Good luck, Mr. Darcy!


lauraramos,

 

Finalmente!

Na calha para o Óscar de Melhor Actor pelo papel em The King’s Speech.

Raramente concordaram comigo… mas Colin Firth é, há muito tempo, um dos meus fingidores favoritos.

Por isso, embora estas coisas de Hollywood costumem despertar-me um interesse morno, este ano vou torcer muito, mesmo muito, para que o meu Mr. Darcy predilecto ganhe a estatueta (aposto que nas suas mãos até perdia aquele ar de troféu do volfrâmio).

Seria absolutamente merecida.

O 6.º sentido é delas. E o 7.º, também?


lauraramos,

 

Emergiu de um bar engraçado quando já eram quase 3 da manhã, afinal era sexta-feira e no dia seguinte, por mero acaso, não teria de madrugar. Chegou a casa e perdeu tempo a revolver o carro, em busca do iphone que não encontrava (andava sempre a perder-lhe o rasto, de tão pesado que era, maldita a hora em que trocara o seu fiel blackberry).
Mas ultimamente era assim, não sabia onde deixava nada, tamanho o cansaço. Ou a distracção. Ou a preocupação.

Chegar a casa, que conforto… Insubstituível sensação. O quadro grande da entrada, uma loucura permitida na última feira de Madrid (e a próxima quase a chegar, o tempo voa). O candeeiro vintage, da Ladra, com aquela luz pastosa e envolvente, coalhada. A chaise longue, onde tanto gostava de ler (e às vezes de fechar os olhos e fingir que dormia, escapando ao apelo massacrante das rotinas diárias).
Por fim o quarto, o canto, o recanto da cama. E o outro recanto, o do pescoço dela. Seu. Habitual. Infalível.

Sabe-lhe bem…

Mas isso são coisas suas. Muito suas, em que não quer pensar, nem revelar.
Pega no livro. Sabe que vai sucumbir a um sono invencível e que duas páginas depois será derrotado em beleza, com as frases, a trama e o feitiço todos entranhados em si, já noutra dimensão. Amanhã acordará mentalmente a milhares de quilómetros de distância. E terá como único objecto transitivo da véspera o livro aberto, virado ao contrário, no ponto Y.
Começará de novo, como sempre, os gestos quotidianos a fingir a continuidade que só alberga na sua cabeça.
A vida tem de ser assim, tranquila. Porque traz consigo a paz, e, paradoxalmente, o espaço para poder viver a sua inquietação. Boa inquietação. Saudável, sobrevivente inquietação.
Amanhã…

Afunda-se, no desejo avassalador e telúrico de um sono profundo, de quem viveu cada minuto, cada hora de trabalho duro, cada cerveja casual de fim de noite, quem sabe se forçada.

– Em busca de quê, atrás de quê, porquê…?

– E isso interessa?
Afinal é um homem igual a tantos outros. Não busca nada, não tem de procurar sentido em tudo.
Elas, sim, gostam disso. Exigem! Demandam pela vida fora uma razão para o que quer que seja, obsessivamente.
Como se tudo neste mundo (e logo no mundo delas) fizesse sentido!- pensa, sardonicamente…
Mas essa não é uma guerra que o puxe, prefere abdicar do teste. Passa.
Está um pouco farto de todas essas tipas complicadas… Está muito farto, mesmo.

Com a luz apagada, o pé a tocar confortavelmente o dela, ainda se inquieta:
– E se aquela de hoje me perguntasse porquê? Eu saberia?
– E se eu tivesse ficado lá um pouco mais, ela perguntaria?
– E se não perguntasse, e me chamasse, iria?

 

Que bom, que bom é dormir e desligar de tudo.
Ficando aqui, ele sabe que não.

–Não fiquei a perder.

(Talvez só o sentido. Mas isso, por enquanto, não lhe interessa nada. Rigorosamente nada).

Um homem inspirador


lauraramos,

 

 

A Universidade Católica Portuguesa conferiu a António Barbosa de Melo o grau de doutor honoris causa.

 

Foi na passada sexta feira, no âmbito da celebração do Dia da Universidade, cuja divisa (gosto de reparar nestas coisas) encontrou neste caso sobre que me detenho a sua plenitude expressiva: Veritati (pela, para a Verdade).

