Sulfúricas


lauraramos,

 

As raparigas perguntavam frequentemente: «Tens namorada?» Eu respondia: «Mais ou menos». Ficavam confortadas ou furiosas, era conforme. Quando choravam muito, eu acrescentava: «Mais menos que menos». Mas não ajudava muito. Sou capaz de mentir acerca de tudo, menos de ti. O máximo que consigo, em momentos de crise, é menosprezar-te: «Tenho uma namorada, mais ou menos, mas tu és a principal».
Mas era preciso embebedar-me, porque o conceito
‘principal‘ faz-me rir como uma hiena.


Miguel Esteves Cardoso, “O amor é fodido”

Sulfúricas


lauraramos,

 

«Eis a vida conjugal, uma associação de homicidas que se focam nos outros antes mesmo de se focarem em si, um longo caminho para a morte que deixa cadáveres pela estrada. Quando virem uma mulher e um homem em frente ao Conservador, interroguem-se sobre qual dos dois virá a ser o assassino»

 

Eric-Emmanuel Schmitt, “Petits Crimes Conjugaux”

Desaparecidos em combate (2)


lauraramos,

 

não, não é engano,

é de propósito

 

Neste pequeno mundo, onde qualquer um se julga apto a escrever um livro e onde não há verdadeira crítica literária, João Pedro George ousou analisar um palhaço de Deus.
Visto à distância, este é outro ‘case-study’. Ou de como se pode não saber conviver com a crítica objectiva, com a liberdade de expressão, e muito menos com esse exercício básico de sobrevivência intelectual: saber fundamentar.

– Quantos de nós estão preparados para esta simples prova?

Volta,  João Pedro George, acidental biógrafo de Luís Pacheco.

Fazes-me falta.

Small isn’t beautiful


lauraramos,

 

A Câmara Municipal de Lisboa vota hoje a proposta final da reforma administrativa que irá reduzir as actuais 53 freguesias do concelho para apenas 24, propondo novos nomes.

Boas novas para um melhor governo da cidade.

A nota dissonante? A previsão de um reforço financeiro superior a 40 milhões de euros, como contrapartida da transferência de novas competências para as Juntas de Freguesia.

Em Portugal não se consegue reformar sem milhões?

Boa sorte para «a cidade (que) ou é democrática e interclassista ou não é uma cidade».

Desaparecidos em combate


lauraramos,

 

O Espectro foi um fenómeno atmosférico.

Quem não se lembra deste mano a mano de Constança Cunha e Sá e Vasco Pulido Valente?
Chegou e venceu, se quisermos aferir o sucesso destas incursões pelo número de entradas na caixa de comentários.
Partiu cedo, abruptamente, escassos 3 meses depois da estreia.

No entretanto, deu-nos a conhecer o melhor e o pior da blogosfera (recordo alguns excelentes posts da CCS).

Um case-study.

Mais escolhas


lauraramos,

Lancei-lhe o desafio porque sei que é um leitor impenitente. Não quebrou a corrente, mas as respostas vieram-me parar às mãos. Acho que um delituoso como ele fica muito bem entre nós e por isso, com pena de não poder roubar-lhe o excelente fundo musical com que nos brinda lá no seu sítio, aqui deixo as escolhas do Júlio Machado Vaz.

 

1– Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Para Sempre de Vergílio Ferreira. Uma meditação exemplar sobre uma narrativa de vida em busca da perfeição.

 

2 – Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Não me costumo encarniçar, se o encanto não surge ponho livro de lado sem grandes problemas de consciência. O último foi O Cemitério de Praga, de Eco.

 

3 –  Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
A Poesia Completa de Eugénio de Andrade. Se me acompanhou até aqui, por que não até ao fim?

 

4 – Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Uma Tese de Mestrado italiana sobre Guilherme Belibasto. Há anos que tento encontrá-la…

 

5 –  Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
A cena final dos Maias. O meu Pai tinha razão sobre o Eça – está lá tudo.

 

6 –  Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Sim. Devorei de tudo, desde Os Cinco ao Sandokan, o Tigre da Malásia, passando pela Condessa de Ségur e Mickey Spillane.

