Devassa
Quem espreita gavetas procura mais do que a imaginação permite. A suspeita serve apenas de pretexto para descobrir o que nem sequer se conhece ou concebe. A suspeita, nesta busca, é apenas uma desculpa, que muitas vezes sai cara.
Até que a água corra há tempo de abrir e fechar, desviar e corar. As mãos a tremer, o coração a apressar, o infantil temor a sangrar. O pulso dá conta dos segundos, mais rápidos, enquanto os fios líquidos desfazem a espuma que vai descobrindo o corpo.
Acentua-se a vontade. Por detrás do que se encontra. Debaixo do que se mostra. Camuflado pelo que se viu. Em alguma parte terá de estar o que se quer e não quer ver.
Quando a água denuncia o silêncio, termina o tempo. A toalha já se enrola ao corpo e tudo o que resta do banho são gotas distraídas pelo calor. Poucos segundos protegem a imperícia da busca. O flagrante pode acontecer.
Nesse momento. Nesse fim de tempo. O papel. O postal. O brinquedo. O desejo. A gaveta fecha-se, sem barulho. E depois dela, a porta. Na mão, fechada, o segredo. Para tocar depois. Usar depois. Vingar depois.
O triunfo é breve. A verdade não permite. Afinal há muito mais. E o que há a mais deveria estar fechado, onde estava. Não se volta a trás. A gaveta, apesar de fechada, ficou aberta.
