O Presidente do Conselho vai a votos


lauraramos,

 

É a desgraça nacional.

O Presidente Sócrates, ciente de que continua em forma e imbatível na arte do conto do vigário, deu um murro na mesa e desafiou os pachorrentos olhares da sua corte muda:

– Ai querem medir forças? Pois não me tiram daqui!

 

Silva Pereira serviu a segunda rodada de ‘absolut-libre’, a bebida oficial do Conselho.

 

E pronto, lá vai ele a votos… enganar novamente essa apetecível aldeia de velhinhos mentais (dos 18 aos 88), com quem conta, fiado, para ser devolvido em ombros ao pódio do poder.

Incautos e taralhoucos, estarão eles prontos a entregar a pensão a troco de uma história qualquer, mirabolante? – diz o contraditório.

Pois, porque não?

Vai resultar, mais uma vez…

Não há duas sem três.

 

Em baixo, na Assembleia, por entre o silêncio estupefacto do anfiteatro subitamente ameaçado de desemprego, há um pequeno nicho de actores que se agita, vibrante de contentamento: são os berloques de esquerda, que acabaram de assegurar o aumento da sua esperança de vida.

 

No final da sessão, entram na casa-de-cima pelas traseiras e juntam-se para a terceira rodada de ‘absolut-libre’ com os conselheiros.

Metamorfoses


lauraramos,

O Filipe Nunes Vicente está a mudar de casa.

Não contratou transportadora nem decorador: a migração parece ser lenta e conscienciosa.

Será aquele adeus impossível que experimentamos ao largar a velha casa de família: no fundo, nunca partimos.

Nem ele, nem nós, que lá entrávamos.

 

Pelo meio, um livro quase a sair – dizem.

 

Também nos custou a habituar.

Mas agora já rumamos directos ao Mau-Mau.

Jogo do Galo


lauraramos,

 

Estamos todos assim: parados e expectantes, no limiar do que aí vem.

Seria terrível que Cavaco estreasse o seu 2º mandato com um despedimento sumário e implacável do Governo.

E no entanto…
Seria merecido.

Seria coerente.

Seria misericordioso para com todos nós.

Até para com Sócrates. E esse é o único efeito colateral que me faz pensar duas vezes.

Primeiro, porque o engenheiro relativo não ganhou o direito a ser amnistiado.

Segundo, porque, conhecendo a plasticidade mental do eleitorado português, temo pelas ‘premières’ revisteiras, de pendor trágico, que o PS não tardaria a armar por esses palcos e esplanadas fora.

Sim, não faltarão sítios a jeito, em todos os  persistentes café república, café central e café 25 de abril deste país, com clientela engrossada pelos milhares de reformados antecipados e outra classe de encostados inactivos que contraíram o vício de apanhar sol e sombra, sem lhe merecer o trato.

 

Mas também, porque é que exigimos tudo de um só homem?

Porque prega ele sozinho?

A coragem política só lhe é assacável a ele?

 

– O que é que está a faltar aqui?

 

Isto está muito longe de ser uma charada.

Mas aqui fica, à notre bonne conscience.

Amartya Sen


lauraramos,

 

Se a Economia é a ciência da análise e da previsão de como as sociedades usam os recursos escassos e a correspondente produção de bens (valores), procurando a sua utilização eficiente, jamais perceberei porque é que, na maioria dos casos, os profissionais do foro se auto-reduzem a uma função de “prático-de-folha-de-excel”, sem capacidade para observar e compreender os comportamentos, sem visão de enquadramento histórico, sem sentido humanístico dos fenómenos que dissecam afanosamente na mesa cirúrgica (aliás, mais frequentemente na mesa de autópsias, o que já diz bastante sobre a matéria…).

 

Nada é tão raro como encontrar um economista culto.

E no entanto, quanto nós precisávamos de ter muitos discípulos de Amartya Sen, que nunca se desgarrou dessa ideia nuclear e anti-determinista de liberdade na escolha, de desenvolvimento inteligente e de progresso útil, à escala do Homem.

O Nobel da Economia merece luz e palco até ao fim dos dias.

A trapalhada desta última década só lhe veio a dar razão.

Educação perversa


lauraramos,

 

No Jornal i, verdades velhas.

Bem conhecidas de qualquer mãe de filhos-homens, que tenham vivido a fase pré-escolar e o ensino básico aí pelos anos 90 e pelos primeiros anos deste século.

Só agora é que lá chegaram?

Quando eu me embrenhava na vida escolar da descendência, até aos mínimos pormenores, já então não podia evitar o  distanciamento crítico e aperceber-me dessa evidência que era a feroz feminização do ensino, na tenra idade em que se molda a personalidade dos homens e das mulheres, no seu diário de sucessos e insucessos.