Nenhuma palavra, entre milhões de outras, se adequaria mais a este acto.

Nem a este Homem.

 

O destaque só faz sentido por isso e nada mais: pela homenagem à pessoa verdadeiramente desprendida. Avessa a honrarias e prebendas, distanciada dos palcos, distanciada do imediatismo enganoso das aparências e da falsa aura dos heróis do dia, que  teve a distinta lata de se negar a receber uma qualquer medalha num 10 de Junho dos anos 80.

 

Jamais entrou na dança das cadeiras do poder.

E, entre muitas recusas, por vezes respondeu quando o chamaram, porque acreditava na missão maior da coisa pública, na honestidade do Estado, no primado do pensamento sobre as acções avulsas e no pragmatismo incisivo que nasce das Ideias.

 

Sempre viveu com a cabeça no amanhã.
Sempre viu muito mais à frente do que tantos outros que o acompanharam, e que o ultrapassaram no palmarés de distinções e cargos, contrapartidas, sinecuras e flashes.

Ainda hoje assim é: mais novo do que muitos dos mais novos.

 

Raramente conheci uma pessoa tão LIVRE quanto ele.

 

Assisti com orgulho de portuguesa. E com um outro orgulho: o de quem acredita na justiça terrena…

2011 e Nós


lauraramos,

 

– Nada há de mais deprimente do que um ano de dificuldades pré-anunciadas? Um rol interminável de privações pessoais, desistências nacionais, sofrimento social?

Pois eu digo: – Não há nada de mais enervante!

Talvez possamos reencontrar o sentido da cidadania. Talvez a sociedade civil acorde.

Talvez possamos refundar a democracia, em vez de lhe lavrar o epitáfio. Talvez tenhamos uma oportunidade única de exigir mais da acção política e dos próprios políticos.

Talvez aqueles que têm mais a dar ao país do que a receber deixem de se esconder, e de temer trocar a sua honra pela participação na coisa pública.

Depende de cada um de nós, independentemente da responsabilidade dos outros.

E isto não é retórica. É puro bom senso.

Não se deprimam: – Enervem-se!

E tenham um bom ano.

Heróis e Afinadores de Piano


lauraramos,

Ninguém no seu juízo perfeito prefere um Político a um Homem Bom.

 

Mas ainda que a desconfiança pelos profissionais da res publica nos roa, todos precisamos de poder avaliar o potencial político concreto de um candidato: o que fez; como fez; que valores defendeu no terreno, na hora H; como se posicionou nos momentos cruciais e nas pequenas ou grandes querelas nacionais.

 

Em cada round das presidenciais temos este fenómeno: cai-nos do céu um romântico empedernido, um poeta do verbo ou um poeta de causas, como se o topo do Estado fosse um espaço não qualificado, um porto franco, uma superação de si próprio.

Desta vez, desgraçadamente, foi o missionário que acordou um dia e, em mais um arroubo de altruísmo,  resolveu passar a considerar Portugal a sua próxima obra humanitária. Ai de nós…

 

Nisto, não há que hesitar. Há as possibilidades. E as probabilidades eleitorais.

Falamos de coisas diferentes, porque o cálculo de probabilidade convoca já a ideia de acção, de moção viável (apenas nos fixamos na avaliação do lance).

Mas o cálculo da possibilidade remete-nos para um estado anterior, que é – ainda- o da mera aptidão para agir, para mover. Para, politicamente, ser.

 

Na sua indiscutível vocação universal, Fernando Nobre confunde tudo. Não tem cultura política. Define metas que não estão ao alcance de um Presidente da República. Ilude-se a si próprio e ao eleitorado quando faz do cargo a que se candidata aquilo que não pode ser. Quando acredita que o Estado português é um permanente estado de emergência, onde a legitimidade substitui a legalidade e a salvação se pratica por imperativo ético, num irreprimível exercício de heroicidade.

Quando diz, indignado, que «ainda vivemos nessa coisa do século passado», a propósito da sua não definição entre direita ou esquerda, o candidato devia lembrar-se que esta coisa dos destinos políticos espontâneos e impreparados é que, é –  sim, justamente -, um fenómeno atávico e do século passado.

 

Portugal não convoca heróis para a Presidência. Convoca, sim, um afinador de pianos.

 

Nada a fazer…

 

– You’re impossible, Mr. Nobre!