Modo de Vida (35)
Adolfo Mesquita Nunes,
A minha relação com a blogosfera começou em 2002, com a Coluna Infame. E foi nesse blogue que pensei assim que soube ter-me de novo calhado em sorte escolher o blogue da semana. Numa fase em que tenho tido poucas oportunidades de ler novos blogues, daqueles que mereçam aqui ser destacados quase com sentido proclamátório, dou por mim a regressar ao tempo em que a blogosfera me surgiu. Há 10 anos, mais coisa menos coisa. Comecei por ler, só ler, e acabei a escrever. Comecei por ler, só ler, e acabei a fazer amigos. Comecei por ler, só ler, e acabei aqui, por exemplo, no Delito. Não sei, nem me interessa, como seria a minha vida se a blogosfera me não tivesse despertado, se ela não tivesse tido essa vocação inaugural que me fez chegar aqui. Mas sei reconhecer a sua importância, enorme, no meu percurso. O meu blogue da semana, ou não fosse eu nostálgico, é o já extinto Coluna Infame.
Não podemos controlar o que sentimos. Podemos treinar-nos na domesticação – nem sempre pelo medo – do que sentimos, e podemos até, com sorte e engenho, aclimatar-nos a um estado de constante alerta. Mas não vale a pena perder tempo em terrenos onde a liberdade ainda não existe e a derrota é certa. O que fazer desses sentimentos, como reagir ou dar-lhes seguimento, aí sim estamos no terreno da escolha. E é aí, só aí, onde a liberdade existe, que a moral começa e a confissão encontra justificação.
Lembro-me que quis calar a cidade e suspender os movimentos, fazer de tudo uma estátua. Havia um céu enorme, desmanchado em luz, que quis desligar. E não consegui esquecer os eléctricos que passavam, levando e trazendo pessoas com destino. Aparentemente o Mundo convivia bem com o mais trágico dos acontecimentos, abrindo a ferida, para usar um eufemismo. E fiquei a pensar na cobardia do Mundo perante a morte. Volto aqui sempre que me morre alguém e dou comigo a pedir desculpa por, também eu, participar dessa cobardia. À família e aos amigos do João, um enorme abraço.
Não sei quem foi o primeiro, aquele por quem esta acta deveria começar. Mas, se tivesse de fazer um palpite, diria que foi a Leonor a primeira a entrar naquele princípio de verde que é a casa da Ana. Uma pessoa entra, imaginemos a Leonor, de tarte de lima na mão e determinação no gesto, e dá de caras com a serra. Poderia ser uma parede de serra, daquelas que nos trava, mas não: é um começo de serra e de verde, mesmo.
Mas voltemos aos restantes autores do Delito, que chegaram enquanto eu, aliviado, discutia Hélia Correia com a Ivone, e ela, compreensiva, me dava a conhecer a Teresa Veiga. Quem chegou depois? Depois, talvez para temperar aquele sobressalto que a Leonor não disfarça, deve ter chegado a Teresa, que trouxe bolo de caramelo, imagino que para nos convencer, sem sucesso, que a doçura lhe tinha escorrido toda para o bolo. A Teresa e a Leonor as primeiras a chegar, é o que imagino, numa espécie de equilíbrio que terá confortado a Ana: tudo no seu lugar, o céu e o inferno em paz, o Delito em começo de festa. E estava tudo no seu lugar, de facto.
O Pedro, porque se sente responsável, não deve ter demorado muito mais. Há ali uma liderança que se pressente e que o antecede. Poderíamos chamar-lhe de carisma mas nós temos por hábito chamá-lo de Pedro. E ele, que não sabe da confusão do nome próprio com o substantivo, nem dá pela coisa, distraído talvez com a determinação do Luís, que lhe fez companhia. E é bom ter o Luís por perto nestes almoços. Por vários motivos e por mais este: o sossego de saber que há quem já tenha pensado e concluído sobre como vai este país (era o senhor contente ou o senhor feliz?).
Se o Zé Navarro só chegasse depois de compilar tudo o que sabe, não teria sido o seguinte. Nem teria chegado a tempo, sequer. Mas deve ter sido ele a entrar, logo a seguir ao Pedro e ao Luís. Não por competição, mas porque as histórias que o Zé tem para contar não cabem num fim de tarde e convém chegar cedo. Se quiserem ver o Delito em movimento, convidem o Zé. São dezenas de posts, um a um, a surgir à nossa frente, num convite ao plágio. O Zé André, que publica posts, e livros daqueles a sério, resiste bem a isso do plágio. E até aos seus próprios temas, que ficaram em suspenso, para nos fazer lembrar, vem daí lamechice, que é bom ver alguém feliz, e não necessariamente pelo pleno ‘árvore, livro e filho’.
E foi este o grupo que, com uma hora de viagem, eu e a Ivone encontrámos. Pontualíssimos, apesar de tudo, porque lá estávamos para receber a Gui. A nossa caloira, sem a timidez dos caloiros, arranjou logo forma de escapar à praxe. De igual para igual, sem espaço para hierarquias. E nós fomos na conversa, que acabámos a oferecer ao Zé Maria, que chegou depois, o estatuto de caloiro. Não que a idade não justificasse e os recados trazidos da mãe não provocassem, mas a verdade é que nos deixámos levar pela mestria da caloira. E ficou assim: Gui 1, Zé Maria, também Gui, 0.