 

7 – Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Testut, Tratado de Anatomia. Ainda tenho pesadelos por isso…

 

8 – Indica alguns dos teus livros preferidos

As Velas Ardem Até Ao Fim, Maray; Cyrano de Bergerac, Rostand; O Amor nos Tempos de Cólera, Márquez; As Palavras, Sartre;  Confissões, Santo Agostinho; A Sombra do Vento, Zafón.

 

9 – Que livro estás a ler neste momento?
Um livro sobre Leonor de Aquitânia.

 

10 – Indica dez amigos para responderem a este inquérito.

Não tenho amigos com blogs, pelo menos que eu saiba.

Passado(e)presente


lauraramos,

 

D. H. Lawrence

(recusemos ser trágicos)

 

«Ours is essentially a tragic age, so we refuse to take it tragically. The cataclysm has happened, we are among the ruins, we start to build up new little habits, to have new little hopes. It is rather hard work: there is now no smooth road into the future: but we go round, or scramble over the obstacles. We’ve got to live, no matter how many skies have fallen.»

 

Lady Chatterley’s Lover, 1928

Pandemia L


lauraramos,

Temo que os leitores do DO não reconheçam o seu blogue do costume e comecem a achar-nos acometidos de um estranho síndrome de Tourette. Mas o Sete Vidas como os Gatos passou-me a corrente e há pessoas a quem não podemos dizer não (eu sei que demorei, mas ai que prazer é ter um inquérito para responder, e não o fazer…)

 

1. Existe um livro que relerias várias vezes?

Muitos. Um deles seria seguramente ‘Confesso que vivi’, de Pablo Neruda. Uma grande lente macro sobre a humanidade, a existência, o panorama político do tempo deste poeta engagé da minha predilecção. Tiques compreensíveis da minha geração.

 

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Quando não gosto, não tento mais.(E como não quero falar de Saramago e da ‘Jangada de Pedra’… porque do Memorial do Convento, Rui, gostei mesmo) lembro-me agora das ‘Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna’. Simplesmente porque é uma obra extensa, e nem sempre regular. Trata-se do relato  quotidiano da guerra civil portuguesa, vista por dentro.

 

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?

Custa-me imaginar tamanha condenação. Teria de fazer um exercício de gestão estratégica, não é? Por isso, escolheria uma escrita não finita: e então teria de ser poesia, claro, nunca prosa. Seguramente um livro de Sophia de Mello Breyner. Pensando melhor, abriria uma excepção à prosa, no caso dos ”Diários’ (Vergílio Ferreira ou Torga, comecei agora a gostar dos monólogos deste último).

 

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Por razões diferentes: ‘Ulisses’, de Joyce. ‘As vozes do Rio Pamano’, de Jaume Cabré.

 

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?

Salvo um qualquer policial, não consigo lembrar-me de nenhum livro por causa desse aspecto específico. Mas, levando o assunto para o lado dos autores, e dos que são capazes de surpreender pela imprevisibilidade, então a escolha vai para David Lodge.

 

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Cresci numa casa recheada de livros e o vício da leitura pega-se. Mas o espinho desta faceta familiar é que a certa altura os livros já não são organizáveis e não se lhes encontra o rasto. Pior do que isso, não são de ninguém… Conclusão: desenvolvi um terrível instinto de propriedade sobre eles.

Aqui vão os inevitáveis: Condessa de Ségur. Enid Blyton. Os contos de Andersen. As obras da Colecção Azul (que nostalgia repentina!). Odete de Saint Maurice. Júlio Dinis. E depois (sem nunca passar por Verne…) Louise M. Alcott, Florence Barclay, Alexandre Dumas – o que eu li e reli o Visconde de Bragelonne, que completava o ‘Três Mosqueteiros’ e o ‘Vinte Anos Depois’! Perdia-me por sagas.

 

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

O Código da Estrada?! Não, claro que não era bem isto… Já sei: ‘Direito das Coisas’,  de Orlando de Carvalho. Que massacre.

