Cheguei atrasado ao fado, um pouco como quem se encontra na religião depois de a ter negado. Não dou grande importância ao atraso, até porque permitiu a boa sofreguidão na descoberta, mas não o nego. Não entendo por isso aqueles que, de uma década para a outra, fingem nunca ter desdenhado a coisa. E desdenhado é favor, que houve quem fosse saneado ou esconjurado ou relegado só por, na linguagem de agora, ter dado voz ao sentir português.
Modo de Vida (22)
Adolfo Mesquita Nunes,

Na minha opinião, estás carregado de razão.
E vão dois.
É… muitas vezes, a memória dos homens revela-se curtíssima, sobretudo a daqueles que não lhes incomoda nada vender a alma ao diabo, e poderem mostrar os sapatos novos.
Esses, agora afirmam a pés juntos, que sempre adoraram o fado, que sempre respiraram fado, que o fado sempre lhes correu nas veias.
Amanhã, logo se verá…
E vão três. Agora não há bicho careta que não cante fado e não se arme em defensor de uma coisa que antes considerava menor. Ao que parece o fado está na moda, e ainda bem. Mas, como de costume neste país que se envergonha de tudo o que é seu, foi um movimento de fora para dentro que o valorizou: não fora a World Music espalhar o fado aos quatro ventos e ainda estaríamos a hesitar entre gostar dele ou não…
Se a hesitação estivesse só entre gostar ou não, ainda era como o outro, Ana. O que hoje se diz, e de certa forma bem, do fado enquanto elemento integrante da nossa identidade vai muito para além disso. E quem tão empenhadamente se apressou a tratar de, com a arrogância típica dos que acham que criam o Homem novo, relegar o fado para um qualquer baú aí estão a aplaudir a imaterialidade do património…