Cavaco devolve 75% do dinheiro da campanha


lauraramos,

 

Evidentemente que é obrigatório.

Evidentemente que decorre da lei.

Evidentemente que talvez nem merecesse ter destaque.

Mas merece.

Porquê?

 

Simplesmente porque não gastou e podia tê-lo feito.

 

Declarou que o estado da Nação não lhe permitia uma campanha perdulária. E não a fez.

Recomendou aos seus apoiantes, urbi et orbi, uma intransigente contenção nos actos de aplauso e nas reuniões de propaganda, e cumpriu.

Anunciou que não faria outdoors. E não fez.

Escolheu jantares em locais sem brilho, quase inóspitos, a lembrar os tempos da crise de meados de 80 (quando nos afundávamos também num duplo perigo de ruína financeira e de alienação partidária). E arrancou as palmas mais sentidas quando se referiu ao respeito pelos portugueses e à elementar exigência de moralidade nos gastos que era requerida aos poderes públicos (sim, eu vi toda esta insidiosa perseguição ao voto, galopante…).

 

Não há autoridade sem exemplo.

Mas neste caso, infelizmente tão isolado, tivemos uma pequena lição.

Não gostam do termo, ó subalimentados do bom senso?

Pois é… mas isto não é demagogia: – é dinheiro sonante que voltou aos cofres do Estado e não nos vai ser arrancados dos bolsos.

 

– Já agradeceram?

Tudo converge para um mesmo ponto


Sérgio de Almeida Correia,

Há cerca de um mês, escrevia eu neste mesmo espaço que “uma remodelação feita já, além de ser prova de humildade, constituiria uma renovada prova de confiança no País e nas suas potencialidades, um sinal aos mercados da importância que a situação está a merecer e uma forma rápida e indolor de retirar a Cavaco Silva qualquer veleidade de dissolução do Parlamento no pós-presidenciais“. E, logo a seguir, acrescentava que “uma remodelação deve ser feita nos momentos de crise, quando importa insuflar sangue novo na corrente e conferir um estímulo acrescido para enfrentar os desafios que se seguem“, para concluir que em meu entender “uma remodelação feita a tempo e horas, antes das presidenciais, retiraria a Cavaco Silva quaisquer argumentos de dissolver o Parlamento no Verão, tal como é desejo, cada vez menos escondido, da actual liderança do PSD“.

Hoje, na sua habitual crónica no Público, Vasco Pulido Valente escreve que “eleito, Cavaco dissolverá o Parlamento e correrá com Sócrates. Alegre com certeza que não. A eleição de Janeiro é um plebiscito sobre Sócrates“.

Não tenho qualquer dúvida de que assim será e que o “plebiscito” de Janeiro, caso dê a vitória a Cavaco Silva, retirará o tapete a José Sócrates que de um momento para o outro se verá estatelado no chão. A remodelação era o único caminho para evitar ao PS e a José Sócrates o cenário pós-plebiscitário e cada dia que passa cimenta mais esta ideia.

Um líder que não anda no terreno, que passa o tempo fechado em aviões e salões, rodeado de alguns sobas do partido, medrosos, bajuladores e subservientes, única forma que têm de manterem o estatuto a que sem esforço ascenderam e as mordomias respectivas, terá sempre muita dificuldade em perceber o que se passa no tecido social e as razões para a não aceitação de algumas das decisões que toma.

Cavaco Silva é a antítese de Sá Carneiro. Este, numa entrevista ao Cambio 16, publicada em 4 de Dezembro de 1980, disse uma frase que a Visão do passado dia 2 recuperou, quando lhe terão colocado a hipótese de ser ele próprio candidato: “gosto demasiado da política para ser Presidente da República“.

Cavaco foi primeiro-ministro durante uma década e quando saiu deixou um País macambúzio, que delapidou sem proveito visível os fundos comunitários que foram postos à sua disposição, mergulhado em escândalos e com muitos dos seus ex-colaboradores em posições susceptíveis de lhes conferirem o estatuto e o conforto com que nunca sonharam. Vinte anos volvidos quase todas as reformas continuam por fazer. Ele está confortavelmente instalado em Belém, dando-se ares de estadista, e vai perorando por aí pelas reformas que foi incapaz de fazer, não obstante a maioria absoluta de que dispôs. Como disse Dias Loureiro, e ele sabe bem do que fala, Cavaco Silva “não é um criador de jogos, mas sabe movimentar-se bem neles”. O melhor exemplo disso foi o que aconteceu com as escutas e o seu assessor Fernando Lima. Ora, o gosto que Sá Carneiro tinha pela política, que o impedia de ser Presidente da República, não o tem Cavaco Silva para quem, e isso é claramente perceptível do enfado e paternalismo que ressalta das declarações que profere, a política é uma actividade maçadora que consome os recursos da economia e nos obriga regularmente a gastar dinheiro em eleições. Cavaco Silva entende ser-lhe devida a reeleição não porque ele a partir de Belém tenha algum poder real de intervenção nas políticas do País, mas porque acredita que desse posto ser-lhe-á mais fácil jogar em vários tabuleiros usando os seus peões. Numa palavra, condicionando as escolhas e o futuro.

Admito, contudo,que Cavaco Silva não esteja na posição de um De Gaulle e não possa fazer uso das mesmas armas. Mas, no final, mais do que uma eleição presidencial, o que está em causa é um verdadeiro plebiscito, como bem escreveu Vasco Pulido Valente. Um plebiscito a uma certa maneira de não fazer política.

Aquilo que Cavaco Silva foi incapaz de fazer enquanto primeiro-ministro pretende agora fazê-lo a partir de Belém por interposta pessoa. E quanto a esta, não haja qualquer dúvida de que Passos Coelho será o peão ideal para a sua estratégia. Se José Sócrates não consegue ver isto e não tem quem lho mostre, então estará tudo dito.