 

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

‘Quarteto de Alexandria’, Lawrence Durrell. ‘Diários’ de Anaïs Nin. ‘Mulheres Apaixonadas‘, DH Lawrence.’ A ponte’, Manfred Gregor. ‘O fio da Navalha’, Somerset Maugham. ‘À procura do tempo perdido’, Marcel Proust. ‘O Estrangeiro’, Camus.  ‘Thérèse Desqueyeroux’, F. Mauriac. ”Praça da Canção’, Manuel Alegre. Vários de Natália Correia. ‘Minha Senhora de Mim’, Maria Teresa Horta. ‘Iluminações – Uma Cerveja no Inferno’, Rimbaud. ‘Memórias de Adriano’, M. Yourcenar. ‘Os Maias’, Eça de Queirós. ‘Dinossauro Excelentíssimo’, José Cardoso Pires. ‘Os cus de Judas’, António Lobo Antunes. ‘Pequena Crónica de Ana Madalena Bach’, E. Meynell. ‘O homem do fato castanho’, Agatha Christie. ‘O Rosto de um Estranho’, Anne Perry. ‘Nome de Guerra’, Almada Negreiros. ‘O Homem Sentimental’, Javier Marías. ‘Tocata para Dois Clarins’, Mário Cláudio.

 

9. Que livro estás a ler?  

Estava a ler a ‘Anatomia de um Instante’ (J. Cercas) até quinta-feira passada, quando assisti a uma conferência memorável sobre “Méritos da Constituição vigente: o sistema das eleições parlamentares nacionais”. Pela terceira ou quarta vez na vida, ouvi falar de António Cândido, abundantemente citado durante o debate. E no dia seguinte, farta da minha ignorância, fiz o download do livro Principios e questões de philosophia politica (condições scientificas do direito de suffragio). Um prodígio de actualidade. Estou mergulhada (e por aqui foi fds prolongado).

 

10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.

É terrível quebrar esta regra, de que afinal beneficiei. Mas vou fazer uma  GPO e passar  a corrente apenas a dois, porque sei que não coincidirão comigo na sua selecção e irei, por isso, aprender imenso com as suas respostas. Assim, o meu desafio vai para Júlio Machado Vaz e  António Pedro Neto.
Sobram oito lugares a concurso: gostaria mesmo, como a Ana Margarida, que alguns comentadores do DO se dessem ao trabalho de responder aqui mesmo, em sua casa. E assim sempre tínhamos uma propagação do vírus controlada…

Nada de confusões


lauraramos,

 

Não sei se este é, ou não, um caso de mau jornalismo.

O que sei, com toda a certeza, é que um acontecimento destes é absolutamente normal em democracia e assim deveria ser interpretado.

Por isso, apresentá-lo com contornos de escândalo seria, de facto,  um péssimo serviço à pedagogia crítica que os jornalistas deverão ser os primeiros a exercer numa sociedade evoluída (se não for esta a exigir-lo deles).

 

Num estado de direito, o facto de um cidadão ser penhorado pelo fisco – muito provavelmente, assaltado pelo fisco, a coberto do privilégio de execução prévia -, não é notícia: é o cão morder o dono.

 

O que nos devia preocupar não é que o fisco exerça o seu papel e o cidadão se defenda, recorrendo aos meios legais que tem ao seu dispor. Estão em causa actos do quotidiano normal, eticamente neutros, contabilisticamente relevantes, em que a soberania do estado gera uma enorme desproporção de forças entre a administração e o contribuinte.

 

O que nos devia preocupar, sim, são os casos em que o cidadão assalta o Estado, longe dos nossos olhos tapados, quando o império da lei e da nação,  subitamente e como por milagre, desaparece.
O que nos devia preocupar é que possam, eventualmente, voltar a acontecer casos como este, e este.
E este, e este e este e este.

 

Isso sim, deverá ser notícia. O dono a morder o cão.

