Chavões


escafandro,

E, de súbito, a calma antes da tempestade. Tudo parece adormecido, numa paz que muitos, por ingenuidade ou interesse, classificarão de positiva. Ocupado na reversão das tímidas reformas dos últimos anos e ainda sem ter de enfrentar números que exponham de forma clara (indícios não bastarão) o falhanço das suas políticas, o governo limita-se a chavões. Um documento que seria recebido com desdém se proviesse do governo anterior, a abarrotar de verbos no infinitivo («melhorar», «simplificar», «garantir», «lançar», «modernizar», «promover», «reforçar», «incentivar») mas confrangedoramente parco em detalhes (quando? como? com que dinheiro?), passa por base séria para discutir reformas. A ânsia de afastar Passos Coelho da liderança do PSD faz socialistas e comentadores encartados dispararem críticas a Passos por manter a pose de primeiro-ministro mas também por não mostrar sentido de Estado suficiente para aceitar as posições do governo (um «sentido de Estado» que o PS nunca teve enquanto oposição).

No fundo, PS, Bloco e PCP, ajudados por grande parte da intelligentsia, seguem entretidos na reescrita da História recente – ao ponto de o representante dos comunistas no congresso dos sociais-democratas ter declarado por várias vezes, com a convicção inabalável dos dogmas (são afinal tão religiosos), que o PSD ainda não se refez da derrota nas eleições legislativas. Mas presos ao passado estão os partidos da «geringonça». Tudo o que fazem é em função dele, tudo o que propõem conduz a ele. O futuro apenas lhes merece chavões.

Jogo do Galo


lauraramos,

 

Estamos todos assim: parados e expectantes, no limiar do que aí vem.

Seria terrível que Cavaco estreasse o seu 2º mandato com um despedimento sumário e implacável do Governo.

E no entanto…
Seria merecido.

Seria coerente.

Seria misericordioso para com todos nós.

Até para com Sócrates. E esse é o único efeito colateral que me faz pensar duas vezes.

Primeiro, porque o engenheiro relativo não ganhou o direito a ser amnistiado.

Segundo, porque, conhecendo a plasticidade mental do eleitorado português, temo pelas ‘premières’ revisteiras, de pendor trágico, que o PS não tardaria a armar por esses palcos e esplanadas fora.

Sim, não faltarão sítios a jeito, em todos os  persistentes café república, café central e café 25 de abril deste país, com clientela engrossada pelos milhares de reformados antecipados e outra classe de encostados inactivos que contraíram o vício de apanhar sol e sombra, sem lhe merecer o trato.

 

Mas também, porque é que exigimos tudo de um só homem?

Porque prega ele sozinho?

A coragem política só lhe é assacável a ele?

 

– O que é que está a faltar aqui?

 

Isto está muito longe de ser uma charada.

Mas aqui fica, à notre bonne conscience.