Modo de Vida (21)


Adolfo Mesquita Nunes,

Por quem sofremos primeiro quando abraçamos um grande amigo que acaba de perder o pai? Por ele, que enfrenta a morte e chora no nosso abraço, ou por nós, que somos chamados a enfrentá-la de novo?

15 comentários em “Modo de Vida (21)”

      1. Não é egoísmo, Adolfo. A amizade inclui o compromisso de enfrentarmos os nossos próprios fantasmas e dores por um amigo. Egoísmo seria não estares presente, por medo ou preguiça dessa confrontação íntima.

        1. Right in target 2. Não é egoísmo, é empatia: nós percebemos o que o outro vive porque já experimentámos umal perda igual. Comigo, tenho bem presente o meu antes e o meu depois . “De”.

        2. Talvez não seja egoísmo mas sinto mesmo que o primeiro embate que tenho num velório de familiares de amigos me conduz sempre aos meus velórios. A primeira dor, aquela primeira sensação, é minha e por mim. E talvez por isso consiga solidarizar-me melhor.

  1. E se não for por nenhum desses motivos e sim, por medo?
    O medo pelo desamparo;
    O mesmo medo que nos fêz chorar no dia em que ele nos soltou a mão à entrada da escola, dizendo-nos; vai, vais aprender coisas novas, vais conhecer novos amigos; e nós lhe sentimos no vibrar das palavras que também ele estava prestes a chorar, porque sabia que a inevitável entrada no novo mundo, lhe iria roubar, a partir daquele dia, dia após dia, cada dia mais… a inocência daquele ser que criara com o maior amor que é possível conceber-se por alguém.
    Também ele teve de secar interiormente as lágrimas, engolir o nó que se lhe formou na garganta, quando assistiu com orgulho, à formatura do seu filho e o viu distanciar-se um pouco mais, rumo ao destino auspicioso que ele lhe desejava.
    E mais uma vez sintiu a explusão das lágrimas, quando o viu tomar por esposa a mulher que lhe conquistara o coração e lhe traria os netos, a garantia de uma continuidade, que iria para além do seu ser. Reviu no filho os sonhos de homem maduro, de idealizador, de construtor. Emocionou-se com as conquistas profissionais desse homem que brincou no seu colo, às suas cavalitas, aquem ensinou a nadar, a xutar a bola, a equilibrar-se na biciclete.
    E chorou, de novo e por fim, ao sentir que partia. chorou de orgulho, por deixar ao mundo a sua semente, o seu legado metafísico mais valioso. chorou, porque viu o seu menino chorar; viu-o chorar, como no dia em que lhe soltou a mãozinha trémula, à porta da escola e lhe disse: Vai! Espera-te um mundo novo!
    😉

  2. Eu diria que, primeiro, é pelo amigo, da mesma forma que sentíriamos o choque de ele ter partido uma perna ainda que nós nunca tivéssemos partido nenhuma. E depois, então, vem a consciência de que também nós estamos expostos. Mas a Ana e a Laura têm toda a razão, mais acima: é por sabermos o que significa que podemos sofrer convenientemente por ele; transferir a dor dele para as nossas circunstâncias não é egoísmo, é empatia.

    1. Não é tanto a nossa exposição à morte que eu digo que antecede a nossa dor pelo amigo. Referia-me antes aos nossos mortos. São eles que choramos primeiro sempre que somos chamados a chorar por outros. Ou, pelo menos, é isso que acontece comigo.

        1. Quer estes já tenham morrido, quer ainda estejam vivos – a morte do pai ou da mãe de um amigo é então um lembrete doloroso de que eles poderão também não durar muito. Mas isso não implica a falta de partilha da dor do amigo.

          1. O sofrimento por antecipação pode ser intenso e pode ser real. Mas é difuso, muito difuso…jaa. Um enorme alarme, mas uma dor fatalmente distraída. A questão é quando a perda acontece fica-se mesmo sem uma parte de nós, grande ou pequena (fica-se mesmo). E, como eu digo às vezes, nada mais volta a crescer do lado que nos comeram.

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