depois, mas à hora marcada. Trocava de bom grado essa capacidade, que tenho de sobra, pelo talento, que me falta, de chegar pontualmente às pessoas: nem antes, nem depois, mas no momento certo. 

Modo de vida (16)


Adolfo Mesquita Nunes,

Não sei se acontece convosco mas eu tenho aí umas quatro ou cinco profissões que gostaria de experimentar apenas por um mês ou, vá lá, um ano. Guia turístico é uma dessas profissões. Bastava-me um mês, se tivesse de passar todos os dias pelos mesmos lugares, ou talvez me deixasse ficar mais uns meses se pudesse perder-me, eu próprio, em roteiros ao acaso.

 

Não tendo ainda concretizado a coisa, e não estando para breve a sua concretização, aproximo-me tanto quanto possível da sensação disponibilizando-me para acompanhar estrangeiros que visitam amigos ou oferecendo o meu sofá a estrangeiros desconhecidos que querem saber algo mais sobre Lisboa. Isso mesmo: eu ofereço o meu sofá para que alguém, que eu não conheço senão de perfil web, possa não só dormir em Lisboa sem pagar como também conhecer uma outra Lisboa que não vem nos guias (quem estiver interessado em saber algo mais, aqui fica o endereço: http://www.couchsurfing.org/).

 

Nunca tive qualquer problema com os estrangeiros que recebi lá por casa, já que a segurança deve ser, de certezinha, aquilo em que estão a pensar. Antes pelo contrário, todos, sem excepção, foram de uma correcção notável. E através desses estrangeiros, que tento acompanhar ou, pelo menos, aconselhar, vou descobrindo (mais até do que ajudar a descobrir) uma Lisboa que nos espera, mesmo que não seja Agosto.

Modo de vida (15)


Adolfo Mesquita Nunes,

Há quem encha gavetas com primeiras páginas e se esgote em esboços de uma história que não virá. Há nesse esforço uma qualquer noção de expectativa que sempre ambicionei: a minha imaginação conduz-me sempre para o desenlace de histórias que nunca vieram.