O tiro ao Barroso.


Luís Menezes Leitão,

 

Marcelo Rebelo de Sousa já há dias tinha dado o seu tiro de partida como candidato presidencial. No seu comentário de ontem, a pretexto de criticar o que chamou de novo desporto nacional, o “tiro ao Cavaco”, o que na verdade fez foi um verdadeiro tiro a Durão Barroso. Este, o “eterno candidato a candidato” não seria capaz de meter na ordem os seus correligionários que, ao atacarem Cavaco daquela maneira, estariam no fundo a pôr em causa o prestígio da função presidencial, prestígio esse que naturalmente Marcelo tanto preza. Na verdade, ele já se assume como sucessor de Cavaco, capitalizando a seu favor os inúmeros erros políticos que este cometeu. É Marcelo quem manda os cavaquistas anónimos “desampararem a loja“. É Marcelo quem pede “compreensão” pelo facto de Cavaco “não estar preparado” para enfrentar uma manifestação hostil, enquanto Passos Coelho “teve tempo para se preparar“. E é Marcelo quem finalmente dá recados a Durão Barroso que, embora “eterno candidato a candidato” também não domina as suas hostes. É evidente que, pela amostra, as missas dominicais dos próximos quatro anos vão se transformar num autêntico espaço de campanha eleitoral “Marcelo à Presidência“.

 

Durão Barroso já tinha muitas dificuldades em ser candidato presidencial. Trocou a presidência do Governo pela da Comissão Europeia de uma forma precipitada, causando imensa desilusão aos portugueses, desilusão essa que se agravou com o colapso do Governo de Santana Lopes, escolha pessoal sua. Tendo conduzido bem o seu primeiro mandato na Comissão, foi apanhado na turbulência da crise financeira, tendo-se mostrado absolutamente incapaz de evitar o domínio da União pelo eixo franco-alemão. Assistiu nessa altura sem um protesto a um total apagamento da Comissão e por arrastamento ao surgir da possibilidade de ocorrer o fim do euro e da própria União Europeia. Se a crise continuar, é evidente que Durão Barroso não terá nenhumas hipóteses de ser eleito Presidente.

 

Durão Barroso está, porém, a tentar lançar a sua candidatura presidencial, tanto assim que apareceu há dias na Universidade Católica, dizendo que a Comissão está a fazer o seu trabalho, e que a Europa vai sair reforçada depois da crise, embora lamentando a situação de emergência social em Portugal. Foi isso e só isso que justificou o tiro de Marcelo. Assim, enquanto Cavaco acaba tristemente o seu mandato presidencial, nos próximos tempos vamos assistir a uma autêntica troca de galhardetes entre Marcelo e Barroso.

 

Quem se deve estar a rir com isto é Passos Coelho. Ontem em Gouveia aproveitou para dar mais uma ferroada em Cavaco. E vai assistir durante os próximos tempos a uma luta sem tréguas entre duas facções do PSD agrupadas em torno destes dois candidatos presidenciais assumidos, cabendo-lhe a ele arbitrar e decidir quem o partido apoiará. É difícil algum líder do PSD ter estado alguma vez em melhor situação política em relação a umas presidenciais.

7 comentários em “O tiro ao Barroso.”

  1. Nestas coisas há um pergunta que me faço: o que ganho eu – ou o país – se Marcelo Rebelo de Sousa ser presidente da república? Deixa de poder contar petas sobre os menus do Palácio de Belém? É pouco.
    Em nível de vida dos portugueses qual a mais-valia?
    O mesmo se diga de Barroso.
    É uma questão fútil. As questões de Portugal são bem outras.

      1. Quem pensa que o jogo politico vai continuar a ser o que foi, passando alegremente por cima de um país vencido, falido e condenado à pobreza por decénios, está muito enganado.
        O tempo da mediocridade palavrosa de MRS ou de qualquer qualquer outro do mesmo jaez acabou.
        Quem não perceber isso…

      2. Caro Luís

        O cargo de presidente é sempre fútil, excepto nos casos em que não é presidente mas sim primeiro ministro (EUA). Aí o controlo democrático do governo é feito por um senado (ou coisa assim) que faz o papel de PR.
        Fútil por fútil (pelo menos com algum racionalismo cartesiano) prefiro um Rei. Tem tradição, não pertence à elite intelectual, representa não só o país mas também o seu passado e futuro, a população preocupa-se imenso se um príncipe fumou haxixe à saída da discoteca, reúne milhões de fans em cada casamento, baptizado, funeral ou coroação e, ainda por cima, com uma isenção que só a história o justifica, tem os mesmos poderes que um PR “normal”.
        Aliás, de tão normal (o PR), que apesar de pertencer a uma elite intelectual e inteligente (a que o Rei não pertence necessariamente), pode não saber comportar-se, coisa que (não) falta ao nosso actual…

        Cumprimentos
        J. Menezes

  2. Ao ler esta análise apercebo-me que ela faz sentido.

    Vou estar atenta à evolução dos acontecimentos.

    Que vergonha a destes actores!

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