Leading champions


lauraramos,

 

Tenho um fascínio antigo por duas figuras ligadas ao dia de hoje: John Adams e Thomas Jefferson, dois dos pais fundadores dos USA e primeiras figuras da revolução americana. Ambos políticos, homens de pensamento, companheiros de ideais e de luta.
E depois, também, lendários adversários pessoais.

 

A verdade é que não me consigo decidir por nenhum deles, desde que percebi o papel fundamental de J. Adams nos méritos que nos ensinaram a atribuir, e a distribuir, entre os tradicionais T. Jefferson, o filósofo, e G. Washington, o homem de armas, na história e no álbum de glórias da América libertada.

 

Os dois políticos assinaram, faz hoje 235 anos, a DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA, esse documento libertador e essencial onde ainda permanece inscrito o modelo inspirador das democracias ocidentais.
Jefferson, fraco orador, escreveu-o sozinho, sem John Adams (You are ten times the writer I am), mas foi este quem o defendeu vigorosamente no Congresso.

Terá sido a última vez que se entenderam acerca de qualquer coisa…  porque a partir daí começou a luta pelo poder.

 

John Adams (federalista) foi duas vezes vice-presidente, com George Washington.
Veio depois a ser o 2º presidente dos USA, candidatando-se contra Thomas Jefferson (a quem ganhou por 3 votos). 
Jefferson só chegou, finalmente, em 3º lugar, levando os republicano-democratas (anti federalistas) ao poder.

 

Morreram os dois no mesmo dia: curiosamente, em 4 de Julho de 1826, cinquenta anos depois da proclamação da independência.

 

Continuo sem conseguir decidir-me… é um conflito virtuoso.

Lado B


lauraramos,

Por culpa do post do Pedro Correia lembrei-me deste poema, espantosamente dito por certo diseur acidental, cá muito meu.

Hemingway tinha razão: Paris, os verdes anos,  o arrojo de conhecer e de quebrar, nunca torcer. A comoção da liberdade, o calor do idealismo,  a coragem do excesso (essa aptidão imprescindível para agarrar a vida pelos cornos, com as duas mãos, até cada um lhe chamar sua). E, claro, pois… a alegria da festa, para sempre.

Com Apolinnaire no prato (outro culpado). Sem contradição e desde então para sempre, também.

 

 

 

Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu’il m’en souvienne
La joie venait toujours après la peine

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l’onde si lasse

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

L’amour s’en va comme cette eau courante
L’amour s’en va
Comme la vie est lente
Et comme l’Espérance est violente

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennent
Sous le pont Mirabeau coule la Seine

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

Blogue da semana


lauraramos,

 

O meu blogue da semana tem tudo o que considero imprescindível: uma construção gráfica sedutora, belíssimas imagens e cogitações soltas, cheias de densidade, mas sem cairem no risco do pretensiosismo tolo (a erudição forçada devia pagar imposto).

 

Da conjugação de tudo isso nasce o Ponteiros Parados. E começa logo aqui – no nome – o apelo irresistível desta proposta subversiva.

 

Vou lá muitas vezes: – experimentem, asseguro que vale a pena.

Grande escolha II


lauraramos,

 

João Filipe Queiró

 

O  novo Secretário de Estado do Ensino Superior?

– É lá possível?

Decididamente, a fasquia subiu, e de que maneira.

Isto era massa intocável, tamanha a qualidade. Que nem Reitor aceitou ser…
Vivemos tempos épicos, em que os melhores aceitam dar a cara.

Conseguir recrutar pessoas destas, sérias e intransigentes contra a mediocridade, é obra…

Subitamente, tenho esperança.

Frases de 2011 (46)


lauraramos,

Presidir ao Parlamento constitui a maior honra da minha vida.  Porque o Parlamento é a liberdade que se fez instituição, consequência da razão moderna, do pensamento das Luzes, da coragem dos Justos.  Nós, os deputados, somos portadores de um mandato que se gera na igualdade e na liberdade. Damos corpo a um poder que se forma na moral universal, que dita os critérios da justiça.
– Que orgulho, senhores deputados, e que responsabilidade que é estarmos aqui.

Assunção Esteves (discurso da tomada de posse como Presidente da Assembleia da República)