Há cerca de um mês, escrevia eu neste mesmo espaço que “uma remodelação feita já, além de ser prova de humildade, constituiria uma renovada prova de confiança no País e nas suas potencialidades, um sinal aos mercados da importância que a situação está a merecer e uma forma rápida e indolor de retirar a Cavaco Silva qualquer veleidade de dissolução do Parlamento no pós-presidenciais“. E, logo a seguir, acrescentava que “uma remodelação deve ser feita nos momentos de crise, quando importa insuflar sangue novo na corrente e conferir um estímulo acrescido para enfrentar os desafios que se seguem“, para concluir que em meu entender “uma remodelação feita a tempo e horas, antes das presidenciais, retiraria a Cavaco Silva quaisquer argumentos de dissolver o Parlamento no Verão, tal como é desejo, cada vez menos escondido, da actual liderança do PSD“.
Hoje, na sua habitual crónica no Público, Vasco Pulido Valente escreve que “eleito, Cavaco dissolverá o Parlamento e correrá com Sócrates. Alegre com certeza que não. A eleição de Janeiro é um plebiscito sobre Sócrates“.
Não tenho qualquer dúvida de que assim será e que o “plebiscito” de Janeiro, caso dê a vitória a Cavaco Silva, retirará o tapete a José Sócrates que de um momento para o outro se verá estatelado no chão. A remodelação era o único caminho para evitar ao PS e a José Sócrates o cenário pós-plebiscitário e cada dia que passa cimenta mais esta ideia.
Um líder que não anda no terreno, que passa o tempo fechado em aviões e salões, rodeado de alguns sobas do partido, medrosos, bajuladores e subservientes, única forma que têm de manterem o estatuto a que sem esforço ascenderam e as mordomias respectivas, terá sempre muita dificuldade em perceber o que se passa no tecido social e as razões para a não aceitação de algumas das decisões que toma.
Cavaco Silva é a antítese de Sá Carneiro. Este, numa entrevista ao Cambio 16, publicada em 4 de Dezembro de 1980, disse uma frase que a Visão do passado dia 2 recuperou, quando lhe terão colocado a hipótese de ser ele próprio candidato: “gosto demasiado da política para ser Presidente da República“.
Cavaco foi primeiro-ministro durante uma década e quando saiu deixou um País macambúzio, que delapidou sem proveito visível os fundos comunitários que foram postos à sua disposição, mergulhado em escândalos e com muitos dos seus ex-colaboradores em posições susceptíveis de lhes conferirem o estatuto e o conforto com que nunca sonharam. Vinte anos volvidos quase todas as reformas continuam por fazer. Ele está confortavelmente instalado em Belém, dando-se ares de estadista, e vai perorando por aí pelas reformas que foi incapaz de fazer, não obstante a maioria absoluta de que dispôs. Como disse Dias Loureiro, e ele sabe bem do que fala, Cavaco Silva “não é um criador de jogos, mas sabe movimentar-se bem neles”. O melhor exemplo disso foi o que aconteceu com as escutas e o seu assessor Fernando Lima. Ora, o gosto que Sá Carneiro tinha pela política, que o impedia de ser Presidente da República, não o tem Cavaco Silva para quem, e isso é claramente perceptível do enfado e paternalismo que ressalta das declarações que profere, a política é uma actividade maçadora que consome os recursos da economia e nos obriga regularmente a gastar dinheiro em eleições. Cavaco Silva entende ser-lhe devida a reeleição não porque ele a partir de Belém tenha algum poder real de intervenção nas políticas do País, mas porque acredita que desse posto ser-lhe-á mais fácil jogar em vários tabuleiros usando os seus peões. Numa palavra, condicionando as escolhas e o futuro.
Admito, contudo,que Cavaco Silva não esteja na posição de um De Gaulle e não possa fazer uso das mesmas armas. Mas, no final, mais do que uma eleição presidencial, o que está em causa é um verdadeiro plebiscito, como bem escreveu Vasco Pulido Valente. Um plebiscito a uma certa maneira de não fazer política.
Aquilo que Cavaco Silva foi incapaz de fazer enquanto primeiro-ministro pretende agora fazê-lo a partir de Belém por interposta pessoa. E quanto a esta, não haja qualquer dúvida de que Passos Coelho será o peão ideal para a sua estratégia. Se José Sócrates não consegue ver isto e não tem quem lho mostre, então estará tudo dito.