Cadáver Esquisito (1)


Adolfo Mesquita Nunes,

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UM LIVRO

 

Foi quando acordou que Cosme sentiu o livro pousado no lado onde nunca ninguém dormia. Os lençóis, de uma cor de terra enxuta de chuva, camuflavam a capa. Mas a presença de um objecto naquele espaço foi quanto bastou para que Cosme desse por ele. Agarrou-o com as duas mãos para ter a certeza do que encontrara. Ali estava, num quarto sem livros, numa casa quase sem livros e na cama de um ex-analfabeto, aquilo que viria a descobrir-se ser a edição inglesa do ‘Wise Blood’ da Flannery O’Connor.

Que o livro ali fora deixado a meio da noite foi conclusão imediata. Não que a coisa tivesse lógica mas todas as outras explicações, e Cosme calcou-as uma a uma com mãos de artesão, pareciam ainda mais absurdas. Não só aquele livro nunca tinha sido visto naquela casa, e muito menos naquela cama na noite anterior, como ninguém ali tinha estado, que ele tivesse percebido, que não fosse a Vivelinda, analfabeta de verdade.

O livro, que Cosme nem começou por tentar ler, tinha pois aparecido durante a noite. E tinha ficado ali, umas horas ou uns momentos, à espera de ser encontrado. O céu e o inferno em paz, pensou Cosme, quando imaginou o sono partilhado com um livro que não conhecia. E foi assim que tudo começou. Ou, se quisermos ver as coisas pelo outro lado, que o há, foi assim que tudo terminou.

 

(Este é o início do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a da Ana Cláudia Vicente.)

39 comentários em “Cadáver Esquisito (1)”

  1. 🙂 Vivelinda e sem beijinho!
    Adolfo, parabéns, para cadáver não está nada mal, pelo contrário, vai ser muito divertido de fazer. A pergunta: porquê este livro? Ou não me vais dizer até alguém resolver o assunto? Pois, não deveria perguntar. Tenho dias de total inconveniência. Desculpa. Beijo e parabéns

          1. sabes lá tu!
            ou melhor, dois dois tu és realmente a única que pode saber alguma coisa: eles já não me pertencem.
            e, na verdade, apenas o cosme está mais ou menos definido na minha cabeça. quero ver o que vão fazer dele…

          2. A Vivelinda é analfabeta de verdade, pobrezinha, mas alguém lhe podia ler os livros como n ‘O Leitor’, é verdade.
            Libertaste-os, agora só no fim saberemos. Gostei muito dos nomes que escolheste, Adolfo, e do texto.

    1. Ahahah [gargalhada maldosa, acompanhada de esfregar de mãos], terás de aguentar, Fernando, rói-te de curiosidade.

      Posso adiantar, porém, que a D. Linda (assim a tratam todos os hóspedes da residencial, excepção feita ao afilhado da senhoria, que até no chamar manifesta prazer em a subalternizar) não foi a única a entrar no quarto.

        1. Se valessem as possessões tínhamos de chamar o INEM e a PJ: o que a Mary Flannery não faria da Vivelinda/D. Linda!

          A ver se m’alembro: não valem genocídios, despertares súbitos de sonhos, ressurreições ou ataques mediúnicos, é isto? Se me escapou algum outro ‘big no-no’, avisa!

          Bom Entrudo

          [Deve ser o único dia do ano em que uma pessoa pode usar estes ícones do Sapo, eheh]

      1. Vivelinda é demasiado bom, como te compreendo, Adolfo. Quanto ao não ler o suficiente sobre os teus modos de vida para saber dos teus gostos literários, peço perdão, uma coisa és tu, outra será a personagem, digo eu, mas pode ser uma mania de quem escreve, pouco importa. Aqui ficam as minhas desculpas e retiro a pergunta:) A Helena vai amar a tua Vivelinda. Beijos

          1. Mas Vivelina é capaz de fazer mais sentido, por acaso, fiquei eu a pensar. Mais sentido numa lista de nomes, não neste cadáver: Vivelinda ouvi, Vivelinda ficou.

  2. Gostei do início deste “cadáver esquisito”….. o nome Cosme soa-me a queirosiano.
    Lembrei-me do “Mistério da Estrada de Sintra”, ao fim e ao cabo também um “cadáver esquisito”, só que a duas penas…

    1. Escolher um nome deve ser um dos piores tormentos dos escritores, ou pelo menos dos escritores que gosto de ler. Fiquei muito contente quando Cosme foi o nome que me apareceu. Já Vivelinda, enfim, bateu-me à porta num almoço delituoso 🙂

  3. Adolfo
    A minha Vivelinda ficou num êxtase ao ver o seu nome num texto. Agora é capaz de me pedir aumento. Se assim for peço-te ajuda!

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