Notas à margem (2)


Adolfo Mesquita Nunes,

De um ponto de vista literário, a felicidade não é o mais interessante dos estados. A não ser, claro está, se dela duvidarmos e a quisermos desmascarar, o que já nos afasta da própria. Mas o mesmo não pode dizer-se das pessoas felizes, que as há literatura fora, e que gosto de perseguir. Não é contradição: as pessoas felizes não vivem em felicidade. É por isso que, se me tivesse sido dada a oportunidade, gostaria de comentar com o Graham Greene essa coisa de ‘Mostrem-me um homem feliz e eu mostrar-vos-ei amor próprio, egoísmo, maldade ou então uma absoluta ignorância’, que o Scobie diz no Nó do Problema.

AMN Memória (7)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

A minha memória é caprichosa, não se deixa enganar ou seduzir pelas minhas instruções. Guarda o que lhe apetece, algumas vezes em segredo, muitas vezes contra a minha vontade. É ela, não eu, que escolhe o que me faz regressar ao ouvir o primeiro acorde ou ao ver primeira imagem. Esta é uma série que lhe é dedicada. Não à minha memória, que não merece, mas ao sítio para onde regresso quando lhe obedeço. 

Vocabulário (até aos 34): D


Adolfo Mesquita Nunes,

Devassa

 

Quem espreita gavetas procura mais do que a imaginação permite. A suspeita serve apenas de pretexto para descobrir o que nem sequer se conhece ou concebe. A suspeita, nesta busca, é apenas uma desculpa, que muitas vezes sai cara.  

 

Até que a água corra há tempo de abrir e fechar, desviar e corar. As mãos a tremer, o coração a apressar, o infantil temor a sangrar. O pulso dá conta dos segundos, mais rápidos, enquanto os fios líquidos desfazem a espuma que vai descobrindo o corpo.

 

Acentua-se a vontade. Por detrás do que se encontra. Debaixo do que se mostra. Camuflado pelo que se viu. Em alguma parte terá de estar o que se quer e não quer ver.

 

Quando a água denuncia o silêncio, termina o tempo. A toalha já se enrola ao corpo e tudo o que resta do banho são gotas distraídas pelo calor. Poucos segundos protegem a imperícia da busca. O flagrante pode acontecer.

 

Nesse momento. Nesse fim de tempo. O papel. O postal. O brinquedo. O desejo. A gaveta fecha-se, sem barulho. E depois dela, a porta. Na mão, fechada, o segredo. Para tocar depois. Usar depois. Vingar depois.

 

O triunfo é breve. A verdade não permite. Afinal há muito mais. E o que há a mais deveria estar fechado, onde estava. Não se volta a trás. A gaveta, apesar de fechada, ficou aberta.

AMN Memória (6)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

A minha memória é caprichosa, não se deixa enganar ou seduzir pelas minhas instruções. Guarda o que lhe apetece, algumas vezes em segredo, muitas vezes contra a minha vontade. É ela, não eu, que escolhe o que me faz regressar ao ouvir o primeiro acorde ou ao ver primeira imagem. Esta é uma série que lhe é dedicada. Não à minha memória, que não merece, mas ao sítio para onde regresso quando lhe obedeço. 

AMN Memória (5)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

A minha memória é caprichosa, não se deixa enganar ou seduzir pelas minhas instruções. Guarda o que lhe apetece, algumas vezes em segredo, muitas vezes contra a minha vontade. É ela, não eu, que escolhe o que me faz regressar ao ouvir o primeiro acorde ou ao ver primeira imagem. Esta é uma série que lhe é dedicada. Não à minha memória, que não merece, mas ao sítio para onde regresso quando lhe obedeço. 

AMN Memória (4)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

 

A minha memória é caprichosa, não se deixa enganar ou seduzir pelas minhas instruções. Guarda o que lhe apetece, algumas vezes em segredo, muitas vezes contra a minha vontade. É ela, não eu, que escolhe o que me faz regressar ao ouvir o primeiro acorde ou ao ver primeira imagem. Esta é uma série que lhe é dedicada. Não à minha memória, que não merece, mas ao sítio para onde regresso quando lhe obedeço.