E eu, que cresci num tempo em que persistiam, bem potentes e injustas, as  résteas sexistas  do sagrado direito à concorrência desleal masculina, vi-me mãe-investida-em-advogada-do-diabo, a  insurgir-me contra um sistema de aprendizagem e de avaliação totalmente dominado pelo modelo de comportamento feminino, onde os rapazes não encontravam espaço cognitivo nem  re-cognitivo.

Há dez anos atrás, numa daquelas penosas reuniões de escola, gostava de ter tido à mão este artigozinho para acenar à maioria dos pais estupefactos perante mim, quando tentava insinuar assertivamente esta realidade.

A ideia era influir no processo em curso nas aulas e sensibilizar os responsáveis para esta pequena grande perversão involuntária.

Mas é claro que o quorum foi escasso e ficou tudo na mesma.

 

(Nota: escrevi isto há um ano, a propósito disto, e assim o assunto vai andando a ritmo de caracol… Agradeço o link do i.)

 

El hombre es el hombre y su circunstancia


lauraramos,

 

Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento

É meu amigo também

 

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

 

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram

Traz outro amigo também

 

José Afonso

(02.08.1929 – 23.02.1987)

Cavaco devolve 75% do dinheiro da campanha


lauraramos,

 

Evidentemente que é obrigatório.

Evidentemente que decorre da lei.

Evidentemente que talvez nem merecesse ter destaque.

Mas merece.

Porquê?

 

Simplesmente porque não gastou e podia tê-lo feito.

 

Declarou que o estado da Nação não lhe permitia uma campanha perdulária. E não a fez.

Recomendou aos seus apoiantes, urbi et orbi, uma intransigente contenção nos actos de aplauso e nas reuniões de propaganda, e cumpriu.

Anunciou que não faria outdoors. E não fez.

Escolheu jantares em locais sem brilho, quase inóspitos, a lembrar os tempos da crise de meados de 80 (quando nos afundávamos também num duplo perigo de ruína financeira e de alienação partidária). E arrancou as palmas mais sentidas quando se referiu ao respeito pelos portugueses e à elementar exigência de moralidade nos gastos que era requerida aos poderes públicos (sim, eu vi toda esta insidiosa perseguição ao voto, galopante…).

 

Não há autoridade sem exemplo.

Mas neste caso, infelizmente tão isolado, tivemos uma pequena lição.

Não gostam do termo, ó subalimentados do bom senso?

Pois é… mas isto não é demagogia: – é dinheiro sonante que voltou aos cofres do Estado e não nos vai ser arrancados dos bolsos.

 

– Já agradeceram?

Caiu o Governo!


lauraramos,

Caiu o Governo.
É fidedigno, ouvi agora mesmo na leal TSF (esqueci-me de programar o despertador para o fim de semana e obedeci estremunhada à chamada fatal).
Não pode ser – penso. – Duas desgraças juntas?
Deita-se uma cidadã assim tão tarde, razoavelmente reconciliada com a vida – depois da clássica e anestésica evasão de sexta-feira à noite – e , como se não bastasse não dormir mais de três horas, ainda acorda com um incómodo destes? Um alarme tamanho, capaz de ressuscitar um morto?
Eu sempre disse: Fevereiro não é de confiança. É um mês batoteiro, tão traiçoeiro que nem dura trinta dias e vai ficar-se assim, cobardemente, a uns passos do fim.
Como o próprio defunto: – o (des)Governo.
Ainda com a compreensão lenta e pastosa, ouço Louçã a verberar contra a cegueira do mundo. Jerónimo a lamentar a cancerosa síndrome dos instintos privados. O velho-jovem Pereira a defender os caídos. E o Santos Silva a fazer o elogio fúnebre.
Por momentos parece tudo tão igual…
Mas não!
Ouço, deliciada, que Sócrates foge para os States, intimidado por um povo em fúria (vai vender fatos em Beverly Hills). A Canavilhas toca agora num circo, de seu nome Marilú. Mendonça cobra títulos, numa box de auto-estrada. E o Teixeira mendiga à porta das igrejas, rezando incessantemente o padre-nosso.

Adiantou-se, a Páscoa.
Que sexta feira santa…
Que digo eu? Ainda estou em ontem.
Que sábado santo! Sábado de Aleluia!

Vou dormir mais duas horas.

Esta coisa merece.

Romanticídio


lauraramos,

 

Neste dia tão parvo, estou com o Miguel Esteves Cardoso:

 

«Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.»

A Invencível Armada


lauraramos,

Em três dias, no Egipto, o facebook juntou 400 000 usuários apostados na sublevação contra Mubarak.

Chamam-lhe agora Sawrabook, o livro da revolução.

Num país onde a rede ‘Al Jazeera’ ainda não chegara e a televisão do estado exibia velhos filmes a preto e branco, foi obra.

Às armas, e ao alcance de um teclado.