Vá lá que o Gui caloiro trouxe arroz doce, daqueles que poderiam ter dizeres a canela: Delito de Opinião, por exemplo. Mas não tinha, por causa de uma desculpa qualquer. De qualquer forma, os dizeres alinhados a canela não teriam durado outro tempo que não o de exibição, que o João Campos, embalado pelas raízes do Alentejo, atacaria o dito sem vergonha, entre a ficção científica e o liberalismo clássico (curiosa combinação, bem sei). E assim começou mais um almoço do Delito.
Do que se falou e de quem por lá passou, naquele dia de Reis, prometeu-se o segredo, que agora cumpro, deixando esta acta confundir-se com uma mera lista de presenças em casa da vital Ana. E que isto sirva de lição aos faltosos. Acabou-se isso de faltar e ficar a saber tudo pelas actas.
Ah. E o almoço foi um caril, que estava daqui.
Apenas no Natal me interrogo – com uma inveja para mim pouco compatível com o sentido e espírito de Natal – sobre a vida dos que lidam bem com a nostalgia.
O facto de termos posições distintas, e bem, quanto ao contexto político actual, nomeadamente quanto ao papel de parlamentares liberais no âmbito do sistema partidário, parlamentar e eleitoral português (a minha fotografia, precisamente, no último post do seu blogue é um bom exemplo disso), não me impede de considerar o Carlos Guimarães Pinto como um dos melhores autores de blogues da actualidade. Já o era n’O Insurgente, confirma-se agora na sua aventura a solo. Daí que, sem surpresa, escolho o seu Montanha de Sísifo como blogue da semana.
São várias as razões que me levam a considerar o Carlos um dos melhores autores de blogues da actualidade. Independência nas opiniões, capacidade de desmontar falácias, intransigência na exposição ideológica, arquivo mental suficiente para expor contradições e double standards, inovação face à opinião já publicada, sustentação e informação no que escreve, condições essenciais para se assumir como uma referência ideológica, que merece ser lida por quem discorda e por quem concorda. E por mim.
Aproveito esta oportunidade para desejar a todos os leitores do Delito um Santo Natal.
Poucos escritores se bastam com o nome próprio, privilégio de quem se senta à nossa mesa nos Domingos que não são de festa. Sabemos que alguém é da casa quando o nome se antecipa a tudo o resto. Vem aí a Agustina. Estou a ler Agustina. Agustina é da nossa casa, portuguesa porque o seu (fora de) tempo é demasiado português para ressoar devidamente em casas estrangeiras. E se digo Agustina, e não a obra de Agustina, é porque sei, e ela também, que muitos dos que a admiram confessadamente nunca lhe leram uma linha. Bastava ouvi-la, travessa arguta desconcertante fulminante, para a sentirmos nossa. Agustina, como o tempo no fado da Argentina Santos, fica, ficará sempre, enquanto nós nos contentamos com estar de passagem.
Comecei a lê-la na faculdade, com a Sibila, e nunca mais parei, até à Ronda da Noite, com paragens pelas bermas, sempre sem saber porquê. Talvez porque haja ali um qualquer (fora de) tempo em que encontro uma ordem para o que sinto. E há sempre um riso, não muito óbvio, que se ouve enquanto nos deixamos levar pelos aforismos ou no momento em que uma personagem – são sempre as personagens, nunca os seus actos ou factos – nos passa a comandar, que me comove e desafia. E não sei resistir ao riso, nunca soube.
Parabéns, Agustina.
Descubro que a morte não é, afinal, a única irreversibilidade que podemos conhecer. E há algo de muito forte e inaugural nesta descoberta. Como se só agora começasse a idade adulta. E talvez comece mesmo.
Traição
“Oh, as if you had no choice? There’s a moment, there’s always a moment, «I can do this, I can give into this, or I can resist it», and I don’t know when your moment was, but I bet there was one”.
A traição não nos acontece. Nós é que a chamamos, primeiro ao de leve, como quem finge que não quer, depois quase aos berros, como quem finge que resiste. Ainda que dependa da oportunidade, a traição é sempre um exercício de vontade. É por isso que, nesse momento em que nos sabemos presos, apenas nos resta abraçar a liberdade do arrependimento. Só ele respeita a traição enquanto aquilo que ela é: uma opção.
Morte
A morte é para onde vão as almas. Tudo o resto pode ficar por cá: a voz, as palavras, a obra, até o cheiro. Mas é a alma, que não volta mais, que nos escapa sabemos lá até quando. Não sei, por isso, neste tempo, dedicar-me à evocação daquilo que o engenho permite reter. O inglório esforço de agarrar a alma ocupa-me a mente. Há tempo para o resto.
Quanto mais depressa, sabemos todos, mais devagar. E a galinha, a que enche o papo grão a grão, sabe disso?
Se a justiça tarda, mas não falha, porque é que a culpa, segundo consta, morre sempre solteira?
A cavalo dado, já se sabe, não se olha ao dente. Mas não é de desconfiar quando a esmola é grande?
Longe da vista está perto do coração ou, querem lá ver, olhos que não vêem, coração que não sente?
O seguro morreu de velho ou, afinal, para petiscar é preciso arriscar?