Modo de Vida (35)


Adolfo Mesquita Nunes,

Filme de uma família, rodado em 1 de Dezembro de 1947, durante uma viagem à Serra da Estrela, e que me fez regressar às fotografias lá de casa, nas gavetas que só a minha avó abria, e que quase sempre tinham a Serra por cenário.  

Blogue da Semana


Adolfo Mesquita Nunes,

A minha relação com a blogosfera começou em 2002, com a Coluna Infame. E foi nesse blogue que pensei assim que soube ter-me de novo calhado em sorte escolher o blogue da semana. Numa fase em que tenho tido poucas oportunidades de ler novos blogues, daqueles que mereçam aqui ser destacados quase com sentido proclamátório, dou por mim a regressar ao tempo em que a blogosfera me surgiu. Há 10 anos, mais coisa menos coisa. Comecei por ler, só ler, e acabei a escrever. Comecei por ler, só ler, e acabei a fazer amigos. Comecei por ler, só ler, e acabei aqui, por exemplo, no Delito. Não sei, nem me interessa, como seria a minha vida se a blogosfera me não tivesse despertado, se ela não tivesse tido essa vocação inaugural que me fez chegar aqui. Mas sei reconhecer a sua importância, enorme, no meu percurso. O meu blogue da semana, ou não fosse eu nostálgico, é o já extinto Coluna Infame. 

France Gall e os lollipops


Adolfo Mesquita Nunes,
A razão pela qual cheguei a France Gall é suficientemente ridícula para que a deixe para outra ocasião. Mas foi nesse momento, em que a vi e ouvi cantar, que começou esta minha – também ela ridícula – queda por cantoras de vozes limitadas, na vertigem da afinação e sempre à beira do abismo. Mas voltemos a France Gall, que é dela que quero falar. Quem a visse cantar as músicas de Serge Gainsbourg, ainda adolescente e com ar inconsciente, não podia deixar de perguntar: mas sabe ela o que está a cantar, percebe ela o significado das coisas que o Gainsbourg lhe escrevia para cantar?

O duplo sentido das canções de Gainsbourg era evidente, sobretudo quando coladas a uma ninfeta como Gall. Mas mesmo que não fosse evidente, seria sempre presente. E bastava saber que vinham de Gainsbourg para que a certeza se instalasse: estas letras dizem muito mais do que a mera literalidade. E France Gall, sabia? Quando, ninfeta, lambia lollipops em Les Sucettes, sabia o que estava a fazer? Sabia a imagem que emprestava a pedaços de letra como este: Lorsque le sucre d’orge, parfumé à l’anis, coule dans la gorge d’Annie, elle est au paradis? E quando, de boca sensual, se dizia uma boneca de cera à mercê de tentações, em Poupée de Cire, Poupée de Son, sabia o que estava a fazer? Sabia o que aquele beicinho ilustrava quando cantava elles se laissent séduire pour un oui, pour un nom?

Na altura em que ouvi pela primeira vez France Gall, algures no princípio dos anos 90 (estas canções são do começo da carreira dela, lá para 1965 e 1966) não havia internet e as perguntas que me fiz, numa altura em que, à conta de uma mãe absolutamente francófona, me iniciei na música francesa, ficaram sem resposta. Há uns tempos lembrei-me de France Gall, não vou dizer a propósito de que outra cantora, e fui procurar a resposta.

Ela está aqui, numa pequena entrevista, que partilho convosco. A ninfeta France Gall não sabia, ou diz que não sabia. Sentiu-se, de certa forma, enganada e traída pelos adultos que a rodeavam, e o momento em que se viu enganada marcou-a para sempre, alterando a forma como via e se relacionava com os rapazes. Curiosamente, esse é o tema de Poupée de Cire…, canção que, ao lado de Les Sucettes, foi banida do seu repertório. Chega a ser comovente a forma como France Gall, em imagens antigas mostradas na entrevista, descreve, alheada, uma letra que contava uma história um pouco mais densa do que aquela de ‘rapariga que gosta de lamber lollipops’.

Esta história lança várias discussões (o papel dos adultos que rodeiam jovens cantores, a moralidade de autores como Gainsbourg quando escondem, ou parecem esconder, desses jovens cantores o significado das letras que estes manifestamente não alcançam, etc…), que podem correr nas caixas de comentários. Não quis foi deixar de partilhar esta história, real, que me parece demasiado actual, 40 e tal anos depois. 

Modo de Vida (34)


Adolfo Mesquita Nunes,

Não podemos controlar o que sentimos. Podemos treinar-nos na domesticação – nem sempre pelo medo – do que sentimos, e podemos até, com sorte e engenho, aclimatar-nos a um estado de constante alerta. Mas não vale a pena perder tempo em terrenos onde a liberdade ainda não existe e a derrota é certa. O que fazer desses sentimentos, como reagir ou dar-lhes seguimento, aí sim estamos no terreno da escolha. E é aí, só aí, onde a liberdade existe, que a moral começa e a confissão encontra justificação.