Modo de Vida (32)


Adolfo Mesquita Nunes,

Uma grande decisão é sempre precedida, e detesto rimas mas tem de ser, de uma enorme solidão. Podemos partilhá-la, pedir ajuda para sobreviver-lhe ou até esconder-nos em quem mais nos protege. Mas a solidão está lá, naqueles instantes em que nos decidimos, a lembrar que somos quem, não o quê.  

AMN Memória (3)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

A minha memória é caprichosa, não se deixa enganar ou seduzir pelas minhas instruções. Guarda o que lhe apetece, algumas vezes em segredo, muitas vezes contra a minha vontade. É ela, não eu, que escolhe o que me faz regressar ao ouvir o primeiro acorde ou ao ver primeira imagem. Esta é uma série que lhe é dedicada. Não à minha memória, que não merece, mas ao sítio para onde regresso quando lhe obedeço.

Notas à margem (1)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Ganhei o dia a ler o ‘Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco’, do Nuno Costa Santos. Sobre o livro, desde ele valer a pena até ao rigor da escrita, falarei outro dia. Agora, que o fechei, apetece-me ficar a pensar num conselho dado pelo Assis a uma das filhas: uma pessoa tem de parecer-se com aquilo que ela é. São tantos anos a ouvir aquela coisa da mulher de César que quase nos esquecemos de que o parecer, ou vem do ser, ou então não interessa para muito. E isto é só o começo. Cheira-me que vou andar com esta frase por uns tempos.

(a imagem é retirada daqui)

AMN Memória (2)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

A minha memória é caprichosa, não se deixa enganar ou seduzir pelas minhas instruções. Guarda o que lhe apetece, algumas vezes em segredo, muitas vezes contra a minha vontade. É ela, não eu, que escolhe o que me faz regressar ao ouvir o primeiro acorde ou ao ver primeira imagem. Esta é uma série que lhe é dedicada. Não à minha memória, que não merece, mas ao sítio para onde regresso quando lhe obedeço. 

AMN Memória (1)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

A minha memória é caprichosa, não se deixa enganar ou seduzir pelas minhas instruções. Guarda o que lhe apetece, algumas vezes em segredo, muitas vezes contra a minha vontade. É ela, não eu, que escolhe o que me faz regressar ao ouvir o primeiro acorde ou ao ver primeira imagem. Esta é uma série que lhe é dedicada. Não à minha memória, que não merece, mas ao sítio para onde regresso quando lhe obedeço. 

Cadáver Esquisito (1)


Adolfo Mesquita Nunes,

1

UM LIVRO

 

Foi quando acordou que Cosme sentiu o livro pousado no lado onde nunca ninguém dormia. Os lençóis, de uma cor de terra enxuta de chuva, camuflavam a capa. Mas a presença de um objecto naquele espaço foi quanto bastou para que Cosme desse por ele. Agarrou-o com as duas mãos para ter a certeza do que encontrara. Ali estava, num quarto sem livros, numa casa quase sem livros e na cama de um ex-analfabeto, aquilo que viria a descobrir-se ser a edição inglesa do ‘Wise Blood’ da Flannery O’Connor.

Que o livro ali fora deixado a meio da noite foi conclusão imediata. Não que a coisa tivesse lógica mas todas as outras explicações, e Cosme calcou-as uma a uma com mãos de artesão, pareciam ainda mais absurdas. Não só aquele livro nunca tinha sido visto naquela casa, e muito menos naquela cama na noite anterior, como ninguém ali tinha estado, que ele tivesse percebido, que não fosse a Vivelinda, analfabeta de verdade.

O livro, que Cosme nem começou por tentar ler, tinha pois aparecido durante a noite. E tinha ficado ali, umas horas ou uns momentos, à espera de ser encontrado. O céu e o inferno em paz, pensou Cosme, quando imaginou o sono partilhado com um livro que não conhecia. E foi assim que tudo começou. Ou, se quisermos ver as coisas pelo outro lado, que o há, foi assim que tudo terminou.

