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UM LIVRO
Foi quando acordou que Cosme sentiu o livro pousado no lado onde nunca ninguém dormia. Os lençóis, de uma cor de terra enxuta de chuva, camuflavam a capa. Mas a presença de um objecto naquele espaço foi quanto bastou para que Cosme desse por ele. Agarrou-o com as duas mãos para ter a certeza do que encontrara. Ali estava, num quarto sem livros, numa casa quase sem livros e na cama de um ex-analfabeto, aquilo que viria a descobrir-se ser a edição inglesa do ‘Wise Blood’ da Flannery O’Connor.
Que o livro ali fora deixado a meio da noite foi conclusão imediata. Não que a coisa tivesse lógica mas todas as outras explicações, e Cosme calcou-as uma a uma com mãos de artesão, pareciam ainda mais absurdas. Não só aquele livro nunca tinha sido visto naquela casa, e muito menos naquela cama na noite anterior, como ninguém ali tinha estado, que ele tivesse percebido, que não fosse a Vivelinda, analfabeta de verdade.
O livro, que Cosme nem começou por tentar ler, tinha pois aparecido durante a noite. E tinha ficado ali, umas horas ou uns momentos, à espera de ser encontrado. O céu e o inferno em paz, pensou Cosme, quando imaginou o sono partilhado com um livro que não conhecia. E foi assim que tudo começou. Ou, se quisermos ver as coisas pelo outro lado, que o há, foi assim que tudo terminou.
(Este é o início do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a da Ana Cláudia Vicente.)


🙂 Vivelinda e sem beijinho!
Adolfo, parabéns, para cadáver não está nada mal, pelo contrário, vai ser muito divertido de fazer. A pergunta: porquê este livro? Ou não me vais dizer até alguém resolver o assunto? Pois, não deveria perguntar. Tenho dias de total inconveniência. Desculpa. Beijo e parabéns
Foi uma ‘wild release’ do Bookcrossing.
🙂
Isto só prova que vocês borrifam no que eu para aqui escrevo sobre mim! 50106.html 59273.html
Ora vejam só aqui, por exemplo:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/28
ou aqui:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/38
I heart Flannery! Tenho dito. Passar bem.
Borrifamo-nos nada, Adolfo! Eu sei que és amante da Flannery. O Cosme e a Vivelinda é que não.
sabes lá tu!
ou melhor, dois dois tu és realmente a única que pode saber alguma coisa: eles já não me pertencem.
e, na verdade, apenas o cosme está mais ou menos definido na minha cabeça. quero ver o que vão fazer dele…
A Vivelinda é analfabeta de verdade, pobrezinha, mas alguém lhe podia ler os livros como n ‘O Leitor’, é verdade.
Libertaste-os, agora só no fim saberemos. Gostei muito dos nomes que escolheste, Adolfo, e do texto.
Grande começo, Adolfo. Agora a Vivelinda tem mesmo de continuar analfabeta de verdade 🙂
essa de ela ser analfabeta de verdade foi uma malandrice para trancar uma saída fácil. mas a expressão ‘de verdade’ abre umas quantas saídas…
A Vivelinda parece-me inocente da sabedoria do sangue, coitadinha. Ou estará a fingir que não sabe ler? Ah, mistério, mistério…
Já estou em pulgas.
Ainda falta até te chegar o Cosme e a Vivelinda, se estiverem vivos claro!
A menos que o nosso Cosme seja sonâmbulo, a Vivelina tem muito a explicar. Vá, Cláudia. Não posso esperar por segunda-feira!…
Só mesmo se ele for daqueles sonâmbulos que, a meio da noite, se enfiam num carro para ir buscar um livro…
Ahahah [gargalhada maldosa, acompanhada de esfregar de mãos], terás de aguentar, Fernando, rói-te de curiosidade.
Posso adiantar, porém, que a D. Linda (assim a tratam todos os hóspedes da residencial, excepção feita ao afilhado da senhoria, que até no chamar manifesta prazer em a subalternizar) não foi a única a entrar no quarto.
Não a ponhas é a ser possuída pelo espírito da Flannery!
Se valessem as possessões tínhamos de chamar o INEM e a PJ: o que a Mary Flannery não faria da Vivelinda/D. Linda!
A ver se m’alembro: não valem genocídios, despertares súbitos de sonhos, ressurreições ou ataques mediúnicos, é isto? Se me escapou algum outro ‘big no-no’, avisa!
Bom Entrudo
[Deve ser o único dia do ano em que uma pessoa pode usar estes ícones do Sapo, eheh]
lole!
Do mal o menos, há quem acorde com uma cabeça de cavalo na cama. Qiuem vier a seguir que se amanhe. Agora essa da Vivelinda é de truz! Que arranque…
O nome não me saiu da cabeça, como podes reparar…
Vivelinda é demasiado bom, como te compreendo, Adolfo. Quanto ao não ler o suficiente sobre os teus modos de vida para saber dos teus gostos literários, peço perdão, uma coisa és tu, outra será a personagem, digo eu, mas pode ser uma mania de quem escreve, pouco importa. Aqui ficam as minhas desculpas e retiro a pergunta:) A Helena vai amar a tua Vivelinda. Beijos
O Fernando deixou-me agora na dúvida. Vivelinda ou Vivelina? Ficou Vivelinda porque foi a ela que me afeiçoei mas provavelmente afeiçoei-me à pessoa errada…
loool
Lol. Foi erro de escrita, Adolfo. Foi porque tive uma empregada Etelvina.
Mas Vivelina é capaz de fazer mais sentido, por acaso, fiquei eu a pensar. Mais sentido numa lista de nomes, não neste cadáver: Vivelinda ouvi, Vivelinda ficou.
Grande abertura, Adolfo! Cláudia, alimpa-te lá a este guardanapo…
(é melhor não gozar muito que vai sobrar para mim, e não tarda nada)
não tarda mesmo nada nada. e já que estás numa de tuppence, tens aqui os ingredientes todos para um whodunit 🙂
Venha ele, barradinho com lemon curd dá um belo five o’clock tea!
Eh eh, tu prepara-te, Ana, que quando o novelo te chegar às mãos terás muito com que te desenvencilhar!
Glup!
Glup digo eu porque quando chegar às minhas mãos já perdi por completo o fio à meada e vou ter que reinventar isto tudo.
Vivelinda? Hum. Vou mandar entrar em cena uma personagem chamada Escrotilde.
Credo! Pobre Cosme, só lhe saem duques na cama…
Duque de paus seria se a personagem se chamasse Escarrotilde.
Gostei do início deste “cadáver esquisito”….. o nome Cosme soa-me a queirosiano.
Lembrei-me do “Mistério da Estrada de Sintra”, ao fim e ao cabo também um “cadáver esquisito”, só que a duas penas…
Escolher um nome deve ser um dos piores tormentos dos escritores, ou pelo menos dos escritores que gosto de ler. Fiquei muito contente quando Cosme foi o nome que me apareceu. Já Vivelinda, enfim, bateu-me à porta num almoço delituoso 🙂
Adolfo
A minha Vivelinda ficou num êxtase ao ver o seu nome num texto. Agora é capaz de me pedir aumento. Se assim for peço-te ajuda!
Ela que suborne a Ana Cláudia para se tornar, enfim, a protagonista desta história.
E eu que prefiro ligeiramente ‘The Violent Bear It Away’…