Modo de Vida (33)


Adolfo Mesquita Nunes,

Lembro-me que quis calar a cidade e suspender os movimentos, fazer de tudo uma estátua. Havia um céu enorme, desmanchado em luz, que quis desligar. E não consegui esquecer os eléctricos que passavam, levando e trazendo pessoas com destino. Aparentemente o Mundo convivia bem com o mais trágico dos acontecimentos, abrindo a ferida, para usar um eufemismo. E fiquei a pensar na cobardia do Mundo perante a morte. Volto aqui sempre que me morre alguém e dou comigo a pedir desculpa por, também eu, participar dessa cobardia. À família e aos amigos do João, um enorme abraço. 

 

    

Lista de Presenças – Almoço Delito


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Não sei quem foi o primeiro, aquele por quem esta acta deveria começar. Mas, se tivesse de fazer um palpite, diria que foi a Leonor a primeira a entrar naquele princípio de verde que é a casa da Ana. Uma pessoa entra, imaginemos a Leonor, de tarte de lima na mão e determinação no gesto, e dá de caras com a serra. Poderia ser uma parede de serra, daquelas que nos trava, mas não: é um começo de serra e de verde, mesmo.

 

Mas voltemos aos restantes autores do Delito, que chegaram enquanto eu, aliviado, discutia Hélia Correia com a Ivone, e ela, compreensiva, me dava a conhecer a Teresa Veiga. Quem chegou depois? Depois, talvez para temperar aquele sobressalto que a Leonor não disfarça, deve ter chegado a Teresa, que trouxe bolo de caramelo, imagino que para nos convencer, sem sucesso, que a doçura lhe tinha escorrido toda para o bolo. A Teresa e a Leonor as primeiras a chegar, é o que imagino, numa espécie de equilíbrio que terá confortado a Ana: tudo no seu lugar, o céu e o inferno em paz, o Delito em começo de festa. E estava tudo no seu lugar, de facto.

 

O Pedro, porque se sente responsável, não deve ter demorado muito mais. Há ali uma liderança que se pressente e que o antecede. Poderíamos chamar-lhe de carisma mas nós temos por hábito chamá-lo de Pedro. E ele, que não sabe da confusão do nome próprio com o substantivo, nem dá pela coisa, distraído talvez com a determinação do Luís, que lhe fez companhia. E é bom ter o Luís por perto nestes almoços. Por vários motivos e por mais este: o sossego de saber que há quem já tenha pensado e concluído sobre como vai este país (era o senhor contente ou o senhor feliz?).

 

Se o Zé Navarro só chegasse depois de compilar tudo o que sabe, não teria sido o seguinte. Nem teria chegado a tempo, sequer. Mas deve ter sido ele a entrar, logo a seguir ao Pedro e ao Luís. Não por competição, mas porque as histórias que o Zé tem para contar não cabem num fim de tarde e convém chegar cedo. Se quiserem ver o Delito em movimento, convidem o Zé. São dezenas de posts, um a um, a surgir à nossa frente, num convite ao plágio. O Zé André, que publica posts, e livros daqueles a sério, resiste bem a isso do plágio. E até aos seus próprios temas, que ficaram em suspenso, para nos fazer lembrar, vem daí lamechice, que é bom ver alguém feliz, e não necessariamente pelo pleno ‘árvore, livro e filho’.

 

E foi este o grupo que, com uma hora de viagem, eu e a Ivone encontrámos. Pontualíssimos, apesar de tudo, porque lá estávamos para receber a Gui. A nossa caloira, sem a timidez dos caloiros, arranjou logo forma de escapar à praxe. De igual para igual, sem espaço para hierarquias. E nós fomos na conversa, que acabámos a oferecer ao Zé Maria, que chegou depois, o estatuto de caloiro. Não que a idade não justificasse e os recados trazidos da mãe não provocassem, mas a verdade é que nos deixámos levar pela mestria da caloira. E ficou assim: Gui 1, Zé Maria, também Gui, 0.

 

Vá lá que o Gui caloiro trouxe arroz doce, daqueles que poderiam ter dizeres a canela: Delito de Opinião, por exemplo. Mas não tinha, por causa de uma desculpa qualquer. De qualquer forma, os dizeres alinhados a canela não teriam durado outro tempo que não o de exibição, que o João Campos, embalado pelas raízes do Alentejo, atacaria o dito sem vergonha, entre a ficção científica e o liberalismo clássico (curiosa combinação, bem sei). E assim começou mais um almoço do Delito.

 

Do que se falou e de quem por lá passou, naquele dia de Reis, prometeu-se o segredo, que agora cumpro, deixando esta acta confundir-se com uma mera lista de presenças em casa da vital Ana. E que isto sirva de lição aos faltosos. Acabou-se isso de faltar e ficar a saber tudo pelas actas.

 

Ah. E o almoço foi um caril, que estava daqui.