 

(Este é o início do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a da Ana Cláudia Vicente.)

Modo de Vida (30)


Adolfo Mesquita Nunes,

29 é o meu número. Faço anos a 29, o que ajuda muito, mas não é só por isso. O meu pai faz anos a 29. A minha mãe fazia anos a 29. Os meus pais casaram a 29. A minha irmã nasceu a 29. E isto, que já basta, pode não encerrar a coisa. Com tantos 29 por chegar, quase tantos como os meses que aí vêm, sei lá eu que outros motivos me esperam para continuar a ter o 29 como número.  

Iron Lady


Adolfo Mesquita Nunes,

O jornal Expresso pediu-me que escrevesse umas linhas sobre o filme Iron Lady. Presumi, acho que bem, que o objectivo seria ter a leitura do filme por quem se identifica, e muito, com o legado político de Margaret Thatcher. Foi nesse pressuposto que escrevi o texto que se segue, e que foi publicado na edição de Sábado do suplemento Actual do Expresso –  e que não corresponde, por isso, a uma crítica de cinema (coisa aliás, como já aqui disse, que não sei fazer).

 

 

Um filme sobre Thatcher sem Thatcher

 
‘Iron Lady’ não é um filme sobre Margaret Thatcher. A sua figura é instrumental para os objectivos do filme: divagar sobre a perda (de poder, de faculdades ou de aliados) e moralizar acerca da irrelevância da carreira na hora da morte (ainda que, através dela, se tenha mudado a face do Mundo).

O filme é assim uma oportunidade perdida porque esgota a possibilidade de vermos, neste tempo de crise, o percurso e legado de uma mulher que chegou ao poder quando a Grã-Bretanha atravessava uma das maiores crises da sua história (o FMI, esse mesmo, tivera de entrar no país pouco antes).

Seguindo Hayek e não Keynes, Thatcher retirou o país da decadência e tornou a economia inglesa numa das mais poderosas do Mundo: derrotou a inflação, transformou os tecidos industrial e empresarial, elevou substancialmente o nível de vida, reduziu a opressiva carga fiscal e criou um novo modelo económico (que nem Blair repudiou) favorável à geração de novos empregos e à mobilidade social.

Mesmo para os seus detractores, a importância de Thatcher reside na forma como, com esse modelo, conseguiu transformar económica e socialmente a face do país, contribuindo decisivamente para a queda do muro de Berlim.

Sobre isto, que é tudo, o filme nada diz. Não assistimos a tomadas de decisão política de Thatcher, não conhecemos qualquer linha do seu modelo económico, não sabemos por que razão foi eleita três (!!) vezes, não percebemos o seu papel na queda do muro de Berlim, não vemos os (in)sucessos dos seus governos, e muito menos entendemos porque é que a sua profética desconfiança face à moeda única e ao modelo de governação europeia contribuiu para a sua queda.

De Thatcher fica apenas o retrato demasiado ambíguo de uma mulher que nunca deixou que a percebessem e que agora não é dona da sua vida, o que é coisa pouca para quem paradoxalmente tanto lutou para que os indivíduos e famílias pudessem ter maior controlo sobre as suas vidas.

Modo de Vida (29)


Adolfo Mesquita Nunes,

Não sei escrever sobre a morte. Não falo da morte oficial. Falo daquela que se instala devagar, sem ninguém ver, e depois se vai revelando sem que alguém a possa registar. Dito de outra forma: não sei escrever sobre a morte que é morte antes de ser morte. Sei que essa morte tem outros nomes, mas nenhum desses nomes consegue ser tão preciso quanto a palavra morte. Porque há de facto quem morra antes de morrer. Quem se apague, e nos apague, sem querer e sem saber. E é sobre isso que eu, querendo, não sei escrever.    

Modo de Vida (28)


Adolfo Mesquita Nunes,

A estação do frio é uma estação para pessoas felizes. Digo-o muitas vezes, não só porque gosto de aforismos. E agora que, segundo parece, vem aí uma vaga de frio, apetece-me voltar a essa ideia, que nem sempre consigo explicar. E nem tento, para não perturbar a pretensão aforística.