Blogue da Semana


Adolfo Mesquita Nunes,

O facto de termos posições distintas, e bem, quanto ao contexto político actual, nomeadamente quanto ao papel de parlamentares liberais no âmbito do sistema partidário, parlamentar e eleitoral português (a minha fotografia, precisamente, no último post do seu blogue é um bom exemplo disso), não me impede de considerar o Carlos Guimarães Pinto como um dos melhores autores de blogues da actualidade. Já o era n’O Insurgente, confirma-se agora na sua aventura a solo. Daí que, sem surpresa, escolho o seu Montanha de Sísifo como blogue da semana.

 

São várias as razões que me levam a considerar o Carlos um dos melhores autores de blogues da actualidade. Independência nas opiniões, capacidade de desmontar falácias, intransigência na exposição ideológica, arquivo mental suficiente para expor contradições e double standards, inovação face à opinião já publicada, sustentação e informação no que escreve, condições essenciais para se assumir como uma referência ideológica, que merece ser lida por quem discorda e por quem concorda. E por mim.  

 

Aproveito esta oportunidade para desejar a todos os leitores do Delito um Santo Natal.

Agustina


Adolfo Mesquita Nunes,

Poucos escritores se bastam com o nome próprio, privilégio de quem se senta à nossa mesa nos Domingos que não são de festa. Sabemos que alguém é da casa quando o nome se antecipa a tudo o resto. Vem aí a Agustina. Estou a ler Agustina. Agustina é da nossa casa, portuguesa porque o seu (fora de) tempo é demasiado português para ressoar devidamente em casas estrangeiras. E se digo Agustina, e não a obra de Agustina, é porque sei, e ela também, que muitos dos que a admiram confessadamente nunca lhe leram uma linha. Bastava ouvi-la, travessa arguta desconcertante fulminante, para a sentirmos nossa. Agustina, como o tempo no fado da Argentina Santos, fica, ficará sempre, enquanto nós nos contentamos com estar de passagem.     

 

Comecei a lê-la na faculdade, com a Sibila, e nunca mais parei, até à Ronda da Noite, com paragens pelas bermas, sempre sem saber porquê. Talvez porque haja ali um qualquer (fora de) tempo em que encontro uma ordem para o que sinto. E há sempre um riso, não muito óbvio, que se ouve enquanto nos deixamos levar pelos aforismos ou no momento em que uma personagem – são sempre as personagens, nunca os seus actos ou factos – nos passa a comandar, que me comove e desafia. E não sei resistir ao riso, nunca soube.  

 

Parabéns, Agustina.  

Vocabulário (até aos 34): T


Adolfo Mesquita Nunes,

Traição

 

“Oh, as if you had no choice? There’s a moment, there’s always a moment, «I can do this, I can give into this, or I can resist it», and I don’t know when your moment was, but I bet there was one”.

 

A traição não nos acontece. Nós é que a chamamos, primeiro ao de leve, como quem finge que não quer, depois quase aos berros, como quem finge que resiste. Ainda que dependa da oportunidade, a traição é sempre um exercício de vontade. É por isso que, nesse momento em que nos sabemos presos, apenas nos resta abraçar a liberdade do arrependimento. Só ele respeita a traição enquanto aquilo que ela é: uma opção.   

Vocabulário (até aos 34): M


Adolfo Mesquita Nunes,

Morte

 

A morte é para onde vão as almas. Tudo o resto pode ficar por cá: a voz, as palavras, a obra, até o cheiro. Mas é a alma, que não volta mais, que nos escapa sabemos lá até quando. Não sei, por isso, neste tempo, dedicar-me à evocação daquilo que o engenho permite reter. O inglório esforço de agarrar a alma ocupa-me a mente. Há tempo para o resto.    

AMN Memória (10)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

A minha memória é caprichosa, não se deixa enganar ou seduzir pelas minhas instruções. Guarda o que lhe apetece, algumas vezes em segredo, muitas vezes contra a minha vontade. É ela, não eu, que escolhe o que me faz regressar ao ouvir o primeiro acorde ou ao ver primeira imagem. Esta é uma série que lhe é dedicada. Não à minha memória, que não merece, mas ao sítio para onde regresso quando lhe obedeço. 

AMN Memória (9)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

A minha memória é caprichosa, não se deixa enganar ou seduzir pelas minhas instruções. Guarda o que lhe apetece, algumas vezes em segredo, muitas vezes contra a minha vontade. É ela, não eu, que escolhe o que me faz regressar ao ouvir o primeiro acorde ou ao ver primeira imagem. Esta é uma série que lhe é dedicada. Não à minha memória, que não merece, mas ao sítio para onde regresso quando lhe obedeço. 

AMN Memória (8)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

A minha memória é caprichosa, não se deixa enganar ou seduzir pelas minhas instruções. Guarda o que lhe apetece, algumas vezes em segredo, muitas vezes contra a minha vontade. É ela, não eu, que escolhe o que me faz regressar ao ouvir o primeiro acorde ou ao ver primeira imagem. Esta é uma série que lhe é dedicada. Não à minha memória, que não merece, mas ao sítio para onde regresso quando lhe obedeço.